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Nuclear # 01

Por Wellington Alves

Ecoterrorismo
Parte I

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— O trânsito de Nova York continua o mesmo, não muda nada. — comenta nervosamente Ray Palmer, de dentro do táxi que havia tomado há quase duas horas, ao sair do santuário do Doutor Estranho. Ainda bem que moramos na pequena cidade de Ivy, certo, Ronald? Ah, que saudades das linhas telefônicas analógicas. Essas linhas digitais são tão piores quanto esse trânsito. Será que foi Neron ou Mefisto quem fez o plano dessa cidade?

Mesmo acomodado ao seu lado, o jovem Ronald Raymond não presta atenção aos resmungos do seu atual tutor. Sua mente está longe, relembrando os eventos que aconteceram nas últimas semanas (*) e mais precisamente as últimas horas, passadas no santuário.

"A vida realmente é maluca, quanto mais tentamos mudar, mais ela permanece a mesma." — pensa ele — "Logo depois do elemental ter-se novamente fundido a mim, o Doutor Estranho nos teleportou de volta ao santuário..."

Minutos antes...

— Seja bem-vindo, jovem e renascido Nuclear. — saúda o Doutor Estranho, com uma reverência.

— Como está se sentindo, Ronnie? — pergunta Eléktron, com um tom para lá de preocupado. Consegue respirar direito? E o elemental-Stein, como ele...

— Calma, professor. — interrompe Nuclear — Eu me sinto ótimo, como há muito não me sentia. A sensação é de... eu... nós... algo estava faltando. Faltava-me algo que nada pôde suprir nesses últimos meses. Era como comer um cachorro-quente sem salsicha, entendeu?

Palmer suspira e sorri:

— Péssima metáfora, mas eu entendi a idéia, Ronnie. Bom que seu medo passou. — e, se voltando para o Dr. Estranho — Stephen, você tem por aí algum analgésico? Meu braço dói muito.

— Sim, caro Palmer. Tenho um encantamento que irá curar seu ferimento sem deixar marcas ou cicatrizes.

Ele recita algumas palavras e o braço de Palmer começa a liberar uma luminescência, fazendo com que todas as queimaduras provocadas pela rajada termal sejam curadas. Ray agradece e, voltando-se para Nuclear, pergunta:

— Ronnie, hã... Nuclear, e o Stein? Como está ele?

O herói atômico fita Palmer nos olhos, sorri com o canto da boca e, sem dizer uma palavra, levanta as mãos para o alto produzindo uma contida explosão atômica. De dentro dela surgem Ronald Raymond e Martin Stein, que — para surpresa de todos, inclusive de Ronald — veste o mesmo macacão marrom da força aérea que usava quando se transformou no Nuclear-Elemental. (**)

— Onde... estou? Ronald? É você? O que fez com o seu cabelo, cortou? Estou...tonto...

Percebendo que Stein está totalmente zonzo, o Doutor Estranho, magicamente, puxa uma cadeira para ele se sentar.

— Obrigado, senhor...

— Pode me chamar de Stephen, dr. Martin Stein. Como se sente? Melhor? — virando-se a Wong — Por favor, telefone para a companhia de táxi e peça para que mandem um carro, o dr. Stein está muito fraco ainda para sair daqui de outro modo que não seja o convencional.

— Bem... Stephen, fora essa itermitente dor na nuca, me sinto bem. Mas, onde eu estou?

Eléktron se dirige a Ronald:

— Ronnie, explique o que aconteceu sucintamente ao doutor Stein, enquanto eu tenho uma pequena conversa com o outro doutor. Stephen, venha cá.

— Ronald? — chama-lhe à realidade o dr. Stein, que está sentado à sua frente.

— Sim, professor?

— Olhe ali o motivo do engarrafamento.

Tanto Ronald quanto Palmer olham para onde Stein apontou.

— Uma passeata? Contra o quê?

— Ih, mano, de onde vocês vieram? Da lua? — pergunta o taxista.

