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Jonah Hex - Fome de Viver # 03

Por Marcelo Augusto Galvão

Na última edição: Os pistoleiros finalmente encontram o canibal e se deparam com uma ameaça pior do que esperado.

Minha Fome Será Sua Herança

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— Wendigo é um espírito maligno. — explicou Twoyoungmen, sentado próximo à fogueira com Jonah Hex e o Defensor Mascarado. Os dois pistoleiros, ainda surpresos pelo que haviam enfrentado minutos antes, prestavam atenção em cada palavra e gesto do velho índio. — Ele vaga por entre as montanhas, se escondendo nas árvores, esperando que um homem, não importa a cor da sua pele, pratique o maior sacrilégio contra a vida de outro homem: comer carne humana para saciar a sua fome.

O ancião pára por um instante, olhando o fogo que crepita diante dos três homens, antes de retomar a narrativa.

— Três luas atrás, tive uma visão. Wakantanka, o Grande Espírito, visitou meus sonhos e mostrou um branco, acuado numa caverna como um coelho na toca, se alimentando da carne de um semelhante. Era a oportunidade que o Wendigo esperava há muito tempo. Ele se apossou do canibal, transformando o corpo dele em um animal com o coração gelado e faminto por mais carne. Como xamã do povo Sarcee, é meu dever acabar com maldição do Wendigo. Tem sido assim desde os tempos do meu avô. — a voz do ancião soava grave — Orei para que o Grande Espírito me ajudasse a descobrir o paradeiro do monstro, antes que a mente do homem amaldiçoado sucumbisse por completo ao instinto animal e matasse mais inocentes.

— Mas por quê o Wendigo veio parar no Colorado? — perguntou o Defensor.

— O branco amaldiçoado vivia com sua família em um rancho aqui. Ele tentava desesperadamente ver sua mulher e filha mas, quando chegou, — ele suspirou — era tarde demais. O Wendigo havia dominado sua mente.

— Ele matou... a própria esposa e filha! — murmurou um perplexo Defensor.

— Se não for detido, o monstro continuará a sua matança, se alimentando para aquecer seu coração de gelo.

Dizendo isto, o índio mostrou um objeto brilhante redondo e liso, feito de rocha, pouco maior que a moeda de um dólar. Era o mesmo objeto que os pistoleiros haviam visto o xamã sacar contra o Wendigo.

— Este amuleto, se colocado sobre o coração da fera, tem o poder de transformá-lo em homem mais uma vez. Vai ser a única oportunidade que vocês terão para capturar ele.

Twoyoungmen fez uma pausa, observando os dois homens sentados à sua frente, que tentavam compreender o que haviam ouvido.

— Se eu num tivesse visto aquele bicho feio ali, na minha frente, diria que lá no Canadá cês também mascam peiote — Jonah Hex finalmente falou, se referindo ao cacto alucinógeno usado em alguns rituais indígenas no Oeste.

— Pois se este é o único jeito de levar o matador ante a justiça, não vamos perder mais tempo. — replicou o Defensor, com firmeza.

O Defensor Mascarado levantou-se, recarregando suas armas. O herói não se sentia confortável com a situação, já que viera enfrentar um assassino e acabara encontrando um monstro saído de uma lenda indígena. Surpresas desse tipo não lhe agradavam fora ou dentro dos tribunais, mas por outro lado tornavam mais forte seu senso de justiça.

— Precisamos descansar para recuperar o rastro do Wendigo. — disse o mascarado — Começo a vigiar o acampamento e depois Hex me substitui. Pela manhã reiniciaremos a caçada.

Um cântico melancólico acordou o Defensor Mascarado de um sono inquieto. Depois de esfregar os olhos por baixo da máscara, o pistoleiro se deu conta de que já era quase meio-dia. Dormiu mais do que previra, após Hex substituí-lo em seu turno. Olhando ao redor, ele viu a origem da triste música. Twoyoungmen, sentado e de pernas cruzadas no alto de um rochedo, cantava em direção ao sol numa provável oração. O caçador de recompensas, porém, não estava na clareira.

