hyperfan  
 

Hellblazer # 15

Por Fábio Fernandes

Ano Sabático — Parte III
Safe European Home

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
:: Próxima Edição
:: Voltar a Hellblazer
:: Outros Títulos

Sentado à beira do caminho, num banco de pedra, John saboreia um gelato: aparentemente um sorvete comum, um ice cream como aqueles que ele tomaria na terra da rainha se gostasse de sorvete. Mas os sorvetes italianos são muito mais gostosos, e têm sabores que não se encontram na terra da rainha.

Constantine nunca havia provado um sorvete de zabaione.

Lembra um pouco creme holandês, com talvez passas ao rum. Mas o sabor exato lhe escapa: é mais doce e ao mesmo tempo mais amargo.

Como sua vida agora, ele pensa com um riso cínico. Sem um puto no bolso e recém-chegado à Itália.

"Pelo menos não está frio." — ele pensa.

John Constantine não gosta de admitir — e se perguntarem, ele vai negar — mas está feliz.

Retira pela enésima vez do bolso da jaqueta o cartão todo amarfanhado e lê o conteúdo escasso porém significativo (e que ele já decorou de tanto ler na viagem, mas precisa ter o cartão nas mãos para ter certeza de que nada disso é um sonho):

Scuola Superiore di Studi Umanistici
Via Marsala 26, Bologna


Pega o guia Michelin que comprou na estação. Completamente sem noção do resto do mundo ao seu redor, ele havia se assustado com o preço em liras: 4 milhões! Mas a moça (uma morena muito bonita, diga-se de passagem) explicou que o valor em libras esterlinas era bem menor. Constantine pagou o equivalente a duas libras e meia e respirou aliviado.

Passou meia hora só para descobrir qual era o lado de cima. Fucking italians, pensou. Como se não bastasse o absurdo de falarem em um idioma estrangeiro, ainda por cima não entendem nada de direções! Cadê as referências de norte, sul, leste e oeste?

Mais uns quarenta minutos para traçar um caminho minimamente inteligível da estação ferroviária até a Via Marsala e achou que estava pronto. Levantou-se e seguiu em frente.

Bolonha é uma cidade bonita. Mesmo no inverno, Constantine precisa se lembrar a todo instante de que está na região do Mediterrâneo. Faz um pouco de frio quando venta, mas o sol brilha com uma intensidade que é difícil de ver na terra da rainha. Não há uma nuvem no céu, que é de um azul quase cobalto. Realmente lindo.

"Não tem um pub nesta merda de cidade, não?" — ele pensa logo, sacando um Silk Cut do bolso. Já está ficando incomodado com tanta coisa bonita. Não se surpreenderia se o Bambi aparecesse na sua frente. Mas jura para si mesmo que se aparecer alguma coisa do gênero, vai arrumar um revólver pra matar o veadinho filho da puta.

Such a waste, isn´t it? — uma voz feminina diz em inglês pelas suas costas. Constantine quase dá um pulo com o susto.

I beg your pardon? — ele pergunta, tentando não franzir a testa e manter a atitude punk.

Mas é difícil. A mulher que o encara é linda. Morena, cabelos curtos cortados à Louise Brooks — um corte antigo que está voltando à moda e que agrada a Constantine. É alta e magra. Parece ter um corpo bonito, se não fosse pela capa de chuva que o cobre quase por completo.

Mas que pernas.

— Desculpe, mas não entendi a charada. Desperdício de quê? — ele pergunta.

— Aqui você não vai encontrar revólveres facilmente. Na Sicília sim, lá você pode adquirir armas de todos os tipos, para todos os gostos. Matar é quase um esporte nacional lá.

— Mas como...?

— Use um porrete se quiser matar alguém. Mas não tacos de beisebol. Italianos não jogam beisebol. — e, inclinando ligeiramente a cabeça para o lado, como se ouvisse vozes, ela responde, sua própria voz ligeiramente alterada — Esses carcamanos são tão engraçados. Como é que podem não gostar de beisebol? — dá de ombros.

— Mas...?

— Você só sabe dizer isso, rapaz? — ela estende a mão. A voz normal retorna — Muito prazer. Eu sou Rose.

— John Constantine. — ele diz, apertando a mão dela sem muita convicção. A mão da mulher é gelada.

— Está aqui a serviço? — ela pergunta.

— Não. — é a vez dele dar de ombros — Lazer.

— Lazer é bom. Todo mundo precisa de férias de vez em quando. Se bem que, como diz o velho ditado, there´s no rest for the wicked, não é, John? — e pisca — Mas com sorte você vai conseguir descansar um pouco. — e aponta para uma torre antiga de tijolos, bem distante — A scuola superiore fica ali. Boa sorte com o Umberto. Ele é chato às vezes, mas é boa gente. Mas você já sabe disso. — e, inclinando a cabeça mais uma vez, o tom estranho de voz como uma estação de rádio entrando subitamente no espaço de outra — Se eu fosse você, também tomaria cuidado com as italianas. Mas acho que esse conselho você não vai seguir. — e, voltando à voz normal — Arrivederci, bello. Talvez nos vejamos em breve.

E, antes que ele possa dizer mais alguma coisa, a mulher vira uma esquina e desaparece.

Constantine não tenta ir atrás dela. Alguma coisa lhe diz para nem tentar. Lembra-se do estranho grisalho em Londres.

Olha para a torre distante. Precisará descer uma ladeira para chegar ao centro de Bolonha e, de lá, se virar para chegar à universidade.

"What the hell." — pensa — "Quando em Roma, aja como os romanos." Mesmo não estando em Roma.

Desce assoviando The Wonderful Wizard of Oz.

