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Hellblazer # 11

Por Délio Freire

Refugos, Viagens e Modelos
Parte I

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Quando a porta do pub é aberta, o cheiro de mijo velho e cerveja falsificada espalhada pelos cantos se insere pelas narinas de John Constantine, trazendo uma sensação de reconhecimento e lembranças nostálgicas agradáveis e outras nem tanto. Andando com passos leves para não acordar o dia, o mago prossegue seu caminho.

Cumprimentado os amigos que não via há bons tempos, Constantine passa por um homem que fuma um cigarro de maconha despreocupadamente, uma prostituta balzaquiana que oferece seus serviços sem se preocupar com o ridículo de suas coxas disformes convidarem para um prazer que inexiste e, mais ao fundo, um homem bêbado inchado e sem nenhum resquício de equilíbrio para se levantar sozinho.

Chas?! — a surpresa é tamanha que o mago quase deixa cair seu cigarro. Quase — O que diabos aconteceu com você, homem? O fundo do poço é território meu, esqueceu?

— Me deixa aqui, caralho!

— O velho Moe não vai gostar de te ver aí deitado espantando os clientes, Chas. Levanta daí e deixa de viadagem.

Chas tenta se erguer para andar mas, sozinho, sente-se como uma centopéia cheia de ácido, suas pernas parecendo multiplicar-se de forma desordenada e impedindo sua coordenação funcionar.

— Merda, Chas! — Constantine fala alto, se dirigindo aos outros elementos do pub — Será que tem alguma porra de alma caridosa que possa me ajudar a levar esse meu amigo rinoceronte até uma mesa???

Como num passe de mágica, um segundo ombro amigo surge ajudando Chas, bêbado como uma puta velha, a encontrar seu abrigo em meio aquela multidão de doces desajustados e viajantes sem rumo. Com cuidado, Constantine e o novo amigo deixam Chas sentado em uma cadeira, quase fazendo-a arriar com seu peso; o corpo totalmente inclinado para a esquerda.

— Valeu, camarada — o mago dirige-se ao estranho — Te devo um drink.

— Apenas um? Será que anos e anos amolando o Diabo está de deixando pão-duro? Ou Deus te condenou à pobreza como castigo por anos a fio de aporrinhação contra ele e seus anjos?

— Te conheço, puto? — o homem à sua frente, vestido como um Yuppie, não se parece exatamente com as companhias habituais de John Constantine — Não tenho amigos que se vistam de terno Armani; na verdade, tirando este aqui, não tenho amigos.

Chas, em resposta, solta um sonoro peido.

— Você ainda não cresceu, não é, John? Sempre andando com os velhos tipos? Eu, ao contrário, cresci, e muito... — o estranho resolve se sentar à mesa, repousando sua pasta em cima dela — Sente-se, velho amigo.

Espremendo um dos olhos em um gesto de desconfiança e desafio, o mago olha seu autoproclamado amigo. Dando de ombros, ele senta-se ladeado por Chas, que entra em um sono profundo que não o permitirá interromper e nem ser interrompido por um bom tempo durante a conversa, e pelo outro homem que abre a pasta, deixando aparecer um laptop e um pequeno visor, como os óculos usados em videogames de ponta, pendendo para fora da pasta e caindo sobre a mesa. Constantine abre um sorriso cínico e sorri.

— Vejo que gosta de brinquedos, senhor homem de negócios.

— Me dê isso! — com um gesto brusco, o Yuppie retira o visor das mãos de Constantine e o guarda novamente na maleta — Só me dê alguns segundos; depois voltamos a conversar.

Operando seu laptop com uma agilidade impressionante nas mãos, o homem parece se desligar momentaneamente do mundo, como fazem as pessoas extremamente religiosas. Alguns movimentos labiais, se fossem lidos por algum monge tibetano que passeasse por aquele pub naquele momento, poderiam ser reconhecidos como um antiqüíssimo mantra que abre as portas para um universo onírico de transes incessantes. Todo o processo dura em torno de dois minutos que, no ponto de vista de Constantine, tornam-se uma chatice sem tamanho tanto quanto assistir a foda alheia sem poder participar.

— Pronto — fechando rapidamente sua pasta, o homem volta a se dirigir ao mago — Onde estávamos?

— Que merda é essa que você fez?

— Magia e tecnologia. Invariavelmente, ninguém me pertuba quando estou conectado ao meu laptop; enquanto pensam que estou acessando a bolsa de valores e cantarolando o último sucesso do Belle & Sebastian, na verdade posso estar invocando um demônio em forma de vírus para atacar o meu inimigo mágico que pode ser desde uma grande corporação a um idiota que possui o posto mais alto em minha sociedade de Magia Eletrônica. Meus demônios não perturbam apenas mentes — o maluco aproxima seu rosto ao do mago britânico — eles chupam dados com canudinho como se fossem cérebros tenros cheios de informação.

— E o que que tem a ver o cu com as calças?— Constantine corta um pedaço de torta de rins (*) servido pelo dono do boteco e o mastiga bem devagar.

— Pode-se gerar bastante energia com os aparelhos eletrônicos adequados... Com a Psicotrônica, posso aliar eletricidade, eletrônica e magia ritualística! — os olhos do maluco quase parecem saltar das órbitas — Com todo essa sofisticação tecnológica, pode-se aumentar a potência de um ritual mágico em escalas inimagináveis!

