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Por
Marcelo Augusto Galvão
O
Bom, o Feio e o Faminto
Prólogo
em algum lugar próximo da fronteira canadense e americana
A noite se tornara branca, tamanha era a força da rigorosa
nevasca que atingia a região há três dias
consecutivos, sem dar sinal de trégua.
Numa caverna próxima, dois homens tremiam de frio e fome.
A súbita tempestade transformara a simples viagem de negócios
para o Canadá em pesadelo. Desorientados pela nevasca e
após perderem os cavalos com as provisões num lago
congelado, encontraram a caverna onde tentavam sobreviver sem
comida, água e fogo. O frio era intenso. O vento teimava
em entrar no abrigo improvisado, uivando de um modo estranho que
nenhum deles havia ouvido antes, como se zombasse da sua situação.
O pior era a sensação de que algo ou alguém
lhes observava de fora da caverna.
Besteira. Nada poderia sobreviver no meio daquela tempestade
pensou um dos vaqueiros, um homem forte e de traços rudes.
Sem dúvida aquilo era uma alucinação, mais
um dos efeitos da inanição prolongada, junto com
a tontura e as fortes dores na cabeça e no estômago.
O vaqueiro sabia que, se a nevasca não cedesse nas próximas
horas, ele morreria ali, longe da sua adorada família e
do pedaço de terra que comprara com tanto esforço.
Ele precisava arranjar um jeito de escapar. "Mas saco vazio
não pára em pé", lembrou, quando seu
estômago reclamou de fome mais uma vez. Sem se alimentar,
não chegaria muito longe.
Para se distrair e tentar esquecer a fome cada vez mais angustiante,
ele passou a observar seu colega de viagem. O gordo vaqueiro batia
os dentes uns contra os outros, as mãos enterradas nos
bolso para evitar o congelamento dos dedos. Suas fartas bochechas,
assim como seu rotundo nariz, estavam vermelhos devido a exposição
ao frio, lembrando ao outro homem a coloração da
carne fresca dos animais que ele abatia em seu rancho. A mesma
carne fresca e vermelha, ele se pegou pensando, que era depois
transformada em suculentos filés preparados pela sua esposa.
A agradável recordação foi interrompida pelo
seu estômago, com um ronco gutural e indecente, fazendo
seu corpo doer mais um pouco. Desta vez, a dor só facilitou
a decisão pelo ato hediondo que praticaria a seguir, sacando
sua faca de caça e saltando em direção ao
seu robusto companheiro. E enquanto a afiada lâmina trabalhava,
o vaqueiro tinha a nítida impressão de que o vento
gargalhava nos seus ouvidos.

Colorado
Três semanas depois
A primavera havia chegado, derretendo a neve e tornando as estradas
mais lamacentas do que antes. A nova estação, entretanto,
não significava o fim do frio. Uma irritante brisa gelada
soprava, congelando os ossos de Jonah Hex.
Montado em seu cavalo, o caçador de recompensas se encolhia
na sua surrada casaca cinzenta, um resquício do uniforme
do tempo dos Confederados, e amaldiçoava o clima da região.
Seu desejo era estar longe dali, mas na sua profissão ele
não podia se dar ao luxo de escolher onde sua próxima
presa estaria.
Há dias, ele havia ouvido boatos sobre um cruel assassino
que até o momento matara e mutilara quase uma dezena de
pessoas naquela área. Os detalhes das mortes variavam tanto,
dependendo da narrativa, que Hex resolveu ir até Red Creek,
um dos últimos lugares onde o matador atacara, para conseguir
maiores informações. Uma coisa, porém, era
certa: a recompensa pela captura do bastardo era grande e, a cada
nova vítima, aumentava mais um pouco.
A notícia dos horríveis crimes também havia
chegado ao escritório do jovem advogado Matthew J. Hawk,
em Tombstone, Arizona, alardeada com sensacionalismo pelos jornais
de todo o Oeste americano, que estampavam em suas manchetes os
detalhes cruéis das mortes. A população,
amedrontada pelas notícias propositadamente exageradas,
clamava por uma justiça rápida.
