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Hellblazer # 07

Por Délio Freire

Prólogo

Na Casa de Mistérios, a conversa e agitação incessantes causadas pelos dois irmãos começam a incomodar Gregory, que carrega na boca um livro de capa dura e empoeirada e caminha com passos pesados em direção ao quarto onde está seu mestre.

— Mas por que demorou tanto? — pergunta Caim, agitando as mãos.

Aurgk! — o gárgula responde com um pequeno grunhido de insatisfação, soltando o livro, e sentando-se, desajeitado.

— Sim, sim! Eu sei que é chato, mas temos que tentar, está bem?

Caim volta seus olhos furiosos para o irmão, enquanto pega o livro do chão e lê o título.

Djavulens Oga... Talvez assim uma certa pessoa possa fechar seus olhos e nos deixar em paz!

Abel pega um bonequinho na forma de Morpheus, agarra-se a ele e esconde o rosto em seu cobertor, tremendo, deixando apenas os pés com as pantufas à mostra.

— A-a culpa n-n-não é mi-minha, irmão. — diz, escondido em seu leito.

— E de quem seria, ameba falante? Minha? — ele ergue o livro, quase jogando-o na cabeça do irmão.

— E-e-estou sem do-dormir há três no-noites... E você... hã... a-a-adorava me contar hi-histórias antes de do-dormir, quando e-éramos pequenos... Talvez pu-pudesse fu-funcionar...

— Lindo! Maravilhoso! Você tinha que se lembrar disso...

— P-por favor... — o rosto gordo de Abel começa a aparecer entre as cobertas.

— Vermezinho desprezível! Já estou aqui com o livro, não estou? Será que eu poderia ter, ao menos, um minuto de sua atenção à fábula que vou contar?

Mais à vontade, Abel ajeita-se na cama, arrumando seu travesseiro e o cobertor, enlaçando o seu boneco com os braços. Caim, aceitando o seu papel de narrador, ajeita os óculos e abre o livro.

— Era uma vez um antigo e lendário povo guerreiro, de grande orgulho, capaz de realizar milagres com sua tecnologia. Como resultado de tamanha ciência, acabaram por contatar um outro povo alienígena de notável valor. O orgulho, porém, acabou conduzindo-os a uma guerra para ver quem seria superior. Uma guerra que durou séculos...

— M-mais ou me-menos como nós.

Caim ignora o comentário e prossegue.

— Nada parecia importar a esse povo lendário a não ser dizimar os alienígenas. Para tanto, decidiram criar um canhão que contivesse a arma mais destrutiva que se teve notícia: a Equação Antivida. Mas, ao liberar tamanha força, toda a existência num raio de 200 anos luz foi dizimada, restando apenas dois planetas, que voltaram a um período primitivo e tiveram que passar novamente pela Roda da Evolução. Um desses planetas, Nova Gênese, trilhou o caminho da busca espiritual e da paz, guiados por seu líder, o Pai Celestial. O outro, Apokolips, andou pela via da dor e da guerra sob a tirania de seu soberano. E é a história de um dia na vida desse cruel governante de Apokolips que irei contar a você: o dia em que a dor lancinante de um terçol o incomodou mais do que tudo. Vou contar a você a história chamada...

O Olho de Darkseid
Parte I *

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"Enquanto Darkseid examinava seu olho com um espelho na mão, seu comitê de conselheiros agitava-se. Pesquisadores, curandeiros, médicos das mais variadas galáxias e bruxos de inúmeras dimensões já haviam tentado curá-lo através de todos os sortilégios, sem resultado.

— Qual a razão disto acontecer comigo? — o furioso senhor de Apokolips estava sentado, observando diversas vezes o olho ferido — Será que ninguém pode me dar a resposta?

Nesse momento, um de seus conselheiros mais próximos chegou com passos rápidos, o rosto coberto por um capuz.

— Será que você, Desaad, me trará a cura?

— Oh, não, milorde. Não serei eu o portador de tamanha dádiva. Mas posso lhe assegurar que a causa do sofrimento é a mais inusitada possível.

Darkseid ajeitou-se em seu trono, pondo o espelho de lado, esperando com ansiedade por uma resposta.

— Pois a causa de seu terçol é, certamente, a virtude de uma mulher — um silêncio se fez entre os presentes, como se acabassem de ouvir a mais inoportuna das piadas.

— Desaad... Se pensa que irá...

— Acalme-se, senhor. Como nosso ambiente é inadequado para o surgimento dessa doença e usamos dos mais avançados aparelhos para conhecê-la, nossa única resposta se encontra num antigo provérbio terráqueo: "A virtude de uma mulher é um terçol no olho do diabo."

