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X-Cluded # 16

Por Danilo 'Doc Lee' Anastácio

O Devorador de Todas as Coisas
Parte IV

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"O futuro não é mais o que costumava ser."
— Yogi Berra, jogador de beisebol americano

A lua não costuma ser um local muito movimentado. Seria menos ainda se não fosse a ocasional presença da Liga da Justiça ou dos Inumanos, que volta e meia trazem problemas sérios nesse sentido. E, se existe alguém no Universo Como (Não) O Conhecemos que preza pela tranqüilidade da lua, esse alguém é o Vigia. Afinal, trata-se de um de seus principais locais de trabalho, possivelmente o seu preferido — se é que o Sindicato dos Vigias o permite ter uma preferência.

O que importa nisso é que o Vigia está varrendo sua base na lua e reclamando enquanto deveria estar prestando atenção em uma das séries de eventos mais importantes de todos os tempos, envolvendo pessoas de importância crucial para a sobrevivência do planeta Terra.

Mas, pra sorte dele, ele também está perdendo a chance de acompanhar os problemas temporais dos X-Cluded.

E acontece de novo: um clarão acaba de levá-los para outro local desconhecido. Ou pelo menos aparentemente desconhecido. Um deserto vasto e alaranjado.

— Olha. — diz Papila — Eu não sei quanto a vocês, mas essa porcaria toda já me encheu o saco.

— Ah, eu tô adorando. — ironiza Nooze.

— Calaboca, nariz. O negócio é que a gente não pode simplesmente se deixar levar. A gente tem que tomar as rédeas da situação, não pode simplesmente se deixar ser escravizado de novo! Diabos, é disso que eu tô falando.

— É, pode ser. — diz Texano, sem ter prestado muita atenção no que Papila disse. Coisa que, aliás, não está anotada em sua lista mental de "coisas a se fazer normalmente" — Mas sabe que eu tô me sentido em casa aqui nesse lugar?

— Pelo menos temos uma sensação de segurança, então. — diz Papila.

Perigo, Will Robinson! — berra Gozma, logo antes de aparecer de trás de um morro, de uma forma que lembrava uma poça de catarro dando cambalhotas — Os aliens estão chegando, hehehehehehehehe! Estamos ferrados!

Os X-Cluded se olham.

— E aí, levamos ele a sério ou não? — questiona Papila.

Texano diz um "peraí" e sobe o morro. Faz uma cara de preocupação. Logo depois, uma de felicidade.

— Isso vai ser muito divertido, caras. — diz ele.

Os X-Cluded se olham novamente. Eles têm a impressão que não devem concordar com aquela frase de maneira nenhuma. Texano volta correndo com um sorriso no rosto:

— Sebo nas canelas, minha gente! Iiiiii-Haaaaaaaa!!

Os outros X-Cluded atendem ao pedido, principalmente depois que vêm um bando de caubóis montados em cavalos vindos na direção deles, alguns atirando nos outros.

— O que você tinha falado sobe tomar as rédeas da situação, tio Papila? — pergunta a jovem Kate.

De repente não há mais caubóis, não há mais deserto, não há mais diversão na cara de Texano.

Assim começava a edição de número 16 de X-Cluded, que começou a ser escrita em 2007 e só está sendo terminada agora, em 2009. Muito tempo se passou e todo mundo se esqueceu da história (incluindo o autor), mas deixar a série descontinuada a uma edição de acabar a maior saga envolvendo esses personagens é canalhice demais.

É hora de levar essa canalhice a sério. Por essas e outras, o Hyperfan vergonhosamente apresenta:

A Última Edição de X-Cluded

O X-Cluded começou há muito tempo, numa época em que a internet era discada e o trema ainda tinha alguma utilidade. A primeira edição, uma edição especial que começava a história, data de novembro de 2002. O autor, então jovem e inocente, já tinha proposto escrever algo aos hyperfanáticos, uma série de mais ou menos doze edições do Surfista Prateado, onde ele mudaria toda a origem do personagem pra no final da história encontrar-se com Stan Lee em pessoa e tudo voltar ao normal. O então editor Fernando Lopes respondeu à proposta com um e-mail dizendo algo como "os hyperfanáticos não gostaram muito da proposta iconoclasta da sua série", mas uma busca rápida no arquivo do Yahoo! Grupos nos permite constatar que na verdade a proposta foi a coisa mais achincalhada da história da lista de discussão do Hyperfan. (*)

Mas, como diria a lição de vida que também é o nome de um filme do Van Damme, Retroceder Nunca, Render-se Jamais.

