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Jonah Hex # 06

Por Marcelo Augusto Galvão

...Calcarás aos Pés o Leão e o Dragão

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Jonah Hex levantou-se da cama com um gosto horrível na boca, uma latejante dor de cabeça e um tilintar irritante nos ouvidos. Estava de ressaca, concluiu. Ao abrir o olho, percebeu que estava enganado: a visão das várias camas vazias, no grande cômodo onde se encontrava, lembrou-lhe que estava em Prayville, onde a bebida alcóolica era proibida.

O tilintar parou de repente. Hex, aproximando-se lentamente de uma das janelas do alojamento masculino, deu-se conta de que o barulho vinha do sino na casa principal, chamando os habitantes daquela comunidade religiosa para o café da manhã. Homens, mulheres e crianças deixavam seus alojamentos coletivos, caminhando para o refeitório no meio da clareira que abrigava a comunidade. Depois da refeição, enquanto aquelas pessoas começariam seus afazeres, Hex já estaria longe dali. Pelo menos era o que esperava, vendo alguns homens preparando a carroça que o levaria, junto com o reverendo Atticus Ryker, até a cidade mais próxima.

Decidido a não perder o café da manhã, Hex vestiu-se rapidamente e saiu, sendo recepcionado pelo ar quente e úmido do sudeste do Texas. Enquanto se dirigia para a casa, uma pessoa aproximou-se com passos lentos do pistoleiro. Hex reconheceu-a como o homem que ficara preso, durante uma semana, dentro de uma apertada caixa de madeira para "enxergar a luz e voltar a trilhar o caminho do Senhor", como explicara o reverendo. Seu nome era David Jenkins, o pistoleiro descobrira através dos outros fiéis. Depois que a esposa o trocara por outro, abandonando junto as duas filhas — as mesmas garotas que Hex salvara no dia anterior — Jenkins vagara de cidade em cidade, até encontrar o reverendo Ryker. Agora, barbeado e com roupas limpas, ele pouco lembrava o farrapo humano da noite passada.

— Soube que o senhor salvou minhas meninas. — disse numa voz firme, após apresentar-se. Ante o balançar da cabeça de Hex, prosseguiu — Agradeço muito pelo que fez por elas, mas é uma pena que isso não serviu para nada.

Hex ergueu a sobrancelha:

— Num tô entendendo...

— Quero dizer que a volta delas para Prayville será a perdição delas. — Jenkins abaixou a voz — Todos nós corremos perigo aqui. Eu devia ter visto que algo estava errado quando me juntei a ele. Só fiz isso porque eu não tinha mais nada na minha vida, exceto minhas meninas. — completou, um tanto constrangido; sem dúvida, não gostava de lembrar de que fora abandonado pela mulher. Chegando mais perto de Hex, prosseguiu:

— Acreditei na conversa de que transformaríamos este atoleiro na terra prometida e dei o pouco dinheiro que tinha pra ele. Tudo o que me sobrou foi um broche da minha esposa, que ficou com a minha menina mais nova, a Kate. No começo, tudo ia bem, conforme eu obedecia as ordens dele. Mas com o passar das semanas, ele ficou cada dia mais rigoroso com a gente. Mandou que levantássemos aqueles galpões, com a idéia de que homens e mulheres não podiam dormir juntos. Proibiu que as crianças brincassem ou cantassem, senão levariam chibatadas.

Fez uma pausa, olhando desconfiado para os lados, antes de falar.

— Depois surgiu a história dos íncubos. Mulheres e crianças atacadas durante a noite, sem lembrar do que havia ocorrido. Mandou todos rezarem para afastarem os demônios. Tentei avisar aos outros que algo estava errado por aqui, mas poucos quiseram me ouvir, de tanto que acreditavam na conversa de Ryker.

— Por que cê num foi embora? — Hex perguntou curioso, enquanto via com o canto do olho uma agitação na porta do alojamento das crianças. Jenkins soltou uma curta e áspera risada.