— Ivy Town. — responde Palmer.

— Tava na cara que não eram daqui. Há umas duas semanas esses caras dum tal "Comando A" estão fazendo piquetes contra a energia nuclear.

— Comando A? — pergunta com surpresa o dr. Stein.

— É, "A" de atmosfera. Esses hippies fora de moda acreditam que a energia nuclear tá acabando com ela, criando um efeito-estufa ou coisa parecida. Dizem que os recentes furacões e terremotos são culpa dela.

— Impossível! — se indignou o doutor. O átomo é a fonte mais limpa de energia que existe! Essas pessoas não sabem do que estão falando — irritadíssimo, ele sai do carro e, para surpresa tanto de Ronnie quanto de Palmer, caminha a passos largos e determinados para a multidão, emaranhando-se por ela até chegar ao caminhão com os alto-falantes. Empurrando um dos manifestantes, ele sobe pelas escadas que levam ao palanque e toma o microfone da mão do locutor — A energia nuclear é segura! — brada ele — A energia nuclear é segura e posso provar! Deixem de vagabundear e vão fazer algo de mais útil!

Um silêncio como nunca se tinha escutado preencheu a Quinta Avenida. Todos os participantes se viram pro palanque e se deparam para aquele senhor de óculos, dizendo exatamente o contrário daquilo que pregavam.

— Ai, meu Deus, Ray, o que vamos fazer? — diz, atônito, Ronald. Não posso conjurar o Nuclear aqui, tem muita gente e...

Ronald não pode concluir a frase, pois não há mais ninguém para com quem falar, exceto o taxista, pois Ray Palmer já foi em direção do professor assim que percebeu que ele iria ser linchado pela turba de neo-hippies. Do tamanho de uma noz e com o peso de uma pena de uma pomba, Palmer flutua no ar até o palanque e, aparecendo de surpresa entre o professor e os seguranças que já iam agarrá-lo, pega o microfone:

— Calma, pessoal, o meu amigo aqui é doente, ele não queria dizer isso! Por favor, deixem-nos sair daqui em paz! — e, para Stein — Fique quieto, sim? Quer morrer logo depois de retornar para cá?

O rosto do professor Stein, que antes era fúria só, se acalma e ele diz:

— Está bem, Palmer. Vamos sair daqui então. Não gosto mesmo da cara daquele cara ali. — rapidamente, os dois descem do palanque e dirigem-se ao táxi.

Depois, no hotel...

— Professor Stein, que ato impensado foi aquele? Nem parecia o senhor! Queria morrer? A sorte que você deu em sair de lá sem ser mais importunado foi incrível!

— Ronald, desculpe-me, eu agi por instinto. Nem me toquei do que fazia, só via o palanque na minha frente e nada mais. Minha vida toda foi voltada para o atômico como uma fonte segura de energia. Acho que enlouqueci ao saber que, mesmo depois de tanto tempo longe, a controvérsia continua a mesma. Temos que descobrir o que é esse Comando A e quem manda neles. Pelo que vi, são uns fanáticos.

— Bem, Stein, se você quiser saber mais sobre eles, podemos perguntar para Oráculo, que deve ter mais informações. — diz Palmer, abrindo a sua mala e retirando o seu laptop.

— Quem? Um oráculo? — pergunta, espantado, Stein. O que é? Como aqueles da Grécia Antiga?

— Oráculo é um grande aliado, Stein, Depois você irá conhecê-lo, Ronnie o apresentará.

Momentos depois, Palmer obtem a resposta de Oráculo e lê em voz alta o relatório por ela enviado:

— Comando A, liderado por E. D. Black, começou suas atividades públicas há mais ou menos um mês, conclamando a todos contra os perigos da energia nuclear, que as recentes falhas na energia seriam culpa das atrocidades que os homens fizeram em nome da ciência do átomo. Três usinas nucleares, uma em Happy Harbor, outra em Opal City e a última, anteontem, em Miami, foram alvos de atentados ou tentativas de desativação, cujos créditos foram clamados pelo Comando A.

