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Hellblazer # 06

Por Délio Freire

Demônios Caminham Pelo Vale das Sombras

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Nova York — Em uma noite macabra, como são todas as noites

A boca de Edward Shoomer fica seca, provavelmente pelo nervosismo, enquanto arrasta o corpo de sua mulher para a banheira. Minutos antes, o corpo desfalecido o faz lembrar de um passarinho morto; seu rosto pálido, frágil, e seu olhar sem vida demorararão a recuperar o calor que antes transmitiam. Após assassinar a esposa e o filho, Shoomer os arrastou para o meio de um pentagrama desenhado com giz e, seguindo o ritual que lera em um velho livro, ofereceu suas almas para invocar um demônio que satisfizesse todos os seus desejos. É algo mais antigo que o mundo, sabe bem ele, a idéia de capturar demônios e subjugá-los à sua própria vontade para satisfazer suas ânsias e caprichos. Mas desta vez é diferente.

"Vou trazê-los de volta", pensa Shoomer, não tão convicto quanto gostaria. "Vou enganar o próprio demônio e uma das primeiras coisas que meu servo fará será lhes dar o dom da vida"

Ele ajeita o corpo nu da mulher na banheira. Seus braços gelados e sem vida fazem o homem pensar, por um minuto, que não terá sucesso em sua empreitada. Ele balança a cabeça, negando a possibilidade, e dá um riso nervoso pois, desta vez, o demônio não sairá vencedor. Ele está tomando todos os cuidados. Só fez o ritual após a aprovação de um ocultista inglês que conhecera pela Internet, um profundo conhecedor de velhos segredos que o ajudara a memorizar e interiorizar o ritual em cada passo. Cada passo...

Passos? O assassino treme ao perceber que não está mais sozinho em casa. Alguém pesado caminha com uma confiança capaz de pôr medo em todos os gárgulas e grifos que Shoomer pudesse invocar se tivesse prática nesses ritos. Seria o demônio em pessoa vindo buscar a alma e os corpos de seus entes queridos? Instintivamente, ele fecha a porta do banheiro, não antes sem tropeçar no corpo sem vida do filho. "Merda. Sempre no meu caminho. Levará uma surra quando voltar à vida"

Ele tranca a porta do banheiro com chave e cadeados, com urgência e confiança em sua pequena segurança doméstica. Para sua surpresa, um braço envolvido em correntes arrebenta a porta, atravessando-a e segurando-o pelo pescoço. Com força, Shoomer é empurrado de encontro à porta, de dentro para fora, uma, duas, quantas vezes fosse necessário para ele a abrir. Desajeitadamente, o aprendiz de feiticeiro, sem alternativas, acaba por abrir a porta.

A princípio, olhando de baixo para cima, Shoomer acredita que seja um arruaceiro, um maldito ladrão que Nova York teima em cultivar, com suas correntes penduradas em todo o corpo revestido em roupa de couro. Mas quando olha para o que seria o capacete, sente que aquela coisa é mais do que aparenta. A caveira em chamas quase parece sorrir quando o falso bruxo sente a verdade do que vê.

— Não... Ainda não é chegada a hora! — o homem se afasta, vociferando algumas palavras de força que havia memorizado para afugentar o diabo. — Da sexta torre de Satã virá um sinal que se vinculará com estes sabores e igualmente moverá o corpo da matéria da minha requisição. — ele faz um sinal com a mão, fazendo o monstro fixar um pouco de atenção em suas palavras.

— Eu reuni os meus símbolos adiante e preparo meus ornamentos do que é para ser, e a imagem da minha criação espreita como um dragão agitado aguardando a sua liberdade. A visão se torna uma realidade e, através do alimento que meu sacrifício lhe dá, os ângulos da primeira dimensão se tornarão a substância da terceira. — ele abaixa a cabeça e junta as mãos, como se estivesse prestes a começar uma nova prece a Satã.

— Não sou quem você pensa, homem! — o Motoqueiro Fantasma o segura pelo colarinho, forçando Shoomer a encará-lo de frente. — Não percebe o que fez? Este não era meu caminho, mas o espírito da vingança me guiou até aqui. O amor que perdeu não retornará e apenas as noites de pesadelo serão sua companhia a partir deste dia maldito. Veja em meus olhos o que você fez. Veja!

De repente, o rosto do aprendiz de feiticeiro começa a contrair, refletindo a mesma dor que sentiram sua esposa e seu filho ao serem mortos pelo homem que devia sustentá-los física e moralmente. Ele começa a chorar. As correntes do Motoqueiro Fantasma parecem adquirir vida própria, agitando-se e se enrolando no corpo de Shoomer, que entra em agonia gradativamente e, em uma morte surda, encontra a paz.