— Ninguém sai daqui por vontade própria, essa é a verdade. Da mesma forma, ele proíbe forasteiros por aqui. — e ao dizer isto, Jenkins mirou o pistoleiro — Quando eu comecei a questionar as suas ordens, ele disse que eu não estava seguindo a palavra do evangelho e que eu tinha me tornado uma ovelha perdida, cheia de ódio. Ele e seus capangas resolveram me punir com chibatadas e alguns dias dentro daquela caixa. Mandei Kate e Martha fugirem daqui o mais rápido possível para salvarem suas vidas, mas Ryker foi atrás delas.

A imagem de Kate, seu olhar brilhando de medo ao voltarem para a comunidade, cruzou a mente de Jonah Hex.

— Mas isso não é tudo. Ryker não deixa ninguém aproximar-se de seu quarto e muito menos de um baú que ele guarda lá dentro, sempre trancado e...

— Irmão David, venha comigo, por favor. — a voz grave do reverendo Atticus Ryker soou atrás dos dois, que não haviam notado sua aproximação. Seu semblante estava sombrio. Cotton e Miguel, o negro e o mexicano aos quais Jenkins referira-se como capangas, estavam ao seu lado.

— O que você quer comigo? — perguntou Jenkins, receoso; as lembranças da sua estadia dentro da apertada caixa ainda eram bastante recentes.

O reverendo estreitou os olhos e falou, encarando fixamente o outro homem.

— Não tenho boas notícias, irmão David. A cria de Satanás voltou a atacar Prayville. E desta vez, ela fez da pequena Kate sua vítima.

Em Prayville, preces e hinos religiosos substituíam os médicos que, com suas sangrias e tônicos, faziam tanto sucesso nas cidades. Encostado na parede da varanda da casa principal, Hex escutava os fiéis, sob o sol forte, rezando por Kate Jenkins. A menina fora encontrada por sua irmã Martha, que achara estranho ela não se levantar rapidamente como fazia todas as manhãs. Aproximando-se, viu que o vestido de Kate estava rasgado e manchado de sangue; arranhões marcavam seus braços e pernas nus. O broche que sempre levava consigo sumira. Ninguém no alojamento havia visto ou ouvido algo de diferente, da mesma forma como acontecera nos ataques anteriores. A menina, inconsciente, foi então levada para a casa do reverendo.

Isto fora há mais de uma hora. Enquanto cuidava da garota, Ryker não permitira ninguém entrar no seu quarto, nem mesmo Jenkis e Martha, exceção feita para Cotton e Miguel. Acendendo um cigarro, Hex pensou no que David Jenkins dissera, vendo aquelas pessoas suando e cantando; aparentemente, elas não entendiam porque suas orações não haviam conseguido evitar que os íncubos invadissem o lugar. A cantoria foi interrompida quando Atticus Ryker apareceu na soleira, junto com seus dois empregados. Numa mão, levava sua bíblia surrada; a outra estava fortemente cerrada. Ele encarou Hex por um segundo, de uma forma estranha que o pistoleiro não gostou. Em seguida, dirigiu-se para a pequena multidão.

— O íncubo maldito violentou nossa pequena irmã. — disse, com a voz grave — Ela ainda não conseguiu despertar do pesadelo em que se encontra. Mas isto não é tudo: acabei de conhecer um fato que muito me abalou.

Ele lançou o olhar estranho de novo para Hex. Instintivamente, o pistoleiro apagou o cigarro, sabendo que algo de ruim estava acontecendo ali. O reverendo continuou, virando-se para David Jenkins e Martha, que estavam o meio da multidão.

— Vocês reconhecem isto? — e abriu o punho, mostrando um pequeno objeto metálico. Jenkins respondeu que era o broche que sua filha usava.

— Sim, é isto mesmo. Foi a lembrança, o troféu que o íncubo levou de Kate. Foi o nosso valoroso irmão Cotton, quando preparava a carroça, que o encontrou escondido na sela do senhor Jonah Hex. — e apontou o dedo para o pistoleiro.

Um murmurinho tomou conta da pequena multidão, que imediatamente cravou seus olhos em Hex.