O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi que o pistoleiro havia partido, deixando-os sozinhos. Para ele, Jonah Hex era um mero caçador de homens, que faria qualquer coisa para colocar suas mãos na recompensa, inclusive trair e matar. O Defensor sentiu-se um tolo por ter confiado nele.

— 'Dia, moço. — Hex saudou-o, entrando na clareira montado em seu cavalo.

— Onde você estava? — perguntou o Defensor, surpreso com a presença do pistoleiro.

— Fui dar uma volta em Red Creek. — Hex respondeu, desmontando — Aumentaram a recompensa pra mil dólares e o idiota daquele auxiliar do xerife tava recrutando gente pra começar uma caçada. A coisa tá feia por ali. Por outro lado, — e ele olhou para o índio no rochedo — num tinha que ouvir essa cantoria desafinada lá.

— Ele deve estar rezando para os seus ancestrais. Na situação em que estamos, aceito até ajuda do outro mundo.

— Talvez não seja preciso... — retorquiu Hex — Pensei num jeito da gente pegar aquele bicho.

— Como?

— Sabe, faz uns dois anos que eu tive por essas montanhas, perseguindo uns bandidos. Foi difícil pegar o bando, mas no final fiz uma emboscada num dos vales que tem por aqui. Quando lembrei disso hoje de manhã, resolvi fazer umas compras lá na cidade. — e com um sorriso malicioso, retirou da casaca um embrulho pardo — Um presente especial para uma caça especial.

A lua despontava no céu no momento em que os pistoleiros, com a ajuda do xamã, finalmente encontraram a trilha do canibal, levando-os até o alto de uma colina. Lá embaixo, em um vale estreito cercado por árvores, os três homens avistaram o Wendigo. De costas para eles, o monstro se distraía com algo que logo Jonah Hex notou um corpo mutilado, mais uma vítima da fome do canibal.

— Acho que por hoje ele tá de barriga cheia. — Hex sussurrou, apontando para o que restara da vítima, onde um objeto brilhava sob o luar. O brilho, o Defensor observou, vinha da estrela metálica no peito de Billy Bob, o auxiliar do xerife.

— Conheço esse vale. — o caçador continuou — Ele se estreita ali do outro lado, formando um corredor perfeito pra uma emboscada. — Virando-se para Twoyoungmen, falou: — Tá na hora de saber se esse pedaço de pedra funciona de verdade.

O índio, desmontando da garupa do cavalo, entregou o talismã para Hex. Enterrando as esporas nos lombos de suas montarias, os pistoleiros desceram a colina em disparada, deixando uma nuvem de poeira para trás.

— Que Wakantanka ajude vocês... — murmurou o xamã.

O barulho dos cascos despertou a atenção do Wendigo, que viu os pistoleiros chegando. O canibal flexionou o enorme corpo, pronto para o ataque. Para sua surpresa, os dois homens passaram direto por ele, por lados opostos, dirigindo-se para o outro extremo do vale. Com um urro, o monstro começou a persegui-los, deixando sua refeição inacabada.

— Isso mesmo, bicho feio, pode vir atrás da gente! — gritou Hex.

Como se tivesse compreendido, a criatura aumentou seus passos, aproximando-se perigosamente dos pistoleiros.

— Corre, seu pangaré, corre! — o caçador berrou no ouvido do seu cavalo.

O animal, porém, nada pôde fazer quando o Wendigo, num salto, venceu a distância que os separava, desferindo um potente golpe no traseiro da montaria. Com um relincho de dor, o cavalo perdeu o equilíbrio, lançando Jonah Hex no chão.

Voltando-se para trás, o Defensor Mascarado viu o monstro caminhando em direção ao caçador, que se levantava. Puxando as rédeas do seu cavalo, o herói sacou suas armas e disparou, numa tentativa de distrair o monstro, ganhando tempo suficiente para que Hex fugisse. Mas os tiros de nada adiantaram; Wendigo continuou a caminhar.

