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Hellblazer # 05

Por Délio Freire

O Prisioneiro da Figueira
Parte Final - Desencantos

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"É esse tipo de prazer que me faz continuar, sabe?" Constantine pressiona sem parar a garganta de Patrick Leight. "É essa a verdadeira mágica que move o mundo. Nada de dogmas, reuniões ou abracadabras. Não, senhor. Toda magia que o homem precisa está dentro de uma caneca de cerveja bem gelada e qualquer coisa que nos afaste disso não pode valer a pena realmente. O maior dos poderes não vale uma cerveja gelada."

Há poucos minutos, os olhos de John Constantine soltavam faíscas enquanto partia ao meio o machado mágico de Mefisto e, em seguida, voava sobre o pescoço de Leight. Agora suas mãos desprendem-se da garganta do líder da Aurora Negra, que tenta se recompor e pôr-se de pé. Não consegue porque Constantine avança novamente sobre ele com uma fúria incontida e cheia de um novo fôlego. Os bruxos que acompanham Leight nada fazem, apenas observam a luta e pedem aos seus deuses que os protejam.
Os amigos de Constantine também estão imóveis e conversam, prestando atenção na luta.

— E agora? Parece que todo o trabalho de Leight foi inútil! — pergunta Bobby.

— De certa forma, ele perdeu. — afirma Blood. — O que ele queria era libertar o seu líder, Amadeus Carpenter, da figueira em que Mefisto o aprisionara. Agora, com o machado partido, isso é praticamente impossível.

Chas o olha com uma certa curiosidade e o questiona:

— Você é amigo do John? Desde quando conhece aquele demônio que trouxe Anne?

Blood fecha a cara:

— Ontem, hoje e sempre.

Anne se cala, nervosa, ao ver o pai de seu filho esmurrar o rosto de outro homem até se tornar uma máscara disforme de sangue e hematomas. Ela é a única que tem consciência que Blood e Etrigan são a mesma pessoa, mas acha mais sábio se silenciar.

— E esses dois? Vamos deixá-los se esmurrando a noite inteira, Jason? — pergunta Chas.

— Talvez devêssemos ir embora...Não me parece que isso vá acabar tão cedo...

— E deixar John matá-lo?

— Até que não é má idéia.

— Chas, faça alguma coisa! — a jovem Bobby fala para homem que admira. — Acho que já o deixamos ir longe demais.

Enquanto os policiais recolhem Leight e os outros bruxos para dentro do camburão, os pais de Anne a confortam.

— Como eu ia saber que eles iriam chamar a polícia? — pergunta um Constantine irritado. — Me tiraram a oportunidade de acabar com o filho da puta com minhas mãos.

— Esperava que os parentes não percebessem o desaparecimento dela? — pergunta Chas, ainda meio confuso.

— Bem, se não vão precisar mais de mim...

Blood se despede dos dois e começa a ir embora, quando Constantine o puxa pelo braço, impedindo-o de continuar.

— Um momento aí, amigo.

— O que há, Constantine? Não paguei a minha dívida?

— De certa forma. Mas acho que ainda temos outra coisa a resolver.

— E o que seria?

— O filho de Anne.

— O filho de vocês.

Constantine abre um sorriso.

— Acho que os demônios sofrem de algum tipo de amnésia que não atinge os magos...

— Não estou te entendendo, Constantine. Seja claro.

— Porra, Blood! Por que acha que eu tive a idéia de chamá-lo para salvar Anne? Acha que foi apenas pelo favor que me devia? Não mesmo. Um pouco antes de entrar em contato com Leight, me lembrei que tanto eu como você estávamos naquele pub junto com a Anne. Que ela passou pelas nossas mãos e, portanto, há uma boa chance de você ser o pai da criança.

— Eu estive ao lado dela à noite passada, Constantine. E nem eu ou ela nos lembrávamos disso enquanto eu a salvava do demônio.