A Universidade de Bolonha é uma das mais antigas do mundo. Seu prédio principal foi um castelo medieval, mas ele é apenas o centro do campus. Todos os demais edifícios, embora tenham um aspecto bastante antigo, foram construídos do século dezenove em diante.

Não que isso faça a menor diferença para Constantine. Não existe nenhuma sinalização visível que possa indicar onde diabos fica a Scuola Superiore di Studi Umanistici e muito menos o departamento de literatura medieval.

Constantine está cansado e com fome. Mas acha melhor encontrar o tal italiano antes de tentar gastar seu dinheiro (se é que os caraminguás que tem no bolso darão para alguma coisa). Saca de dentro da mochila surrada um mini-guia de conversação Langenscheidt de italiano. Mais meia hora tentando encontrar palavras e ele se levanta para tentar falar com o primeiro otário que aparece pela proa.

Per favore. — ele aborda uma moça, tentando pronunciar palavras foneticamente num idioma que desconhece por completo — Il departamento di medieval litterature?

A moça — uma jovem ruiva de tranças e aparelhos nos dentes, com cara de nerd — olha bem para ele e dispara uma catadupa de palavras que quase o afoga. Isso sem contar com os gestos. A moça gesticula, gira as mãos, aponta, recolhe as mãos, traça alguns símbolos no ar ("O que essa porra dessa garota é, membro de alguma seita ocultista?" — ele pensa) e diz mais algumas palavras que, evidentemente, ele não entende.

Ele diz grazie e sai fora.

Consulta o relógio, que por pouco não esqueceu de ajustar ao descer do trem. O fuso horário em relação à Inglaterra é de apenas uma hora, mas sessenta minutos são especialmente fundamentais quando você está procurando chegar a um departamento de uma universidade antes que acabe o expediente. Constantine cagaria para isso... se tivesse onde dormir.

Leva mais de uma hora para encontrar o departamento. É um lugar simples, na verdade: uma casinha de tijolos no extremo oposto do campus (que não é pequeno), entre árvores cujo tipo Constantine não consegue identificar. É um lugarzinho ajeitado. E cheira bem.

Ele entra na casinha. Logo de cara, uma mesa com uma cadeira desocupada e um casaquinho leve de tricô pendurado no encosto. A recepcionista deve ter ido ao banheiro.

Constantine não está com saco de esperar. Não viajou tanto para isso. Vai entrando de qualquer maneira pelo corredor à direita da recepção, tentando decifrar os dizeres das placas em cada uma das portas.

O nome do italiano está na última placa.

Ele bate e abre a porta.

O escritório é pequeno e tem um cheiro forte e acre de charuto. É cercado de estantes em todas as paredes, estantes abarrotadas de livros. Em todos os idiomas que Constantine consegue reconhecer e em mais outros tantos dos quais ele nem faz idéia.

Sentado à mesa igualmente atulhada de papéis, livros e revistas, um homem barbudo e ligeiramente grisalho, de caneta na mão, levanta bruscamente a cabeça e ensaia o que Constantine tem quase certeza de que seria um palavrão, por ter sido interrompido.

O inglês não dá tempo para que o outro reaja. Saca o cartão amassado do bolso e diz:

I need your help, professor.

As horas passam rápidas. Lá fora, anoitece. Mas agora é que John Constantine não está nem aí.

O italiano custa um pouco a reconhecer Constantine, mas quando se lembra da figura, recebe-o com interesse. Constantine não hesita, não tem por que hesitar. Conta tudo o que aconteceu desde aquele malfadado encontro no Brasil. (*) A volta para a Inglaterra. A bebida e as drogas. O envolvimento "recreativo" com magia. Astra Logue. E sua temporada no inferno de Ravenscar.

O escritório parece a beira do Tâmisa num dia de fog intenso: as fumaças combinadas do cigarro inglês de Constantine e do charuto cubano do italiano anuviam o ambiente, transformam o aposento quase numa sauna. Mas o calor não incomoda nenhum dos dois. Constantine lembra de um livro que leu sobre as tendas do suor dos índios americanos. É bom para purificar.

— Então, signore Constantine — o italiano diz, finalmente, depois que o inglês acabou de contar sua história — O senhor decidiu fazer um sabático.

— Como?

— Um sabático — explica o italiano — é um período de descanso que acadêmicos costumam solicitar de tempos em tempos. Para não queimar o fusível, o senhor sabe. — e bate com a ponta do indicador na têmpora, sorrindo — Parece mesmo que o senhor está precisando de um tempo em outro ambiente.

Whatever. — diz Constantine — Preciso voltar a dormir. E sem pesadelos, de preferência.

Well... — o italiano diz, sorrindo sem abrir a boca — La frutta si conosce mangiandola.

— Bom, eu acho que você disse alguma coisa a respeito de frutas, mas o resto me passou batido.

— É um ditado popular desta região. — explica o italiano, traduzindo a frase — "Só se conhece a fruta comendo-a."

Mate, — Constantine diz, soltando a fumaça do cigarro junto com o ar dos pulmões — eu já provei muitas frutas na vida. A maioria não tinha um gosto muito bom. — dá de ombros — Mas que seja. Não me custa nada provar mais algumas.

— Então andiamo. — o italiano o chama, com um gesto largo — Vou te arrumar uma vaga no albergue universitário. Com sorte, ainda dá tempo de matricular você num curso de italiano instrumental. As coisas vão ficar mais fáceis depois.

— Tomara. — Constantine diz, baixinho, lembrando por um instante de Ravenscar e do que o fizera parar lá — Tomara.


Continua...


:: Notas do Autor

(*) Confira este encontro e a passagem de John Constantine pelo Brasil em Constantine # 02. voltar ao texto




 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.