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Hellblazer # 10

Por Délio Freire

Entre a Cruz e a Suástica
Final

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Com um gesto da mão, Blade pede que John Constantine fale mais baixo. Do lado de fora da casa, a alguns metros de distância, eles começam a discutir a melhor forma de invadir o local.

— Deixe por minha conta. Fique aqui; é o melhor que tem a fazer.

— Se você diz... — Constantine dá de ombros. — Não sou um homem de ação.

— Também, com esses hábitos — o negro aponta para os cigarros do britânico.

— Sim, mamãe...

— Não se esqueça, dê um sinal caso algo de estranho aconteça.

— Diabos, você já me disse isso um milhão de vezes.

Blade se levanta, retirando uma espécie de besta medieval carregada com estacas. Por alguns segundos o mago o interrompe, segurando-o pelo braço.


— Lembre-se! A Lança do Destino é minha! Paguei muita grana por ela pra deixá-la escapar.


Violentamente, Blade se desvencilha do outro e segue em frente.


— Morto-vivo filho da puta! — berra Constantine.

Em meio a um cenário decadente, na casa abandonada que está prestes a ser invadida por Blade, um pequeno grupo de jovens vampiros começam a celebrar uma missa negra, reverenciando velhos deuses.

— Ainda há muito que você pode oferecer pela nossa causa, Carlyle — o braço de Samael envolve seu amigo recentemente vampirizado.

— Ainda não entendo muita coisa... Por que invadimos aquele antiquário e agredimos o velho?

— É tudo uma questão de tempo. Mas posso mostrar um segredo a você. Encare como um presente para um novo e valoroso guerreiro da causa.

— O que é?

Com um gesto, Samael pede que seu amigo caminhe adiante, no que é atendido imediatamente. Carlyle levanta um tecido na parede como quem retira o véu de uma mulher, revelando uma passagem subterrânea. Os dois seguem em frente, Samael segurando uma vela numa das mãos. A sombra ao seu lado, projetada pela luz bruxuleante, parece ter vida própria.

Depois de descer alguns degraus, Samael estica seu dedo esquelético em direção a uma cadeira, onde uma figura aparentemente envelhecida está cabisbaixa.

— Este é o nosso mestre, que guia os passos de todos os caminhantes noturnos — o rosto de Samael abaixa a cabeça ao pronunciar o nome que considera sagrado. — O Barão Sangue.

— Deixe-me tocá-lo — o jovem vampiro dá alguns passos e toca o ser em repouso.

— Não faça isso!

A advertência de Samael vem tarde demais. Com o toque do jovem, a figura antes imponente de Barão Sangue revela sua fragilidade, fazendo cair e rolar a cabeça sem vida do vampiro.

— Ele está morto — surpreende-se Carlyle.

— Sim. Está. E hoje se torna um nome respeitado graças ao seu passado lutando em busca de sangue e pela glória do Partido.(*)

— Samael! — O grito vem de cima, cheio de medo.

Dentro da casa, o homem que gritara por seu líder tem o peito atingido por uma estaca, seu corpo sendo jogado contra a parede pelo impacto. A pequena tropa de vampiros sofre o impiedoso ataque de Blade.

Sentindo o seu sangue ferver com o combate, o Caçador de Vampiros pula em direção a outro oponente, cravando um punhal prateado no pescoço do monstro, que cai sem vida.

— Por Satanás, o que está acontecendo aqui? — A voz de Samael interrompe momentaneamente o combate.

— Levante-se! — a arma apontada para Constantine é convincente.

O mago finge não ouvir, levando uma seqüência de chutes que o obrigam a se levantar, contrariado.

— David, reviste o homem — diz o chefe da equipe policial.

Colocando as mãos de John Constantine sobre a nuca, o policial revista-o com cuidado.

— Cuidado pra não se apaixonar, cara.

— Cale a boca! Ele está limpo, senhor.

— Ótimo — um pequeno binóculo é direcionado para a casa onde estão instalados o pequeno grupo de vampi-nazistas. — Antes de acabarmos com os arruaceiros, é bom pegar os fornecedores de armas.

— Eu não sou um...

Constantine é interrompido com uma coronhada no queixo.

— David, leve esse homem para o camburão. Algemado.

— Sim, senhor. Andando, lourinho — o par de algemas prende em um dos braços do mago e ao do policial.