Eis que ele surge novamente com uma outra proposta, algum tempo depois. Agora, seria uma paródia dos X-Men, vivendo no mesmo Universo compartilhado desses e de todos os outros personagens do HF. Personagens próprios, coisas diferentes. Havia alguma resistência, como lembra o então editor dos títulos dos personagens mutantes, Eduardo Sales Filho, o popular Dudu:

"Colocava gosto ruim em todo mundo que se mostrava interessado em escrever qualquer coisa envolvendo um dos mutantes da Marvel.

Fazia isso por dois motivos: primeiro para ter menos trabalho, afinal mais gente escrevendo significava mais textos para revisar; e o segundo era por ciúme mesmo, gostava demais dos personagens pra deixar qualquer um colocar as mãos neles. Essa era a época do fanfic moleque, do fanfic de raiz... quando ninguém se importava muito com audiência e as histórias eram feitas apenas para agradar os escritores.

Foi nesse contexto que recebi o plot dos X-Cluded. Já estava pronto para vetar e dizer que era uma merda quando percebi que não conhecia nenhum daqueles personagens. Eram mutantes novos, com poderes inúteis e criados pela mente doentia do Doc Lee.

Aprovei o plot por um único motivo, não me importava nem um pouco com aqueles desconhecidos. Mentor, Gozma, Nooze, Texano... isso lá era nome de herói?! O grupo parecia mais uma trupe circense e a história não fazia muito sentido."

Por algum motivo ainda desconhecido, X-Cluded foi aprovada. Assim, foi lançada a primeira edição, que na verdade é uma edição especial, e não a primeira edição de verdade. Aliás, ela só não é a primeira edição da série regular, mas ainda é a primeira história. A segunda história é a primeira edição. Isso. Enfim.

A edição especial foi um estouro de "vendas". Tinha um X no título, sabe como é. (**) Talvez tenha sido a história mais lida naquele mês. Mas dali pra frente, só pra trás. O X-Cluded tinha poucos leitores, mas eram todos fiéis. Entre eles, podemos citar alguns hyperfanáticos ilustres, como Rafael "Lupo" Monteiro, escrevendo aqui sob efeito de drogas:

"Sabe, eu achava que os X-Cluded nunca iriam dar certo. Afinal, uma equipe de super-heróis que se preze tem que ter uma gostosa de trajes sumários em situações dúbias com conotações sexuais. Mas até que os meninos deram conta do recado. Quer dizer, eles enfrentaram o Hulk e sairam ilesos, isso não é pra qualquer um. As referências pop foram legais, e Deus, como é bom ler uma aventura sem mimimi, ‘somos incompreendidos pelo mundo’ e blablabla. O mais divertido é que eles sabiam se divertir, quem se importa se o Lápide tá querendo te dar porrada?

E nada me tira da cabeça que o Mentor tem cabelo grande só pra fazer inveja ao Charles Xavier."

Claro que a quantidade de leitores não era realmente importante. E, à medida que as histórias avançavam, os personagens começavam a tomar formas definitivas, assim como o público. No começo, por deficiência do próprio autor, eles eram quase que a mesma coisa, a não ser por Mentor e Kate. Mentor aos poucos começou a se tornar cada vez mais um chato que não se divertia em momento algum e estava mais preocupado com a missão (além de ser um líder inseguro que mal conseguia controlar o próprio poder), Kate ficaria mais esperta, e os outros continuariam um bando de bêbados. A diferença é que Texano se tornou rapidamente o clássico personagem burro, Nooze virou o nerd oficial, e Gozma era uma meleca verde. E Papila entrou depois já como o estereótipo do irlandês brigão e beberrão.