O Motoqueiro Fantasma anda pela casa do homem, em busca de algo. Ele caminha rapidamente, retirando livros dos lugares e jogando móveis no chão até encontrar o que quer na sala de jantar desnuda de objetos. Um pentagrama torto, mal desenhado com giz, está no centro, com símbolos satânicos totalmente mal feitos e gotas de sangue salpicando o chão. Calmamente, ele se aproxima e enxerga o que o possibilitará se vingar do crime desta noite. Ele pega o livro, folheia-o rapidamente e encontra um pedaço de papel com o nome do demônio que deveria ser invocado e da cidade onde ele habita. Trommon. Londres.

Londres — Algumas semanas depois

A assinatura está perfeita, apesar de John Constantine não falsificar um cheque há anos e seu conhecimento grafológico não ser profundo como gostaria. O rosto sério de Cheryl Masters, sua irmã, demonstra sua relutância em aceitar os fatos que se atropelam uns ao outros, fazendo-a cair em uma teia de acontecimentos que fogem ao seu controle. Uma dívida de jogo de seu marido a obrigou a recorrer ao irmão, o único que tem condições, mesmo que pouco honestas, de ajudá-la neste momento.

Ele entrega o cheque, que Cheryl pega sem olhar em seus olhos. Com um gesto mecânico, Constantine acende o cigarro.

— Por favor, John! Já lhe disse que não gosto que fume em minha casa!

— Cigarro não é tão mal, Cheryl. Peça ao seu amado Tony para trocar o álcool e o jogo pelo fumo; o pior que ele pode ter é um câncer.

— John!

— Desculpe, mana. — ele senta na cama de casal, ainda fumando e pegando um jornal do dia, meio amassado.

— Eu me preocupo com você, sabia?

— Não esquenta. O fumo não vai me fazer mal de novo.

— Não é disso que falo... Você está ficando velho, meu irmão. E sou a única pessoa que você pode chamar de família, além de Gemma. Vai ter um momento que ninguém mais vai querer ficar ao seu lado, principalmente com essas suas esquisitices sobrenaturais e esses seus amigos estranhos. — ela se senta ao seu lado. — Estou pensando em seu futuro.

— Futuro? Ei, você está falando com o cara que já exigiu o impossível, durante o movimento punk. Eu não sei o que quero; mas, quando souber, sei como roubá-lo, ok?

— Odeio quando mente pra si mesmo, bancando o adolescente...

— Mentiras? — ele joga o jornal para o lado e se levanta. — Esse cheque é uma mentira? Ora, por favor, não comece a me ver como um fracassado, como alguém que queria tudo e só conseguiu merda, entendeu? Faço exatamente o que eu quero e como desejo e, pra mim, essa é minha única lei. Eu sou assim; não tenho a mesma merda de vida que você e seu marido. — ele pensa em se sentar novamente, mas veste o blazer e sai bruscamente. Antes, porém, vira-se para a irmã e, com a boca cheia de raiva, dispara. — Vá se foder! Não preciso de você!

Constantine sai da casa rapidamente, sem olhar para trás, abraçando-se para evitar o frio. Perdido nos próprios pensamentos, não vê o carro que quase o atropela; em seguida, o motorista buzina sucessivamente. Ele aperta os olhos e consegue enxergar quem estava por trás do volante, deixando-o ainda mais irritado. É Tony Masters, responsável pela vida maravilhosa de sua irmã e sua sobrinha.

Em meio a acenos entusiasmados do cunhado, Constantine pega uma pedra no meio da rua e a arremessa com violência, quebrando uma das janelas do carro.

Enquanto a mulher de olhos azuis e cabelos negros se dirige ao caixa da loja de CDs, uma pergunta persiste em sua mente: "O que deu em mim? Não gosto da abordagem de estranhos, mas ele realmente me parece tão especial... tão diferente..." A moça volta seus olhos novamente para o homem de sotaque alemão que a espera e sorri, meio sem jeito. Há poucos minutos, o estranho puxou conversa, falando com um ligeiro sotaque alemão, mas demonstrando grande conhecimento sobre a cultura inglesa e a política local. Evidentemente o estranho está interessado na jovem. O que a surpreende, porém, é seu repentino consentimento.

A mulher, enquanto faz a compra, ouve o Secretário do Interior conceder uma entrevista para o rádio sobre os recentes conflitos raciais na cidade nortista de Manchester. Diversos jovens brancos invadiram a casa de uma vizinhança predominantemente composta de paquistaneses e indianos; como represália cerca de 100 jovens dessa vizinhança atacaram um pub normalmente freqüentado por brancos. A tropa de choque foi acionada para abafar os conflitos, travando uma verdadeira guerra campal com os dois grupos étnicos, que atiraram tijolos e coquetéis Molotov contra os policiais.