Por sua experiência, Hawk sabia que seria apenas uma questão
de tempo para que o implacável juiz Lynch entrasse
em ação, com uma multidão furiosa escolhendo
um infeliz para ser linchado e enforcado na árvore mais
próxima. Depois que soubera da farta recompensa oferecida,
o advogado tomara uma decisão: descobrir o assassino o
mais rápido possível e levá-lo aos tribunais,
a salvo. Desta vez, entretanto, os conhecimentos forenses de Matt
Hawk seriam de pouca valia. Para este caso especial, ele precisava
da ajuda de alguém conhecedor da linguagem peculiar das
armas de fogo. Ele precisava do Defensor Mascarado.
Mais rápido, Furacão! falou ao seu cavalo, enquanto
ajustava a máscara sobre os olhos, cavalgando em direção
a Red Creek e esperando que não fosse tarde demais.

Esta
é uma cidade em desenvolvimento orgulhou-se John Wood,
xerife de Red Creek, olhando pela janela do seu escritório.
Em um canto mal-iluminado da pequena sala, Jonah Hex podia constatar
facilmente a afirmação: o cheiro do estrume, deixado
pelos cavalos das diversas carroças e diligências
que transitavam pela principal rua da cidade, invadiam o lugar.
Uma das mais importantes estradas de ferro do país seria
inaugurada em poucos meses, o que justificava a agitação
no povoado.
Acendendo um cigarro, Hex olhou ao seu redor. As paredes do cômodo
eram decoradas com cartazes onde rostos, nomes e números
abaixo da palavra Procura-se chamavam a atenção.
Para ele, criminosos como Bill Munny, assaltante de trem e assassino
de um delegado federal, ou Tuco Ramirez, ladrão de gado,
assassino, assaltante de banco, estuprador e mais dez outras acusações,
não passavam de cifras. Em outra ocasião, eles até
interessariam ao caçador. Mas a sua atual presa, com uma
recompensa de oitocentos dólares e que o trouxera até
ao frio Colorado, ainda não tinha um rosto identificável
e nem um nome.
Tudo estava indo bem continuou o xerife até que esse
maldito filho-da-mãe apareceu e começou a matar
gente na região. E isso, definitivamente, não é
saudável para os nossos negócios.
Num deve ser mesmo. Se quiserem que eu pegue o sujeito, preciso
saber tudo sobre ele.
Não sei muita coisa Wood se virou para Hex e fez uma
careta, sem saber o que era pior: encarar as horríveis
cicatrizes que se espalhavam pela face direita do caçador
ou relembrar o que havia visto Um fazendeiro do condado vizinho
saiu pra caçar umas lebres pelas redondezas e não
voltou mais pra casa. O pessoal de lá resolveu fazer uma
busca, me pediram ajuda e foi quando encontramos...
O xerife engoliu em seco, para continuar em seguida:
... foi quando encontramos o que restou dele perto de um bosque.
E o que sobrou dele? Hex perguntou.
As tripas do pobre coitado tavam espalhadas por todos os lados.
Tinha tanto sangue que a grama tava vermelha... as pernas e os
braços jogados cada um pra um lado... foram arrancados
a dentadas, a gente podia ver o sinal das mordidas.
Então foi o ataque de um animal selvagem.
Não, não foi. Nasci aqui e já vi mordida
de urso, de coiote, de lobo, mas posso dizer, com toda certeza,
que aquilo não era coisa de bicho algum...O jeito como
encontramos o corpo, os ossos quebrados, aquilo é coisa
de ser humano, é de gente mesmo. Foi quando me contaram
que não era a primeira vez que aquilo acontecia.
Quantos mais?
Se contar os corpos que acharam desde Montana até aqui,
são oito pessoas, tudo do mesmo jeito.
Um canibal. É isso que vou caçar. Hex deu uma
longa tragada no cigarro, pensativo.
Isso mesmo. E se quer saber, isso só pode ser coisa de
índio!
Saindo do seu canto, Hex encarou o xerife, para o desespero deste.
Índio ?!
S-sim, é claro. Você sabe como são esses
peles-vermelhas. Não passam de um bando de selvagens sem
alma, uns pagãos. Eles torturam, escalpelam, então
devem comer carne de gente branca também!
Conheço tudo que é tribo e nunca vi um canibal
entre eles.
Nunca é tarde pra começar, concorda? Mesmo porque
se ele não for índio, deve ser um desses crioulos
que agora vivem livres por aí nas redondezas.