Darkseid levantou-se, com as mãos para trás, pensativo.

— Se isso é verdade, não há muito que possamos fazer... — voltou a sentar-se, desiludido — Maldito seja, Scott Free! (**) O que acontece entre Nova Gênese e Apokolips é tragédia; quando a Terra se interpõe em nosso caminho, tudo vira comédia.

— Mas, senhor, talvez seja na representação dessa comédia que se encontre a solução. Uma doce e definitiva solução. Basta apenas saber escolher o ator apropriado para retirar a virtude dessa mulher tão especial.

— Hmm... Talvez você tenha razão. E talvez ele tenha que ser humano, para chegar mais facilmente a ela. Um humano sem escrúpulos, de caráter duvidoso e que tenha conhecimento no trato com demônios, — ele sorriu, tristemente — porque uma mulher também não deixa de sê-lo.

— Acho que conheço o homem ideal para a tarefa, milorde. Acompanhe-me — disse Desaad"

"Em uma das cidades mais antigas de nosso mundo, chamada Londres, morava um mago vil, trapaceiro, de baixa índole e costumes hedonistas; um verdadeiro filho da puta, em resumo. Não exibia seus poderes, não se gabava do que fazia porque sabia que quem conhecia das coisas ocultas nada revelava e nada dizia, respeitando os quatro princípios das antigas tradições mágicas: querer, ousar, saber, calar.
Nosso amigo, se seria prudente chamá-lo assim, não conseguia dormir nessa noite, atormentado por pesadelos dos mais diversos. Mas um, em especial, o inquietava por sua constância: uma jovem e bela mulher aparecia em seu quarto e diálogos banais de amor eram travados até ele conseguir a promessa de poder provar de sua fruta que, não sabia ele, também possuía uma certa dose de veneno. De repente, quando estava prestes a desnudá-la, suas formas arredondas e apetitosas desapareciam, transformando-se em fumaça. E ele, revoltado, acordava.

Mas nesta noite, quando abriu os olhos, duas sombras estavam ao seu lado. A maior ficou à esquerda e a menor à direita.

— Adorável escolha... — o rosto pétreo de Darkseid examinou detalhadamente o rosto do homem, tão próximo que quase era possível sentir o mau hálito do mago naquela manhã — Pode realmente ser o personagem que faltava.

— Veja a feição bruta e o ar indolente.., — o conselheiro apontou, com seu dedo longo e retorcido. Em seguida, deu um tapinha no peito do mago, como se este fosse uma mercadoria à venda — Ele é a verdadeira representação da pusilanimidade de sua espécie. A segurança e o escárnio quase pulsante querendo sair enquanto nos observa, indiferente.

— Tem razão, Desaad. É ele!

— Vão se foder! — disse o mago, usando de seu mais fino linguajar ao se levantar — As duas putas velhas poderiam me dizer o que fazem no meu quarto?

— Quero fazer uma proposta irrecusável. Oferecer as maiores riquezas em troca de algo que apenas você poderia conseguir.

O homem tinha ido ao banheiro lavar o rosto. Enxugou-o com a toalha, como que para afugentar as duas figuras do outro mundo.

— E por que deveria fazer algo para você, cara feia?

— Tenho muito poder. Em troca, posso lhe conseguir o que desejar.

O ocultista sorriu de lado, desprezando a proposta.

— Pois enfie seu poder...

John Constantine! — Darkseid o surpreendeu ao dizer seu nome — Não me obrigue a ser descortês num momento delicado para mim. Poderia obrigá-lo a fazer o que quero, mas para esse tipo de trabalho o ânimo elevado é imprescindível. Diga-me, — o soberano de Apokolips aproximou-se novamente de seu ouvido — não há nada realmente que deseje de mim?

— Um favor.

— Sim, é isso que quero de você.

— Não, não quis dizer isso. Eu quero que você fique me devendo um favor. Um trunfo assim na manga sempre pode ajudar... Principalmente quando amigos quiserem me surpreender. É isso que desejo, cara de pedra. — Constantine olhou firme para Darkseid — E eu vou cobrar. Não importa em que porra de mundo você esteja, eu vou estar lá, batendo em sua porta!

— Nada mais justo.

— E o que eu tenho que fazer?

— Seduzir uma mulher. Levá-la para a cama — intervém Desaad — Mas lembre-se, um ataque impulsivo pode surtir mais efeito que uma estratégia lenta. É necessário que use de ternura e paixão com uma pitada de determinação arrojada e ausência total de dúvida.