"Só existe outra alternativa", pensou o Defensor, cavalgando e retornando por trás da criatura. "Vai ter de ser do jeito mais difícil." Chegando perto o bastante, o Defensor pulou no pescoço do monstro, agarrando-o com firmeza. O Wendigo debateu-se por alguns segundos e sem conseguir livrar-se do herói, cravou suas garras nele e jogou-o na direção das árvores que cercavam o vale. Hex, entretanto, conseguira se pôr de pé, percebendo que a saída do vale estava a poucos metros. Ao mesmo tempo, o monstro farejou o ar e voltou a atenção para sua nova presa.

Conforme Hex corria, com o Wendigo logo atrás, o vale se estreitava, exatamente como o pistoleiro se lembrava. Mais alguns metros e um apertado corredor surgiria, terminando numa saída pequena o suficiente para que Hex escapasse depois de preparar a armadilha para a criatura. Ao entrar no corredor, porém, o pistoleiro se deparou com uma parede de escombros onde deveria estar a saída. Às suas costas, o Wendigo se aproximava cada vez mais rápido, seu enorme corpo praticamente ocupando a única entrada e agora saída do corredor rochoso.

— Bom, parece que tô mais encurralado que boi no matadouro. — pensou em voz alta — É como dizem: um dia é da caça, o outro é do caçador. — com a mão direita, sacou do bolso um fósforo e riscou-o na fivela do cinto; com a esquerda, tirou da surrada casaca o embrulho pardo que havia comprado em Red Creek, rasgando-o com os dentes — Espero que hoje seja o dia do caçador.

Sem hesitar, acendeu a banana de dinamite, enfiando-a em uma cavidade no nível do chão.

— Wen-di-go! — urrou o canibal, a apenas alguns passos de distância de Hex.

— Tomara que cê goste de comer terra, feioso! — Jonah Hex pulou por entre as pernas do monstro, rolou pelo solo e se levantou, correndo o mais depressa possível. Um estampido seco foi ouvido e, no instante seguinte, um estrondo similar ao de um trovão ecoou pelo vale, quando toneladas de rocha, terra e vegetação desceram numa avalanche, cobrindo o corredor e o Wendigo, levantando uma espessa nuvem de poeira no ar.

O desmoronamento continuou por mais alguns minutos e, aos poucos, o barulho foi diminuindo, salvo pelo ruído de uma tosse irritante e de algumas pedras ainda rolando pela encosta. A nuvem desceu por completo e Jonah Hex surgiu, tossindo e tentando expelir o pó dos pulmões. À sua frente, Wendigo estava coberto de entulho, os pêlos antes prateados agora marrons; metade de seu tronco, bem como braços e pernas, estavam enterrados e imobilizados. Ainda assim, o canibal se debatia.

Agarrando o talismã dentro do bolso da casaca, Hex subiu o pequeno monte de escombros que cobria o monstro e encostou o amuleto exatamente no meio do coração do Wendigo. Por um momento, sua mão ficou fria, como se a tivesse encostado numa barra de gelo. Instintivamente, soltou o objeto, que se prendeu como ímã na pele do monstro. Este uivava como um animal ferido, agitando-se e espalhando terra para todos os lados. Para o espanto de Hex, Wendigo começou a definhar, diminuindo de tamanho até dar lugar à um homem forte e de feições rudes. Com a transformação completa, o amuleto do xamã estalou, quebrando-se em pedaços e destacando-se do corpo do canibal.

Hex mirou com atenção o homem, que balançava a cabeça e abria lentamente os olhos, como se saísse de um pesadelo. Mas um soco potente acertou seu queixo, levando-o a inconsciência.

— Isso, seu bastardo, é por querer que eu virasse a tua sobremesa. — completou o caçador de recompensas.

No outro lado do vale, Twoyoungmen, que havia descido da colina após a explosão, curvava-se ante um imóvel Defensor Mascarado, procurando por um sinal de vida. Para sua satisfação, percebeu que o branco estava se recobrando; as árvores nas quais havia sido arremessado pelo Wendigo frearam sua queda.

— Como ele tá? — perguntou Jonah Hex, se aproximando e arrastando o canibal pelas pernas.

— Um pouco ferido. Nada que um xamã não possa curar. — o índio respondeu, olhando para o homem nu e coberto de terra largado pelo caçador — Você conseguiu.

