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Frankenstein - À Beira da Loucura # 01

Por José Eduardo Bertoncello (JEB, o Sombra)

O Horror, O Horror!

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É domingo. Chega a hora do crepúsculo.

Proximidades do Pântano Da Chacina, Gotham City. Um diálogo no ar:

— ... e como você sobreviveu até os dias atuais? — pergunta o piloto do SOMBRAmóvel, um avançadíssimo jatocóptero — Tipo o Capitão América, num bloco de gelo? Já houve muitos casos assim. Ou foi um salto quântico, como o daquele Capitão Eléktron... digo, Capitão Átomo? Aliás, ele sumiu de novo...

— Não. — a voz do gigante esverdeado cheio de cicatrizes e pontos cirúrgicos na beirada da porta aberta parece com o som do choque de pedaços de gelo ártico, é firme, grossa e amedrontadora. O olhar mortiço sobre os lábios negros, sempre tensos e curvados para baixo, contempla pensativamente a paisagem lá fora, se escondendo devagar na insinuante noite que chega — Eu estou tecnicamente morto. Estive boa parte deste ínterim sob toneladas de escombros... enterrado. Dormindo. Até que fui despertado pela balbúrdia eletromagnética deste mundo, desesperado pelo ataque dos Sheeda. Coincidentemente, sapateando sobre meu esquife estava um casal de adolescentes, lutando contra um agente dos invasores. Num gesto de amor, o rapaz invocou o poder da eletricidade para combater seus agressores, sacrificando-se... mas dando a sua amada uma chance. O chão eletrocutado me puxou. Então, cavei pra fora de minha sepultura, até achar o horror e lhe dar minha fúria.

— Uau. Foram mais de 100 anos enterrado, não? Rê... deve ter acordado com fome.

— Não. A força da eletricidade me nutre e impulsiona.

— Ah, claro. Dããã... o raio. Esqueci.

— Na realidade, meu criador, que o inferno o ainda o esteja castigando, utilizou-se de enguias.

— Enguias?!

— Sim. Ele era um cientista, homem do conhecimento. Era de sua natureza manter todos os fatores sob seu controle impiedoso. Tempestades são incertas demais para sua classe.

— Aaahhh... claro. Uau! Enguias! Bem, e o novo braço?

— A comichão cessou, e as memórias do dono anterior pararam de me assombrar. Ele integrou-se bem a meu ser. Já é todo meu.

— Certo. E o que achou das novas armas?

— Admiráveis. Extremamente compactas. A mais fina arte humana para a guerra que já apreciei. O colete também é.

— É, o cinto é cópia do modelo usado pelo BPDP. Está sendo adotado como padrão. Na verdade, está havendo um boato de fusão das duas agências. Infundado, acho. Quanto ao colete... bom, o Guardião de Manhattan está processando o governo por plágio. E... hum, chegamos. É o comecinho do lugar, vai ter de fazer uma busca a partir aqui. A cabana do tal Cyrus Gold não pode ser localizada nem pelos sensitivos.

— Só será necessário procurar pelas agourentas flores negras.

— Flores negras. A-hãm. E a licença é de quanto tempo?

— Sete dias. Sempre o cabalístico sete, não? Obrigado pela carona.

— Falou! E obrigado por autografar o livro! Meu filho vai adorar! Embora ele ainda te confunda com o Hulk... e com aquele inimigo do Justiceiro... esqueci o nome...

— De nada. Hmm... sugiro que leia um poema de Rudyard Kipling chamado "Se". Leia-o até que o torne parte de si... depois, leia-o para seu primogênito, até que se torne parte dele. Que ele seja sua voz para ele quando estiverem longe um do outro, lhe indicando o caminho.

— Hã... certo, obrigado... hã...

O gigante salta a alguns metros do chão. O sobretudo cinzento sem mangas, surrado, sujo e rasgado, de modelo e confecção antigos se agita no ar, como a capa de um lorde. A terra estremece sob pesadas botas gastas com esporas antigas. Frankenstein pousou.

"Uau!" — pensa o piloto — "Recebi uma dica literária do Frankenstein!"

— Boa sorte... e mire sempre na cabeça! Afinal, você está em Gotham!

E o piloto se vai, dando uma piscadela e um estalar com a boca, tentando fazer uma cena de cowboy.

As árvores param de se agitar. O Frankenstein está sozinho. Ele leva sua mão até os botões na altura do ombro esquerdo, abaixo de seu nome e número de identificação. As duas luzes do colete que usa se acendem.

