hyperfan  
 

Jonah Hex - Fome de Viver # 02

Por Marcelo Augusto Galvão

Na última edição: Jonah Hex e o Defensor Mascarado colocam suas diferenças de lado e se unem para caçar um cruel assassino, antes que mais sangue inocente seja derramado. Mas talvez seja tarde demais.

Fome de Viver

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
:: Próxima Edição
:: Voltar a Jonah Hex - Fome de Viver
:: Outros Títulos

Os dois pistoleiros dirigiram-se ao pequeno rancho tão logo ouviram a notícia de que o canibal atacara mais uma vez. Nos fundos da propriedade, se depararam com Billy Bob, o auxiliar do xerife de Red Creek. Apoiado numa árvore, o rapaz lutava contra a sensação de náusea. Em vão: o café da manhã retornou em um jato quente e azedo.

— Broa de milho, toucinho, ovo frito — Jonah Hex falou, olhando para o conteúdo do vômito que se misturava ao solo lamacento — Do jeito que cê tá gordo, dava uma refeição e tanta pro matador...

O xerife Wood estava perto do estábulo, ao lado de um pilha de trapos. O Defensor Mascarado foi o primeiro a se aproximar, deixando Hex para trás. Só então o herói notou que a pilha de trapos era, na verdade, um corpo. Ou pelo menos o que sobrou de um.

— O maldito matou de novo — disse o xerife, a frustração estampada no rosto.

Aos seus pés, o cadáver do que parecia ser uma mulher encontrava-se retorcido. O sangue, desbotado pela chuva da noite anterior, a cobria e se espalhava pelo solo. Com certa dificuldade, o Defensor conseguiu distinguir o que restara dos braços e pernas, com as marcas das mordidas de dentes graúdos, assim como as vísceras indecentemente expostas.

Após respirar fundo e evitar que o seu café da manhã tivesse o mesmo destino do de Billy Bob, o Defensor perguntou:

— Era sua conhecida?

— Sim. O nome era Anna Trudeau. Boa moça, se mudou pra cá faz alguns anos com o marido. Ele tá viajando, deve voltar logo — Wood abaixou a cabeça — Pobre rapaz, era apaixonado por ela...

— Alguém viu ou ouviu alguma coisa?

— Nada. Com a tempestade de ontem, todo mundo se recolheu cedo. Hoje pela manhã, o rancheiro vizinho viu os cavalos dos Trudeau soltos no quintal dele, veio tomar satisfação e encontrou a mulher e a criança.

— Criança? Você quer dizer que ...

— Que o nosso canibal tá mudando de gosto — Jonah Hex o interrompeu, vindo dos fundos do rancho — Vem comigo.

Os dois caminharam em silêncio por alguns metros e logo o Defensor viu uma nova, porém menor, pilha de trapos.

— Oh, não! — ele murmurou, desviando o olhar e acabando por detê-lo numa contorcida boneca de pano, jogada sem cuidado no chão, próximo de sua dona.

Depois de alguns segundos, falou:

— Não entendo... Nenhuma mulher ou criança havia sido atacada antes...

— É, parece que ele se cansou de comer sempre o mesmo tipo de carne. — Hex respondeu, olhando para a entrada do rancho, onde uma pequena multidão começava a se aglomerar — Agora, com a morte delas, duas coisas vão com certeza aumentar: o ódio do pessoal daqui e a recompensa pela captura do bastardo.

— O quê? — o Defensor replicou, encarando-o — Como pode pensar em dinheiro numa hora dessas?

— É simples. Uma recompensa maior vai atrair todo tipo de imbecil pensando que pode pegar o matador. Isso só vai atrapalhar a nossa caçada.

— Então precisamos de uma pista dele, — e o Defensor olhou para o solo lamacento, cheio das pegadas das botas do xerife e do seu auxiliar, além das de Hex e dele mesmo — mas duvido que encontremos algo no meio dessa bagunça...

— Nem tanto — Hex agachou-se e levantou a aba do chapéu, para observar melhor o chão da propriedade — O temporal apagou a maior parte da trilha do matador, mas ainda dá pra ver que ele soltou os cavalos do estábulo, na certa pra chamar a atenção de quem tava na casa...

— ... e quando a mulher foi verificar, ele a atacou.

— Isso mesmo. Nem teve tempo de reagir. Encontrei uma carabina carregada, sem um único tiro disparado. Depois, foi a vez da garotinha ser atacada — Hex concluiu, levantando-se — E achei mais uma coisa. O rastro dele.

Apontando para as árvores no alto de uma montanha, a alguns quilômetros de distância, o caçador continuou:

— Foi dali que ele veio e foi pra lá que fugiu. Tá escondido naquele bosque. Quando sentir fome, vai voltar e matar de novo. E agora que sentiu o gosto de carne macia, num vai mais parar.

Jonah Hex era considerado um dos melhores batedores de todo o Oeste. Já havia caçado de tudo, desde os búfalos das planícies até os mais perigosos criminosos. Mas sua conhecida habilidade de nada adiantou quando a trilha do assassino começou a sumir, conforme os pistoleiros se embrenharam no bosque. No começo da noite, após passarem o dia inteiro rastreando a mata, haviam perdido sua única pista e retornado para a estaca zero. Como já era tarde, só lhes restava acampar numa clareira e passar a noite ali.