— Num sei do que diabos cês tão falando, mas nunca vi isso daí na minha vida... — Hex começou a falar mas logo parou, ao ver os fiéis tremerem à simples menção da palavra "diabos".

— Não adianta apelar para Satanás! — Ryker replicou com a voz alta e firme, projetando-a por toda a clareira — Fui um tolo ao oferecer nossa hospitalidade a um desconhecido e um cego em não ver logo no início as pistas que o Senhor Todo-Poderoso deixara quando nos encontramos, ontem pela manhã.

O reverendo fez uma pequena pausa, vendo a agitação aumentar, e continuou.

— Deveria ter reconhecido que aquela víbora, o símbolo do mal, não estaria ali ao acaso. Que a "pomba do Senhor" não havia derrotado o mal, mas sim encontrado uma forma de se esgueirar na nossa pacífica Prayville! E de que ele portava, como o livro do Apocalipse profetizara, o sinal da Besta! — e indicou as cicatrizes que desfiguravam o pistoleiro.

Os fiéis gritaram concordando, completamente mesmerizados pela carisma de Ryker. Jonah Hex, com as mãos no cinturão, viu que a situação estava desfavorável. Antes que pudesse fazer algo, ele sentiu os canos dos rifles de Cotton e Miguel às suas costas. O reverendo acercou-se dele e, com um gesto rápido, tirou o cinturão. Hex protestou.

— Moço, cê tá cometendo um grande enganUGH! — o caçador dobrou o corpo quando o punho cerrado de Ryker atingiu o meio do seu estômago, tirando seu fôlego.

— O demônio mandou sua cria disfarçada para nos atormentar outra vez. Pois que ele saiba que nós não nos curvaremos à sua vontade! Tragam-no ao lago!

Sem pestanejar, os dois homens arrastaram Hex até as margens do lago que ficava nos fundos da propriedade. Começando a recuperar o fôlego, o pistoleiro distinguiu um tronco de árvore flutuando no meio do lago, a água escura refletindo a luz do sol. O reverendo abaixou-se e pegou alguns pedregulhos, jogando-os perto do tronco cinzento.

Um rosnado se ouviu. Hex firmou o olhar e viu o tronco de árvore movendo-se, revelando um aligátor texano com sua cabeça larga e achatada emergindo para mostrar uma boca de afiadas presas. O que Hex pensara ser a casca da árvore eram as placas de escamas que cobriam o corpo do animal até a cauda, que agitava-se nas águas.

— Se Satanás pensou que nos aterrorizaria, estava muito enganado. Agora ele verá o quão poderoso é o Senhor! — disse Ryker, acompanhado pelos gritos de aprovação e júbilo dos fiéis. Com um aceno de mão, ordenou que o pistoleiro fosse empurrado no lago.

Jonah Hex caiu de barriga na água, a poucos metros do réptil. Rapidamente, tentou se levantar. O enorme aligátor abriu sua mandíbula, avançando em direção do homem, que conseguiu se desviar da mordida. Hex se afastou, esticando uma das mãos para alcançar a margem, enquanto a outra movia-se debaixo da casaca. Simultaneamente, buscava apoiar os pés no leito lodoso do lago.

Mas o réptil estava em seu ambiente natural. O aligátor submergiu num piscar de olhos para um segundo depois emergir perto de Hex. A cauda do animal se movimentou atingindo a perna do pistoleiro, acabando com o pouco equilíbrio que lhe restava. Deslizando com precisão no lago escuro, o aligátor mais uma vez abriu sua boca, ao mesmo tempo em que se agarrava em Hex e jogava todo o seu peso em cima dele.

Atticus Ryker e seus seguidores viram os dois se debatendo, com Hex tentando a todo custo evitar a mordida fatal. A cauda do aligátor se enroscava na perna dele, dificultando seus movimentos. Por mais que lutasse, o pistoleiro acabou por sucumbir ao peso do animal e ambos afundaram nas águas escuras. A audiência atenta fitou bolhas de ar surgirem em profusão na superfície do lago. As bolhas se tornaram cada vez mais escassas com o passar dos segundos, até que após longos três minutos a calma voltou ao lago. Apenas uma mancha escura de sangue denunciava onde Hex e o réptil haviam lutado.