— Não precisa me dizer como fazer — Constantine começou a se vestir enquanto o conselheiro tagarelava em sua cabeça. — Com uma cara dessas você é o último com cacife para querer me ensinar...

— Um certo ardor latino e refinamento ajudarão... — prosseguiu Desaad — Não, não... Esqueça o refinamento; seria forçado demais. Tente conter sua insensibilidade e sua perversão, mas mantenha seu ceticismo aos ideais contemporâneos e fale de sua utopia juvenil fracassada.

— E como ela é?

— Apaixonada, caprichosa e auto-afirmativa.

— Como se chama? — Constantine, terminando de ser vestir, colocou um maço de cigarros no bolso.

— Lois Lane.

O mago repuxou seu sobretudo. Sentiu que estava pronto."

— C-Caim...

Abel está com um dedo levantado, como quem tem uma pergunta a fazer. Seu irmão coloca as duas mãos sobre o rosto, tentando controlar-se para não xingá-lo. Retira-as em seguida, tentando se refazer e buscando seu sorriso mais cínico para responder ao irmão.

— Sim?

— N-não en-entendo... Esses personagens pa-parecem f-familiares... — ele bota a mão sobre o queixo, tentando puxar pela memória — Mas h-há algo e-estranho...

— E o que seria? — Caim cruza as pernas, em atitude contemplativa, esperando uma grande observação.

— S-será que essa mulher é r-realmente tão vi-virtuosa como você diz? E isso p-poderia ca-causar um terçol n-nele? E como os h-habitantes de Apo...hã... Apo... — Abel desiste de dizer o nome do reino de Darkseid — E como e-eles puderam vi-viajar s-sem serem n-n-notados?

Caim balança a cabeça, sorrindo fraternalmente.

— Aproxime-se, irmão.

— P-por quê?

— Deixe disso... Venha!

— Es-estou a-aqui, Caim. — Abel estava ao pé da cama.

— Bom garoto. Diga-me: essa história é uma fábula, não é mesmo? — as pernas de Caim mantinham-se cruzadas e seu rosto, supostamente sereno.

— S-sim...

— E quem a está contando?

— Vo-você, Caim.

Numa explosão repentina, Caim levanta-se e começa a berrar:

— Sim! Eu estou contando uma fábula! Eu posso retirar personagens, exagerar fatos, alterar nomes, fazer o que bem entender! E, se você não me interromper, gostaria de continuar! (***)

Abel já estava na outra extremidade da cama, encolhido e envolto no cobertor.

— Nossa história prossegue agora em uma estrada da pacata cidade de Smallvile, onde Lois Lane visita seus sogros, a família Kent. À espreita, escondidos atrás de uma árvore, o ocultista e seu acompanhante de Apokolips esperavam o carro de Jonathan Kent passar, o que ocorreu poucos instantes depois. Constantine viu Desaad fazer um pequeno gesto com as mãos e o motor do carro parou. O mago, percebendo sua deixa, desceu a ribanceira até chegar à estrada, imediatamente puxando conversa com o velho fazendeiro, oferecendo ajuda e um acerto no motor do carro que — ó surpresa — começou a funcionar logo após os toques de Constantine. Agradecido, o fazendeiro ofereceu carona e hospitalidade a seu novo amigo. Não sabia que, invisivelmente, na parte de trás do carro, Desaad sentou-se rindo, agitando as pernas."

"Quando chegaram à casa dos Kent, quase podiam ouvir ao fundo o som majestoso do cravo, que Martha tanto adorava tocar. Apresentada a seu novo hóspede, ela mostrou-se encantada com o cavalheirismo de John Constantine. Desaad, tomando a forma de um gato preto, esgueirava-se pelos cantos, vigiando a tudo e todos em nome de seu soberano. Sabia que tinha escolhido o melhor dos farsantes.

— Meu amigo, venha até o quarto de hóspedes.

— Nem sei como agradecer tanta generosidade. — A ironia de seu comentário passou desapercebida pelo ingênuo dono da casa.

Pouco antes de chegar ao quarto, Jonathan e John passaram pelo quarto de casal de Lois Lane e seu marido. Imediatamente os dois foram apresentados, trocando apertos de mão e sorrisos. Com um gesto rápido, como se tivesse se lembrado de algo, a jovem senhora aproximou-se de seu sogro.

— A família Freire ligou há poucos instantes; eles esperam por vocês há três horas.

— Oh, Deus... Como estou esquecido... Me dêem licença... Me dêem licença... Martha! Martha!