Enquanto eu vou lá pegar um amendoim japonês pra comer, fiquem com mais algumas palavras do Dudu sobre a série:

"As edições do X-Cluded começaram a ser lançadas, e durante meu trabalho de revisão fui me apaixonando pelos personagens, rindo e — quem diria — chorando com eles. Me envolvi de tal maneira com a história que comecei a ansiar pelas continuações e assim as coisas se seguiram...

O tempo se encarregou de me afastar da editoria-x, dos X-Cluded e posteriormente até mesmo do Hyperfan, mas o carinho que tinha pelos personagens continua o mesmo. Ainda acho que Mentor, Gozma, Nooze e Texano não são nomes de heróis, mas e daí, quem se importa com isso?!"

Hahahaha, esse Dudu...

Houve uma (por assim dizer) tentativa de alavancar as "vendas", é verdade. Foi uma participação especial do Hulk na edição 4, exatamente do mesmo jeito que a Marvel fazia com os personagens que lançava — vide as primeiras edições das séries do Deadpool. dos Thunderbolts, e por aí vai. Ela vinha logo depois de uma outra participação especial: o Aviador, personagem que durou duas edições e depois só apareceu de novo numa edição da saga O Devorador de Todas as Coisas, que seria uma tentativa x-cludediana de fazer uma megassaga pra mudar a equipe inteira, algo também tradicional não só no universo dos X-Men.

Só que a série era, por assim dizer, underground por natureza. Quem foi o grande vilão da primeira história? Sanguessuga, um banana que poucos conhecem. Quem deu o pontapé pra última saga? Verme Mental, uma sugestão do hyperfanático Délio Freire, que mal tinha aparecido em três histórias do Homem-Aranha. Fora o Lápide.

Aliás, Délio Freire, sob a mira de um trinta e oito, lembra com carinho da série:

"A primeira vez que li o plot do X-Cluded, pensei: ‘Mas que merda é essa?’ Muita água rolou,o tempo provou que eu estava errado e a série ganhou meia dúzia de gatos pingados como fãs e até mesmo uma galeria original de personagens, feita pelo nosso desenhista oficial, JJ Marreiro. A contribuição que ‘Doc’ deu para o site é única. Seu estilo me lembra muito a velha guarda do Hyperfan, de autores como Josa Jr. e Matheus Pacheco, sempre apostando no humor, nas criações próprias e na metalinguagem. Alguns dizem que X-Cluded é o ‘Sgt. Pepper’s do Hyperfan, mas eu acho que está mais para ‘As Aventuras da Blitz’."

Alguns ainda diriam que X-Cluded é o "Xou da Xuxa 3" do HF, mas falando em Beatles, outro vilão de que não podemos esquecer é Helter Skelter, personagem criado especialmente para a série (mas esse era legal, vai dizer?). Mas ainda fazia parte do universo compartilhado, especialmente os da Marvel, e essa era parte fundamental da proposta.

E o X-Cluded estava tão arraigado no universo compartilhado que, segundo o também hyperfanático Conrad Pichler, "X-Cluded é aquele tipo de fanfic que você gostaria de ter inventado! Você lê a premissa, degusta o humor dos personagens e história e pensa: ‘caramba, queria ter feito algo tão divertido’. E ler esse material é também uma ótima experiência, num mundo que se leva tão a sério, X-Cluded dispõe-se a rir de si mesma e nos ajuda a rir também."

Logo se vê que mentir é uma das principais habilidades dos leitores de X-Cluded. Assim como podemos acompanhar pelo depoimento do leitor não-hyperfanático Iuri Carneiro (eu não inventei ele):

"Acompanhei X-Cluded desde seu lançamento. A idéia de apresentar a história de mutantes renegados, com poderes considerados inúteis para os padrões mutantes, me cativou. Achei uma excelente e bem humorada crítica aos mutantes Marvel, que coincidentemente sempre adquirem poderes que servem para alguma coisa."

