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Nuclear # 04

Por Wellington Alves

Pelucidar
Parte I

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Um pequeno animal, do tamanho de um rato, com rabo de rato, focinho de rato, mas que não era um rato por ter seis patas e ser verde de uma tonalidade totalmente incomum, caçava insetos na beira do pequeno ribeirão. Andava de um lado para o outro, tentando pegar louva-deuses e libélulas das mais variadas cores e tamanhos. Quando percebeu uma libélula pousada despreocupadamente, não titubeou. Num pulo, abocanhou o pobre inseto, porém caiu em cima do rosto de alguém que jazia na margem arenosa do rio, acordando-o ruidosamente.

— Mas que #@$*&? — gritou um assustado Ronald Raymond, segurando o pequeno bicho, apenas para levar um arranhão, que o fez soltá-lo — Que é... era aquilo?

Ainda com os olhos vermelhos e enevoados, a segunda metade do herói atômico conhecido como Nuclear levantou-se e tentou ficar de pé, mas a tontura o impediu e o fez cair sentado. Uma segunda tentativa foi impedida pela prudência recém-adquirida com o tombo anterior. Ronnie esperou uns minutos sentado com a cabeça entre os joelhos e, quando percebeu que a visão lhe retornava por inteiro, levantou a face e distinguiu o corpo do seu amigo professor Stein a poucos metros dele. Ainda meio tonto, ergueu-se e como não desabou, caminhou em direção a ele.

— Professor? Está bem?

Chegando perto do mestre, Raymond percebeu que não respirava. Tomado de pavor, começou a aplicar-lhe uma massagem de reanimação que aprendera com o Batman, quando estava na Liga da Justiça. Primeiro, estendeu o pescoço dele, puxou o queixo anguloso para trás, tapou-lhe o nariz e insuflou duas vezes ar em sua boca. Rapidamente, com as mãos trançadas e espalmadas, pressionou-lhe o peito várias vezes. Quando ia repetir o boca-a-boca, Stein começou a tossir, vomitando uma água bem escura.

— Professor, ainda bem. Está vivo! Não suportaria perdê-lo de novo!

— Ron... Ronald... onde? Onde estou... estamos?

Mais preocupado em reviver o amigo, Ronald nem tinha se dado conta do lugar onde estava. Deu uma esquadrinhada e viu uma mata fechada com enormes coníferas e samambaias, vários insetos e o riacho que corria forte.

— Não tenho a menor idéia, professor. Parece uma floresta tropical. Mas, espere aí, não estávamos no Alasca?

— Sim, estávamos, agora me lembro. Eu estava no laboratório no Alasca da universidade Empire State quando descobri qual era o experimento. A Nevasca! Estavam fazendo experimentos com a doutora Frost lá. Sem querer, eu a acordei e tive que te convocar. (*) Então, só lembro de cair num buraco e de você agora me ajudando.

— Eu estava jantando, depois de uma bateria de exames no STAR, quando me convocou e... olhe, tem mais alguém ali...

Assim que acabou de dizer tais palavras, dirigiu-se ao outro homem, apenas para descobrir que havia apenas a parte de cima do que foi outrora o doutor Gerald Conway.

— Está morto, professor. Lembrei que a Nevasca o havia congelado da cintura para baixo. Não sobreviveu à queda. Aliás, que queda? Ainda não entendo o que houve e onde estamos.

— Bem, Ronald, acho melhor andarmos por aí, para ver se descobrimos algo. O que houve parece claro: nossa luta com a Nevasca deve ter enfraquecido alguma falha tectônica sob nós e caímos nela. Agora, quanto à segunda questão, ainda é um mistério insondável. Ronald, cuidado!!

O aviso de Stein chegou atrasado, pois um imenso tigre dentes-de-sabre saltou, vindo do nada, em cima de Ronald, derrubando-o, não dando tempo nem a ele, nem ao professor, de se concentrar e invocar o cruzado de cabelos de fogo. O tigre prendeu a garganta do jovem com as mandíbulas, imobilizando-o totalmente por alguns segundos até que um silvo metálico o fez soltar.