Os olhos amarelados com íris vermelhas contemplam o mistério, a massa formada pela e selva e pela escuridão que se insinua. Já se referiram ao charco diante de si como um dos lugares que ficam entre lugares. Nessa hora os vampiros despertam e invadem a zona além da imaginação que o mundo se torna. O monstro, entretanto, desdenha de tudo isso e caminha. Com as luzes iluminando o caminho, parece um tanque avançando.

Ele pensa no que leu. Arquivos de diversos grupos denominados por siglas: SJA, LJA, DOE, BPDP, SHIELD. A própria SOMBRA também tinha material. Extratos da Gazeta de Gotham, do Guardião de Manhathan e do antigo The Nowhere St. News (jornalzinho de fundo de quintal altamente profissional da Legião Jovem original). Depoimentos de heróis, principalmente do Lanterna Verde da Era de Ouro Alan Scott.

Solomon Grundy.

Abatido recentemente, enlouquecido ao saber da morte de Jade no espaço, lugar inconcebível para sua mente. Ele tem algumas horas antes que o ciclo se inicie. Solomon Grundy: uma lenda urbana que não é lenda. O vilão Cyrus Gold transformando num zumbi, um poderoso selvagem desmorto preso num ciclo de renascimento e extermínio. Solomon Grundy: morto-vivo, aberração, incompreendido, sem lugar no mundo, perseguido, vivendo em desgraça. E, tal como com ele, foi o hálito podre de Melmoth, o falecido rei sheeda, que lhe deu o sopro da vida. O que ele sente por ele?

Sente algo. Algo indeterminado, que atrai sua mente. Seu caminhar torna-se automático, tudo o que ele precisa é avançar. Passa muito tempo distraído, até que percebe que há algo mais. Uma coisa... uma coisa no mundo real.

Uma coisa escondida, uma coisa à espreita. As mãos procuram as armas, mas... não tem velocidade suficiente. Surpreendente! A coisa o ataca! Primeiro um soco que o joga pra trás, virando no ar. Depois, o Frankenstein cai na teia da aranha — enormes braços o abraçam, e ele está preso.

— Homenzinho!!! Esssmagaaarrr!!!

— Solomon?! Solomon Grundy?!

Não. Grande, forte e selvagem, mas é verde, não albino. E ainda não é segunda. Quem pode ser? A criatura morde entre seu ombro e seu pescoço. Tira parte dele.

— Argh!

Frankenstein invoca a fúria e os contatos em suas têmporas faíscam. Ele liberta-se do abraço e agarra sua cabeça. Joga-o por cima de si, para longe. A criatura leva um pedaço dele entre os dentes. Leva também o novo equipamento.

— Sssinto cheio de bolsasss! Raaarrr! Ruiiimmm!!!

E o cinturão é atirado para longe, como uma bola de futebol em busca do gol.

A lua faz papel de holofote ao sair de trás das nuvens. Ele vê o novo ator: pele escamosa, língua bifurcada, uma boca apenas com presas. Um homem-fera. Homem-réptil. Homem-crocodilo.

— Um outro monstro do pântano, não o que procuro.

— Ptuuu! — o Crocodilo limpa sua boca — Carne podre! Quero carne viva! Sssss! Quero Curt Connorsss!

Outro ataque. Frankenstein esquiva-se, mas a árvore atrás dele não. O soco penetra-a, como uma locomotiva adentrando um túnel. Mas a garra cheia de farpas é retirada imediatamente.

— Eu estou me lembrandooo! — diz o réptil humano, colocando as mãos na cabeça e balançando-a, como que sentido dor — Ele fezzz exxxperiênciasss comigooo! Dissse que iria me curar! Nosss curar! Pareccccido comigo! Eu fui! Masss me feriu! Ele queria voltar para a família! Ia me abriiirrr!!!

Ele urra, cheio de ódio.

— Vou devorá-lo! Comer todosss elesss! Chupar os ossos da esssposa na frente dele!

E o homem-crocodilo dá meia-volta.

— Não, você não irá. Nossos horrores devem ser só nossos! Devemos sofrer sozinhos, como leprosos.

Pele grossa. Rápido. Garras e dentes. Inimigo difícil. Mas a pederneira a vapor é cruel e eficiente. Uma bala para Croc. Frankenstein ataca pelas costas.

Bala na cabeça, de raspão, apenas para nocautear.

Croc cai, Frankenstein é sempre certeiro. Mas rapidamente ele se vira, ainda no chão, e acorda.

O mostro se aproxima, a lâmina de Miguel já em punho, e fixa os olhos. Olhos furiosos, impiedosos... e o que deixa um animal cruel dessa forma? Frankenstein vê. Vê as algemas que ainda judiando dele, vê os extensores para as drogas, as raspagens e coletas de tecido. Vê o sofrimento. Monstros sempre sofrem.

