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Hellblazer # 09

Por Délio Freire

Entre a Cruz e a Suástica
Parte I

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Carlyle desce as escadas com passos largos, de dois em dois degraus, a heroína ainda fazendo efeito em cada mililitro de seu sangue. Sua cabeça raspada, as roupas largas e a tatuagem de um Donald perigosamente armado no braço esquerdo parecem abrir caminho mais facilmente entre os ingleses e seu andar irritantemente fleumático. Ele está sujo e parece agitado depois de sair da clínica com o resultado de seu teste HIV; uma de suas ex-namoradas está morrendo e seu coração tremeu com a idéia de estar infectado. Sua ansiedade lhe fez passar por mais agulhadas para coletar sangue e, inseguro, fez um desnecessário teste de esperma pra ter certeza de que não tinha nada.
Samael, seu velho amigo Samael, riu quando soube que seu amigo escocês tinha que bater punheta num vidrinho.

— Pense na Rainha-Mãe em seus 101 aninhos — disse seu amigo, há alguns dias, gesticulando como se estive se masturbando — Vai gozar rapidinho.

— Filho da puta! — Um homem de sobretudo, vítima de um esbarrão de Carlyle no meio da rua, xinga o jovem junkie ao ver seu maço de cigarros espalhados pelo chão .

— Foda-se! — Carlyle lhe mostra o dedo médio, efetuando o clássico gesto, voltando a correr em seguida.

— Ingleses filhos da puta...

Aos 60 anos, uma nova vida e uma nova pátria. O lenço retira o embaçado de seus óculos, enquanto sua mão envelhecida pressiona vagarosamente o pano; nunca iria se acostumar com a miopia. Com a porta de seu estabelecimento aberta, sua visão ligeiramente turva olha a rua. Londres não é uma cidade pra se amar. Nas poucas vezes que estivera aqui, sentiu um certo frisson, um arrepio na espinha e como se seu sangue começasse a ferver. Bem parecido com sua primeira vez, com uma prostituta em Berlin.

Sim, Londres era uma puta bem pouco confiável para Ottomar Berzig, um velho comerciante de antiguidades. Não poderia exigir amor, nem esperar por palavras de carinho. Com um pouco de sorte, teria um rápido afago e um sorriso calorosamente falso.

"Mulheres, putas ou não, e cidades, européias ou não, nunca são confiáveis", pensa Berzig, enquanto fecha a porta do seu estabelecimento e se prepara para encerrar o dia de trabalho.

A porta é fechada com duas voltas nas chaves e o trinco acima é passado; lembranças de violência passeiam rapidamente em sua mente quando ele se encaminha para trás do balcão. Distraidamente, seus olhos se voltam para uma foto emoldurada com ele uns 25 anos mais jovem, um pouco mais robusto e o rosto mais redondo, ao lado de uma velha senhora que iria mudar toda sua vida. Seu nome era Katarina Olympia, princesa da antiga família real romena e herdeira do Conde Drácula.

Seus pensamentos são interrompidos com as batidas sucessivas na porta. Com um sinal, Berzig indica que o expediente está encerrado. O estranho visitante mexe na maçaneta, expressando urgência, enquanto seus lábios soltam um palavrão lido pelos olhos experientes do comerciante. O alemão abre a porta.

— Senhor, volte amanhã!

— E perder o meu dia? — ele entra calmamente na loja — Você é Ottomar Berzig? Sou John Constantine... Fiquei de vir ontem, mas tive uns probleminhas, umas noites de sono meio mal dormidas... Você não entenderia mesmo...

— Sr. Constantine, não me parece ser exatamente a pessoa que eu esperava.

— Por quê? — os olhos rondam a pequena loja, observando algumas peças amontoadas em um canto, tapetes enrolados, a poeira permeando uma pequena coleção de livros antigos.

— A peça que procura é bem cara, sr. Constantine — o comerciante novamente tranca a porta, em um misto de excitação e medo. — Estou realmente pedindo um valor abaixo do legítimo, mas ainda assim duvido que possa levá-la.

— Não avalie o peixe pelo jornal em que ele está embrulhado, velho. Se não se importar com a origem do dinheiro que vou te passar, acredito que possamos fazer um bom negócio. Mas me mostre logo a peça.

— Um momento.

Com os olhos cobiçosos com a esperança de obter um bom negócio, o alemão entra por um pequeno quartinho e demora por alguns minutos. Aproveitando a oportunidade, o mago avista a foto emoldurada do comerciante. Como a informação no ramo ocultista é uma moeda de raro valor, Constantine buscou conhecer a história recente do velho.

