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Hellblazer # 14

Por Fábio Fernandes

Ano Sabático — Parte II
Boys Don't Cry

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— Você já leu "A Montanha Mágica"? — o grisalho pergunta. Batendo as solas finas dos coturnos na calçada para tentar (em vão) afastar o frio, Constantine balança a cabeça negativamente.

No, man. Parei de ler esse negócio de magick.

É a vez de o grisalho balançar a cabeça.

— Não é um livro de magia, John Constantine. É um romance. Escrito por Thomas Mann. E antes que você se refira a ele como nazista, é um alemão que se radicou nos Estados Unidos para fugir aos tempos de barbárie. Que, aliás, estão retornando. Mas esta é outra história.

— E qual é a história que você tem para me contar? Você ainda não me disse como sabe meu nome. — diz Constantine, enquanto pensa — "Fucking faggot…" — John Constantine não é necessariamente um homófobo, mas depois de dois anos num hospício como Ravenscar... bem, há coisas que é melhor nem lembrar.

— Esse livro tem uma passagem belíssima sobre a passagem do tempo. — o grisalho o ignora — É uma espécie de interlúdio na vida do personagem principal, um rapaz que está internado num sanatório para tratar da tuberculose.

— Sei. — ele diz — Just like me, heh?

— O interlúdio mostra a passagem das estações — o grisalho o ignora solenemente mais uma vez — pelo ponto de vista de uma árvore.

Constantine é uma árvore.

Não uma árvore qualquer.

Constantine é a árvore de Tyburn.

A velha árvore gigante no coração da Londres do século dezoito, onde os criminosos eram enforcados. Em seu lugar, hoje, um grande arco de mármore tenta recontextualizar o lugar, dando um ar de praça da liberdade com essa imitação em escala menor do Arco do Triunfo francês.

Não é preciso dizer que Marble Arch fracassa miseravelmente em sua intenção.

A árvore de Tyburn continua ali, em símbolo. Com suas raízes profundas se espalhando pelo subterrâneo, ocupando (talvez) em algum padrão vibratório paralelo o mesmo lugar que hoje encanamentos e fiações do metrô ocupam.

Com raízes. E morta.

É assim que Constantine se sente.

Constantine nunca leu "A Montanha Mágica".

Ao seu lado no quarto vazio e fedorento do squat, apenas um paperback rasgado e mofado de "Naked Lunch". Ele já havia tentado ler esse livro antes, mas William Burroughs era muita viadagem para o seu gosto.

E, no entanto, a parte das drogas...

Nos EUA, existe um ditado que diz: "se você consegue se lembrar dos anos 60, então você não viveu realmente os anos 60." Os tempos do Mucous Membrane foram semelhantes.

Era 1977 e o sonho já havia acabado há um bom tempo. Mas quem queria saber dos Beatles, anyway? O sonho de um futuro melhor havia sido substituído pela realidade amarga de um presente sem esperança. O slogan punk era no future: o futuro não existe.

Se não existe futuro, vamos viver como se não houvesse amanhã. Porque, se John Constantine parasse para pensar, na verdade não havia mesmo. Se você não se encaixasse no sistema e não quisesse ser um bom bancário ou contador (porque quem é que podia pagar a caríssima — e hiperelitista — educação acadêmica britânica?), era melhor pular fora de uma vez.

E Constantinte pulou.

Junto com uma legião de outros como ele — filhos da classe operária, insatisfeitos, sujos, famintos, fodidos e mal pagos.

Todas as bandas punks que se prezavam surgiram naquele momento. Bandas de um sucesso só, — e mesmo assim de garagem — bandas das quais ninguém nunca ouvira falar, e nem ouviria, pois vários de seus componentes morreriam meses depois dos primeiros shows, de overdose ou de hemorragia interna provocada por brigas homéricas na saída de shows.

A única coisa que diferenciou o Membrane dessas outras ilustres desconhecidas foi a viagem ao Rio de Janeiro. Não que algum jornal tivesse noticiado isso, mas pelo menos alguns fanzines deram umas notas — a maioria chamando Constantine e seus colegas de vendidos do sistema, fucking Sex Pistols wannabes.

Constantine sempre detestou os Pistols. Sempre achou que a postura autodestrutiva deles era pura pose. Mesmo o Sid era um babaca, que morreu porque era incompetente para dar um baque na veia, e não porque realmente quisesse.

Constantine não queria morrer. Mas não estava ligando muito para o dia seguinte.

Foram dias de consumo de bebida e pó em quantidades industriais. Como bom (e pobre) inglês, Constantine preferia a bebida e o cigarro. Talvez por isso não tenha tido o mesmo destino de tantos amigos.