— Não. Você não merece a espada.

E ela é embainhada. A SOMBRA é contatada, coordenadas fornecidas. O piloto que o deixou em Gotham voltará, Croc será pego depois. Mas terá de ser deixado desacordado.

Então, Frankenstein o espanca até ele desmaiar. Demora, mas acontece. Depois, amarra-o com cipós.

"Atraso. Perda de tempo." — pensa o gigante, retomando seu caminho.

E de repente, como sempre, a sorte muda. O vento sempre pode mudar de direção.

Gritos. Tiros. Sirenes. Uma cidade em desespero. Gritos nas faixas de rádio e TV. E auroras boreais no céu. Um mistério para o Frankenstein.

Ele vai.

19h12min.

Ele chega. As ruas asfaltadas de Gotham. E o que se passa ali, mesmo para os olhos de um monstro, é horrível.

Tira de um bolso do sobretudo o aparelho, o pequeno computador. Tira dele um fio que se divide em dois, cada qual com um conector, e liga-o em suas têmporas. Online.

— Frankenstein transmitindo. — e aí os raios começam. A tempestade chegou. — SOMBRA?

SOMBRA na escuta. Aqui é a Noiva. Olá, Frankie! O Pai Tempo já vai assumir.

Pai Tempo falando. Olá, fortão. Relatório.

— Esta megalópole ensandeceu.

Seja específico.

— O mundo urbano ao meu redor tornou-se uma paisagem surrealista qual pós-moderna arte de colagens. Sobre a existência há uma camada holográfica de delírios, intrusos bem à vontade como penetras aves cuco. As imagens mais loucas assombram as ruas de Gotham City. Além disso, aparentemente a hiperrealidade xamânica tornou-se vísivel, mesmo para meu sistema nervoso desmorto e livre de alucinógenos. Há luzes psicodélicas adornando tudo, e o céu não é o da noite, ele arde como o faria num pôr-do-sol de um deserto australiano.

Vou exigir em memo que todos os operativos façam relatórios seguindo o padrão dos seus, fortão.

— Não é hora para escárnio.

Rárárá! É o que eu disse! Escárnio! Humor durante momentos de perigo é normal, fortão. Um tipo de mecanismo de defesa. E é quase padrão entre supers. Aquele tal Doc Samson chamou de Síndrome do Homem-Aranha. E os cidadãos?

— Em polvorosa, fugindo como os camponeses fugiam de mim em meus anos dourados. Mas em várias direções, o terror que vêem parece estar em toda parte. Muitos morreram. Aparentemente, ataque cardíaco. Espere.

Então Frankenstein resolve interagir com os locais. Agarra vários deles pelos braços e golas, e os verifica. O último deles ainda permanece erguido pelo poderoso braço, com seus pés a centímetros do chão, sendo contemplado.

— Os olhos de todos eles mudaram de cor, um verde e um azul. As marcas desta praga. Irmãos de desgraça.

E você, Frankenstein? Como você sente?

Um cardume de peixes com faixas azuis e amarelas, translúcido com uma obra de vidro, transita calmamente um metro acima do asfalto, atravessando postes e carros, fantasmagóricos, imateriais. O líder pisca como um velhaco para o monstro.

— O furacão sobrenatural está apenas me acariciando. Embora possa ver parte das miragens que perseguem os gothamitas, eles se me apresentam desfocadas... como se olhasse por um aparato óptico mal ajustado. E não há o horror, a mão fria sobre seus corações que só lhes permite ter o mais puro medo e loucura.

Seu organismo diferente, é claro. Como no caso da imunidade que você e a Noiva apresentaram no caso do Vale da Salvação.

— Cadáveres não sofrem como os vivos.

Durante a conversa, o monstro esqueceu que segurava um homem, apesar dele espernear. Mas este se faz notar com mais intensidade.

— Eu estava cego! Mas agora... estou vendo alguma coisa! Aaahhh! Ah, Deeeuuus! Que... que cores horrríveis!

O gothamita luta para escapar da mão enluvada, mas não consegue.

— Está vindo! Horrível demais! Demais!!! Me largaaaa!!!

Frankenstein prefere não liberar o homem, pensando em sua segurança. Então, ele fura seus próprios olhos.

— Oh, meu Deus! Eu ainda estou vendo! Eu ainda estou vendo! Eu ainda estou vendoooooo!!!

E o homem grita. E só para quando seu coração não agüenta mais.

Outro raio.

— Esta Atlântida sombria não possui guardiões? Uma sociedade de cavaleiros negros, cruzados de capa e capuz que patrulham as ruas ostentando o símbolo aterrorizante do morcego?