Eu juro, eu não inventei ele.

Mas Iuri também relembra um dos principais usos práticos de X-Cluded no dia-a-dia: "em 2005 eu abria tranquilamente no trabalho, já que eram letras pretas e fundo branco, dando a impressão que eu estava lendo uma coisa chata."

Talvez os três ou quatro leitores da série estivessem interessados no que acontecia a seguir na saga O Devorador De Todas As Coisas. Bem, após avançar no tempo mais um pouco, eles se encontrariam com uma figura muito parecida com Mentor na era vitoriana e, quando parassem nos anos 80, a equipe nova e a antiga se reencontrariam (de algum modo Mentor conseguiria encontrá-los seguindo pistas). Se reencontrariam também Kate e sua mãe e, quando as duas equipes voltassem pro presente, Kate ficaria nos anos 80 junto com sua mãe. A edição fecharia com o clássico momento Marvel, onde alguém pararia a ação e perguntaria "o que a gente vai fazer com oito X-Cluded?". Na edição seguinte, rolaria uma reunião na cozinha da mansão, na qual Papila ficaria de saco cheio da equipe e sairia, e Nooze ficaria revoltado ao descobrir que os X-Cluded nada tinham a ver de fato com os X-Men e também sairia, e Gozma estaria tão abalado com todas as viagens no tempo que entraria em estado catatônico. Texano não se importaria. Então a equipe seguiria com os novos X-Cluded, junto com Texano, fazendo o papel de Ciclope.

No futuro ainda apareceria uma equipe de mutantes rival, que contava com personagens como o Esquecido (que além de ter problemas de memória, tinha o poder de fazer as pessoas se esquecerem dele, assim como um certo personagem do universo HF), a Hiperidrose (que usava o próprio suor como arma), o Homem-Surpresa (cujo poder seria exatamente isso, surpreender os outros), além do Inútil, que se chamaria Rick (***) (seria filho do financiador da equipe. Teria o poder de ser completamente inábil em tudo o que faz) e de um vingativo Nooze. Com o tempo as duas equipes ficariam amigas, claro, indo jogar pôquer semanalmente e tudo mais.

Tudo isso fora situações como um ataque acidental dos ninjas do Tentáculo, uma visita à Terra Selvagem, a ocasional falência das Cervejas Wirtschaften, um vilão que seria um camarão com um rosto humano, um leão-de-chácara nerd gigante chamado Anão, etc...

X-Cluded foi isso tudo e mais um pouco, e ao mesmo tempo nada disso. Uma hora tinha que acabar, de um jeito ou de outro. Acabou assim, do modo como vocês estão lendo. Caso não tenham gostado, tudo bem: é a última edição mesmo, ninguém se importa mais com nada. Perdeu-se, é claro, a chance do autor de terminar a série com uma grande orgia entre todos os personagens — afinal, é a última edição, ninguém se importa com mais nada. Ele poderia ter matado todo mundo também, numa grande orgia de sangue e violência sem sentido. Ou fazer com que Mentor acordasse e descobria-se então que tudo não passou de um sonho, e Kate poderia ser o nome da mulher dele, que acordaria junto com ele pra dizer "tá tudo bem agora". (****) Afinal, é a última edição, ninguém se importa com mais nada.

É, é isso. Essa é uma boa frase de efeito pra fechar a série. Até mais, então. O último a sair, favor apagar as luzes.

"Tempo: o devorador de todas as coisas."
— Ovídio, poeta clássico


:: Notas do Autor

(*) Ainda bem ele nunca tirou da gaveta uma ideia que ele tinha pro Deadpool. voltar ao texto

(**) Se tivesse sido lançada como quadrinho de verdade nos anos 90, com certeza viria com capa metalizada e cards dos personagens. Felizmente não existe reembolso para fanfics. voltar ao texto

(***) Como em "Rique, vai à merda!" voltar ao texto

(****) Vide este link. voltar ao texto





 
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