Isto é, até hoje.

"Babaca idiota." — ele pensa de si mesmo, entre delírios no chão sujo de vômito do seu quarto. Sempre fazendo as coisas depois da hora. Montando uma banda punk um ano depois do grande estouro do movimento. Viajando para o Rio depois dos Pistols.

E morrendo de overdose depois que a maioria do pessoal já fez a mesma coisa.

"Você não passa de um imitador barato, seu filho da puta." — ele diz para si mesmo — "Tem mais é que morrer mesmo."

— Não necessariamente. — diz o sujeito grisalho ao lado dele.

— Não necessariamente o quê? — Constantine pergunta, distraído. Sente uma coisa estranha, como se por algum momento não estivesse ali.

— Você não precisa necessariamente morrer, John Constantine.

Antes ele tivesse prestado atenção ao que a bicha grisalha lhe disse. E tivesse se esforçado mais. Para procurar um amigo, para procurar um lugar.

Fucking pride. Orgulho filhadaputa.

Antes ele não tivesse vagado sem destino depois daquela conversa (sem destino ou desorientado pelo que lhe fora dito? Constantine não sabe). Antes ele não tivesse ido parar naquele squat na Delano Street. Antes ele não tivesse aceitado aquele pico na veia para enganar o estômago. E reiniciado um ciclo que havia começado anos antes.

"Bullshit." — ele mesmo pensa. Se não fosse isso, seria outra coisa. Esta é sua vida, John Constantine.

— Não, John Constantine. — diz o grisalho — Esta é não é a sua vida. É apenas uma das possibilidades dela.

Constantine pára de beber o café e levanta a cabeça. Há muito tempo não sentia tanta vontade de dar uma porrada bem dada em alguém. A merda, pensa, é que ele ainda está fraco demais para dar sequer um tabefe no viado.

— Como é que é? — ele pergunta ao sujeito.

— A ciência explicaria isso pelo princípio da emissão de táquions. Mas é um fenômeno simples de ubiqüidade pelo qual todos os humanos passam a todo momento sem se dar conta.

— Que fenômeno? — ele pergunta. Incrivelmente, o grisalho permanece impassível, sem se aborrecer com a aparente burrice de Constantine.

— Este. — ele diz, sem sair do lugar.

Então Constantine entende. Tudo, tudinho.

Pena que é tarde demais. Sua mente começa a se desligar, entrando numa espiral descendente. E ele sabe onde isso vai parar.

— Eu vou morrer? — ele pergunta, ainda parado perto da deli, ainda segurando o copo de café, ainda sentindo frio. Cada vez mais frio.

— Só se quiser. — o grisalho responde — Você quer morrer, John Constantine?

You know, — ele diz, procurando um lugar onde apoiar o copo e tentando procurar desesperadamente um cigarro em algum bolso com a mão livre — eu já fiz muita cagada na vida. I've had my share. Chega. Estou cansado demais até mesmo pra me matar.

— Mas você não vê sentido em viver. — o grisalho diz, como se lesse a mente dele.

Yeah. — Constantine acha finalmente um cigarro quebrado no bolso da calça jeans rasgada. Percebe a pele ficando roxa na altura do rasgão no joelho. E um cartão de visita caído no chão sujo aos seus pés.

Ele se abaixa por instinto para pegar o cartão e derrama o café. Solta um "fuck" abafado e deixa cair o copo.

É o cartão do italiano que ele conheceu no Rio de Janeiro há anos. E que o havia convidado a procurá-lo.

Nesse instante, como se fosse num filme, Constantine ouve ao longe uma canção do The Clash que foi gravada enquanto ele estava internado (quantas coisas eu perdi?, ele se pergunta desolado) e se sente exatamente como diz a letra. "Lost in the Supermarket".

Para Constantine, o Reino Unido no alvorecer da década de 1980 é um supermercado da alma. "Anarchy in the UK", nunca mais. Margaret Thatcher no poder. Para que boca do inferno se podemos ter tudo aqui, dor e sangue e sofrimento e morte? Os humanos são seus próprios demônios, e Constantine se sente apenas um menininho perdido no supermercado. Mas não há mãe que o salve agora.

Constantine não tem ninguém.

Ele não consegue mais sequer articular os próprios pensamentos de forma coerente e linear. Ou ele sai do supermercado na porrada ou o supermercado acaba com ele. Não importa se o supermercado é um squat, uma árvore ou todo o maldito reino de Elizabeth segunda.

Deixe de lado esse fucking pride, man. E, fer chrissake, lave urgentemente as poucas roupas que sobraram.