A foto mostra o comerciante e a princesa ladeados. A amizade da herdeira de Drácula foi tanta que Berzig se tornou seu herdeiro direto após sua morte, tendo direito inclusive ao título, o que o faz atender agora pelo nome de Ottomar Rodolphe Vlad Drácula. Entre as propriedades que herdou com o fim do bloco soviético, estão o castelo e a propriedade rural de 32 acres existentes na antiga Alemanha Oriental.

— 25 anos...

— O quê?

— Essa foto já tem uns 25 anos, sr. Constantine — o comerciante retorna, segurando uma lança de aproximadamente dois metros, recoberta totalmente em panos. — Se imagino que buscou se informar a meu respeito, como fiz com o senhor, conhece bem a minha história.

— Herdeiro direto de Conde Drácula — com um ar ligeiramente entediado, Constantine relembra alguns dados conseguidos — Vindo de uma antiga família de antiquários alemães, sua amizade com a velha princesa lhe rendeu uma boa renda após a morte dela.

— Nada que eu possa desfrutar, pois uma estranha notoriedade me persegue — seus olhos ficam um pouco marejados, enquanto coloca a lança sobre o balcão. — A violência nazista me obrigou a fugir da Alemanha e a me refugiar na Inglaterra.

Com um gesto apontando o artefato, o mago sorri:

— Talvez possa me fazer um abatimento se essa coisa me causar a mesma infelicidade.

— E a parada é certa? — os olhos de Carlyle não deixam de estranhar o comportamento incomum de seu amigo.

— Não tem erro. Vai ser divertido, você vai ver. Um pouco de violência, terror espalhado pela cidade de Londres; vai ser algo nunca experimentado. Você vai ver — o braço frio de Samael é colocado sobre o ombro do amigo. — Sinto que você tem muito a oferecer à nossa causa.

Um calafrio percorre a espinha de Carlyle, enquanto ele observa o quarto onde está. Há uma bandeira nazista, alguns móveis virados de ponta cabeça, um casal de jovens arianos se drogando no chão e uma cadeira em que uma imagem humana está coberta por um imenso pano negro. Carlyle aproxima-se e quase retira o pano, quando é interrompido pelo amigo.

— Deixe isso quieto. É um artefato muito importante pra nossos mestres e não gostaria que eles ficassem furiosos com você mesmo antes de conhecê-los. Apesar de aqui hoje estar completamente vazio, nossa tropa junta pode fazer um grande barulho.

— Não sabia de suas tendências nazistas, Samael.

— Não é só a ideologia que está em jogo, amigo. É sangue. A pureza do sangue conseguida através de um novo caminho nazista. Mas vai compreender isso melhor quando estiver sua iniciação estiver completa, meu doce neófito. Ou vai desistir?

— Estou nessa com você. Como sempre.

— Ótimo.

As mãos de Samael apertam os braços de seu amigo escocês. Seus olhos hipnotizantes impedem qualquer reação do garoto, cuja pulsação transmite mais ansiedade e calor para seu predador. Um par de presas mortais se desenvolve em Samael. Carlyle fecha os olhos, aceitando o inevitável e querendo que tudo acabe logo.

Antes de desmaiar, ele vê em seu delírio a imagem de um homem em roupas romanas caindo violentamente sobre um leão e, com as mãos, abrindo sua bocarra até quebrá-la. Quando o romano se vira, com surpresa ele percebe que o homem é ele próprio, agora ovacionado por uma platéia. Vozes gritando Heil, Hitler, misturadas a acordes clássicos de Wagner com batidas eletrônicas dominam a mente cheia de heroína do jovem iniciado.

Ele cai no chão, ligeiramente enfraquecido. Cai como homem, mas ergue-se como vampiro.

— Bosta...

— Desculpe-me.

— Não tem problema — passando as mãos no capote, John Constantine tenta limpar a sujeira do café derramado por Berzig. — Conseguiu confirmar o depósito?

— Sem problemas, sr. Constantine... Apesar de não querer saber por que meios escusos o senhor conseguiu esse dinheiro, tenho muita curiosidade em saber qual seu interesse nessa lança.

— Isso é problema meu. Mas é sempre bom ter uma peça fundamental para a história da humanidade.

— Muitos acreditam que essa lança pertenceu a um soldado romano e que ela perfurou Cristo na crucificação. Tanto Alexandre quanto Hitler a portaram, acreditando que em seus princípios mágicos poderiam conseguir a vitória. O senhor, se é o mago que muitos dizem ser, deve fazer melhor uso dela do que eu. Mesmo que seja apenas para repassá-la para a frente por um preço maior.