— Isso é uma abominação! — grita Stein — Temos que pará-los. Onde encontramos esse tal de E. D. Black? Não podemos deixar que isso continue! Esse tal de Oráculo pode localizá-lo?

— Professor, se tem alguém que pode fazer isso é Oráculo. — diz Ronald — Professor Palmer, diz aí como podemos achá-lo?

— Diz sim, vai haver um encontro hoje à noite num galpão abandonado em Nova Jersey, perto da antiga usina termonuclear.

— Perto da usina? Foi lá que eu e o Ronald nos transformamos em Nuclear pela primeira vez. Mas a usina está desativada desde então. O que será que pretendem? Não podemos deixar que eles avancem nessa caminhada de ecoterrorismo. Ronald, você vai nesse encontro para saber o que eles estão tramando?

— Professor, eu...

Palmer interrompe o jovem bruscamente:

— Está louco, Stein? A sua estada no espaço fundiu sua mente? Esses caras são só mais um bando de adolescentes sem nenhum perigo.

— Sem... nenhum perigo? E os atentados? Palmer, me desculpe, mas acho que é você quem está longe da realidade. Qualquer coisa que venha interferir na energia nuclear tem a ver comigo... conosco. Se quiser, volte para a sua cidadezinha pacata e fique lá, viajando no tempo e encolhendo! Deixe-nos aqui que cuidamos de tudo sozinhos, certo, Ronald?

Ronnie apenas abaixa a cabeça e vê Ray Palmer, contrariado, pegar seu laptop e sua mala e sair do quarto mas não sem antes dizer:

— Ronald, foi um prazer ser seu tutor. Acho que está por si mesmo, agora. Vá depois em Ivy para me visitar. Passar bem, professor Stein. — e bate a porta com força.

— Ainda bem que ele se foi, Ronnie. Eu agradeço muito a ele por cuidar de você nesse tempo, mas agora vamos cuidar desse assunto. Temos mesmo que impedir que essas pessoas avancem e descobrir o que mais eles querem.

— Professor Stein. Martin, por que está assim, tão nervoso? Sempre foi tão calmo...

— Ronald, você vai nesse encontro, não vai? — pergunta, enfático, Stein, o que deixa abestado Ronnie, que só o tinha visto agir assim uma vez, quando estava prestes a morrer de câncer e queria acabar com as ogivas nucleares — Vai ou não? Se não for, eu mesmo vou.

— Certo, professor, eu vou..— diz um resignado Ronald Raymond.

À noite, seguindo as orientações dadas por Oráculo, Ronald se dirige para o velho galpão em Nova Jersey. Lá chegando, depara-se com uma coisa inusitada. Em vez de uma reunião política, com faixas, panfletos, pessoas discutindo, acaba encontrando uma verdadeira festa, uma rave. Música rolando alto, bebidas, muita gente de todos os tipos: neo-hippies em busca de um guru; punks na ânsia por brigas; pessoas que foram seduzidas pelos discursos inflamados de Black contra a energia nuclear e seus supostos efeitos negativos no globo onde vivemos. Cada um tem um motivo para estar ali, muitos apenas pela diversão, pela farra, poucos realmente pela causa.

Uma dessas pessoas, uma bela morena vestindo uma pequena bata vermelha e jeans rasgados, chega perto de Ronald e pergunta:

— Aí, gatão, não quer dar um rolé por aí? Conheço umas paradas legais ali atrás e...

Ronald a interrompe, segurando bruscamente os seus braços:

— Você conhece E. D. Black? Onde posso encontrá-lo? Eu preciso falar com ele...

— Ih, carinha, para que precisa falar com ele? Eu estou aqui e posso lhe dar coisas que você nem imagina...

— Moça, acho que nada que possa me oferecer pode ser mais viajante que a minha vida. Você sabe ou não onde posso encontrar o Black? — insiste ele.