— O mal foi derrotado! — decretou com triunfo o reverendo Atticus Ryker — A paz voltará a reinar em Prayville, pois esta é vontade do Senhor. — e com isso, seus seguidores se dispersaram, deixando a margem do lago em silêncio e vazio como antes.

O silêncio não perdurou por mais que alguns segundos. Bolhas de ar agitaram as águas escuras do outro lado do lago, seguida de uma silhueta que emergiu com violência da água. Jonah Hex, os pulmões ardendo, se agarrou na margem procurando desesperadamente por ar.

Com esforço, ele arrastou-se até alguns arbustos verdes que cresciam perto das árvores, tentando achar um abrigo. Ofegante, o tórax subindo e descendo rapidamente, Hex encostou-se no caule de uma árvore e soltou a sua fiel bowie, a faca de caça que sempre levava escondida debaixo da sua casaca e que o salvara, ao enfiá-la no pescoço do réptil. Ferido, soltara sua refeição, indo para o fundo lamacento do lago. Com sorte, estaria morto a esta hora.

Agora que sua respiração voltava ao normal, o pistoleiro verificou que não havia se ferido gravemente. Alguns arranhões, provocados pelas garras do aligátor, eram vistos através de rasgos no seu uniforme; nada que não pudesse ser curado e remendado, ele pensou, depois que acertasse as contas com o homem que lhe havia acusado de atacar crianças e o jogado para virar comida de aligátor.

Mas aquele ajuste teria que esperar um pouco mais. Ainda que não estivesse machucado, o esforço que fizera para vencer o réptil começava a cobrar seu preço; seu corpo, ensopado até os fundilhos, estava todo dolorido. Alguns minutos de descanso seriam suficientes para recuperar as forças. Com o sol penetrando pelas frestas das copas das árvores, Hex piscou o olho e, vencido pelo cansaço, desabou.

O sol brilhava quando Jonah Hex acordou, desorientado. Seu sono fora inquieto, marcado por sonhos onde relembrara a época em que vivera entre os apaches mescaleros, após seu próprio pai lhe vender em troca de peles de búfalo. Aqueles haviam sido alguns dos piores anos da sua vida, com os índios o submetendo às piores humilhações. A lembrança só fez a fúria do pistoleiro aumentar, ainda mais depois do que ocorrera hoje, bem como a sua determinação em encontrar-se com o reverendo Ryker.

Saindo do seu abrigo, Hex viu que alguns lampiões eram acesos na clareira do outro lado do lago. Praguejando, calculou que devia ter dormido cerca de oito horas; pelo menos ele podia aproveitar a escuridão que caía para recuperar suas coisas e pegar um cavalo, após cuidar do reverendo. Vagarosamente, Hex começou a andar, dando a volta no lago para chegar na clareira sem ser percebido.

Minutos mais tarde, alcançou os fundos da construção branca onde os habitantes de Prayville se reuniam para rezar. Uma escada de mão encontrava-se encostada na parede; Hex lembrara-se de alguns fiéis comentando que estavam trocando o telhado da construção. Apoiando-se na parede, caminhou mais um pouco e observou os alojamentos adiante. Pela movimentação neles, os fiéis deviam estar voltando de seus afazeres e preparando-se para ir ao templo, ainda vazio. Perto dali, de costas para o pistoleiro, um homem acendia um cigarro; no ombro, carregava um rifle. Hex reconheceu Miguel, o mexicano de barba rala que o jogara no lago sob às ordens do reverendo.

Hex segurou com firmeza a sua faca e se esgueirou para surpreendê-lo. Escondendo-se nas sombras, ele avançava cautelosamente. Faltavam apenas alguns passos para alcançá-lo quando o pistoleiro pisou em um graveto seco. O estalo despertou a atenção do mexicano, que se virou com a arma apontada. Sabendo que seria descoberto, Hex jogou a bowie na garganta do homem.