— Que loucura, hein? Parece que não se tem mais paz nesse mundo... — a balconista, uma mulher de aproximadamente 50 anos, começa a trocar opiniões com a jovem.

— Isso é culpa desse povo que teima em invadir o nosso país. As leis deviam restringir a entrada de povo não-europeu em nossas terras. Não é justo. São milhares de empregos que perdemos. — responde a linda morena de olhos azuis.

— E , como se não bastasse, temos que aturar os mutantes pedindo espaço e direitos iguais na mídia...

— O governo devia era por todos os paquistaneses, indianos, mutantes e homossexuais em uma ilha bem longe e deserta. Deviam exilar todos. Pro diabo com eles!

Assim que termina de falar, a jovem morena recebe a nota fiscal e, após abstrair-se na discussão política que teve com a senhora do balcão, volta-se para procurar o homem de sotaque alemão que a cortejara, sem encontrá-lo. Segundos antes, Kurt Wagner, ainda com seu indutor de imagens ativado, abandonou a loja.

John Constantine abandona o fliperama, chutando-o após mais uma derrota. Enquanto vai ao balcão pegar mais bebida, vê um homem usando um sobretudo, cabisbaixo. Olha para o seu rosto e, com surpresa, o reconhece, sabendo que o outro jamais o reconheceria. John o chama para beber, mas ele recusa. O mago o chama pelo nome: Daimon Hellstrom. Na TV, algumas cenas do conflito racial. Hellstrom aceita o convite, curioso em saber que tipo de homem o reconheceria.

— Não saio no Times, nem sou uma modelo da Vogue; como pode me reconhecer?

— Tenho os melhores informantes que você pode imaginar, Hellstrom... Nesse mundo, isso é o que conta. Mas me diga, o que está fazendo por esses lados?

— Estranho... Se você me conhece devia me temer, se enfurecer ou ter repugnância com a minha natureza... Mas não sinto o cheiro de medo em você.

— Se se esforçar, vai acabar sentindo o cheiro de alguns dias sem banho, velho. Relaxa, tem dias que me sinto tão só que bater um papo com o demônio vem bem a calhar. — Constantine puxa uma cadeira para o novo amigo e senta-se em outra. — Por favor. — convida, acendendo mais um cigarro.

Quando se sentam, entra no pub um homem desconhecido para a maioria, mas não para John, que o chama pelo nome:

— Ei, Elfo! Estava mesmo te esperando.

Kurt Wagner se aproxima, com o indutor ativado em uma imagem padrão que usa para a maioria das ocasiões, e aperta a mão de John. Era bom revê-lo, apesar do passado.

— Não sei como te achei naquele número.

— Basta discar 666. Você sempre me encontra lá. Me diga, como vai o filho da puta canadense?

— Ele ainda não esqueceu o incidente em Gotham.

— Ei, eu só fiz o que tinha que ser feito...

— Eu entendo isso, ele também entende... Mas Logan, não; ele jamais te perdoará...

— Bah, estranho que nem todas as feridas dele cicatrizem. — Constantine retira algo do capote — Tenho algo pra você: um CD da banda alemã Faust. Passei em três lojas até consegui-lo.

— Que tipo de música é essa? — pergunta Hellstrom, totalmente perdido na conversa, enquanto Kurt Wagner agradece ao mago.

Faust é uma banda de Krautrock, uma espécie de rock progressivo alemão, misturando várias tendências do folclore à música eletroacústica. Unindo guitarras distorcidas, construção clássica e muito ruído. Estava louco pra consegui-lo. — explica Wagner. — Obrigado, John. — ele passa uma das mãos sobre a embalagem com zelo.

— Ah, me desculpem... Kurt Wagner, Daimon Hellstrom. Hellstrom, Wagner.

A TV exibe cenas de um cinegrafista amador em meio aos conflitos raciais ocorridos em Manchester. Um homem branco, 76 anos, é espancado duramente por uma gangue de paquistaneses; ao fundo, o carro em que estava explode, se tornando uma carcaça em poucos segundos.

— Merda de racismo. Quanto mais mexe, mais fede... — diz Constantine, parando de olhar para a TV. — Primeiro fodemos com eles aos colonizá-los e agora fodemos eles aqui na Inglaterra. E posamos como coitados! Na verdade, somos metade vítimas, metade cúmplices.