— O safado é esperto. Apagou direitinho o seu rastro — disse Hex, junto à fogueira acesa para espantar o ar frio da montanha — Vamos voltar amanhã pra Red Creek e refazer os passos dele.

— E enquanto isso, o canibal pode estar neste exato momento atacando outro homem, mulher, ou criança — replicou um mal-humorado Defensor, amarrando seu cavalo em uma árvore.

— Não adianta reclamar, moço. Melhor poupar suas energias pra quando a gente encontrar ele.

— Ok. Mas lembre-se de que ele tem que ser capturado vivo.

— Vou tentar me lembrar... — Hex começou a responder, quando notou que alguns dos arbustos cercando a clareira se moviam de uma maneira suspeita, numa noite sem vento. Também percebendo a movimentação, o Defensor se afastou da sua montaria, levando as mãos ao cinturão.

Silenciosamente, os homens sacaram suas armas e apontaram para a vegetação. Com um gesto rápido, Hex enfiou o braço nos arbustos e puxou violentamente o intruso para fora de seu esconderijo.

— Não atirem! — gritou, caído aos pés dos pistoleiros, o mesmo velho índio que eles haviam salvo do linchamento no dia anterior.

— É bom que tenha uma explicação — o caçador de recompensas disse, com o indígena na mira de seu revólver — O dia todo tive a sensação de que alguém seguia a gente pela mata. Por que cê tava espionando?

— Não tava espionando ninguém! — respondeu o índio, se levantando.

— Ah, é claro. Queria agradecer porque salvei a tua pele vermelha ontem, né? É melhor contar outra.

O Defensor Mascarado interveio:

— Um momento, Hex. Deixe o homem falar. — e se dirigiu para o ancião — Quem é você?

— Meu nome é muito complicado para a língua do homem branco pronunciar. Na terra da Avó — e se virou em direção ao norte, se referindo ao território canadense governado pela Rainha Vitória — os brancos me chamam de Twoyoungmen. Sou da tribo Sarcee.

— O que faz tão longe de casa ?

— Ora, o mesmo que vocês.

— Tá caçando o canibal? — Hex olhou desconfiado para o índio.

Twoyoungmen balançou a cabeça, concordando:

— Foi ele, e não eu, quem seguiu vocês, espiando entre as árvores durante o dia, se preparando para fazer sua próxima refeição com a carne de vocês.

— Você sabe onde ele está? — o Defensor perguntou ansioso, não percebendo que os cavalos se agitavam.

— Sim. — respondeu, apontando o dedo ossudo para um lugar atrás dos dois homens — Ele está aqui.

Os pistoleiros se viraram e, no alto de uma formação rochosa a pouca distância, viram a silhueta, que parecia ser de um homem, se destacando contra a lua. Com um salto, a silhueta desceu na clareira.

Neste instante, Hex e o Defensor se depararam com o canibal, seu enorme corpo musculoso, com mais de dois metros de altura, coberto da cabeça aos pés de pêlos brancos, que brilhavam à luz da Lua. Sua boca grande, cheia de dentes graúdos, salivava. Mas o que chamava a atenção era a enorme cauda que lhe saía da parte inferior das costas, contorcendo-se como se tivesse vida própria.

No segundo seguinte, o monstro avançou sobre o grupo. Sem pensar duas vezes, o caçador de recompensas e o herói mascarado descarregaram suas armas nele. Os clarões dos disparos iluminaram a clareira, enquanto a fumaça da pólvora criava uma névoa que envolveu a todos. Os revólveres finalmente silenciaram e, quando a fumaça se dissipou, os dois homens notaram que os tiros de nada adiantaram; a criatura continuava em pé, gritando numa voz gutural:

— Wen-di-go!

E se preparou para atacá-los novamente. Mas desta vez, Twoyoungmen, com uma incrível agilidade para sua aparente idade frágil, saltou em direção da fogueira e jogou um pedaço da madeira em brasa nos olhos do monstro, atingindo-o. Momentaneamente cego, ele retrocedeu alguns passos enquanto o índio pegava algo em uma pequena bolsa de couro que levava na cintura.

A visão do monstro, entretanto, voltou mais rápido do que o índio havia previsto. Ao ver Twoyoungmen se aproximando, com um objeto brilhante na mão, o canibal retrocedeu ainda mais e, de repente, deu um salto gigantesco para pousar num rochedo a dezenas de metros da clareira. E, do mesmo jeito que havia aparecido, sumiu no meio das árvores do bosque.

O silêncio retornou ao local, sendo apenas quebrado por um perplexo Jonah Hex, que perguntou:

— O quê diabos era aquilo?

Guardando o objeto que havia retirado de sua bolsa, o ancião respondeu:

— Algumas tribos chamam ele de Witiku, Wetiko, Windikouk. Outras de Windago ou Wendigo — e o índio se voltou para o pistoleiro — Mas para vocês, homens brancos, basta saber que seu nome é Morte Faminta.

Conclui na próxima edição com: Minha fome será sua herança

:: Notas do Autor



 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.