Depois de caminharem por alguns minutos, Constantine começa a falar com o guarda.

— Gosta de mágica?

— Cale a boca.

— Acha que algemou bem a minha mão? E que tal isso? — ele balança as duas mãos livres no ar.

— O que diabo...

— Não o envolva nisso — Constantine sorri. — Não olhe pra suas mãos agora...

O rosto do policial é tomado de surpresa quando percebe que a outra algema que deveria prender Constantine está em seu pulso.

— Filho da puta!

— Isso vai doer mais em você do que em mim!

Com um soco desajeitado, porém eficiente, o mago põe o policial desacordado. E começa a correr. Para bem longe dali.

O rosto de Samael é tomado pela surpresa e pela dor. Já se acostumara a ouvir a respeito do mito de Blade entre os seus pares mas jamais acreditou em sua existência.

— Aonde... está... a Lança do Destino! — Blade pressiona o pescoço do vampiro. — Diga!

— Vá pro Inferno!


Com o movimento semelhante a patada de um felino, Samael golpeia Blade, que recua alguns passos, surpreso com a força do golpe. Aproveitando a vantagem momentânea, Samael busca a todo custo cravar os dentes em seu adversário. Alguns outros vampiros tentam se dependurar nos ombros de Blade, mas ele se movimenta incessantemente, lutando para retirar as mãos pegajosas dele e, ao mesmo tempo, se defender do ataque de Samael. Carlyle, atônito e assustado, recolhe-se a um canto da sala.

Subitamente, uma grande explosão tumultua ainda mais o cenário de luta. A fumaça irrita os olhos dos monstros e os deixa desorientados por alguns minutos. Pelo alto-falante, uma voz cheia de autoridade começa a gritar:

— Aqui é a polícia! Saiam todos com as mãos pra cima!

Ottomar Berzig enxuga os olhos umedecidos com um lenço bordado com as iniciais de seus pais. Ele está arrumando as malas novamente. Para um homem de sua idade, as mudanças de estadia e a insegurança reinante o deixam profundamente entristecido. Ele pega um par de camisas de seu guarda-roupa e o coloca na mala, arrumando com cuidado. Surpreendentemente, alguém bate na porta de seu quarto.

— Mas... minha casa está vazia.

— Posso entrar? — a voz ligeiramente efeminada do vampiro Darius é ouvida por trás da porta.

— Quem é? — com as mãos trêmulas, ele puxa da arma no meio de suas coisas.

— Um amigo. Um novo e muito solícito amigo...

— Entre.

— Com tanta gentileza... — Darius pára por um instante — Não vamos precisar disso, não é verdade? Apontar armas são um insulto entre membros da mesma família.

Com um gesto rápido, o vampiro desarma o velho.

— Precisamos conversar. Sente-se.

Berzig obedece.

— Você sabe o que eu sou?

O comerciante desvia os olhos, assustado.

— Não.

— Você é o suporte de que preciso, velho. Alguém com o sangue de Drácula.

— Não tenho o sangue de Drácula. Uma de suas herdeiras me adotou.

— Não importa. Ainda assim, o título e todo mal que ele carrega são seus — ele ergue o queixo do velho com as mãos. — E eu os quero pra mim. Enquanto falo com você, meus generais estão armando uma pequena revolução em Londres. Conflitos raciais, implicações nazistas, tumultos... É disso que preciso para tomar o poder e conquistar este país. Mas os vampiros são os seres mais supersticiosos que existem. O que esperaria de seres que tremem ao ver uma cruz ou um pouco de água benta? Para guiá-los, já tenho dois artefatos preciosos: o cadáver do Barão Sangue e a Lança do Destino, que outrora pertenceu a Hitler. Só me falta uma coisa: a benção de Drácula. Ou seja, a sua benção!

Os pensamentos de Berzig começam a ficar turvos, ligeiramente deslocados. Ele sente um aperto no coração e põe a mão sobre o peito. Parece um infarto.

— Mary! Mary! — Darius, assustado com a possibilidade de perder seu fantoche, chama sua aliada. — Rápido, mulher! Não podemos deixá-lo morrer!