É bom ver que os senhores estão facilitando o
meu trabalho disse uma terceira voz. Hex e Wood se viraram para
a porta, onde um homem de roupas e chapéu escuro, vestindo
um colete malhado, os mirava por detrás de uma máscara
negra. Apagando o cigarro no chão, Hex observou o recém-chegado
por alguns segundos:
O Defensor Mascarado. Já ouvi falar de você.
E você é Jonah Hex a voz do mascarado se tornou
fria o caçador de recompensa. Sua cicatriz é inconfundível.
Meu cartão de visitas e esboçou um sorriso até
onde sua desfiguração permitia pensei que cê
andava pros lados do Arizona.
Tem razão. Mas no momento meus interesses estão
dirigidos para Red Creek.
Então tá perseguindo o desgraçado comedor
de gente. Não sabia que também era um caçador
de recompensas.
E continuo não sendo. Prezo a vida humana e não
acredito em justiça mediante prêmio explicou, fitando
Hex E muito menos naqueles que vivem dessa profissão.
Hex deu um passo adiante.
Pra um sujeito que se esconde atrás de uma máscara,
cê tem culhão, moço.
Nessa vida, nunca me deixei intimidar por ninguém, por
mais feio que ele fosse. É assim que eu vejo o mundo.
Bom, talvez um buraco maior nessa máscara te ajudasse
a ver o mundo de outra maneira.
Hex abaixou lentamente as mãos em direção
ao coldre, um gesto repetido simultaneamente pelo Defensor Mascarado.
Os dois homens, separados por alguns passos, se encararam, estudando
um ao outro.
A concentração de ambos, no entanto, foi quebrada
por um barulho ensurdecedor que vinha da rua principal. O xerife,
que até o momento se encontrava quieto e esperando que
uma bala perdida do duelo não o atingisse, foi o primeiro
a perguntar:
Que bagunça é essa?! Parece que tão comemorando
o Quatro de Julho!
Os dois pistoleiros, ainda tensos e com as mãos a milímetros
de suas armas, se aproximaram com cautela da janela da sala.
Acho que o seu pessoal resolveu adiantar a festa. E na falta
dos fogos de artifício, arranjaram outra diversão
Hex respondeu, olhando para rua, onde cerca de trinta pessoas
se aglomeravam.
Enforca o canibal! gritava a multidão.
Praguejando, John Wood saiu do escritório, com os pistoleiros
logo atrás, no mesmo instante em que um rapaz grande e
de barriga avantajada se adiantou ao grupo. Uma estrela metálica
de auxiliar de xerife brilhava no seu peito.
Pegamos o canibal, chefe.
E empurrou para o xerife um homem magro com a roupa em farrapos.
Era um índio de idade avançada, cabelos longos e
brancos, rosto encovado com rugas; parecia ser apenas mais um
dos milhares de indígenas miseráveis forçados
a viver nas reservas de terra do governo.
Tava lá perto do riacho, esperando a próxima vítima
o rapaz continuou.
O velho abriu a boca para responder, mas outro empurrão,
quase o desequilibrando, o fez mudar de idéia.
Bom trabalho, Billy Bob. Pena que nossos amigos aqui não
pensam desse jeito falou o xerife, com um sorriso zombeteiro
para o Defensor Mascarado e Jonah Hex. Sem se importar com o comentário,
o pistoleiro mascarado se aproximou de Billy Bob.
Por acaso perguntaram o que ele fazia no riacho?
E precisava? o outro deu de ombros
Neste país, uma pessoa é inocente até que
se prove o contrário Matt Hawk, o advogado, respondeu,
franzindo o cenho sob a máscara do Defensor Mascarado.
E desde quando índio é gente? um dos
espectadores gritou, logo acompanhado pela multidão, sintetizando
a opinião da cidade. Um círculo começou a
se fechar em volta do índio.
Pegaram o homem errado. Deixa ele ir embora. disse Jonah Hex.
É mesmo? Pois o pessoal não pensa assim o auxiliar
explicou, desafiante Acho que você tá chateado
porque pegamos ele primeiro e vamos ficar com a recompensa. E
se não soltarem o índio, vai fazer o quê?
Atirar em todo mundo aqui?
Ele sorriu, indicando a multidão ao seu redor, a maioria
armada com pistolas e rifles. Hex balançou a cabeça,
calmamente.
Não, senhor. Pra mim, basta encher de chumbo esse seu
rabo gordo que já tô satisfeito e escarrou na bota
do auxiliar.
