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Hellblazer # 04

Por Délio Freire

O Prisioneiro da Figueira
Parte IV - Palavras Mágicas

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Jason Blood está condenado a carregar em suas lembranças a figura de um amigo com a voz desagradavelmente ácida e debochada. Não tanto pela voz. Nem pelo fato do cara ser o bruxo mais mau caráter que ele já teve a oportunidade de conhecer em todos os seus séculos de existência. O que realmente o incomoda é estar lhe devendo um favor.

"E ele cobrou!", pensa consigo mesmo. "Oh, sim, o miserável não deixaria passar a oportunidade de me manipular, me ferrar e de me fazer sentir como um daqueles monstros obtusos de Um Drinque no Inferno." Ele toma um gole de uísque direto da garrafa. Oferece para sua companheira ao lado que, acuada, recusa. Pela milésima vez, a mulher pergunta para ele:

— O que aconteceu no motel?

Ele não responde. Olha para os céus, simulando um falso pedido de piedade para si e para a mulher ao seu lado, enquanto pisa mais forte no acelerador. Ele aumenta o som do CD-player do carro recentemente roubado durante a fuga do motel. Não consegue segurar um sorrisinho de satisfação ao ouvir Simpathy for The Devil na versão original dos Stones.

— Sim, senhora... Stones são os maiorais. Esqueça aquela bosta que o Guns fez com a música. Claro que não me sinto um dependente ou um apóstolo fervoroso do senhor Jagger, mas você tem que concordar que eles fizeram milagres nessa música.

Anne Bartoff balança a cabeça afirmativamente por puro instinto, sentindo que se discordasse do estranho homem ao seu lado seria jogada para fora do carro com toda certeza.

— Senhor...?

— Blood, me chame de Blood.

Ele arreganha os dentes, mostrando prestar atenção nela pela primeira vez desde o resgate no motel. Seus olhos ficam fixos, com uma obscenidade agressiva, nos seios fartos de Anne, que começaram a se desenvolver no início da gravidez. Sua boca saliva.

— Blood, porque está me ajudando?

— Talvez para poder ter uma recompensa sua, no final... — os olhos mantêm-se fixos nela, que começa a corar. — Na verdade, moça, me encare apenas como um Sir Lancelot moderno que salva a donzela, se é que posso chamar você assim, do famigerado dragão.

— Eu só me lembro de estar aprisionada em um quarto de motel junto a uma mulher...

— Ela era a porra de um demônio. Só isso.

— Você invadiu o quarto, lutou com ela e a matou. Mas por que fez isso?

— Como eu disse, deixe a recompensa para mais tarde... Foi só a merda de uma dívida com um amigo, só isso. Eu te salvei e, por isso, ele e eu estamos finalmente quites.

Um silêncio se estabelece e Blood volta a falar dos Stones, da relação do livro The Master and Margarita de Mikhail Bulgarov com a letra da música.

— 'Por favor, deixe que eu me apresente' é uma frase retirada do livro de Bulgarov. Adoro essa parte agora, quando Mick diz que, assim como todos os policiais são criminosos, os pecadores são santos. Maravilhoso, não é mesmo? Assassinos são transformados em santos e Deus se torna o Diabo!

Jason Blood pára no posto de gasolina para que Anne possa ir ao banheiro. "Em que merda de estrada no cu do mundo eu fui parar?", pensa, enquanto observa um homem chegar a cavalo. O animal começa a dar um pinote, fazendo com que o estranho se segure firmemente e tente controlá-lo. A montaria parece se incomodar com a presença de Blood.

— Jesus, só vejo esse cavalo se agitar assim quando está perto de algum predador! — diz o dono do animal.

Quando Jason Blood ia soltar uma resposta cínica, ouve um grito vindo do banheiro. Anne. Começa a correr em desabalada carreira, enquanto pragueja bem alto:

— Constantine, seu chupa-rola filho da puta!

A arma dispara sucessivamente no zumbi, fazendo-o cair. Chas carrega a pistola automática com um novo pente de 15 balas; sua munição não é muita e a pontaria também não é das melhores. Mas é tudo o que ele tem. Bobby, também armada, começa a disparar aleatoriamente em todas as direções do cemitério infestado de zumbis. Chas segura sua mão, impedindo-a de continuar; queria que ela procurasse o corpo adequado para a nova encarnação de Amadeus Carpenter. Que ele mesmo cuidasse da segurança dos dois enquanto ela fazia o trabalho necessário.