— Olha que não seria má idéia — com um meio sorriso, Constantine pega a lança hermeticamente embrulhada, agradece ao comerciante e dirige-se para a porta.

As luzes se apagam.

— Mas que diabos? — berra Constantine.

Em meio a escuridão repentina, um grupo de pessoas invade a loja. Pego de surpresa, Constantine recebe uma seqüência de chutes e golpes de bastões de baseball e, sendo jogado ao chão, adota uma posição fetal, tentando proteger a cabeça. Um soco inglês atinge em cheio o rosto do comerciante, que desmaia imediatamente.

— Carlyle, pegue a lança! — berra Samael.

O jovem escocês aproxima-se de Constantine, que o atinge no saco com um rápido pontapé, fazendo-o dobrar-se de dor. A idéia do mago é correr em desabalada carreira, mas é surpreendido por um violento puxão em seu sobretudo.

— Judeu filho da puta! Verme! — a seqüência de golpes agressivos realizada pelos jovens neo-nazistas contra o comerciante judeu é ininterrupta.

— Você não é um homem comum... — diz Samael, encarando Constantine diretamente.

— E nem você, vampiro desgraçado. Reconheço vocês pelo mau cheiro.

— Não me disse quem é, desgraçado — as mãos ligeiramente embranquecidas pressionam o pescoço do mago.

Como resposta, Constantine joga a cabeça contra o nariz do vampiro, fazendo apenas surgir um filete de sangue no rosto inexpressivo do monstro.

— Chega! Eu vim buscar a lança! — Diz o vampi-nazista que, com uma das mãos, retira o artefato e com a outra joga o mago violentamente para o lado — Vamos!

Com o corpo abatido pela agressão, John Constantine se aproxima lentamente do comerciante, constatando que o velho ainda respira. Ele se ergue, sem uma direção completamente definida, olhando para os lados. Aproxima-se de um telefone e faz uma ligação, o corpo inclinado sobre o balcão:

— Alô! — a voz sai com dificuldade — Chegou a hora de eu cobrar aquele favorzinho... Preciso que localize um pessoal pra mim. Não, não esse tipo de gente. Na verdade, são neo-nazistas.

Enquanto observa a cidade de Londres do alto de um prédio, Union Jack revê alguns dos novos rumos que sua investigação está levando. Segundo seus informantes, o aparente conflito entre grupos étnicos e nazistas pelas ruas de Londres parece eminente. Sua única alternativa é interferir de forma rápida.

O uniforme agora já não pertence ao homem que o envergou na segunda guerra, Lorde Falsworth. Por trás da máscara está Joey Chapman, jovem amigo da nobre famíia e um homem que imprime seus conceitos anarquistas à aura patriótica que o Union Jack possui.

Quando salta do prédio, em movimentos acrobáticos, até o chão, seus pensamentos ainda estão presos aos acontecimentos que estão por vir. Ele sabe que sua participação, daqui para frente, pode evitar tumultos e tragédias desnecessárias.

John Constantine está diante da casa em que se escondem os homens que roubaram a lança, fumando um cigarro enquanto pensamentos confusos lhe incomodam a mente. É bem verdade que seus contatos permitiram um grande atalho, mas o que fazer numa hora dessas? Não gosta de armas, não possui algo que se possa chamar de técnicas de luta e qualquer invasão àquela altura poderia ser um pequeno desastre.

Sente um certo frio na espinha quando percebe passos distantes. Ele olha para trás e nada vê, voltando de novo sua atenção para o abrigo dos vampi-nazistas. Novos passos são ouvidos. Definitivamente, Constantine não está sozinho. Um negro gigantesco, de óculos escuros e armado até os dentes com uma parafernália que ele não sabe definir com certeza o que é, aparece em sua frente como se fosse um fantasma.

— Se não tem nenhum vínculo com os homens naquela casa, é melhor sair daqui o quanto antes. Eles estão condenados a morte.

— É mesmo? E por quem? Posso saber?

— Por mim — o rosto ameaçador de Blade, o Caça-Vampiros, aproxima-se do mago.

— Bem, acho que esse vai ser o começo de uma bela amizade... Aceita cigarros?

No próximo número: Enquanto Blade e John Constantine dão início a uma convivência nada amigável, conflitos políticos e brigas raciais tumultuam Londres. E os nomes por trás do comando Vampi-Nazista
são revelados.



 
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