Miguel soltou um gemido e tombou de costas no chão. O pistoleiro aproximou-se e recolheu a faca; o sangue brotava do pescoço do morto. Jonah Hex olhou para os lados, esperando que ninguém tivesse ouvido ou visto aquilo. Ele precisava esconder o corpo, até o momento que pudesse achar Ryker e anunciar o seu retorno do mundo dos mortos.

Seu olhar se deteve na escada. Com rapidez, Hex guardou a faca, colocou o rifle no ombro e arrastou o chicano para os fundos do templo.

— Hoje, nós enfrentamos o mal e o vencemos! — Atticus Ryker bradou, sua voz repercutindo pelo salão cheio de pessoas — O seguidor de Satanás bem que tentou se disfarçar, mas não conseguiu enganar os seguidores do Senhor!

Os fiéis, a maioria sentados em estreitos bancos de madeira, balançaram as cabeças em concordância, atentos a cada gesto que Ryker fazia. Segurando sua surrada bíblia nas mãos, o reverendo atraía seus seguidores da mesma forma que as mariposas eram atraídas pela luz das lampiões que iluminavam fracamente o local. O calor sufocante do ambiente era imenso; o suor molhava as roupas de todos ali.

Mas nem todos ouviam o reverendo. Sentado em um canto no último banco, junto com Martha, David Jenkins pensava em sua filha mais nova que encontrava-se até o momento inconsciente no quarto do reverendo. Não só isso, no entanto, o preocupava; Jenkins temia o que poderia acontecer com suas filhas e com ele mesmo. À sua frente, o reverendo continuava a pregar contra mal. A audiência acompanhava tudo em uma espécie de êxtase, com exclamações de "aleluia!" e "amém!" a cada parábola bíblica que ele citava. Ryker ergueu as mãos.

— Nada devemos temer, meus fiéis, porque Ele nos protege! Satanás e seus demônios viram que nós estamos mais unidos do que nunca! A confiança de vocês no Senhor foi mais uma vez reforçada! "Sobre serpente e víbora andarás, calcarás aos pés o leão e o dragão", dizem os Salmos. Isto significa que aqueles que estão do lado de Deus Todo-Poderoso podem esmagar qualquer ameaça, até mesmo Satanás!

O reverendo fez uma pausa, enquanto novos gritos de júbilos explodiam pelo lugar.

— Meu coração se enche de alegria ao ver que este rebanho continua a depositar sua confiança em mim, este humilde pastor, depois de tudo que passamos juntos, dando o nosso sangue para construir Prayville, do mesmo jeito que Jesus sangrou na cruz por nós, seus filhos. É por isto que fico triste quando uma das nossas ovelhas se desvia do caminho do evangelho e passa a me caluniar, como fez o irmão David.

Em seu canto, Jenkins engoliu em seco quando dezenas de pares de olhos se voltaram para ele. Pressentindo o pior, ele apertou a mão da filha, também sentindo sua apreensão.

— Mais triste fico vendo que suas filhas seguem o pai pela mesma trilha tortuosa. Ontem pela manhã, Martha e Kate tentaram abandonar nossa comunidade. — o reverendo revelou, para o assombro das pessoas — O resultado todos nós sabemos: encontraram aquele demônio disfarçado que acabou por machucar a pequena irmã Kate.

Enquanto falava, o reverendo afastou-se alguns passos e aproximou-se de uma cadeira em um canto na penumbra do lugar. Algo repousava no seu encosto.

— Mas Deus age por meios misteriosos, é o que vimos hoje. Aquele íncubo acabou por reforçar nossos laços. Ainda assim, como pastor deste rebanho, é meu dever aplicar a punição nas minhas ovelhas, para que esta lição sirva de exemplo para todos. Por isto, peço que venha aqui na frente, irmã Martha.