— Tive que engolir um pouco terra, mas graças ao talismã funcionou. Agora, vamos amarrar ele e ...

— Cuidado!

Hex não teve tempo de ouvir o aviso do índio. O assassino, recuperando a consciência, pulou sobre suas costas, rugindo como um animal e com os olhos saltados como os de um louco. Jogando todo o seu peso contra Hex e impossibilitando-o de agir, o canibal abriu a boca para atacar o pescoço do pistoleiro.
Um estampido foi ouvido e Hex sentiu o peso sobre suas costas diminuir, quando o homem desabou ao seu lado, os olhos sem vida mirando o infinito e um buraco no meio da testa, de onde escorria um filete vermelho. Olhando para frente, Hex viu o Defensor Mascarado, segurando um revólver fumegante.

— Acho que você me deve uma por salvar sua vida — disse o Defensor, a voz embargada. Para salvar um caçador de recompensas, o herói se viu forçado a matar o criminoso que jurara levar ao banco dos réus.

— Bom, acho que posso te agradecer direito depois que eu receber a recompensa.

— Não. — disse, enfático, Twoyoungmen — Devemos queimar o corpo do canibal.

— O quê?

— Não podemos levar o corpo. A maldição ainda não acabou. Como este homem matou a própria família, seu espírito está condenado a sofrer, a não ser que o corpo seja queimado até não restar mais do que cinzas.

— Cinzas? Perdeu o juízo? — Hex encarou o indígena — Esse sujeito vale mil dólares!

— Devemos queimar o corpo do canibal. — replicou Twoyoungmen, não se abalando com a reação do pistoleiro — É o único modo seguro de acabar com a maldição do Wendigo.

Horas depois, o cheiro acre de carne queimada invadia o vale. Seguindo as instruções do xamã, um relutante Hex envolvera o cadáver numa manta e o depositara numa pira improvisada. Sentado próximo dali, o Defensor Mascarado observava as chamas consumindo lentamente o canibal, a máscara negra mal escondendo sua frustração. Ao seu lado, Jonah Hex via mil dólares se transformarem, literalmente, em fumaça. E observando a todos estava Twoyoungmen, um discreto sorriso nos lábios murchos, vendo que sua missão sagrada havia sido cumprida.

Quando a manhã surgiu, junto com um vento gelado, os três homens decidiram se separar e seguir cada um o seu caminho. Antes de partir, o Defensor se voltou ao índio.

— E se algum dia um homem comer carne humana outra vez? — perguntou, sentindo um calafrio ao ver a fumaça ser soprada pelo vento em direção às terras do norte — O que vai acontecer? O Wendigo — ele fez uma pausa — retornará?

— Não há o que temer — Twoyoungmen disse, sorrindo — O Grande Espírito me revelou que, quando esse dia chegar, o Wendigo enfrentará pessoas com habilidades muito especiais; homens e mulheres rápidos como um cavalo-de-ferro, capazes de saltar uma montanha e parar uma bala com as próprias mãos.

— Saltar uma montanha e rápido feito um trem, hein? — Jonah Hex replicou, cuspindo no chão — Agora eu não tenho dúvida, velho: cê realmente mascou peiote.

Epílogo — Muitos invernos depois, em uma floresta do Canadá.

"Era para ter sido uma simples caçada", pensava o homem ferido. No entanto, ele e seus amigos não haviam contado com o feroz ataque dos lobos da floresta, que os deixara exaustos e feridos. Sem opção, procuraram abrigo naquela cabana abandonada, escura e fria, onde estavam sem comida, água e fogo.

Isto acontecera há alguns dias e os lobos permaneciam rondando a entrada. Na cabana, dois dos caçadores não haviam sobrevivido aos ferimentos. Agora, só restava um homem, faminto e apavorado, vendo seus amigos apodrecerem vagarosamente. Pensamentos confusos cruzavam sua mente angustiada.

Os lobos uivaram e, por um instante, ele pensou ter sentido algo o observando ali dentro. Tal pensamento foi logo deixado de lado, porque sua atenção voltava-se para a carne humana crua e agridoce que mastigava com avidez.



 
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