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Frankenstein - À Beira da Loucura # 02

Por José Eduardo Bertoncello (JEB, o Sombra)

Na edição anterior: Frankenstein chega ao Pântano da Chacina, em Gotham City, no fim da tarde de um domingo. Ele espera presenciar o renascimento de Solomon Grundy, o vilão morto-vivo com o qual compartilha alguns elementos de origem — o sangue de Melmoth, que gera os homens-grundy. Avança pouco pelo charco e logo encontra outro monstro típico de Gotham: Croc. Enfurecido por lembranças recém-emergidas sobre experiências nas mãos do cientista Curt Connors, o Crocodilo ataca Frankenstein. Após rápido confronto, o monstro prende o homem-réptil, deixando-o para ser pego por agentes da SOMBRA, e volta a avançar. Mas pouco depois, luzes estranhas e sons de tragédia na cidade o fazem rumar para lá, abandonando sua missão.

Na zona urbana, ele encontra as pessoas aterrorizadas com as mais loucas miragens. O monstro, tendo uma constituição física diferente, não é afetado pelo fenômeno psíquico. Torna-se aparentemente o único são na cidade sombria. A SOMBRA o manda investigar, e ele começa uma caminhada pela metrópole. Quanto mais avança e quanto mais o tempo passa, mais bizarras e sólidas ficam as imagens, até que as próprias leis naturais mudam. A realidade parece enlouquecer, e o monstro relata todas as suas visões para a organização enquanto prossegue. Até avistar uma nuvem feita de milhares de morcegos. Seguindo-a, ele encontra o centro do problema...

Encarando o Abismo

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22h27min.

— Frankenstein transmitindo. O nome é Asilo Arkham.

E um agourento raio ilumina a cena, perfeitamente sincronizado.

— Repetindo, SOMBRA: o Asilo Arkham é o ponto zero.

Só podia! Acabamos de receber: a personalidade do Coringa foi "impressa" nos alunos de um jardim de infância. Meu Deus, o que eles fizeram com a professora... e os pais já estão querendo processar a escola. Foi em Nova York, claro.

— Humm.

Frankenstein?

— SOMBRA, apareceram problemas. Vou perder contato por um ou dois minutos.

Problemas?

— Apenas um ou dois minutos.

Um no máximo, fortão. A coisa está ficando cada vez pior.

— ...

Certo, fortão. Vai fundo.

E, na verdade, leva quase quatro, pois há muitas delas. Plantas mutantes. Mas a espada de Miguel cuida da jardinagem. Frankenstein livra-se de cipós e limpa seiva que jorrou como sangue, e entra.

"Atraso. Perda de tempo."

No grande salão da entrada, os doutores (e internos frequentes do Arkham) Jason Woodrue e Pamela Isley estão comemorando, quase xamãs em êxtase. Dançando como índios enquanto sua obra conjunta, a mãe-rainha do jardim horrendo que enfrentou, devora um guarda. Pelos esqueletos, é o último de muitos capturados. Frankenstein se enfurece e intervém. Primeiro dois tiros com a pederneira. Depois, um salto em direção ao monstro verde. A espada de Miguel, que não perde seu fio, entra em ação. Mais seiva jorra. Os sacerdotes do deus-planta fogem.

"Atraso. Perda de tempo."

Mais à frente, num dos corredores, a Encantadora está nas mãos do Sr. Frio, e isso não é bom para ela.

— Nãooo! Não sou eu!!! Não tenho nada a ver com isso!!!

Enquanto ela fala, a pele de seus braços é queimada pelo frio dos dedos de Frio.

— Capacidade de induzir alucinações? Isso só pode ser mentira, minha cara. Mas a fria lógica que me salvou da insanidade também me permitirá acabar com essa traquinagem juvenil. Basta apertar... — e ele agarra o pescoço dela. Seus dedos parecem facas.

Frankenstein age. Os dois desmaiam com alguns ossos quebrados. E realmente, não era culpa da Encantadora.

"Atraso. Apenas atraso e perda de tempo!"

As celas.

As botas gastas passam lentamente e o mostro aprecia cada número do circo de horrores. A entrada foi gratuita.

Duas-caras.

— Não, não, não! Alguém está zombando da corte e desequilibrando a balança colocando merda num dos pratos!

Sr. Zsasz.

— Não haverá lugar para tantas marcas! Oh! Oh! Ooooohhhhh! — diz ele, entre feliz e desesperado, cortando e cortando suas carnes. Usa um de seus dentes, quebrado, pontudo. E sorri ostentando um buraco negro na boca.

Dr. Destino.

— Dee! Dee! Dee! Dee! Dee!

Charada. Ventríloquo. Espantalho.