— Já ouvi falar nisso. Tem os mesmos efeitos que uma magia ritual, ou seja, depende única e exclusivamente das qualidades mágicas do operador. Mas o que é que eu tenho a ver com isso tudo?

— Preciso de sua ajuda. Com meus conhecimentos de Magia Eletrônica e sua cultura mágica tradicional, podemos reatar nossa velha aliança em bases mais sólidas.

— Olha, cara. Tô mais fudido que você possa imaginar... Já apertei o saco de Mefisto pra ele gritar igual a uma mocinha e parar de me encher a paciência, azucrinei o Thor pra me fazer um favorzinho, acendi um cigarro na cabeça de uma caveira turbinada, tive pesadelos dignos de um filme de Bergman, humilhei vampiros e você vem me dizer pra me afundar em mais merda ainda?

— Pelos velhos tempos...

— Porra... Tem mais essa, velho. Não me lembro mesmo de você.

Abrindo novamente sua pasta, o homem parece propositadamente agir de forma tediosa quando retira um pequeno MP3 player e o entrega para Constantine.

— Ouça.

— Não é a porra de nenhum truque mágico, é?

— Não, John. É só uma música; quando a ouvir, se lembrará de mim.

— Que merda! Ouvir musiquinha pra relembrar o passado é coisa de viado!

Meio que a contragosto, Constantine coloca o fone de ouvido e imediatamente começa a ouvir o som estridente de guitarras realizarem uma introdução agressiva a uma música que possui a mesma característica. Bodies, dos Sex Pistols, começa a circular seu cérebro, como se estivesse resgatando lembranças escondidas.

Com um gesto rápido, enquanto observa Constantine viajar na música, o yuppie joga em câmera lenta uma pedra de açúcar em meio a sua xícara; o líquido oscila sucessivas vezes, ondulando.

Há mais de vinte anos atrás, o mago se vê mais jovem, saindo em desabalada carreira para fora de uma loja de roupas de couro chamada Sex de propriedade do casal McLaren; segundos depois dele, sai um rapaz mais jovem que começa a correr também, mas para uma direção oposta à de Constantine.

Sozinho, despreparado e chapado de drogas, o jovem Constantine sente seus pulmões arderem, suas pernas parecerem pegar fogo para se afastar o mais rápido possível da cena do crime. O filho da puta do Pete não está ao seu lado e, na verdade, todo o dinheiro está com ele; mas agora é tarde, pois todos o viram assaltar a loja em plena luz do dia. O som do carro de polícia se torna crescente, zumbindo atrás dele como uma mosca chata a lhe importunar freqüentemente.

Quando está para virar a esquina, o impacto forte de um cassetete faz seu nariz sangrar e suas pernas, já bambas, desabarem numa implosão de estafa e desespero. Várias botas dos policiais começam a chutá-lo e algumas vozes perguntam sucessivas vezes:

— E o dinheiro? — mais chutes e cuspes — Onde escondeu?

Punk dos infernos! — grita outro policial, levantando o rapaz e arrancando o seu walkman.

— Pete... — retirando o fone de ouvido, Constantine não esconde um certo desprezo ao conseguir reconhecer o homem à sua frente — Vermezinho desgraçado.

— Sabia que não se esqueceria de mim facilmente. — Pete não esconde o sorriso — Desculpe, mas eu tinha que fazer isso, tinha que ver seu rosto ao ouvir a música. Até hoje gostaria de ver o seu rosto naquele dia.

— Por quê?

— Por que o quê, John? — Pete dissimula, mas não consegue segurar o deboche.

— Você não ficou ao meu lado depois que saímos da loja.

— Diabos, isso já faz quase duas décadas.

— E se negou a me reconhecer na acareação! Filho da puta!

Voando sobre o outro alucinadamente, as mãos do mago pressionam o pescoço de Pete que, sob nenhuma hipótese, deixa de achar aquilo tudo muito divertido.

Acordando do sono profundo com o barulho, Chas se levanta e tenta deter o seu amigo. Soltando o outro e dando uma leve cotovelada em Chas para que retire as mãos dele, Constantine resolve se sentar e tomar fôlego.

— Continua o mesmo impulsivo de sempre, John.

— Impulsivo? — Constantine se contém para não esmurrá-lo ali, agora — Eu comi o pão que o diabo amassou naquela merda de cela durante três noites; se o próprio McLaren não retirasse a queixa, eu taria fodido.

— Aliás, naquela época, você conhecia bem as cadeias de Londres.

— Boa parte, graças a você, filho da puta! — tentando se acalmar, John bebe um pouco mais de Whisky.

— Eu compreendo o rancor que sente por mim, mas acredito que possamos unir nossas forças.

— Você negou nossa amizade por duas vezes! Duas vezes! Por que diabos eu te faria alguma espécie de favor, Pete?

— Muito bem, John. Vou te falar de algumas coisas que vão te deixar impressionado. Algumas coisas sobre Magia Eletrônica, revolução e poder... muito poder...

No próximo número: Não perca a conclusão dessa história, em que Constantine finalmente entra em contato com a Ordem dos Magos Eletrônicos.

:: Notas do Autor

(*) Prato típico servido como acompanhamento de bebidas em pubs londrinos.



 
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