Chas observa-a correr até ficar completamente fora de sua visão. Ainda tem em sua boca o gosto do beijo que trocaram há poucos instantes. Que nada de mal aconteça a ela, ou ele irá se culpar pelo resto da vida. E irá culpar Constantine, também. Sua mente, perturbada pelo ataque inesperado dos zumbis, não consegue pensar em nada. Ele dá dois tiros na cabeça do mais próximo, enquanto outro violentamente agarra sua mão esquerda, não querendo largar de forma alguma. Uma coronhada é suficiente para ter a mão livre. Chas pensa em mudar de posição, mas não pode. Bobby não conseguiria encontrá-lo se saísse do lugar.

Sua cabeça começa a imaginar coisas, a ouvir tambores africanos e alguns sussurros. Nunca se acostumou ao mundo oculto. Tinha medo e não era agora que isso mudaria. Chas sabe que coragem não é a ausência do medo, é continuar agindo apesar dele. Ele cai no chão, com alguma coisa tentando puxar sua perna. Tem medo de atirar e acertar em si mesmo no meio daquela escuridão. É o momento de maior aflição. Sente uma mordida. Sua perna sangra. Ele berra. Atira uma vez. Outra. Sente algo rastejar para um local mais sombrio e seguro. Esse é o problema com os zumbis. Mortos que são, os tiros apenas os afugentam para outro local até se recomporem e voltarem ao ataque.

Deitado no chão, encostado em um túmulo, Chas rasga um pedaço da camisa e o amarra na perna para estancar o sangramento. A pressão do nó apertado reflete-se numa careta. Ele ouve passos em sua direção e ergue a arma para atirar novamente. Seu rosto começa a suar, os ataques se dão simultaneamente. Quando vai apertar o gatilho, vê as formas generosas de Bobby e abaixa a arma. Quase eleva a pistola automática novamente quando vê que algo está ao lado dela. É o cadáver de que tanto precisam.

Chas se aproxima da garota e ajuda a carregar o corpo. Começam a se dirigir para fora do cemitério, indo em direção ao furgão. Com certa dificuldade, em meio ao ataque dos zumbis, eles chegam ao veículo, entram rapidamente e partem rumo ao encontro daquele homem que seus corações gostariam de ter longe. Patrick Leight, líder da Aurora Negra, os espera.

As gotas de suor de Patrick Leight começam a cair sobre sua amante. Ele sua, berra e a morde. Em certo momento, começa a babar devido ao excesso de droga que usou. Suas mãos prendem a sua amante e seu corpo, em atitude mecânica, a invade cheio de um prazer egoísta. Há uma risada. Ele pára.

— Você ouviu isso, mulher?

Ela sussurra baixinho um não e começa a remexer os quadris, desejando que ele continue, dando-lhe a satisfação de ser um brinquedo nas mãos de seu mentor. Ele continua mais forte, mais violento e veloz. Várias vezes ela se deixava possuir para que ele preenchesse seu vazio, como se essa voluntariedade a definisse. Para satisfação da mulher, Leight continua. Nova risada. Ele fica nervoso e acelera a penetração.

Aplausos. Efusivos e entusiasmados aplausos. Ele olha pra traz e vê Mefisto gargalhando, sentado em uma cadeira colocada ao contrário e observando diretamente suas nádegas.

— Desse ângulo, você até que está se saindo bem, Pat. Não sei se ela diria o mesmo, situada onde está.

Graciosamente, Mefisto se levanta e retira Leight de cima da mulher com um gesto forte, rápido e quase imperceptível com as mãos. Mefisto a beija.

— Eu gostaria tê-la neste momento, mas... infelizmente isso vai ter que esperar... — Ele massageia sua genitália ainda dolorida e inchada. — Minha jovem, em um momento mais oportuno nos encontraremos. Deixe-me a sós com seu amante.

— O que você quer aqui? — pergunta Leight, surpreso.

— Oh, tantas coisas... — Mefisto começa a andar em volta do líder da Aurora Negra. — Talvez seja hora de eu dizer quem realmente manda.

— Pedi a sua benção. O que quer mais para se afastar de mim?