Chapeleiro Louco.

É ali.

Ele está claramente envolvido nisso, e não está sozinho. Usando um elmo de metal e plástico, com circuitos expostos, luzinhas piscando e eletricidade estática faiscando, seus brilhantes olhos, um azul e outro verde, fitam seu convidado... um jovem ruivo, usando sobretudo estranho e pulsando num brilho quase estelar. No meio do peito dele há uma fenda, que não dá para seus órgãos internos... parece um buraco no mundo, de onde saem energias multicoloridas, jorrando como um rio caudaloso. E ele tem um olho azul e um verde. Ambos, em transe, flutuam a um metro do chão. Parecem os cátodos de um maquinário sobrecarregado de energia.

SOMBRA transmitindo. Frankenstein, você...

O Pai Tempo pára de falar. Ouve-se apenas um riso diabólico.

— SOMBRA?

Noiva falando, Frankie. O Pai Tempo acaba de ser sedado — está fora até o fim desta crise. Vamos ter de salvar o mundo sem ele.

— Frankenstein transmitindo. Estou na cela do interno cuja alcunha é Chapeleiro Louco. Há outro ser aqui. Eu... estou ouvindo vozes apavorantes, sussurros desesperados e diabólicos — claras manifestações sobrenaturais. Elas estão fornecendo informação que vou lhes repassar. Atenção: veste-L... meta... homem mutável... Shade. Ouviram, SOMBRA? O outro ser é Shade!

Espere. Pesquisando.

Aquele momento que não abrigaria uma respiração parece inconvenientemente eterno.

Encontramos algo, original. Enviando dados retirados dos bancos do Esquadrão Suicida.

— Arquivo recebido.

O mostro passa um instante em silêncio, ainda de olhos fechados. Estudando.

— E é totalmente inútil. Não parece ser o mesmo indivíduo. Campo de ressonância? Nada confere, só o nome. Uma confusão de identidades ou mais uma fissura na realidade?

Estática. E apenas estática.

— SOMBRA? Noiva?

Apenas estática.

"Girando e girando..." — pensa o monstro, lembrando do poema de Yeats.

— Frankenstein transmitindo. Estamos sem opções. Mal ouço vocês. Vou matar os dois indivíduos. Se não funcionar, vou estender a matança, num padrão de espiral crescente, até algo mudar ou até ser detido. Derrubarei Gotham, se for necessário... e puder.

Silêncio na linha pelo tempo de uma respiração contida.

Lib... ado.

"Liberado." — traduz o monstro para si mesmo.

A arma cheia de pressão é levantada e apontada. A têmpora do Chapeleiro está na outra ponta da linha da trajetória.

— Primeiro o vilão.

Es... re! Fra... ens... espere!

A bala não parte.

Mui... coin... dên... a! His... ico... mani... ação... rea... ade...! Do... esti...! out... stin...!

"Histórico de manipulação de realidade! E... o que mais?"

— Noiva? Repita! Repita, Noiva!

Uma nova e desesperada tentativa.

Dee! Dee! ...ank... tein! Dee! DEEEEE!

Nome dito como um grito de desespero. O monstro acha que compreende e isso é suficiente. Sua reação é rápida. Volta sobre seus passos.

Dr. Destino. John Dee.

E a cela fica sem porta. Frankenstein entra, braço esticado, arma apontada, e eles se encaram. Então, o horrível homem com capuz e rosto de caveira começa a falar:

— Oh, sim. Sou o vilão novamente... um personagem recorrente. Minha confissão: eu semeei aquela terra fértil feita de chapéus e circuitos com as paisagens que avistei vagando pelos sonhos, procurando durante meses. Projetos de bombas atômicas pichados nas paredes dos banheiros do inconsciente coletivo, onde não há a proteção de direitos autorais. Mento, Pseudoman, o cérebro do professor careca. O absorbascon dos alienígenas emplumados, seja lá o que for um absorbascon. O nome é bonito. Quando o chapeleiro risonho deu a primeira fungada, já estava perdido. Ele fez! Ele fez o chapéu. O pára-raios idiota sintonizou a veste-L de Shade. Shadyshadyshady! Trouxe-o ao Arkham e está interferindo nela. A tal Zona da Loucura está vazando através dele numa adorável diarréia. Vamos brincar na lama! Rárárá! A cebola que é a porrealidade vai trocar dolorosamente de pele até eu ter meu rubi de volta, meu Ma-te-ri-op-ti-coooommm, meu doce rubizinho, minha maçã envenada.

— Ou até nada sobrar.

— Ou isso. Mas pelo menos os fogos serão bonitos! Deeeee...

— Sofra!

