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Hellblazer # 16

Por Fábio Fernandes

Ano Sabático — Parte IV
Somebody Got Murdered

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"Ma che ragazza belíssima" — pensou John Constantine, olhando uma bela morena que passou diante de seus olhos no corredor.

Foi nesse instante que Constantine descobriu que já sabia falar italiano.

Bem, pelo menos o mínimo para não morrer de fome — em nenhum sentido. Dava para pedir uma pizza e traçar uma mina, o que viesse primeiro.

Dava até para assistir às aulas em que o italiano o inscrevera.

Era um curso livre, na verdade, pois John era inglês e não tinha educação formal. Não seria possível pedir transferência de créditos, e ainda que fosse, ele teria no mínimo de procurar sua irmã. E ele não queria procurar Cheryl.

Ali ele estava bem. Well and good. Bene.

Eram apenas duas disciplinas: o italiano achou que ele se sentiria sobrecarregado com mais horas de aula. Um curso de imersão de italiano para estrangeiros (pesadíssimo, eram quatro horas de aula por dia, e na parte da manhã). E um curso de semiótica.

What for? — ele perguntou ao italiano, quando viu que o outro o havia inscrito ali.

O italiano deu de ombros (como sempre fazia quando achava desnecessário falar) e respondeu:

— Tudo o que você precisa aprender na vida está na semiótica. O resto é complemento. Como dizia, aliás, o rabino Hillel.

Who?

O italiano sorriu, balançou o dedo negativamente e disse:

Chi. — corrigiu, pronunciando a palavra "qüi" — Você precisa começar logo a aprender italiano, ragazzo, senão vai ficar perdido por aqui. Nós, mediterrâneos, não temos o costume do bilingüismo. Podemos até saber inglês, mas só falamos o idioma da nossa terra. — deu de ombros de novo — Uns dizem que é nacionalismo barato, dos tempos de Mussolini, outros que se trata apenas de comodismo. Whatever, como você costuma dizer. Não faz diferença. O caso é que pouca gente fala inglês por aqui além dos professores. A moçada aqui sabe apenas o suficiente para cantar rock, e olhe lá.

— Sim, mas você ainda não me contou a história desse tal rabino.

— Ah, era um rabino muito sábio que viveu no século dezoito e a quem se atribui a seguinte história. Certa vez, um judeu não-praticante, ateu, aliás, entrou em sua sinagoga e o desafiou a resumir a sabedoria da Torá em poucas palavras, o que parece uma tarefa impossível, se levarmos em conta que ela compreende o Pentateuco, ou seja, os cinco livros de Moisés, do Gênesis ao Êxodo. O maluco (sim, porque só poderia ser maluco, porca miséria) ficou num pé só e disse: "Se você conseguir antes que eu me canse e coloque o pé no chão, eu me converterei."

— E o que o rabino fez? Kicked his ass out?

O italiano riu.

— Não, fez melhor ainda. Ele resumiu a sabedoria da Torá.

— Mas como?

— Disse o seguinte ao sujeito: "Não faça a ninguém aquilo que você não gostaria que fizessem com você. Isto é a Torá. O resto é comentário."

Foi a vez de Constantine rir.

What a motherfucker, man... e o cara?

— O que você acha? Converteu-se, ora!

Riram. Constantine gostaria de ter conhecido esse tal rabino.

O curso havia começado em fevereiro. Agora era março e o campus estava cheio. Meninas a perder de vista.

Não que Constantine estivesse procurando ninguém. Não especificamente, claro: se alguma menina aparecesse e lhe pedisse fogo (e como aquelas italianas fumavam, catzo), ele daria todo o fogo que elas quisessem. Sussurraria "c´mon baby light my fire" numa boa no ouvido de cada uma sem problema.

Mas ele não estava procurando ninguém.

Diabos, a memória da dor custa a passar.

— Só uma coisa consegue curar a dor com rapidez. — disse uma voz em inglês às suas costas.

"Estava demorando." — ele pensou.

What? — ele perguntou, antes mesmo de se virar.

Não era o sujeito de cabelos brancos nem a moça da estação de trem. Era um homem branco, de cabelos pretos demais, como se fossem pintados, óculos escuros e bengala, usando um terno azul-celeste e — claro — uma capa de chuva.

"Agora sim." — Constantine pensou — "Esse aí é viado mesmo."

— A morte. — respondeu o sujeito — Dela ninguém escapa.

— Você está me vuduzando, mate? — ele olhou cínico para o homem do terno azul. O homem não olhou direto para ele. Parecia cego.

— Não, sr. Constantine. — o homem respondeu. Constantine ficou injuriado: "porra, como é que todos esses freaks sabem meu nome?" — Estou apenas fazendo uma observação. E um alerta.

E, ao se afastar, a bengala fazendo um ruído oco contra os ladrilhos do corredor, ele disse sem se voltar:

— A propósito, nós todos conhecemos seu nome por uma questão de necessidade. E não somos freaks, sr. Constantine.

— Por que vocês conhecem meu nome? — Constantine gritou. Mas o homem já tinha ido embora.

La ragazza se chiamava Elizabeth. E estava morta.

Constantine só soube horas depois, quando o corpo já havia sido levado. Os boatos que circulavam nos corredores davam todos a mesma informação: a garota havia morrido afogada numa fonte que ficava entre dois blocos. Não havia evidência de assassinato.

Problema: a água da fonte era muito rasa. Difícil para um suicídio.

Problema dois: a morta era a morena linda que ele andava secando há algum tempo.

Secando. Hmpf. Ele precisa escolher melhor as palavras.

— Elizabeth Drowning. — disse uma voz às costas de John — Não deixa de ser irônico.

— Puta que pariu! — disse Constantine — Se for mais um de vocês, encapotados...

Não era.

O garoto não devia ter mais de dezesseis anos. Era magro, alto e tinha um rosto meio anguloso, o queixo pontudo e barba por fazer — ou melhor, fiapos de barba. Óculos fundo-de-garrafa. O nerd clássico.

— O que é que você quer, moleque? — ele pergunta, irritado.

— Putz, você não percebe a ironia? Elizabeth Browning. A poetisa, saca?

— Eu entendi da primeira vez, arsehole. So the fucking what? — e, depois de alguns segundos: — E o nome completo dela era Elizabeth Barret Browning.

O garoto não se deu por achado:

— Mas então? Olha só o barrete que ela usava!

— Não era barrete. Era uma boina!

O garoto ignorou solenemente a correção.

Hell, man, tem um tempão que eu não ouço ninguém falando um inglês decente por aqui. Tu é brit, né?

— Por que é que você quer saber?

— Pô, man, a gente que é anglo-saxão tem que se manter unido, né? — ele disse, com um risinho meio fungado. John notou uma meleca verde pendurada na narina imensa do garoto.

— E você está fazendo o quê por aqui?

Hey, paranoid! I like that! — o garoto não perdia o humor. Já Constantine havia esgotado o seu reservatório pequeníssimo. Estendeu a mão para o inglês rabugento — Meu nome é Quentin. Tô meio perdidão aqui, meus pais me mandaram para visitar o lado italiano da família, mas tirando o cinema não tem nada de legal aqui pra se fazer. Já te disseram que tu é os cornos do Sting?


Continua...




 
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