Assim que o fazendeiro e sua esposa retiraram-se, um pequeno silêncio surgiu entre John Constantine e Lois Lane. O quarto do casal passava por uma nova pintura. Ainda havia muito a fazer e a jovem pintava as paredes de branco.

— Parece que seu marido é bem ocupado...

— Por que diz isso? Ah, a pintura... Não me incomoda. Alivia minha culpa por não ser uma esposa convencional.

— Não combina com você esse serviço — ele se aproximou um pouco dela, mas mantendo uma distância segura, que preservasse suas segundas intenções.

— Não me conhece há pouco tempo para dizer o que combina ou não comigo? — ela abandonou os pincéis, puxando-o pelas mãos — Quer conhecer a cozinha? Está nova.

— Por que você ri assim? — perguntou Constantine, surpreso.

— Pelo jeito como você me olha...

— Você o ama?

— Sim, muito. Ele é forte, sereno... Gosto muito dele.

— Ah... Deve ser maravilhoso. Nunca brigam? Seu marido não tem falhas?

— Ele é barulhento quando come e não lava os pés.

— Parabéns!

O mago resolveu voltar para o quarto do casal. Ela se adiantou e fechou a porta em sua cara. Novamente sorrindo, a moça lhe fez um pedido:

— Feche seus olhos e tente me definir — ela aproximou-se dele por trás.

— Seus olhos são lindamente escuros, mas é sua cintura fina, seus seios e a forma de suas coxas que me dão vontade de...

— Que horrível! Não nos conhecemos há cinco minutos!

— Nunca beijou outro homem?

— Nunca!

— Acho que vou ser esse homem.

— Ah, claro. Você é um verdadeiro Don Juan...

Ele se aproximou de Lois Lane com ímpeto, beijando-a a força.

— Isso foi um beijo? — disse ela, afastando-se com deboche — Deixa eu te mostrar como se beija!

A ternura e a ousadia pegaram de surpresa o homem, que começou a rir.

— É assim que ama o seu marido, vadia?

— Vadia? Eu amo Clark Kent. O que eu fiz com você foi apenas uma brincadeira, um passatempo inofensivo. Adoro uma ousadia, mas o meu amor é para Clark. Engraçado como os homens sempre acreditam... Basta um pouco de sorriso, uma insinuação, e vocês caem na piada...

— Como eu caí? — falou Constantine, ligeiramente confuso.

— 'Brinquem comigo', dizem os homens, 'encham meus ouvidos de mentiras e juro que acreditarei'.

— Você pensa que é tão invulnerável e irresistível. Tão pedante; gostaria de não ter te conhecido. Seu marido acredita em suas mentiras? Não sabe de suas traições?

— Não minto para ele. Nunca o traí dormindo com outro homem e jamais o farei — nesse momento, o terçol de Darkseid doeu um pouco mais. O gato preto, que a tudo acompanhava, eriçou os pêlos.

Ele a agarra com força, segurando seus pulsos.

— Não brinque comigo. Não sabe do que eu sou capaz pra ter você.

— Que tipo de homem é você? — ela olhou em seus olhos, desafiadora.

— Sou um canalha. Talvez não sejamos tão diferentes. Faço da falta de princípio o meu princípio; do vício, minha virtude; da orgia, minha abstinência; da impiedade, minha religião.

Ela se desvencilha dele.

— Você não é um homem comum... Você é capaz de me fazer uma ferida mortal...

— É o que mais desejo! — ele volta a segurá-la.

— Engraçado... Dentro de meu íntimo também gostaria; mas nunca vou deixar isso acontecer.

— Claro, deve preservar o seu maridinho...

Várias buzinadas fortes atrapalharam a conversa dos dois; ela começou a correr para fora da casa.

— Clark! — gritou Lois Lane

John Constantine passou uma das mãos pelos cabelos e acendeu um cigarro. Seu jogo estava apenas começando e ficava cada vez mais perigoso."

A seguir: O final dessa fábula você e Abel conhecerão em 30 dias.

:: Notas do Autor

* Livre adaptação do filme O Olho do Diabo de Ingmar Bergman

** Scott Free, também conhecido como Sr. Milagre, fugiu de Apokolips, indo se refugiar na Terra. Darkseid o culpa pela conexão que precisa ter com a Terra.

*** Embora use de personagens e conceitos do universo DC/Vertigo, a história contada por Caim à Abel é uma fábula e, portanto, não têm nenhuma relação com os fatos e a cronologia do Universo Hyperfan.



 
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