Jenkins ergueu-se para protestar, mas a mão pesada de Cotton, que observava a tudo vigiando a entrada do templo, agarrou o seu ombro e o fez ficar no mesmo lugar. Sem alternativa, Martha andou até Ryker que, com violência, a colocou de joelhos, virada para os fiéis. Agora era possível ver que o reverendo carregava o chicote de três pontas, o mesmo que seu pai usara para discipliná-lo quando criança e com o qual punia os seus fiéis.

— "Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados", é o que diz o livro dos Atos dos Apóstolos. Irmã, peça perdão ao Senhor pelos pecados que você cometeu! — clamou Ryker, preparando-se para açoitar as costas de Martha.

Lágrimas escorreram pelo rosto de garota, que tremia apavorada. A audiência, em pleno frenesi, começou a entoar um hino. Martha estendeu as palmas da mão para cima, fechou os olhos e balbuciou uma prece, sabendo que nada poderia salvá-la da chibatada.

De repente, um grito apavorado vindo da platéia encobriu o hino. Outros se seguiram no mesmo tom. A música cessou repentinamente e um estranho silêncio tomou conta do lugar.

Martha abriu os olhos. Uma das fiéis da primeira fila, a boca aberta em assombro, apontava o dedo em sua direção, gesto repetido por outras pessoas. Sem compreender o que ocorria, ela seguiu o olhar dos fiéis até parar na mancha escura que surgia espontaneamente na palma da sua mão direita, uma nódoa que aumentava de tamanho para transformar-se em um líquido vermelho. Martha aproximou a mão do rosto e de imediato sentiu um aroma inconfundível.

— Sangue... — sussurrou a garota assustada.

Um murmurinho passou a substituir o silêncio. As pessoas se erguiam de seus lugares, mas sem coragem de chegar mais perto, vendo agora outras manchas brotarem no peito, na testa e na outra palma de Martha.

— É um milagre! — alguém disse na platéia e logo a frase se espalhou entre os fiéis.

Atticus Ryker assistia a tudo pasmo. Com cautela, aproximou-se de garota, que chorava copiosamente.

— Mas como...?! — perguntou, o chicote repousado na mão.

Como se fosse uma resposta, Ryker sentiu algo úmido tocar a sua testa, escorrendo pelo lado esquerdo do seu rosto como uma gota de suor e caindo no piso. Um círculo escuro formou-se e o reverendo, intrigado, abaixou-se para tocá-lo. Seus dedos ficaram tingidos de vermelho.

Ryker levantou os olhos para cima; algo escorria entre as frestas do teto, como uma goteira. Um rangido de madeira se partindo soou pelo templo.

Com um estrondo, uma parte do telhado se rompeu e algo caiu ao lado de Martha e do reverendo, no meio de uma nuvem de pó. Novos gritos de horror surgiram quando as pessoas viram o corpo de Miguel, ensopado de sangue, estatelado junto aos escombros de vigas e telhas.

Outro rangido foi ouvido e mais uma parte do teto cedeu. E desta vez, Jonah Hex despencou dos céus, caindo exatamente sobre o mexicano.

— Diacho, cês tão precisando mesmo trocar esse telhado. — Hex disse, recuperando-se da queda inesperada e espanando a poeira dos destroços na roupa, o rifle de Miguel pendurado no ombro.

Os fiéis afastaram-se e benzeram-se, assustados pela ressurreição do "demônio". Pálido e com os olhos esbugalhados, Ryker encarava o pistoleiro à sua frente.

— N-não é possível. Como você escapou?!

— Vamos dizer que eu tive uma ajudazinha do coronel Bowie pra matar aquela lagartixa crescida. — Hex sorriu, aproximando-se do reverendo e engatilhando o rifle.

Um vulto pesado atingiu Hex pelo lado, fazendo-o cair. Era Cotton, que havia corrido da sua posição e avançava no pistoleiro. Com o impacto, a arma disparou e caiu longe. O tiro atingiu um dos lampiões, explodindo-o.

— Demônio! Deveria ter ficado morto! — o reverendo vociferou, o rosto agora vermelho de ódio. Hex não conseguiu responder, rolando pelo piso na tentativa de livrar-se de Cotton.