A visão do contingente policial reforçado em uma das estações ferroviárias de Londres, não deixa dúvida sobre a nuvem de tensão que ainda paira sobre a cidade, enquanto acontecem os conflitos envolvendo jovens brancos ingleses, imigrantes asiáticos e um novo Partido Neonazista. Este último, apontado como suspeito de fomentar a violência, é acusado pela mídia de práticas satanistas, embora seja, na verdade, formado por uma legião de vampiros.

— Senhor, essa é uma bela cidade! — o motorista de táxi diz ao receber o dinheiro do homem louro.

— Não tenha medo de uma retaliação minha, amigo — Constantine acende um cigarro. — Eu sei que esta cidade é uma merda.

Após bater a porta, o carro dá uma guinada violenta, sendo apedrejado por alguns homens em meio ao carnaval macabro de conflitos étnicos. Do outro lado da rua onde o mago saltou, uma senhora paquistanesa fala ao telefone, enquanto dois jovens começam a balançar a cabine e a gritar:

— Paki! Wog! (**)

Do alto de um dos prédios, o vigilante londrino conhecido como Union Jack surge e, em um salto, impede que a cabine seja posta abaixo pelos jovens, arremessando um deles para bem longe e segurando a mão do outro até virá-la completamente, quebrando-a e obrigando o adversário a ficar de joelhos.

— Suma daqui!

Assustado, o jovem começa a correr.

— Union Jack... — uma voz chama o nome com deboche. — Nossa bandeira viva!

— Deixe-me passar.

— Não sem antes me dizer que diabos está acontecendo aqui — pergunta Constantine, puxando o homem mascarado para longe da chuva de pedras, tijolos e garrafas que começam agora.

— Mas quem diabos é...

— Alguém que vai tornar sua vidinha um inferno se não começar a falar.

— Muito bem... Pequenos grupos étnicos provocaram uns aos outros; acham que tudo começou graças a uma manifestação de um novo Partido Neonazista.

— E a polícia?

— Parece que estão mandando neste momento uns 900 homens para conter os tumultos. Perdemos o controle depois que roubaram vinte carros de uma loja da BMW e os incendiaram como forma de protesto.

— Merda! Sabe onde fica o foco mais próximo desse Partido?

— Na Zona Sul da cidade, a uns poucos metros da Igreja Anglicana.

— Ela está aqui, senhor — com o corpo inclinado, um dos servos de Darius lhe oferece a Lança do Destino.

— Ótimo! Samael fez muito bem em fazer com que enviasse imediatamente a Lança.

— A casa dele foi invadida — informa Mary, desolada. — E a polícia já está a caminho.

Darius dá de ombros.

— É apenas uma batalha. Ainda há um longo caminho até o final da guerra -ele segura a lança, simulando movimentos de ataque com ela. — Não iremos perder dessa vez. Só lamento que os ossos do Barão Sangue tenham ficado na outra sede.

A porta da sede se abre e, com gestos largos, John Constantine entra no local com a ausência de cerimônia que lhe é característica. Darius e Mary, os amantes de um velho inimigo seu, o Rei dos Vampiros, não deixam de se surpreender com sua chegada.

— Constantine? O banquete está completo.

— Me conhece?

Com um salto de onde estava, Darius se aproxima do mago, apontando a lança para sua garganta.

— Eu pesquisei a seu respeito, Constantine. Sei bem quem você é e o que devo fazer para destruí-lo. Só não esperava que esse encontro acontecesse tão cedo.

— Desculpe. Mas eu sou conhecido mesmo como um verdadeiro estraga-prazeres.

— O que você pretendia invadindo a sede do Partido? — Mary se mostra ansiosa.

— Simples. Eu comprei essa lança. Ela é minha.

O líder dos vampiros sorri, pressionando um pouco mais a ponta da lança e deixando sair um filete de sangue.

— Ela serve aos meus propósitos... Assim como quem a vendeu — ele gesticula uma ordem para que façam aproximar o prisioneiro.

A figura ainda abatida do antiquário surge, escoltada por dois homens.

— Esse senhor é praticamente da minha família — afirma Darius.

— Bem, ninguém é perfeito.

— Você está morto.

— Vamos fazer um acordo.

— Nada de acordos.

— Desse você vai gostar. Eu posso me juntar às fileiras de seu partido. Como um verdadeiro vampiro. Me transforme.

Darius não consegue conter uma gargalhada.