Ele pode voltar ao albergue e pedir para trabalhar lá. Pelo regulamento (que, só agora ele se lembra, a velha cozinheira do Brasil lhe explicou um dia), ele terá direito a permanecer hospedado no albergue por duas semanas. O dinheiro será pouco, mas o suficiente para comprar algumas mudas de roupa usada. E uma passagem de trem para a Itália.

— Você precisa de sol. — ele diz — A Itália é um bom lugar nesta época do ano.

— Você acha mesmo? — Constantine responde, acendendo o cigarro. E não dando a mínima para o fato de que o grisalho estranho (que, agora ele pensa melhor, não tem mesmo pinta de bicha) menciona a Itália sem sequer ter olhado o cartão.

— Mais do que precisa desse cigarro. — diz o grisalho, que então fixa bem os olhos escuros nele — Cigarros causam câncer.

Constantine ignora o comentário politicamente correto.

— Todo mundo tem que morrer um dia, mate.

— Esta é uma verdade universal. — o outro responde, ainda sombrio — Mas nem todos precisam apontar uma arma para a própria cabeça.

Constantine não agüenta e ri.

— Agora você vai me dizer que isso é pecado.

— A definição de pecado é relativa. — diz o grisalho — Mas a cada causa corresponde uma conseqüência. E o causador é o responsável pelo efeito.

O papo está ficando muito violento para a cabeça de Constantine. Ele dá uma bela tragada no cigarro e se levanta para ir embora, mas ainda diz, meio sem saber por quê:

I don't know, mate.

— Você está preocupado com a moça. Acha que ela está grávida? — ele pergunta, sério.

Constantine não sabe por quê, mas não se surpreende com a pergunta.

Então ele se lembra.

Parecia um sonho, um dos muitos que ele teve enquanto se masturbava pensando nela nas madrugadas solitárias e frias do albergue. Um sonho em que, numa dessas madrugadas, ela entrava no seu quarto sem fazer barulho, pé ante pé, se enfiava debaixo das cobertas com ele. Inteiramente nua.

Constantine pensa em táquions. Ou em magia. E isso o incomoda.

— Não sei. — finalmente responde, jogando fora o cigarro pela metade — Mas você parece saber mais das coisas do que eu. Você acha?

O grisalho balança a cabeça.

— Ela não está grávida, John. Um dia ela terá um filho. Mas não será seu.

Constantine dá de ombros.

— Melhor assim. — ele diz. Mas sabe que está se enganando.

Depois — e realmente é depois, depois que o grisalho se despede e vira uma esquina — Constantine faz um reality check. Sentado num banco do parque, tenta escrever uma carta para Mary. Que logo se reduz a um bilhete. E que por sua vez logo se resume a um poema.

As palavras surgem rápidas e espontâneas, como uma letra de música. Mas não daquelas que ele escrevia para o Mucous Membrane:

I would say I'm sorry
If I thought that it would change your mind
But I just
Keep on laughing
Hiding the tears in my eyes
Cause boys don't cry


Ele olha desconsolado para o papel.

"Que coisinha mais perôba." — ele pensa. Afinal, o que é que isso tem a ver com eles dois? Porra nenhuma.

Amassa a folha de papel e mira na cesta mais próxima. Erra, claro. E não faz questão de pegar a bolinha para depositá-la no lixo. Levanta-se e vai embora. Pegar o metrô para Victoria Station.

Esbarra em dois moleques na entrada do parque, um gordinho de cabelos meio compridos e espetados e um outro, mais magro. Vestidos de preto da cabeça aos pés, como Mary.

"Fucking gothics." — ele pensa. Bom mesmo era ser punk. Mas ele sabe que esse tempo não volta mais.

Ele sai do parque. Os garotos dão uma olhada meio hostil, meio de desprezo para ele e seguem seu caminho. O magro vê a bolinha de papel e prepara o pé para um chute. O gordinho o segura pelo braço e impede o movimento do outro. Abaixa-se ágil e pega a bolinha amarela pautada.

Abre e fica olhando um tempo enorme para o poema.

Daria uma puta música.

C'mon, Bob. — diz o magro — A gente tem que encontrar o resto da banda. E ainda temos que discutir o fucking name.

— Boys Don't Cry. — diz o gordinho.

— Como é que é? — faz o outro — Que nome escroto!

— Não tô falando do nome da banda. Eu estou falando da letra desta música aqui, ó. — e mostra o papel.

— Mas isto aqui é só um fucking short poem.

— Mas pode virar uma música.

O outro dá de ombros.

Whatever. Desde que o nome da banda não seja aquele que você sugeriu outro dia.

— Você não gostou de The Cure? Preferia o quê? The Disease? A gente não é como aquele fucking punk que acabou de passar por aqui, é, caralho?


Continua...




 
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