Um alvoroço surgiu às costas de Ryker. Virando-se, viu chamas começarem a tomar conta do lugar, exatamente onde o querosene do lampião havia se espalhado. Os fiéis corriam para fora, em desespero. Aproveitando a confusão, Jenkins agarrou Martha, já ciente de que não fora agraciada por um milagre.

Quando mais um pedaço do teto caiu, trazendo vigas e telhas, o reverendo percebeu que não podia ficar mais ali. Enquanto Hex e Cotton continuavam a lutar no templo quase tomado pelo fogo, Ryker saiu correndo. Alguns fiéis tentavam apagar as chamas que lambiam as paredes brancas usando baldes d'água; outros rezavam ajoelhados na relva.

Ryker passou por eles, apressado, em direção à casa principal. Suas mãos tremiam ao tirar uma chave do bolso para abrir a porta do seu quarto. O cômodo estava quase às escuras, iluminado parcialmente através da janela pelo incêndio. Na sua cama, Kate Jenkins continuava dormindo profundamente, mas ele nem prestou atenção na menina. O reverendo andou até um pequeno baú ao lado da cama e o colocou em cima da cabeceira, junto com o chicote. Sua testa franziu-se de preocupação quando deu-se conta de que tudo que havia construído nos últimos anos estava sendo destruído; não se tratava apenas do templo em si, mas também da confiança entre ele e seu rebanho.

Um movimento de Kate na cama fez o reverendo lembrar-se da presença da garota. Aproximando-se devagar, ele fitou o corpo dela e passou os dedos pelos seus cabelos amarelos, sentindo sua textura. Fora a pequena ovelha Kate que iniciara tudo aquilo: se não tivesse tentado fugir, nunca teria encontrado aquele pistoleiro. As mãos fortes de Ryker desceram para o pescoço da menina, fechando-se lentamente em torno dele.

— O que você está fazendo com ela?

Atticus Ryker virou-se e viu Jenkins e Martha, seu rosto e roupa ainda manchados com o sangue do mexicano, na soleira. Juntos com eles estavam outros habitantes de Prayville.

— Saiam daqui, todos vocês! — o reverendo respondeu, recolhendo as mãos do pescoço de Kate.

Os fiéis começaram a obedecer a ordem, mas Jenkins a ignorou. Seu olhar correu pelo baú na cabeceira.

— Não tenho medo de você, Ryker. Você pode ter me enganado no princípio, mas não sou mais uma dessas ovelhas obedientes.

— Como você ousa, seu pecador? — berrou Ryker, pegando seu chicote. Seu gesto, no entanto, acabou por derrubar o pequeno baú da cabeceira, que caiu no chão. A tampa se abriu e todo o seu conteúdo espalhou-se pelo assoalho: lenços, escovas, bonecas de pano, chapéus. As pessoas miraram os objetos, atônitos, percebendo que todos aqueles objetos femininos eram os que haviam desaparecido de cada mulher e criança após o ataque do íncubo.

— Eu estava certo, nunca existiu íncubo algum, foi tudo invenção sua! — Jenkins disse, encarando Ryker. Virando-se para os outros, continuou — Ele inventou essa história para se aproveitar das mulheres e crianças daqui. Estava usando todos como se fossem gado de verdade, e quando viu que estávamos desconfiados, colocou a culpa no forasteiro para se safar!

— Não! Vocês não entendem! — a voz de Ryker tremeu, sem um traço de seu carisma anterior; os olhares daqueles homens e mulheres alternavam-se entre os objetos e ele — Eu precisei fazer aquilo! Meu pai, ele me forçava a fazer aquelas coisas sujas quando era criança e...

Mas ninguém ouvia o que Ryker dizia. Suas palavras não funcionavam mais com aquelas pessoas, que o miravam como se ele fosse um estranho, compreendendo aos poucos o que havia ocorrido. Vendo que não lhe restava mais nada, o reverendo empurrou Jenkins para o lado e abriu o caminho à força entre seus fiéis, correndo o mais rápido possível. Quando colocou os pés para fora da casa, um crepitar alto foi ouvido: o templo, consumido pelo incêndio, começou a desabar. O fogo, no entanto, mostrou um vulto escapar pela porta momentos antes da construção vir abaixo e iluminou o uniforme cinza de Jonah Hex, o rosto desfigurado ainda mais pela raiva.