— Eu disse que o conhecia bem, mago. E não menti. Sei o que aconteceria a mim se deixasse seu sangue de demônio correndo em minhas veias. Isso já funcionou uma vez e não funcionará novamente — Darius afasta a Lança do Destino da garganta de Constantine. — Mas saiba que jogos me divertem. E tenho imensa curiosidade em saber se é o mago tão poderoso quanto afirma ser, pois para mim não passa de um charlatão!

— Também não acredito em vampiros e demônios. Gosto de enxergá-los como resultados de alguma noite mal dormida ou de sentimento de culpa pelas perversões que faço... Nada que uma boa trepada não resolva.

— Aceita o jogo?

— Aceito.

— Se ganhá-lo, terá a Lança que tanto deseja.

— Ele irá comigo também — Constantine se refere ao velho.

— Que seja!

Com um movimento rápido, Darius pega uma imensa pedra no chão e a joga nas mãos de seu adversário.

— Se é um filho de Deus e um mago poderoso transforma esta pedra em pão!

— Nah... Truque de criança.

— Pois então me mostre.

— De jeito nenhum — afirma Constantine, indiferente, encarando o outro nos olhos. — Pensei que fosse realmente testar a minha magia.

— Não há melhor teste que esse! Faça!

— Pois há um teste maior pelo qual você não seria capaz de passar.

Você está me subestimando?

— Cara, transformar em pão é fácil, não tem nenhum problema, mas se você tem tanto poder, como diz ter, transforma esta pedra que me jogou em poema!

Constantine a joga novamente para as mãos do vampiro. Darius, desafiado, não vê alternativa a não ser fazer uma pequena conjuração diante dos olhares desconfiados de seus asseclas e de Mary.

— Eu acendo a chama negra em honra ao Príncipe das Trevas, pois sou o vampiro que arde em paixões na perseguição de tudo o que deseja. E neste momento minha psique abandona as restrições do Caminho da Mão Direita e com Vontade eu me dedico a controlar o meu próprio destino. Que pelo poder da minha Mão Esquerda, essa pedra se transforme em poema!

Nada.

Suando muito, Darius repete as mesmas falas.

Nada acontece.

— Como diria um amigo Rosacruz: tente outra vez — Constantine sorri.

Envolto em cólera, o vampiro repete suas palavras mágicas, rasga a camisa provando seu descontrole. Para surpresa de todos, a pedra começa a brilhar e a mudar de forma. A sonora gargalhada do mago invade todo o ambiente. Tudo o que Darius faz é transformar a pedra em pão.

— Eu não te disse, velho? — John Constantine pega o pão e dá uma forte dentada, mastigando-o rapidamente. — E ainda por cima é um pão amanhecido.

— Suma daqui, desgraçado — suando pelo esforço que fez, Darius enlouquece. — Leve o que quiser, mas suma daqui!

— Senhor! — Mary segura seu braço.

— Você quer que eu caia em desgraça diante dos meus asseclas? — sussurra o vampiro para sua aliada.

O mago se retira, levando finalmente a Lança do Destino, acompanhado do velho herdeiro da fortuna do Conde Drácula. No meio da escuridão surge Blade.

— Você! — O Caça-Vampiros aponta para o velho. — Você não vai escapar de mim...

— Deixe-o em paz, Blade — Constantine fecha a passagem para o negro — Ele já sofreu demais. O que houve na outra sede?

— A polícia invadiu, mas só encontrou a mim — ele abre um largo sorriso. — Aqueles vampiros não pisarão mais sobre a Terra.

— Melhor assim. Ah, não sei se te interessa, mas ainda tem um trabalhinho para você lá dentro...

— Bom saber.

Enquanto Constantinte vê Blade caminhar em direção à mais uma chacina de vampiros, os olhos de Berzeg apertam-se várias vezes, um pouco umedecidos, querendo que aquelas pessoas sejam apenas fruto de um sonho ruim.

No próximo número: John Constantine reencontra-se com um velho amigo e relembra momentos de sua juventude punk.

:: Notas do Autor

* Após vários confrontos durante a 2ª Guerra Mundial, o vampiro nazista conhecido como Barão Sangue foi morto pelo Capitão América enquanto ameaçava as ruas de Londres em busca de alimento.

** A primeira expressão é o diminutivo pejorativo de Pakistani (paquistanês, em inglês). Wog é uma
ofensiva referência a pessoas negras, recentemente introduzida no vocabulário dos jovens ingleses.



 
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