— Benção? Naquele sabbath fedorento? Eu exijo mais de sua personalidade doentia. Vocês, humanos, fazem de tudo para se afastar de mim e acabam caindo em meus braços. — Ele se aproxima do ouvido de Leight. — Só vim lhe dizer uma coisa: Amadeus Carpenter, seu adorado mestre, é meu general e ninguém, nem mesmo aquele mago que enviou para o meu reino, irá mudar isso.

— Vejo que treme um pouco ao citar John Constantine. Será que ele te feriu de alguma forma, Mefisto?

— Isso não vem ao caso. — Sua capa envolve completamente seu corpo, como se com o gesto quisesse esconder algo do humano. — Mas não me envolverei mais diretamente nessa disputa em que sei que serei o vencedor, seja de que forma for. Carpenter é meu e um dos meus mais valorosos guerreiros irá cuidar de Constantine. Não vale a pena perder tempo com uma alma impura e decaída como a desse mago. Minha vingança, se não for hoje, será amanhã. Além do mais, compromissos em uma cidade fascinante e um encontro com aquele que possui a alma pura e saborosa me espera.

Mefisto desaparece em meio a uma nuvem de fumaça. Leight senta-se na cama. A sentença de sua derrota por Mefisto o desagrada. Mas ele irá ao local de encontro para o ritual de libertação de seu mentor. Não pode parar agora, pois a Roda da Fortuna gira em meio a turbilhões e relâmpagos reluzentes.

Demônios voadores sobrevoam o reino infernal com lentidão, na expectativa de capturar o mago e subir no conceito de Mefisto.

— O humano não pode estar longe. Capturem-no ou suas peles serão arrancadas e servirão de tapete para ornamentar o palácio de Mefisto.

Flégias, líder máximo das tropas no momento, berra para o alto, dando ordens diretas para sua força alada. Carregando uma espada retorcida e afiada em uma das mãos, Flégias começa a correr por todas as regiões do Inferno, ordenando busca pelos cantos mais sombrios do reino infernal. Quando observa um de seus soldados correr em direção ao palácio de Mefisto, ele retira uma lança das mãos do aliado mais próximo e a arremessa contra o soldado, que cai com um baque surdo.

— Animais! Não percebem que não devem pisar em solo sagrado? Jamais um humano ousaria entrar na casa de nosso mestre e, portanto, não devemos fazer tal afronta.

Com um meio sorriso, Constantine observa cuidadosamente, do alto de uma janela do palácio de Mefisto, a revoada e o agito dos demônios. Ele fecha a cortina feita de moscas. Coloca um pé sobre uma cadeira e olha fixamente para quem o acolhera. Uma velha camareira do palácio infernal, uma diaba louca que dizia estar construindo uma escadaria para fugir do inferno. E queria a ajuda de Constantine. Em troca, mostraria a sala em que está o machado mágico do Príncipe das Trevas.

— O que quer com o machado, senhor?

— Eu? Nada... Estou apenas fazendo um favorzinho para uns 'amigos'... Sabe como é, todo canalha tem o seu dia de santo milagreiro.

— E vai me ajudar?

Ele não responde, abre a porta e chama a senhora com um gesto.

— Me mostre o caminho.

Em uma pequena encruzilhada deserta localizada na Terra, repousa sob a sombra de uma figueira, Thor, o Deus do Trovão, aguardando a chamada de Constantine para tirá-lo do Inferno. Ele sente um certo alvoroço, como se a própria árvore agisse voluntariamente, mas não liga. Come vários figos com prazer e uma certa deselegância discreta proporcionada pela solidão. A alma de Amadeus Carpenter se agita, louca para deixar de ser prisioneira da árvore de doces frutos.

Um plano, uma ajuda inesperada e o prêmio em suas mãos. Simples assim. Mas quando se está no Inferno, o inesperado se torna a regra do jogo. John Costantine olha para o machado em suas mãos. Com ele poderia libertar Carpenter, caso Blood não cumprisse com sua parte no trato? O mago procura não olhar para a senhora que o trouxe até a sala de armas de Mefisto. Ela não pára de tremer de medo com o barulho horrendo da horda infernal que arrebenta a porta do palácio e sobe as escadarias. Foram descobertos.

Ele começa a tentar se lembrar das palavras mágicas que recebera de Thor e as recita, com um certo desagrado:

— Ergam as cabeças, oh, portais! E levantem-se, eternas portas! E o Rei da Glória, Thor, entrará!