— Oh, claro... Com a quantidade de uísque que beberam naquela noite nem dois irmãos gêmeos iriam se reconhecer...

— E o que quer de mim?

— Um teste de DNA.

Alguns meses depois — Em um supermercado qualquer de Londres

"Inacreditavelmente estou em um supermercado comprando fraldas e comidas para bebês, ainda me lembrando do que passei. Patrick Leight na cadeia ainda não é o suficiente. Queria vê-lo morto. Chas e Bobby ainda vão me dar muita dor de cabeça. Anne está tendo uma gravidez normal e, ao meu lado, um Jason Blood cínico e mal-humorado carrega o carrinho de compras."

— O que acha dessa marca?

— Deus, o que acha que sou? Uma dona de casa?

— Vá se acostumando, papai...

— Pelo que sei, Jason, só poderemos ter certeza disso depois do DNA... Aliás, o nosso sangue vai fazer aqueles médicos pirarem...

— Pelo que sei, só estou aqui para esperar a comprovação de que você é o pai. Agora, vamos logo, defina que marca de papinha devemos levar.

— Já disse, não faço idéia.

— Por que não jogamos o I Ching?

— Por que não cala essa boca? — John Constantine retira aleatoriamente uma lata da prateleira e a joga dentro do carrinho de compras. — Será que o Sr. Destino ou o Vingador Fantasma passam por esse tipo de coisa?

— Não acho que aqueles dois têm testículos... Nunca vi figuras mais assexuadas.

— Espere aí. Preciso comprar cigarros.

Quando caminha até outra gôndola, uma velha senhora segura o seu braço com uma desconfortável familiaridade.

— Você! — exclama Constantine, percebendo tratar-se da velha diaba que fugiu com ele do Inferno. O mago se surpreende com a própria alegria em vê-la bem; suas formas eram as mesmas de quando a conhecera, mas aparentemente ninguém a via como ela realmente era devido a algum truque hipnótico.

— Meu amigo. Salvou-me a vida e cá estou para retribuir.

— Não te salvei, dona. Foi só um acidente de percurso.

— Pois este seu acidente me libertou das garras de Mefisto. É chegada a hora de te retribuir, trazendo uma mensagem que seu coração já sabe...

— Quer dizer que eu não ...

— Não. Não é. O seu amigo... que parece também vir de onde eu vim... é o verdadeiro pai da criança.

John Constantine com dificuldade segura uma gargalhada.

— Você parece estar alegre, homem, mas... vejo que gostaria de experimentar coisas novas, uma outra vida, família... Não é verdade?

Com um ar debochado, Constantine pega um maço de cigarros da prateleira, retira um e o acende.

— Se é o tipo de coisa que não vai me ver fazendo, dona, é ser um homem de família. Não nasci pra isso.

Ela sorri.

— O que qualquer homem deseja é ter um lugar pra retornar. E você, meu amigo, não é tão diferente dos outros homens como pensa.

Do nada, ela faz surgir uma rosa vermelha em suas mãos e, com muito cuidado, a coloca no blazer de John Constantine, mais precisamente no lado esquerdo do seu peito.

— Cuide bem dessa flor, meu amigo. Haja o que houver, ela é a coisa mais valiosa que você tem.

Constantine! — grita Jason Blood, chamando-o para ir embora. O mago se vira, fazendo um sinal para que o espere. Quando ele se volta para se despedir da velha senhora, ela não está mais lá. Desaparecera como num passe de mágica.

— Quem era ela?

— Uma amiga, Jason. Uma amiga que me fez pensar nas minhas vontades e nos meus desencantos. Vamos embora.

Constantine sai do mercado com passos lentos, retira a rosa e a faz girar devagarzinho entre os dedos, pensativo.

No próximo número: Constantine tem um encontro dos diabos com Noturno, Motoqueiro Fantasma e Daimon Hellstrom em um pub londrino.

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