hyperfan  
 

Hellblazer # 12

Por Délio Freire

Refugos, Viagens e Modelos
Parte Final

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
:: Próxima Edição
:: Voltar a Hellblazer
:: Outros Títulos

Os ouvidos de John Constantine parecem arder com a série de rituais, cálculos matemáticos e conceitos de mecânica quântica que vez ou outra parecem levar a lugar algum por sair pela boca de um auto-intitulado representante da Ordem dos Magos Eletrônicos, seu velho amigo Pete. Ele volta com o que considera ser uma proposta irrecusável para Constantine e que levará a ambos para uma esfera de poder inimaginável nos graus do esoterismo.

— Sua proposta me parece tentadora. — com o canto do olho, Constantine finge demonstrar interesse pela proposta — Mas acho que não tem como ajudá-lo... Que diabos! Não tenho interesse em ficar manipulando mentes ou coisa parecida! Muito pelo contrário.

— Me ouça, Constantine! Me ouça! — Pete fica agitado, debruçando-se suavemente sobre seu laptop — Minha posição dentro da Ordem é frágil, diria até insustentável; se eu não virar a mesa, eu é que serei o alvo.

— E eu com isso?

— Não percebe, homem? Já faço parte do jogo, conheço as regras e finjo fazer o mesmo jogo que eles! Com sua ajuda, posso virar a mesa! Posso destruir tudo o que eles têm e criar uma nova ordem onde eu e você seremos os soberanos absolutos.

— Sei... — o mago parece não levar em consideração a palavra do outro — Pete, ouça bem...

— Não me fale de novo daquela vez que te ajudei!

— Duas vezes! Porra, foram duas vezes que você me negou ajuda!

— Lá vem você de novo com essa história de te negar duas vezes, John... Pelo que eu me lembro, isso aconteceu uma única vez!

— O caralho! — a voz do mago britânico soa amarga; seu passado volta novamente à tona — Eu, você, a merda do Johnny Rotten e o Syd... Uma merda punk cheia de utopia que não levaria a lugar algum!

A Noite das Putas! — Pete põe a mão na cabeça, pega um copo de whisky e o bebe rapidamente — Você não vai se lembrar de uma noite...

— A idéia foi sua! Invadir uma clínica de abortos, começar a barbarizar as mulheres que pareciam vacas trêmulas diante do abatedouro e chutar a bunda de uns açougueiros. Simples assim.

— Foi divertido! — com certo orgulho, Pete deixa sua mente voltar também ao passado.

— Arranjamos umas roupas de enfermeiros, colocamos máscaras cirúrgicas por cima de nossos trapos e cabelos desgrenhados. Fomos até as últimas conseqüências. Syd deve ter bolinado quase todas as grávidas, Johnny lambia a outra metade e você gostava de chutar os médicos, enquanto eu fiquei ligado na atendente com peitos enormes.

— Teria sido melhor se Johnny não tivesse deixado o cigarro cair e começado o incêndio.

— Não! — afirma Constantine — Esse foi você, tenho certeza!

— Mas eu nunca fumei! — o rosto inocente de Pete beira o deboche.

— Nessa época, você tinha todos os vícios.

— Putz. Sua memória, quando melhora, chega a ser constrangedora...

— A merda começou a feder quando vimos aquele grupo de ativistas anti-aborto chegar! — prossegue John — Fomos tão idiotas que não os percebemos à espreita bem antes de nós! Eles chegaram e começaram a botar pra quebrar e queriam que os ajudássemos; pensavam que pertencíamos à mesma causa que eles.

— E ficamos levando porrada dos dois lados!

— Sim... Nós não estávamos de lado algum...

— Tá! Mas chegue logo ao ponto. Conheço bem a história: a polícia chega e te prende.

Constantine sorri de lado.