O sorriso desapareceu do rosto do outro homem, visivelmente constrangido.
Se usassem um pouco do estrume que tem entre as orelhas prosseguiu
o caçador de recompensas, enquanto displicentemente coçava
a virilha cês iam ver que o perigoso comedor de gente
que capturaram é banguela feito uma galinha.
O quê? exclamou o xerife.
Com uma gargalhada seca, o indígena abriu a boca, mostrando
as gengivas murchas.
E enquanto perdem tempo com ele, o verdadeiro matador tá
solto por aí, pronto pra atacar de novo completou Hex.
N-não pode ser, ele tava lá... Billy Bob, o
rosto vermelho, tentou falar, mas foi interrompido pelo xerife:
Leva esse índio pra fora da cidade, rápido, sua
besta! disse rispidamente para o rapaz E o resto de vocês,
voltem para suas casas. Vão logo!
Com a mesma velocidade com que haviam se reunido, os moradores
se dispersaram. Em poucos minutos, Red Creek voltou ao seu ritmo
normal de vida. Wood se voltou para os pistoleiros.
Obrigado por, hã, desfazerem esse pequeno mal-entendido
que ...
Guarda a saliva pra agradecer quando eu capturar o bandido.
Hex atravessou a rua, deixando o xerife e o Defensor Mascarado
sozinhos.
Ei, Hex, espere um instante! gritou o Defensor, correndo e
alcançando o outro homem Acho que devo um pedido de desculpas,
pelo que disse antes sobre você.
Não me deve nada. Com licença que tenho que trabalhar.
Hex continuou andando.
Pois então me escute. Você viu como todos estão
apavorados, temendo a própria sombra, procurando alguém
para culpar. Dessa vez foi um índio, na próxima
pode ser um negro ou um mexicano. Mesmo que o mexicano mais próximo
esteja a quinhentos quilômetros daqui, pouco importa.
E daí?
Se trabalharmos juntos, podemos caçar o assassino e agarrá-lo
antes que mais sangue inocente seja derramado. Quanto mais rápido
o encontramos, melhor para todos.
Não divido minhas recompensas com ninguém, moço.
E eu não quero esse dinheiro sujo o Defensor olhou
fixamente para Hex Quero apenas ele vivo, para levá-lo
aos tribunais e ter um julgamento justo.
É mais fácil achar uma puta virgem do que um julgamento
justo por esses lados Hex replicou, montando no seu cavalo.
É o que veremos. Então, o que me diz?
O caçador coçou o queixo, pensativo.
Já que num tá interessado mesmo na recompensa...
monta logo no seu pangaré. Meu traseiro tá congelando
aqui fora.

O pequeno
rancho nos arredores de Red Creek era iluminado pelos relâmpagos
que anunciavam mais uma chuva naquela noite. Dentro da humilde
casa, uma robusta mulher cozinhava o jantar. Sua pequena filha,
sentada à mesa, brincava com a boneca de pano que o pai
trouxera da última viagem ao Canadá. Sozinhas no
rancho, as duas esperavam com ansiedade seu retorno de mais uma
jornada. A mulher, entretanto, estava preocupada. Seu marido deveria
ter chegado na semana anterior. É claro que atrasos sempre
aconteciam, principalmente devido ao clima ruim nas terras do
norte, mas ela não podia deixar de sentir um aperto no
coração. Seus pensamentos foram interrompidos pelo
relinchar dos cavalos no estábulo, atipicamente nervosos
esta noite.
"Provavelmente", pensou, "estão apenas assustados
com os relâmpagos e trovões ou com algum animal rondando
a propriedade na procura de abrigo e comida."
Este pensamento, ao invés de alívio, causou-lhe
um arrepio de medo, ao se lembrar das notícias do matador
à solta na região. Ao mesmo tempo, lembrou-se que
ela era a responsável pela casa na ausência do marido.
Decidida, buscou a carabina que ele lhe ensinara a usar e, após
advertir a filha para que ficasse na cozinha, saiu em direção
ao estábulo.
Mas o que ela não sabia era que alguém a observava,
escondido nas sombras das árvores que cercavam o rancho,
quando pisou para fora de casa. Alguém que, ao contemplar
seus braços carnudos e o decote do vestido que mostrava
parte dos fartos seios, sentiu a saliva escorrer entre os lábios.
Na próxima edição: Fome de viver
:: Notas do Autor
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