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Howard, o Pato # 01

Por Alice in Wonderland

Boa noite.

Para aqueles que nunca ouviram falar de mim, meu nome é Howard... Howard, o Pato... Sim. Vocês ouviram bem... Um pato.

Eu venho de um planeta de outra dimensão, onde evolutivamente a raça superior é formada por patos, como, aliás, acredito que deveria ser em todo o Universo. Fiquei náufrago nesta realidade — não por vontade própria — e já vivo entre vocês, descendentes de macacos, há muitos anos. Tive muitas ocupações entre os seres humanos, como auxiliar do Stan Lee, astro de um programa de TV, lutador de vale-tudo, motorista de caminhão, candidato a presidente dos EUA — maldito Patogate — dentre outros.

Estando "entre empregos", deixei que corresse a notícia de que estaria disposto a trabalhar como colunista, empenhando minha visão "única" da sociedade humana — afinal, como já disse, EU SOU UM PATO! Várias redes de TV e jornais disputaram meus serviços, inclusive a CNN e a revista Time. Você se pergunta então por que estou trabalhando para o Hyperfan, certo? Bem, o que ocorre é que tenho grandes amigos por aqui, como Lopes, Délio, Otávio, JB... além de dever uns favores para o Mandarino... Assim, quando fui contatado pelo Cesar para que a esposa dele, Alice, fosse minha assessora de imprensa junto a essa instituição, acabei aceitando — apesar de que parece que ela teve que ser convencida disso, mas eu não acredito... Eles são legais, mas não consigo me livrar da sensação de que acabarei "pagando mico" — expressão extremamente racista... Prefiro "pagar o pato".

Bem, sem mais atrasos, vou começar o trabalho pelo qual estou sendo pago — mal pago, mas tudo bem! — Vamos a minha primeira coluna na Hora do Pato, um conto de meus primeiros dias na Terra, que gosto de chamar de:

A Iniciação de Howard no Mundo das HQs
(sim, porque no resto ele já tem PhD em Harvard!)

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Peço licença para deixar claro que minha assessora de imprensa, Alice, foi contra a minha declaração relativa aos meus PhDs, mas ela é mulher e não sabe o que fala, por isso incluí assim mesmo.

EUA, 2000.

Quando cheguei à Terra, ou esta #&*!! azul, como realmente Neil Armstrong deve ter dito quando da Lua viu o planeta de vocês, logo tratei de procurar sanar minhas necessidades básicas — mulheres, charutos e HQs (NECESSARIAMENTE nesta ordem). Para um pato charmoso como eu, não foi difícil derreter os corações das garotas da Terra. Vocês não sabem o frisson que uma pele recoberta por penas pode causar em uma dama...

Quanto aos charutos, disseram-me que os melhores eram da Ilha. Como nem desconfiava para que lado poderia ficar este monte de terra, decidi me informar com os gentis colegas do FBI que estão cuidando de minha situação legal no planeta. Só sei que após falar na tal ilha, imediatamente dez agentes pularam no meu pescoço, e munidos de armas e óculos escuros só sabiam perguntar:

— Onde está ele? Fidel está nos EUA? Morte a el comandante!!!

— Calma, calma — apelei. Só estou querendo uns charutos. Cês sabem. Acender sem apertar.

— Ah, charutos cubanos??? Isso pode! Eles não estão no embargo. Haha, o Clinton que o diga!! BWAHAHAHAHA!!!! Hei, tome aqui alguns. São da época do Kennedy; esse sim entendia de mulher!! HAHAHA...

Risos tomaram conta da sala. Como nunca entendo estas piadas, acendi meu havana e saí de fininho.

Pronto. Agora só faltavam minhas HQs. Decidi ir até uma gibiteria chamada Camelot. Com um nome pomposo destes, acreditei que meus problemas estariam terminados. Era só pegar um holograma animado (ah, esqueci que aqui vocês ainda usam papel) e deliciar-me com as aventuras de seres mágicos ou vingadores urbanos. Ledo engano.

Um rapaz gordo, com uma camisa "I believe", barba e rabo-de-cavalo veio me atender. Expliquei-lhe minha penosa (!) situação (sem trocadilhos, please), e pedi um conselho sobre por onde deveria começar.

— Bom, você precisa de um curso básico. Quantos dólares você tem? — perguntou o rapaz.

— Como acabei tomando cervejas demais, sobraram-me uns 25 cents.

— Só isso? Então vamos ao curso. — ele puxou a moeda de minha mão — Está pronto?

— OK! — disse eu, ansioso pela revelação.

— Escute bem. Rob Liefield, mau; Alan Moore, bom.

— E...

— Não, é só isso. O que você queria por um quarto de dólar? Maldito neófito. BWAHAHAHA.