— Não sejamos tão simplistas, não vamos deixar o Chas aqui achando que é só isso. — Chas, o único amigo de Constantine, está dividindo a mesa com eles, mas dorme em sono profundo graças a uma bebedeira inesperada — Johnny e Syd, quando os militantes chegaram, acabaram fugindo pelos fundos entre chutes e pontapés. Você parecia estar gostando do fogo que se alastrava, parecia tão fascinado quanto uma criança. Quando a sirene tocou pela primeira vez naquela manhã, você já estava fugindo. Mas eu levei um pontapé e fui de cara ao chão. Fui preso. Colocado na viatura. Lembra o que aconteceu depois?

— Não. — Pete mente descaradamente.

— Um policial te olhou em meio à multidão, te puxou pelo braço e te colocou na minha frente. Quando o tira te perguntou se me conhecia, você negou. E foi embora.

— Você teria feito o mesmo! — afirma Pete.

— Se eu teria feito? Talvez. Com mais estilo e verdade? Com certeza. Só não fico lambendo as botas dos que jogo pro chão sob pretexto de uma amizade que não existe.

— Calma...

— Foda-se! — quando o mago já está para ir embora, Pete o puxa pelo braço.

— Não estamos aqui juntos gratuitamente. — o olhar de Pete parece hipnotizado, quase em transe — Tudo isso é intencional, fruto de uma conspiração maior! Nós somos os avatares de uma nova era, John! Apesar de ter entrado numa sociedade que quer me matar e sugar minha energia antes que eu deixe de ser sócio, já arrumei um conjunto de provas suficientes de suas intenções para o controle do mundo!

— Porra, você ainda mistura todas as drogas em uma noite? — Constantine tenta se desvencilhar dele — Quem mais faz parte dessa sua conspiração? O Papai Noel ou o titio Crowley?

— Você se lembra da SNS, a Stoke Newington Sorcerers?

— Continue... — o interesse do mago aumenta, fazendo com que Pete o solte e prossiga a conversa.

— A ordem a qual pertenço tem ligações com a SNS, que, como você sabe, pretende ter o controle de todo o mundo através de um processo de dominação mágica que começou com o movimento punk vinculado à Magia do Caos e afirmando que cada um pode e deve ter as rédeas da sua vida. É um faça-você-mesmo místico. E então, vai me ajudar a desbaratar esse grupo e tomar o poder desses idiotas?

— Talvez não seja uma idéia tão má assim, afinal...

Em meio a loucura, paranóia e sussurros de bêbados pelo bar, Constantine
traça um plano rápido e bem definido com Pete para destruir a estrutura interna e externa da Ordem dos Magos Eletrônicos. Alheio aos reais pensamentos de John Constantine, seu amigo acredita estar fazendo uma forte aliança contra seus antigos aliados.

A noite fria parece não perturbar os dois andarilhos noturnos que, passando por alguns prédios abandonados e igrejas carcomidas pelo tempo, parecem não estar em contraste com o ambiente por que transitam até chegar ao seu destino.

"A ordem que pretensamente une ciência e misticismo parece não ter um mínimo de condições financeiras..." — conjectura um sonolento Constantine. A noite passada foi difícil para ele, um devoto involuntário da insônia, e mesmo não tendo ultrapassado sua cota de álcool, o apelo desesperado de Pete lhe causa muitos transtornos — "Que isso valha a pena e que eu não perca o meu tempo." — ele abre um largo sorriso para o companheiro.

Em meio a lembranças antigas, os chamados sentimentos de amizade entre eles jamais haveriam de voltar ou se estreitar. Muito tempo se passara, muita água havia caído em várias noites de chuva e, por mais que o mago britânico não goste de admitir, sua vida é calcada na solidão.

— Chegamos. — a voz de Pete está modificada, ligeiramente emocionada por estar diante do templo de sua tão falada ordem.

— Sério? — Constantine joga o corpo para trás ligeiramente, pondo as mãos na cintura e olhando para o topo do prédio — Aonde estão os elfos, as gárgulas e os elementais vigiando a área?

— Lamento se o decepcionei, John. Mas nossa ordem se baseia na discrição.

— Porra, Pete. Ainda não aprendeu a não levar a sério as coisas que tenho pra dizer?