Ryker não acreditava que aquele homem pudesse escapar duas vezes seguidas da morte. Desesperado, o reverendo correu sem rumo. Súbito, sentiu água sob os pés e só então percebeu que estava na beira do lago, no lado oposto da saída da clareira. Pelo canto dos olhos, viu o caçador caminhando sem pressa em sua direção, determinado em pegá-lo; alguns dos habitantes de Prayville juntavam-se à ele, liderados por Jenkins.

Um ruído abafado surgiu do lago. Ryker se virou, apenas para ver um aligátor emergir com um rosnado, sua bocarra escancarada cheia de presas afiadas. Ao contrário do que Hex pensara, o réptil que o atacara não havia morrido; o couro dele era mais grosso do que imaginara. E pelo visto sua fome continuava, pois seus dentes cravaram-se imediatamente na canela do reverendo.

Atticus Ryker soltou um grito apavorado. O aligátor puxava-lhe pela perna, enquanto ele inutilmente tentava se agarrar aos arbustos da beira do lago. Hex e os outros chegaram a tempo de ver o animal arrastar o reverendo. Seus berros desesperados ecoaram pelo local por mais alguns segundos, até o réptil tragá-lo para as águas escuras e sumir com sua refeição.

As pessoas ficaram ali paradas, observando, tentando assimilar o que ocorrera. Estavam desorientadas; a influência do reverendo era mais forte do que haviam pensado. Uma delas ajoelhou-se e iniciou uma oração. Outras a seguiram.

Ao ver aquilo, Hex balançou a cabeça, concluindo que nada havia mudado naqueles homens e mulheres. No fundo, não passavam mesmo de um rebanho, como eram tratados pelo falecido reverendo Atticus Ryker.

No dia seguinte, Hex selou um dos cavalos que encontravam-se no estábulo, pertencente ao reverendo. Era um pangaré malhado, um tanto magro, mas com um pouco de sorte chegaria em Houston ainda pela noite. Antes de partir, o pistoleiro descobrira, junto com Jenkins, uma garrafa de láudano escondida no quarto de Ryker; concluíram que o reverendo utilizava aquela solução de ópio para entorpecer as pessoas, misturando-o ao jantar. Hex lembrou-se de que na ceia de dois dias atrás, Ryker não tocara na sopa preparada por ele mesmo. Assim, ele poderia atacar suas vítimas quando todas estivessem em sono profundo.

O problema é que aquelas visitas noturnas estavam despertando a desconfiança entre os moradores de Prayville. Depois de sair do alojamento das crianças naquela noite, escondera o broche na sela de Hex para que fosse encontrado na manhã seguinte e fazer o pistoleiro de bode expiatório.

No pequeno baú que Ryker deixara cair, ainda encontraram vários objetos que não pertenciam a nenhuma das mulheres ou crianças da comunidade; era impossível saber desde quando ele começara os ataques noturnos. Kate Jenkins, por sua vez, continuava a dormir, como se nada tivesse ocorrido, em um sono sereno, sem sinal de que despertaria de novo.

— O que cês vão fazer da vida? — Jonah Hex perguntou para Jenkins, montando no cavalo. Ao seu redor, os fiéis o observavam com um olhar distante, agora que não tinham mais um pastor em quem confiar.

— Bom, vivemos juntos faz um bom tempo. — o outro homem replicou, fitando as ruínas enegrecidas do templo, ao fundo — Acho que podemos reerguer isto daqui sem precisar de um reverendo, mas sempre com a ajuda do Senhor. Serei o novo líder, pelo menos por enquanto.

— Boa sorte. Cês precisar muito dela. — Hex disse, fincando as esporas nas costelas magras do pangaré e partindo em direção à Houston, prometendo a si mesmo nunca mais pegar uma estrada que passasse perto de Prayville.




 
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