Batman e as crianças estão desaparecidos há alguns meses, desde a última crise. Mesmo caminho de outros pesos pesados. Toda a trindade está desaparecida, na verdade. Os Vingadores passaram por maus bocados há algum tempo. Tiveram seu pior dia e estão se reconstruindo. Diversos heróis não voltaram da expedição ao espaço, nem puderam ser resgatados na Austrália. Os sensitivos garantiram que até o Espectro também está nesse grupo de desaparecidos. Frankenstein, você está só.

Outro raio.

— Como sempre foi.

Certo, grandão. Bravo. Bem, você deve fazer uma missão de reconhecimento e busca. Passeie pela cidade e relate tudo o que vir via neuro-rede. É nosso único contato aí.

E o Pai Tempo faz um acréscimo.

Despesas de viagem por conta da SOMBRA.

19h30min.

O Frankenstein, sem medo, rapidamente dominou o modo de cavalgar a motocicleta da qual se apropriou, e aprovou o veículo.

"Maravilhoso corcel mecânico!" — pensou.

Harley-Davidsons sempre agradam. Ainda conectado àquela outra maravilha da ciência, o comunicador da neuro-rede da agência, ele ouviu:

SOMBRA transmitindo. Você está definitivamente sem apoio, grandalhão. O piloto que o deixou aí morreu ao entrar no perímetro de Gotham novamente. Mesmo com todo o treinamento, sucumbiu aos delírios, e jogou o SOMBRAmóvel contra o chão. Iniciou um incêndio no Pântano da Chacina.

— Ele tinha um filho.

Não se preocupe, salvaremos o Universo para ele.

20h29min.

SOMBRA transmitindo. Os telepatas estão funcionando como uma rede de satélites, retransmitindo a loucura. Nós já neutralizamos os sensitivos da Secretaria com neurodardos, e a Noiva os está vigiando com as armas carregadas. Mas a cidade de Arcádia caiu, está sendo enviado quase todo o contingente do BPDP para lá. Problemas sérios no Instituto X. Equipes com superpsis estão incomunicáveis, culpa dessa maldita nova onda de contato telepático durante as missões. Liga, Vingadores... ninguém! Estamos tentando grupos menores, até os Renegados.

20h47min.

— Frankenstein transmitindo. Estou próximo ao depredado monumento dedicado ao Monstro do Pântano. Que contraste com a estátua do Lanterna Verde da SJA, limpa e cuidada. Gotham esquece rapidamente seus próprios pecados. Notei agora que há emanações da cabeça dos cidadãos, uma energia saindo em feixes psicodélicos... como o calor que turva a vista saindo de um ferro quente. As pessoas são as origens de todas as fissuras que testemunho. Os objetos inanimados são apenas vítimas dos horrores gerados por elas, flores do campo sendo castigadas pela passagem de manadas furiosas.

Frankenstein tira o binóculo do sobretudo.

— Posso avistar daqui a onipresente Torre Wayne. Espere! Há algo acontecendo. Homessa!

Frankenstein fica sem palavras.

— Há pessoas saltando para o vazio!!! SOMBRA, estão ouvindo?!? Estou presenciando suicídio em massa na Torre Wayne!!!

A cena demora mais de dois minutos.

Frankenstein? Você está aí ainda?

— Sim.

Cabisbaixo e lamentando, e isso era quase visível em seu tom.

Certo. Agüente firme, não se deixe abalar, concentre-se na mi...

— Não seja condescendente comigo, Pai Tempo. Fragilidade não é um de meus atributos.

Muito bem. Está sendo montada equipe de cérebros invulneráveis, principalmente autômatos com experiência supernatural. IA's como os Homens Metálicos e o Visão estão sendo sondados. A ajuda logo vai chegar.

20h56min.

— Frankenstein transmitindo. Localização: proximidades do estádio dos Gotham Knights. É oficial: a situação em Gotham piorou muito, mudando drasticamente de nível de calamidade. O cérebro de um homem transformou-se em duas serpentes, que empurraram os olhos e saíram pelas órbitas, deixando a cabeça murcha para picar o corpo... o qual ainda conseguia gritar. As leis naturais sofreram mutação.

21h19min.

— Frankenstein transmitindo. Localização: Parque Robinson. Os céus estão escarlates!

Inferno! Praga! SOMBRA transmitindo. Esse, grandalhão, é um típico sintoma de Crise no continuum espaço-tempo, nível 12 na escala de calamidade Wolfman-Pérez! Instabilidades cronais podem ser esperadas.