A porta do prédio está aberta. Tomando a frente, Pete sobe os degraus pausadamente, seguido por um atento John Constantine, que observa cada detalhe que chega aos seus olhos.

Inicialmente, uma pequena tela enfocando com detalhes o renascimento da fênix de dentro de suas cinzas está pendurada em uma parede; quando acaba a escada, a visão do ambiente é a mais simples possível. Três cômodos comuns estão adaptados como o templo: há uma cozinha, dois banheiros e duas pequenas e abafadas salas. As salas, por sua vez, estão bem divididas, sendo a primeira para as reuniões ou palestras e a segunda para os cultos ritualísticos pontuados pelo som de um teclado.

Constantine se aproxima do instrumento e seus dedos discretamente tocam uma progressão de acordes, um intervalo entre o fá e o si. Pete olha para ele, em sinal de reprovação, como se Constantine estivesse profanando aquele local sagrado (*).

— Desculpe. Não resisti. Mas onde estão as pessoas?

— Lá embaixo.

— Sério? Ainda vamos caminhar mais?

— Lembre-se, Constantine. Procure ser discreto, avisei-os que traria um valoroso amigo e futuro aliado; é a nossa melhor oportunidade para tomarmos o poder que eles detêm.

— Sim, sim. Claro. Como pude ser tão relapso?

Ignorando o deboche do companheiro, Pete vai até a cozinha e abre uma porta com uma passagem secreta, indicando que ambos terão que descer novos degraus.

— O que está em cima é igual ao que está embaixo? — pergunta Constantine.

— O quê?

— Nada... Nada... Foi só uma piada...

A música eletrônica, sem nenhum elemento percussivo, mas que fortemente induz ao transe, pontua a descida dos dois homens e cada vez soa mais forte. Faíscas parecem surgir em meio à escuridão e, logo após, finalmente John Constantine consegue ter uma visão completa do ambiente. Várias cadeiras estão espalhadas pela sala e, em cada uma delas, homens conectados aos seus computadores parecem ficar repetindo a mesma canção, o mesmo mantra.

— Essa é a Bobina Tesla, essencial para os rituais de ordem mais baixa, no contato com elementares impuros ou demônios inferiores ao quinto círculo. — como se estivesse conduzindo o outro por uma Disneylândia bizarra, Pete fica excitado — O Gerador Van de Graff potencializa ao máximo os nossos rituais através de impulso eletromagnéticos chegando diretamente em nossos cérebros. Veja como este homem entra automaticamente em contato com seu Eu Superior e seu rosto parece o de um iluminado.

— Fazendo essa careta, parece que ele tá com diarréia, pra falar a verdade...

— John, consegue perceber o que vê? Pesquisadores da mais pura safra, potencializando suas energias mágicas! Em pouco tempo, essa ordem será a controladora do Universo. Tudo passa pela tecnologia: dados, dinheiro, nossa intimidade, as grandes decisões, material estratégico de grandes corporações! Tudo acessível a um passo nosso.

— Ainda apegado a bagatelas, Pete? — a voz suave surge por detrás dos dois homens — Gostaria que percebesse o quanto seu ego é grande e como tem tanto caminho até eliminá-lo por completo, até atingir a iluminação espiritual. E esse é o nosso verdadeiro objetivo, por detrás de tanto maquinário e acessórios ritualísticos. Não vai me apresentar ao nosso novo amigo?

— Esse é John Constantine.

— Prazer, acho que seu nome não me é estranho. — o senhor de óculos, o líder da seita, estreita os olhos, buscando reconhecê-lo — Realmente, senhor Constantine, você me é familiar. Talvez deva ter conhecido algum parente seu...

— Pode ser. Meus antepassados aprontaram muito mundo afora; não seria estranho se você tivesse se deparado com alguns deles em algum momento.

— Entendo. De qualquer forma, imagino haver curiosidade sua em conhecer e, talvez, ingressar na ordem?

— Sem dúvida.

