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Eras de Ouro - Max Mercúrio - Anos 20

Por Délio Freire

Matar Max Mercúrio! (*)

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Londres — Anos 20

No chão daquela rua deserta e escura um pequeno escorpião é esmagado pelo sapato de um dos seis que se dirigem ao restaurante chinês do bairro. Cinco seguranças e o seu líder com o rosto escondido pelo capuz.

Assim que entram, escolhem a mesa mais próxima da janela. Seguem à risca o combinado. Atrás da janela, sem ser visto, Fu Manchu estuda os movimentos dos seis assassinos.

— Até onde meus olhos podem ver, esses seres refletem o mundo que vivem. O mundo deserto, cheio de desesperança, o qual governo há décadas em meio a sombras. Londres é minha. A luz dessa cidade se esconde sob meu reinado de horror e medo, o povo aprendeu a me temer, a me respeitar. A escuridão surge na figura de um marginal a cada esquina, cada ruela. A esperança está banida dessa cidade, o terror governa supremo. Porém, há um ser, nesse universo em decadência, que zomba de meu poder e oferece resistência aos meus atos. Ele é veloz como o raio e sereno como a chuva, um homem místico que tem a chave da minha destruição. Um homem que atende pelo nome de Max Mercúrio...

Enquanto deixa os pensamentos escaparem de sua boca, o governante do submundo de Londres desvia seus olhos da janela que lhe permite ver seus convidados sem ser visto e encaminha-se para fora do esconderijo.

— Apesar de tudo que já armei contra ele, Max Mercúrio ainda não foi destruído. Mas agora eu darei o golpe final, aniquilando-o para sempre. — sozinho, passa pelo labirinto até chegar ao restaurante — Nesse momento, chegam finalmente os seis homens que irão destruir o meu inimigo.

— Diga-me, quais são suas ordens, meu senhor. — curvado, o líder do grupo dirige-se para Fu Manchu.

— Você é dos meus melhores generais. Com sua magia, possui a astúcia para comandar o mundo dos mortos e trazer os maiores soldados desse reino para servir aos seus fins.

— Quanto mais almas eu aprisiono, mais facilmente sirvo ao senhor, meu mestre. E me torno indestrutível.

Os olhos de Fu Manchu brilham.

— Mate Max Mercúrio. Use de toda sua força e toda sua magia para livrar meu reino de meu inimigo mais ardiloso. Encontre-o e aprisione sua alma para sempre, trazendo-o para nosso exército.

— Assim será feito.

Em meio a uma rua vazia, um homem caminha. Há mais de dois séculos vagando errante pelo mundo, encontra aqui a paz que tanto anseia. Porém, a harmonia dessa cidade que está aprendendo a amar foge assim que se anunciou a chegada de uma nova ordem, de um novo regime do medo.

Ainda que seja de outro tempo, de outra civilização, Max Mercúrio assume para si a responsabilidade de cuidar dessa cidade.

Ele sente um frio na espinha, o barulho de um tijolo se desprendendo do prédio e caindo ao chão. O impacto do salto do bruxo comandado por Fu Manchu é considerável; momentos depois ele já estão no chão, de frente de Max Mercúrio.

— Se é briga que procura, pode dar meia volta. Meu caminho é o caminho da paz.

— Não se precipite, homem. — a voz do bruxo é pastosa, seu capuz deixa apenas seus olhos amendoados à mostra — Não vim apenas para um exercício gratuito de valentia. Vim aqui à sua procura para matá-lo.

— Matar-me? Com que propósito?

— Não é você o mestre zen da velocidade? O homem capaz de seguir uma flecha assim que ela sai do arco do hábil guerreiro? Max Mercúrio não é seu nome?

O homem espanta-se ao ser reconhecido. Em um rápido movimento, retira a camisa e a joga para o lado, como um movimento de despiste. Através de sua supervelocidade vai até o inimigo que o ameaça para captura-lo, alcançando-o antes de sua camisa chegar ao chão. Mas quando suas mãos tentam conte-lo, aprisiona-lo, o corpo do bruxo perde consistência e seu corpo vai se transformando em uma imensa fumaça negra que sobe ao céu e mistura-se às nuvens.

Às suas costas, a fumaça negra volta a ganhar contornos humanos.

— Que tipo de poder é o seu?

— Não tenho poder algum. O que manifesto, o que desenvolvi, devo única e exclusivamente ao meu mestre Fu Manchu. Devo tudo a ele e pela sua glória irei me confrontar com você, que vem questionando a liderança do meu mestre cada vez mais. Quem ousa enfrenta-lo, quem ousa desobedecer suas ordens ou proteger seus inimigos cedo ou tarde acaba por me enfrentar. Meu nome é Djinn.

Um pequeno novelo é arremessado para o chão. E uma explosão se segue.

Surge a figura de um homem com a cabeça de touro. Ele caminha pesadamente em direção a Max Mercúrio. Ele urra e tenta agredir Max, que se desvia velozmente para a esquerda. Um novo soco, agora certeiro, mostra que, ainda que não tenha sua velocidade, o Minotauro é provido de uma certa agilidade.

O Mestre Zen da Velocidade corre, não para fugir, mas para ir ao encontro do monstro, que agora espera o choque com o oponente. Mas ele não vem. Desviando-se pouco antes do choque para ir em direção ao prédio imediatamente atrás, Max Mercúrio, consciente do estrago que suas mãos em supervelocidade podem causar a construção abalada, dá vários golpes contra ela enquanto corre ao seu redor.