E elas acontecem, como que sugerindo que deve-se ter cuidado com o que se diz. De repente, Frankenstein sente um formigamento, um quase desmaio. E de um momento para outro tudo muda. Frankenstein muda. Sua mente é inundada por novas verdades. Ele é Frankenstein, a criatura. Mas sua pele é azul, não verde. Os contatos ficam em sua testa, como chifres aparados, e não em suas têmporas. Ele não ficou anos soterrado. Foi para a América, se deu bem, é muito inteligente, tem dinheiro, influência política, enfrenta a Igreja Católica, que não passa de um poderoso exército cheio de tecnologia e ...

E tudo se vai. A pele azul, os contatos na testa, a história de sucesso. Ele é Frankenstein novamente. A criatura. Pele verde, caçador de monstros, espada e arma em punhos, agente da SOMBRA.

Frankenstein? Frankenstein?

— Sim... desculpe. Tive um... um devaneio. De repente, eu não era mais eu.

Provavelmente, instabilidades cronais, tal como eu disse. Primeiro mandamento para lidar com Crises de proporções infinitas: aceite a realidade, mesmo que seja o fim do Universo, e siga em frente. Espere, acaba de chegar algo.

Um instante apenas, e o Pai Tempo volta.

Frankenstein, eis as novíssimas notícias ruins: os primeiros heróis psico-invulneráveis sondados estão todos indisponíveis. Homens Metálicos foram desativados. Visão foi destruído. O Tornado também. E agentes habilitados em assuntos arcanos sugerem intervenção dos Lordes do Caos, criando essas merdas de coincidências. Como eu sempre digo, não devemos confiar nessas divindades filhas-da-porra!

— Eu vou prosseguir, então.

21h37min.

— Frankenstein transmitindo. Localização: sede do Departamento de Polícia de Gotham City. Está mais frio e escuro e a tempestade está se intensificando. Uma noite macabra tornando-se pior, como aquela em que nasci. Como a precipitação radioativa de um inverno nuclear, prestes a acontecer. A guilhotina está para entrar em cena. Matar algo, humano ou não, será suficiente? E se sim, será possível? Tenho a espada e a arma, e mãos calejadas e sujas, mas não as certezas.

E aí, Frankenstein vê.

— Uma dama de negro. Eu já a vi antes. Tantas vezes. A jóia em seu pescoço, o Ankh egípcio, tão inconfundível quanto seu discreto sorriso acolhedor... ela está... esperando? Parece confusa, irritada. Eles não a vêem, mas eu sim. Por quê?

Há inúmeras manifestações da aparição, cada uma acompanhando os poucos cidadãos que ousam sair. Como uma imagem que finalmente é focalizada, Frankenstein logo entende que...

— É a Morte!

Os mortos podem vê-la, e só eles. Mas aquela visão... ela significa que logo tudo pode acabar.

O momento é solene. O mostro se sente compelido a dizer algo.

— Pela metrópole, espíritos de negro vagueiam tristemente. Há uma cidade de anjos aqui.

22h09min.

— Frankenstein transmitindo. Localização: proximidades do Clube Iceberg. Estou seguindo pelos piores caminhos, adentrando pelas veias mais infectas da metrópole em busca do órgão gangrenoso que está vomitando toda esta poluição venenosa, tendo apenas o aumento da loucura como pista. Vejo um paralelismo entre minha jornada e a do jovem soldado embrenhando-se pelo Vietnã no filme de bordo do SOMBRAmóvel.

Um horrível bater de asas. É a Morte chegando? Acabou?

Não.

— Morcegos. Milhares, tem de ser milhares. Uma nuvem de morcegos, aparentemente orbitando algo a várias quadras daqui. Uma zona em que parece haver mais atividade das forças em ação, luzes como a do amanhecer que só poderiam ser encontradas no festim de demônios. Irei em sua direção.


Continua!


:: Notas do Autor

Sou um grande fã de Morrison, leio até pintura rupestre desse cara com a certeza de apreciar uma obra de arte. Adorei o Frankenstein dele, que poderia enfrentar uma horda de vampiros lado a lado com o Blade dos filmes.

Sobre as enguias, vi a idéia no filme Frankenstein de Mary Shelley, e achei genial. Um cientista usaria enguias!

O poema "Se" é realmente magnífico, busquem.

A outra versão do Frankenstein que aparece brevemente aqui é um personagem escrito pelos Irmãos Matrix. Eles a escreveram na minissérie Doc Frankenstein (Geof Darrow, Steve Skroce, Andy e Larry Wachowski, publicado pela Burlyman Entertainment). Uma versão tão inesperada quanto a do Morrison.




 
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