A jovem de cabelos negros fecha a cara e responde com ar de desdém para aquele que a desprezou:

— Ele está lá dentro. Mas acho difícil ele querer falar com você. — e sai de perto de Ronald, xingando-o de todos os nomes que conhece.

Ronald entra no iluminado galpão e pergunta por Black. Um dos seguranças que estão na porta aponta para um canto do lado esquerdo:

— Ali, é aquele com as costeletas.

Com um aceno de agradecimento, o jovem dirige-se ao local indicado. Black está acompanhado por outras duas pessoas, uma jovem loira que não deve ter mais de 18 anos e um mais velho, quase da idade de Ronald.

— Olá, meu nome é Ronald Raymond. — apresenta-se — Senhor Black?

Os três param de conversar e olham para o recém-chegado. Aquele de costeletas negras tira os óculos escuros e se adianta:

— Sim, sou eu. Você me conhece, mas eu não te conheço. Você é...

Ronald se apressa em apertar a sua mão, dizendo:

— Ronald Raymond. Eu já participei de um grupo de ativistas contra a energia nuclear um tempo atrás. E queria me juntar a vocês. Tenho experiência no ramo.

Black aperta forte a mão da outra metade do herói atômico, tão forte que chega a estalá-la. Com um sorriso no canto da boca, ele dá um sinal com a cabeça para que os seus acompanhantes saiam e diz:

— Ronald. É um prazer enorme conhecê-lo. Por favor, diga-me mais sobre a sua... hã, experiência. Eu sempre estou atrás de pessoas que tenham vontade e espírito para lutar contra o maior mal de todos os tempos, a energia nuclear.

— Bem, sr. Black, eu...

— Por favor, nada de senhor, chame-me de Ed, só Ed. Aqui somos todos iguais, pois somos todos filhos da Terra, mas diga-me, não me esconda nada.

— Sen... hã, Ed, como eu ia dizendo, tenho experiência nesse tipo de atividades e, sobretudo, contra a energia nuclear. Sabe aquela usina ali perto? Nela foi o meu primeiro piquete (***) e...

Interrompendo mais uma vez, o que já está irritando Ronald, Black fala:

— Naquela usina? A do outro lado do rio? É engraçado, era ali que eu trabalhava. Ronald, você caiu dos céus. Olha, hoje aqui estamos comemorando o futuro sucesso de nossa empreitada. É só diversão. Falaremos de trabalho amanhã. Por favor, daria para você voltar aqui amanhã, nesta mesma hora? Dará para conversarmos com calma, sem interrupção nenhuma, certo?

Ronald se surpreende com a facilidade com que Black acertou tudo com ele e só consegue responder que sim.

— Então, — continua Black — até amanhã, neste mesmo local, nesta mesma hora. — e despede-se de Ronald, apertando de novo a sua mão e, de novo, a estalando. Vira-se e vai ao encontro dos seus companheiros, mas antes de ir, recomenda — Ah, Ronald, venha sozinho, sim? Não queremos convidados indesejados flamejando por aí, OK?

Com uma maneada de cabeça, o jovem atômico concorda e pensa:

"Flamejando? O que ele quis dizer com isso, deve ser uma gíria nova desse povo maluco. Mas é engraçado. Quando ele apertou minha mão, senti uma coisa muito estranha. Uma comichão passou pela minha espinha, como se alguém dançasse sobre meu túmulo."

Com uma balançada de cabeça, ele afasta tal pensamento e volta para o hotel onde está hospedado com o dr. Stein.


A seguir: Velhas memórias voltam a atacar.


:: Notas do Autor

(*) Na minissérie Nuclear — Carga Nuclear Efetiva. voltar ao texto

(**) Em Firestorm # 100, da DC Comics. voltar ao texto

(***) Em Firestorm, the Nuclear Man # 01, da DC Comics (1978). voltar ao texto




 
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