Suas mãos sangram, o sangue sai quase que na mesma rapidez com que o prédio velho é golpeado. Em poucos segundos, o que ele deseja acontece. O monstro, ainda tentando entender o que seu oponente pretende, vê um velho prédio inteiro cair sobre si mesmo.

Agora é a sua vez! — grita Max Mercúrio.

Como que para interromper os pensamentos dele, surgem novos guerreiros para confronta-lo por detrás de cada beco. Sir Tristão, prisioneiro do bruxo, segura um cavalo pelo laço e, com a outra mão, tenciona retirar a espada. Do alto de um prédio, um imenso lobisomem salta com extrema agilidade para ficar ao seu lado.

Da porta de um bar, surgem a estranha figura de dois seres que, em outro contexto, jamais se tornariam aliados. Shiva, a deusa da destruição, com seus quatro braços envolventes segurando cada um uma cimitarra; Myiamoto Musashi, o maior samurai de todos os tempos e que tem agora sua honra a serviço dos poderes de Djinn.

— Eu não acredito no que meus olhos vêem. — afirma Max Mercúrio — Eu conheço esses guerreiros...

— Todos inimigos do passado de Fu Manchu. Derrotados em diversos mundos e outros momentos em que pensaram ter a capacidade de derrotar meu mestre. Agora eles servem à mim; tenho suas almas capturadas em minha algibeira. Da mesma forma, terei a sua alma. Prepare-se.

Sir Tristão, montado em seu cavalo, dirige-se a Max Mercúrio, agora imóvel. A lâmina da espada voa em sua direção, mas ele consegue se desviar da arma do guerreiro medieval. Em poucos instantes, o Lobisomem dá um salto em direção a Max e tenta lhe dar uma rasteira, mas não consegue atingí-lo. Com um salto, o velocista de cabelos brancos vai para o alto e o golpe do monstro não o atinge.

Porém, as duas enormes patas o golpeiam no peito assim que chega ao chão. Mal tem tempo de se recompor, quando Miyamoto Musashi tenta golpeá-lo com uma das duas espadas que empunha. Max desvia da lâmina para a esquerda. Desvia, em seguida, para a direita. O Lobisomem, ágil e forte, consegue capturar os braços de Max Mercúrio para que o samurai o mate.

Correndo em sua direção, os olhos de Musashi encontra os de Max Mercúrio. Não há ódio e nem ressentimento entre os dois. Não são de fato inimigos. Mas sabem que, agora, é necessário que alguém morra. Porém, não é quem Musashi pensa.

Quando o braço do samurai encaminha sua espada em direção à cabeça de Max, este último se desprende do Lobisomem e, em questão de segundos, desarma Musashi. O atônito samurai vê, surpreso, uma de suas duas lâminas nas mãos do velocista arrancar a cabeça do monstro.

Enquanto a cabeça vai ao chão, o Mestre Zen da Velocidade empunha sua espada em sinal de confrontação com seus oponentes. Agora ele está preparado.

Shiva inicia seu ataque. Cada uma das cimitarras é contida pela espada de Max Mercúrio. O som constante de metal contra metal toma conta daquela rua deserta em Londres.

O velocista se posiciona entre dois de seus oponentes, Musashi e Shiva; ela, em fúria, continua firme em sua direção. Max Mercúrio, extremamente veloz, oferece confrontação para cada um dos braços armados da entidade indiana. Porém, os movimentos circulares a deixam ligeiramente desnorteada e tonta. Um dos seus vários golpes, por descuido, acabam acertando seu aliado, Musashi, que mortalmente ferido cai de joelhos ao chão.

Sir Tristão sente apenas um vento forte derruba-lo do cavalo. O cavalo, assustado, pisoteia seu rosto e sua cabeça, quebrando-lhe o pescoço imediatamente.

O velocista, após derrubar Tristão, monta seu cavalo e parte em direção à Shiva. Novamente uma série de golpes sucessivos derrota a adversária quando esta abre a guarda em um breve momentos.

Todos os quatro oponentes que Djinn jogou contra ele estão mortos.

Desgraçado! Você usa as almas de valorosos guerreiros e as joga contra mim!

Djinn retira de seu algibeira outros novelos, que quando caem ao chão ressuscitam os guerreiros mortos.

— O que está acontecendo? Como pode? Eu derrotei a todos!

— Pensava que seria tão fácil, Max Mercúrio? Não pode matar o que já está morto. E, em instantes, sua alma será minha prisioneira.

Do meio dos escombros, o Minotauro se ergue. Todo esforço em derrota-los parece ser em vão. Max Mercúrio usa de sua supervelocidade para sair daquela rua, mas sabe que em seu encalço estão todos os seres comandados por Djinn.

Para surpresa do bruxo, sua algibeira é roubado. Há alguns metros de distância, Max Mercúrio a segura.

Não! Você não poderia... você não deveria...

Em instantes, o laço que a prende é desfeito. Ele vira a algibeira para baixo. E ao chão, em meio a um pouco de areia, os novelos caem e vão se desfazendo naturalmente um a um. As representações físicas das almas dos guerreiros se decompõem pouco a pouco, deixando Djinn totalmente sozinho.

Em instantes, o bruxo no qual Fu Manchu apostava para derrotar Max Mercúrio é morto.

Em sua sala secreta, no restaurante chinês, Fu Manchu recebe a notícia de um de seus lacaios sobre a recente vitória de seu inimigo.

— Infelizmente, nossa batalha ainda continua, Max Mercúrio. E chegará o dia em que só um de nós sobreviverá.


:: Notas do Autor

(*) Qualquer semelhança com Kill Bill, Mestre do Kung Fu, Samurai Jack ou qualquer outra ficção com base no mundo oriental não é mera coincidência. voltar ao texto



 
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