Nada.

Ele repete novamente as palavras.

Nada.

Enfurecido, chuta um móvel da sala, deixando quebrar uma estátua. Ele e a figura quebradiça se olham e Constantine tem uma idéia. O mago se dirige para o velho demônio em forma de senhora, segura seu braço fortemente e pergunta se ela poderia descrever o general da horda que o caçava.

— Sim.

— Pode me conseguir barro?

— Olha ao seu redor, moço. Há merda pra todo o lado, pode usá-la.

— Merda vai ter que servir.

Com um punhado de excremento nas mãos, ele começa a moldar a forma do general, seguindo a descrição da velha. Com a unha, escreve nas costas do boneco o nome de Flégias, entoando uma pequena canção em outra língua. Seguindo uma antiga tradição egípcia de fazer cair os inimigos, Constantine joga a estátua de merda no chão, a amaldiçoa, cospe nela quatro vezes, chuta com o pé esquerdo e a apedreja.

Há um alvoroço maior na tropa, Flégias é acometido de uma repentina febre, sua visão fica turva e suas pernas começam a andar com dificuldade. A movimentação dos demônios perde a direção, como uma manada desorientada após a perda do líder. É o tempo de que Constantine precisava para continuar chamando o Deus do Trovão. Irritado, suado e sem tempo para mais palavras pomposas, Constantine vocifera:

— Thor, seu escroto desgraçado! Apareça, senão minha alma vai lhe atormentar até o fim dos seus dias!

A estrondosa gargalhada de Thor é ouvida e, em seguida, ele chega por uma das janelas da sala de armas.

— Mortal, se me perturbaste, ao menos deixai que eu me divirta às suas custas um pouco.

O filho de Odin começa a fazer novamente o seu turbilhão que se torna um portal para retorno à Terra. John Constantine entra rapidamente no vórtice com o machado em mãos. Percebe que a porta está para ceder a qualquer momento diante da força dos demônios. Sua aliada o olha. Constantine a chama. O turbilhão faz os três desaparecem, enquanto a porta se abre e um pequeno exército se vê diante de uma sala vazia.

John Constantine cai com a cara no chão, arranhando um pouco o rosto, mas sem se importar muito com isso. Enquanto se levanta, segurando fortemente seu machado, vê a sua velha aliada do Inferno partir correndo em desabalada carreira para longe. Thor desaparece, com um pequeno aceno com a cabeça, depois de sua missão terminada ao deixar o mago no local de encontro. Tudo ocorre com uma certa urgência.

Chas e Bobby estão presentes. Constantine passa por eles. Sorri ao vê-los ao lado de um cadáver no chão. Ambos não retribuem o sorriso. Patrick Leight e seus bruxos estão presentes, de mãos dadas e fazendo um semicírculo em volta da figueira.

— Constantine, liberte o nosso mestre das garras de Mefisto. Derrube a figueira com a magia desta arma. Já! — ordena Patrick Leight, sem desconfiar dos pensamentos que começam a dominar a mente do mago.

"Engraçado. As coisas parecem ter um ritmo lento agora", raciocina. "A única coisa que consigo ouvir é o meu batimento cardíaco. Ele está lento. Sinto as gotas de suor, o sobretudo um pouco chamuscado e os cigarros ainda molhados. Olho para Chas e Bobby de mãos dadas e não consigo conter um sorriso. Talvez essa jornada tenha servido para algo, afinal. Não sei o que estou fazendo aqui. Se pudesse desaparecer com simples palavras mágicas, eu o faria. Mas não há saída, tenho que libertar Carpenter. Não posso deixar em apuros a mulher que já amei."

Um som de carro interrompe os pensamentos de Constantine. Todos se voltam para o veículo e com surpresa vêem sair um demônio cambaleante, cansado e segurando a cabeça de um outro demônio decapitado. Com dificuldade, Etrigan fala sem saber exatamente a quem se dirigir.

— Sua querida Anne está a salvo. Acertamos nossas contas e estamos quites, mago. Que essa seja a última vez que lhe devo algo, pois é melhor ser torturado pelo próprio diabo!

Os olhos de Constantine soltam uma faísca. Uma faísca de vingança com destino certo.

Conclui no próximo número

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