A arma que já feriu Neh-Buh-Loh, um ser que era um universo em forma humanóide, explode vapor. E o Dr. Dee recebe uma bala.

— Aaarghhh!!!

O tiro tangencia o ombro de Destino e isso é suficiente para provocar um torturante estrago. Pele rompida, ossos quebrados e sangue tentando escapar como as contas de um colar partido.

— Morte dolorosa, homem perverso, a menos que o Universo sobreviva para pô-lo numa maca. Agora é melhor rezar para seu plano fracassar.

E ele sai e volta correndo, mais angustiado.

"Apenas atraso, apenas perda de tempo!"

O poema volta à sua mente, quase como se o fantasma do poeta o recitasse para ele.

"Girando e girando..."

Parece não haver salvação para o universo. O poema...

Voando cada vez mais longe,
O falcão não ouve mais seu falcoeiro.
Tudo se desmancha no ar. O centro não segura
A imensa anarquia solta sobre o mundo.
Terrível maré de sangue invade tudo
E as cerimônias da inocência são afogadas.
Os homens melhores não tem convicção
E os piores estão tomados pela intensa paixão do mal.


Tudo muda quando chega. Como dito antes, de repente, como sempre, a sorte muda. O vento sempre pode mudar de direção.

Avista-a... e entende. Uma garotinha. Garotinha assustadora, é sempre assustador ver uma garotinha em meio ao inferno. Seus olhos, um azul e um verde, indicam estar totalmente conectada à desgraça que o mundo está vivendo agora. Ao redor dela, um cardume de peixes multicoloridos. Como se fossem a espuma de uma poção instável. A rainha do Delírio.

"A Zona é o reino dela, e quando o dique rompeu as ondas a trouxeram."

— ... 613, 614, 615... 616! Ou é 666? Eu estou ativadaaa... não, nativa. Não, na ativa. Onde está o coelhinhooo? Aquele feito de neve? Ele estava atrasado.

"O que fazer?" — pensa o monstro — "O que me é permitido fazer? O que se faz diante de um tornado?"

Então ele apenas aponta. Shade e o Chapeleiro. E o olho azul e o verde se voltam para eles.

— Ohhh! Chapéu-tomada. Tigela com miolos. Fica melhor em mim.

E funciona. O tornado segue o dedo.

Ela avança e se apossa do elmo, sem sentir as emanações de energia que afetam o monstro como vendavais. Os olhos do Chapeleiro voltam ao normal, reviram e ele cai. Tomada desconectada. E Delírio o coloca em sua cabeça, como Napoleão coroando a si mesmo. Ela sopra o homem mutável, e seus átomos se vão como as sementes de uma flor do campo, sem se despedir.

— Lugar lindooo! Eu quero ver o palhaço!

E ela parte, atravessando a parede e deixando uma mancha de marshmallow por onde passou. O tornado vai embora e o Frankenstein fica.

— Quão frágil nossa realidade se tornou! A todo momento tendo sua integridade ameaçada! Em meus primeiros anos, presenciei ameaças extraordinárias... e me uni a homens extraordinários para salvar o mundo. Mas nunca foi tão perigoso quanto hoje. E assim termina? Facilmente assim? E quanto tempo até a próxima crise de proporções infinitas?

Não há ninguém para responder. O universo apenas continua.

— Então será dada chance para mais um dia. Devo retomar meu percurso original. Pois o amanhã que virá será segunda-feira. Amanhã haverá um nascimento. Amanhã Solomon voltará. E o Frankenstein deve estar presente.

As pesadas botas gastas voltam a rumar para o Pântano da Chacina, chacoalhando as esporas antigas.


:: Notas do Autor

Esta história meio que já existia antes de eu ler 7 Soldados da Vitória, antes do Frankie ser criado. O personagem principal exerce um papel quase totalmente passivo, e poderia ser qualquer um, na verdade.

Num jogo de ligue os pontos, eu sabia que havia algo para ser feito que envolvesse o Arkham, a Delírio e o Shade, o homem mutável. É importante lembrar que há dois Shades na DC: a criação original de Steve Ditko (que fez parte do Esquadrão Suicida) e a versão reformulada de Peter Milligan para a Vertigo, baseada levemente na anterior. Como a original foi mantida na continuidade, achei que poderia fazer disso um sintoma de alteração de realidade, algo assim.

O poema que invade a mente de Frankie é a Segunda Vinda, de William Butler Yeats.

Sei que o Frankie e o Solomon se encontraram oficialmente, numa mini do zumbi pré-Noite Mais Densa. Não sei o que saiu disso. Minha história não muda quase nada na cronologia oficial e pode ser inserida logo antes desse encontro.




 
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