A risada ecoou em minha mente. Contra agentes do FBI eu não poderia fazer nada. Mas este verme aproveitador devorador de Dunkin' Donuts seria vítima de minha maestria em pato-fu... Pulei no pescoço dele, sacudindo sua cabeça:

— Cretino! Eu quero mais informações!

— Calma, pato doido! Pense que tenho que ganhar dinheiro também!

Vi que a violência nada ajudaria no caso, e procurei uma outra saída:

— Tudo bem... Iria te propor um escambo. Mulheres. Posso arranjar umas patinhas para você.

— Oba!!!! Muié! — o rapaz, que descobri se chamar Bill, caiu no chão, babando — Há quanto tempo não vejo isso. Cê sabe, muito tempo na rede. Aquelas listas de HQs não me deixam ter vida social... CHUIFFFFFFF!!!

Encharcando minha penugem, Bill prometeu me dar uma aula mais completa sobre HQs. Pediu para eu passar na gibiteria à noite.

Uma sala de aula com direito a carteiras e quadro-negro me esperava. Contive a vontade de rir quando Bill surgiu, vestido com um guarda-pó branco meio encardido e óculos com grossas lentes.

— Pato, esqueci de perguntar seu nome...

— Duck, Howard the Duck.

— Hum... dá o nome de uma boa HQ. Pensaremos nisto depois.

— Há! — pensei — Só se for um misto de Playboy, Penthouse e a revista da associação de cervejarias da Irlanda.

A aula começou.

— Bom. Passo 1. As editoras. As maiores, quase monopolistas, são a Marvel e a DC. Os personagens mais popularmente conhecidos são destes dois selos; por exemplo: Thor, Homem-Aranha, Namor, Demolidor são da Marvel. Batman, Super-Homem, Lanterna Verde, Capitão Marvel são da DC. E...

— Epa! — disse eu, com veêmencia — Nananina. Tá vendo? Cê já tá me sacaneando. O Capitão Marvel não é da Marvel?

— Não, é da DC. A Marvel até tem um Capitão Marvel, mas são personagens distintos. Só a pior espécie de neófito não saberia disso...

— Mas como é que a Marvel não troca o nome do seu Capitão Marvel, para não confundir com o Capitão Marvel da DC? Por que não tem um Capitão DC? E se tivesse, a Marvel ia ter um Capitão DC só para bater de frente com o Capitão DC da DC? E caso o Capitão...

— ARGH! Chega! Maldito neófito! Vamos pular alguns passos e ir logo para o tópico "revistas no estrangeiro". Blá, blá, blá, blá...

Já estava quase dormindo com a explicação de Bill sobre as publicações de HQ fora dos EUA. Tudo o que eu queria era saber quais são os melhores personagens. Mas um tópico me chamou a atenção:

— Tem o Brasil, que decidiu tirar de circulação o formato mais vendido e substituí-lo por outro, ótimo para colecionadores, mas com as histórias em fases ruins. Com mais qualidade gráfica, mas mais caro. 10 reais. Em moeda local, isso equivale a 10 latinhas de cerveja, em média.

— O quê?? Amor às revistas, tudo bem! Mas trocar isto por 10 cervejas... nem morto, assado ou refogado no azeite com batatas!

— Tá bom, vamos mudar de assunto novamente.

E aula passou, com situações irreais, que nem um pato junkie como eu poderia acreditar. Sagas terminadas em clones, que eram reais, mas depois descobrem que eram só clones mesmo — ê saída criativa — , morte e ressurreição de mutantes, autores montando editoras para terem mais liberdade e anos depois voltando para as editoras de onde saíram, histórias com cortes de até dez páginas, censura, comic-code, etc...

— Chega, cara! Minha cabeça já está doendo. Olhe para mim e diga o que você recomendaria para este pato!

— Algo do Crumb, histórias do Hitman, Preacher, Druuna... sexo e violência. Acho que te serve. Se quiser algo baratinho, mas de qualidade, tente edições antigas de Jon Sable ou Spirit.

— Hum... anotei. Bom, obrigado pela ajuda!

— Epa! E minhas mulheres, como é que faço? — bradou Bill.

Tive que pensar em uma saída rapidamente. Então, abracei Bill e...

— Bom, citando aquele filme do Jack Lemmon e da Marilyn Monroe: "ninguém é perfeito"...

— Sai, pato maldito! — um assustado Bill saiu correndo rua acima, derrubando pessoas e cestas de lixo pelo caminho.

— Hummmmm... ter que fingir outra identidade sexual para não pagar as aulas de HQ... é o começo da minha derrocada na Terra e nos EUA. Para piorar a situação, só falta algum imbecil do Texas governar este país. Já pensou?



 
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