— Você sabe como esse tipo de coisa me deixa? — pergunta Wagner, enquanto pede um copo de cerveja.

— Diabos! Você bebe, elfo?

— Sim, mas não na frente das crianças. — ele retoma o assunto. — Fico impressionado como a intolerância cresce a cada dia. Mata-se por qualquer tipo de diferenças. Regionais, raciais, genéticas, sexuais, religiosas...

— E a diferença é o que há. É o que torna tudo mais divertido. — afirma John

— Eu que o diga. — o demônio sorri.

— Às vezes acho que você criou a diferença.

— Não, mago. Eu não crio nada, só desfaço. Se alguém ata um nó, eu desato. Se alguém aperfeiçoa um instrumento, eu o desafino.

— Se eu sou o tesão, você é o broxa. — implica John. — Kurt, como anda aquela sua idéia de produzir uma revista voltada ao público mutante?

— Como você soube desse projeto?

— Ele tem contatos... — afirma Hellstrom, mal-humorado.

— Dificilmente sairá. Em todo o lugar que vou, afirmam que meu projeto é racista, que privilegia a raça mutante. Talvez tenha que deixar isso pra daqui a alguns anos. Os negros também tiveram o mesmo problema nos Estados Unidos quando quiseram lançar suas revistas. Parece que a única cultura que importa é a do macho, adulto e branco.

— Foi sempre assim e vai continuar por muitos anos.

— Isso foi uma previsão, John? Falando em magia, como vai a Kit?

— Não estamos juntos há algum tempo.

— Lamento.

— Eu não.

— Mentiroso... — afirma o mutante.

— Ele mente até a raiz do cabelo; está com medo de ter perdido a mulher da sua vida. — intervém o filho de Mefisto.

— Lendo mentes, Daimon?

— Não precisaria de tanto, John.

— Vá se foder!

— Comigo já são dois pra quem você fala isso, só hoje. O que vai dizer agora? Que não precisa de mim?

— Hellstrom, seu filho da puta, se continuar brincando de telepatia comigo, te despacho daqui a pontapés.

— Gentileza da sua parte. Não precisa se incomodar. — Hellstrom vira outra caneca.

— Sabem o que mais? Não tenho saco pra ficar bajulando mulher, não é meu perfil; são todas iguais.

— Foi tão difícil assim?

John Constantine olha bem nos olhos de Kurt Wagner.

— Foi uma desgraça que quase rasgou meu coração, Kurt.

— E não é sempre desse jeito?

— Merda, elfo. Você dá o melhor de si, se arrasta, tenta mudar e só o que consegue é um pé na bunda. Os beijos de outras mulheres me lembram o dela; o sorriso, um gesto nos cabelos, os olhos. A Kit é a Mary, a Jennifer, a Joann, aquela moça atrás do balcão, a velha tecendo, a puta dando o melhor de si numa cama em um motel barato ou a menina pulando corda numa rua deserta. A Kit está em todas elas.

Há um silêncio por alguns segundos.

— E isso nunca acaba, sabia? — diz Hellstrom, surpreendendo os outros dois. Ele fecha os olhos por segundos e vê o rosto de sua esposa morta, Patsy Walker, a ex-Vingadora conhecida como Gata do Inferno. Hellstrom decide não falar no nome dela, respeitando sua própria dor. — Também já cheguei ao ponto em que todas as mulheres acabam sendo uma só. Não uma em especial, como você vê, John. A eternidade me mostrou que, por dentro de toda diferença, há um ponto em comum.

— Um mesmo coração, feito do mesmo material. Apenas o de cada mulher tem a sua própria batida, o seu próprio ritmo. — diz o alemão, imitando rapidamente o controle das baquetas por um baterista.

— Sim, é exatamente isso. — concorda Hellstrom.

Isso é magia. — afirma o inglês. — Sem truques, encenações ou palavras herméticas.

— Eu sei disso e você também. — afirma o demônio. — Mas é mais fácil acreditar em truques de salão, em poderes 'ocultos' ou sacrifícios inúteis para se enxergar o óbvio. O maior poder do mundo está no seu interior. Não existe outro.

— O foda é saber o que fazer com ele...

— Desde que se faça, não há problemas, mago. Para o bem ou para o mal, o importante é fazer; não existe mal maior do que ficar parado. — Hellstrom faz um círculo imaginário com um dedo e coloca um ponto imaginário em seu centro. — Isso é Mulaprakriti, a raiz da matéria do mundo ou o ovo do mundo, para os antigos. Se girarmos rapidamente uma esfera homogênea e transparente, olhando para seu eixo giratório, veremos que ele terá a aparência de um ponto; mas voltando-a para um lado, o eixo se parecerá com a linha que forma o diâmetro do círculo. É um símbolo para o ovo da vida. O ovo é uma esfera oca, representando uma vitalidade dormente, mas completa; assim que começa a incubação, surge um ponto germinal em seu centro que irá se separar em três camadas. E assim o primeiro ponto da vida física se torna a trindade mística.