O velho, após a aquiescência do mago beberrão, coloca um dos braços sobre seu ombro e o puxa para conversar sigilosamente. Após alguns minutos andando pelo templo lado a lado, eles se separam e, nesse momento, Constantine faz um sinal positivo com a cabeça. Tão lentamente que é quase imperceptível, a não ser para Pete.

Em um acesso de loucura, Pete começa a se dirigir furiosamente para um conjunto de máquinas radiônicas que, em sua aparência, parecem caixas que contêm um conjunto de montagens eletro-eletrônicas com diversos botões de sintonia, chaves de seleções e uma placa de fricção para o uso do praticante.

Arrebentando fios, chutando a aparelhagem até encontrar um bastão de ferro que o ajude em sua fúria destruidora, Pete não é interrompido, mas observado por um conjunto de atônitos seguidores da seita que, apenas alguns minutos depois, o impedem de continuar o ato. Dois homens gigantescos seguram cada um de seus braços e o colocam diante de seu líder.

— Mas que indisciplina é essa? — pergunta o mestre.

— Você está acabado, velho! Acabado! — a respiração de Pete é ofegante — Eu e Constantine viemos para foder com sua estrutura, pra acabar com toda essa sua merda de magia tecnológica e usá-la ao nosso bel-prazer! Seu poder não mais lhe pertence!

— Meu caro senhor Constantine, com o devido respeito que existe entre os irmãos que praticam a mais sagrada das artes... O que ele diz é verdade? O senhor está disposto a me confrontar? Diga!

O rosto suado de Pete olha fixamente para John Constantine que, com um ar seguro, franze a sobrancelha para dizer em seguida:

— Não sei de nada disso. Como disse, sou um irmão das artes mágicas e, mesmo que não seja adepto de escola nenhuma, de ordem esotérica alguma, não há porque nos confrontarmos ou sermos inimigos. Apenas te digo que conheço o Pete há muito tempo e tal comportamento é bem estranho; ele insistiu muito para que eu viesse ao templo conhecer a Ordem. Mas, se soubesse que era pra isso, não viria. Peço desculpas pela confusão!

— Filho da puta! Não mente! Você sabe! A gente combinou tudo! Usa o teu poder pra ferrar os caras!

— Poder? — Constantine sorri, acendendo um cigarro — Não tenho poder algum a não ser ter a força de ser o que eu sou e de fazer o que eu quero.

— Desgraçado! Filho da puta! — Pete enumera vários elogios ao seu "amigo".

— Aceito suas desculpas, senhor Constantine. — o mestre do templo é generoso — Peço que se retire, que mantenha o silêncio que caracteriza todo bom irmão e nenhuma retaliação será feita contra você. Mas Pete... Irá sofrer graves conseqüências por seus atos.

Fogo! — a destruição causada por Pete finalmente surte efeito e um incêndio se inicia.

Com um sorriso cínico, Constantine sai, não sem antes acenar para seu velho conhecido, que permanece gritando impropérios. Antes que Pete o negasse pela terceira vez, Constantine decidiu negá-lo pela primeira vez, safando-se da sua traição e do canto da sirene da polícia que começa a surgir nesse exato momento.

:: Notas do Autor

(*) Na Idade Média, teóricos da Santa Inquisição proibiram uma certa progressão de acordes musicais (a mais conhecida é o intervalo entre fá e si), sob o argumento de que ela causaria a evocação do capeta. A esta progressão deram o nome de Diabolus in Musica (literalmente "diabo na música").


Assim como são doze os signos do zodíaco, doze os meses do ano, doze os apóstolos de Cristo, encerro a primeira fase de John Constantine pelo Hyperfan em doze edições. Espero que minha passagem em sua série regular tenha sido do agrado de vocês e aproveito para agradecer aos eventuais leitores que acompanharam todos os números. Não deixem de acompanhar o personagem na mini-série "O Estranho e o Louco", no especial surpresa do mês de abril e em eventuais séries que possam surgir. Ah! E não se esqueçam: Amor é a Lei, mas Amor sob Vontade!



 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.