— Mas do que diabos você está falando? — pergunta o mutante.

— É merda ocultista. Que não vale nem a bosta que se faz pela manhã, ao acordar. Certo, Hellstrom?

— Eu não diria melhor, mago.

De repente, quebrando o clima da conversa, surge o som ruidoso de uma moto ao fundo, algumas correntes também se fazem ouvir. Segundos depois, com um estrondo, a porta é chutada. Todos no pub tomam um susto, inclusive John, Kurt e Daimon.

— Céus, eu quero sossego... Meu coração já não é mais o mesmo. — diz John, visivelmente chateado.

Dois motoqueiros olham para o monstro que aparece:

— Belo capacete, xará!

Lenta e assustadoramente, a cabeça do Motoqueiro Fantasma se vira, observando-os; os dois se afastam, sabendo que o que vêem não é deste mundo.

— Acho que é comigo... — Hellstrom fala para os amigos, enquanto bebe um gole maior.

— Você!

— Eu não disse? — os três começam a rir.

— Você é responsável pela morte de duas pessoas, Daimon Hellstrom!

— Eu? Mas do que está falando? — Hellstrom parece estar realmente surpreso.

— Edward Shoomer. Este nome lhe é familiar? — o rosto em chamas do Motoqueiro Fantasma se inclina, ficando próximo ao rosto do outro demônio.

— Ei, ei... — exclama John, agitando as duas mãos em sinal de calma. — Faz o favor de sentar, cabeça de fósforo.

— E quem é você? — exclama uma voz sombria e amarga, enquanto seu dono está de punhos cerrados.

John Constantine se levanta, estende a mão direita, que segura um cigarro, até a cabeça em chamas do Motoqueiro Fantasma e acende o fumo, fazendo o gesto com a mão esquerda que impede que o vento se apague.

— Eu? Ninguém realmente importante. — ele volta a sentar, tragando profundamente a fumaça.

— Espera aí! — Hellstrom se levanta, irritado. — Quer dizer que aquele idiota do Shoomer matou mesmo a esposa e o filho?

Você é Tronmon, o demônio! Você é o ocultista que se comunicava com ele via Internet, forçando-o a fazer o sacrifício! — aponta o furioso Motoqueiro.

— Internet? — exclama Kurt, olhando de forma entediada o copo de cerveja...

— O que você queria, Kurt? Tive que me adaptar às modernidades. Você sabe: em Roma, viva como os romanos... — ele se volta para o Motoqueiro. — Shoomer entendeu tudo errado... Mas por que um pequeno sacrifício incomodaria o Espírito da Vingança?

— Por que a Grande Besta merece mais do que alegorias desnecessárias e sacrifícios banais. Seu pai não ficaria satisfeito se visse um sacrifício tão inútil.

— Eu fico me perguntando porque a clientela do pub está indo embora... — exclama baixinho Constantine, irônico.

— Talvez seja hora de fazermos o mesmo, amigo. — afirma o alemão.

— Essa é a hora em que nos xingamos e caímos um em cima do outro, certo?

— Sim, Daimon. — as mãos do Motoqueiro Fantasma se entrelaçam com as correntes que surgem e se movimentam ao redor do corpo coberto pela roupa de couro.

— Amigos, obrigado pela conversa agradável. Eu precisava disso. — ele aperta a mão do mago e, em seguida, a do mutante. Respira fundo, ligeiramente entediado em ter que retomar o seu papel de vilão. Retira o capote, mostrando sua fantasia infernal e um enorme tridente que surge misteriosamente de dentro da capa. Os poucos clientes remanescentes do pub começam a correr em uma desabalada carreira, empurrando John e Kurt.

— Morra, Daimon! — berra o Motoqueiro Fantasma, avançando sobre o outro com uma fúria vingativa, empunhando as correntes.

— Que a fúria de Set me dê força para mandá-lo ao Inferno, maldito! — grita Hellstrom, abrindo os braços e olhando para o alto, como se tentasse comungar com o mal.

Ouve-se a quebradeira e, enquanto a briga rola solta, Kurt e John saem papeando.

— Volto para os Estados Unidos ainda hoje. — diz o mutante. — E você? O que vai fazer?

— Tenho um compromisso.

— Qual?

— Pedir desculpas à minha irmã.

:: Notas do Autor



 
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