— Nivaa-kampeäa! — urrou um homem de tez caucasiana, de cabelos negros e longos, com apenas um olho e com incríveis quatro braços, cada um segurando algo (uma lança, um corno, uma aljava com flechas e um arco), que saía de dentro da mata — Para trás. Eles não são parecem ser do outro lado. Venha para o meu lado.

Apontando a lança para Ronald, ele perguntou:

— Machucou-se? Não? Teve sorte, rapaz. Nivaa geralmente ataca para matar.

Atônitos, tanto pelo fato de o incrível ser parecer ter saído de algum livro de mitologia quanto por poderem entendê-lo, os dois amalgamadores se entreolharam e nada responderam.

— Quem são? Digam-me logo, ou serei obrigado a crer que Nivaa estava certa ao atacar-vos.

Engolindo em seco e ainda sentindo dor no pescoço, Ronald fez as apresentações:

— Meu nome é Ronald Raymond e esse é o professor Martin Stein. Somos americanos. Quem ou o que é você?

— Eu? Chamo-me Lorkhughesnorneig, mas podem me chamar apenas de Lork. A Nivaa já foram apresentados. — disse, com um enorme sorriso — Venham, acompanhem-nos até minha tribo. É aqui perto.

Sem pestanejarem, ambos acompanharam o ciclópico ser adentro da mata. Sem segurar a curiosidade, Ronald disparou um monte de perguntas:

— Onde estamos? Para onde vamos? Como há um tigre dentes-de-sabre aqui? E você, com esses braços...

— Calma, Ronald, não é? Quando chegarmos a tribo, todas as explicações ser-lhes-ão dadas.

A caminhada foi sufocante para os dois visitantes. O sol continuava a pino, mesmo depois de horas de andanças, e a mata fechada tornava o suplício ainda maior. Talvez por não estarem acostumados com o calor, o percurso foi feito em silêncio, quebrado vez por outra apenas pelos assobios agudos de Lork quando se aproximava de alguma árvore com um tronco mais grosso. Ronald se perguntava o motivo desse comportamento, quando finalmente chegaram à tribo.

A tribo se localizava num imenso descampado, com várias casas que lembravam as ocas dos índios sul-americanos, porém feitas de uma argamassa que parecia concreto. Eram casas bem sólidas, fazendo com que a tribo parecesse uma cidade projetada. Eles atravessaram a rua principal, sendo observados por várias pessoas, poucas, por sinal, iguais ao Lork, a maioria era muito parecida com seres humanos normais, exceto pelo fato de medirem quase dois metros e meio. Chegaram em uma das casas onde lá dentro esperava um idoso e um homem do tamanho normal.

— Olá, amigos. Fomos avisados que vocês viriam. Aprocheguem-se e sentem-se. Sou David Innes e esse é o venerando Narkbutarchatpek, também conhecido como Honrável Ancião Nark. Prazer em conhecê-los, cavalheiros. Sejam bem-vindos as terras de Agartha, ao reino de Pelucidar.

Ronald e Stein se entreolharam enquanto Innes continuava a explanação:

— Sou súdito de sua majestade imperial, a rainha Vitória da Inglaterra. Nasci em Portsmouth. Nas minhas andanças pelo mundo, vim parar nesta terra dentro da Terra. Uma terra mágica, como podem perceber, pois aqui todos só falam uma única língua e essa é a razão de poderem entender os pelucidarianos e eles a vocês.

— A rainha... Vitória? — perguntou Stein — Mas a rainha Vitória já morreu há mais de um século...

Innes se espanta com a revelação de Stein que, empertigado, deu uma grande tragada no que parecia ser um cachimbo e, depois de uns momentos em silêncio, perguntou:

— Um século? Já faz tanto tempo assim? Muita coisa deve ter mudado por lá, então. De qual parte da Terra vocês vieram? Suas roupas são muito estranhas, e note-se, já vi muita coisa estranha por aqui.

— Somos dos Estados Unidos. — respondeu, sorrindo, Ronald.

— Ah. As Colônias. — e deu mais uma tragada.

Ronald se aborreceu com o tom de voz de Innes e quando ia dizer uma resposta mal-criada o professor Martin o interrompeu:

— Sr. Innes, o que queremos agora é apenas voltar para o nosso mundo. Não podemos ficar aqui mesmo, temos nossas vidas lá, aliás, eu estava retomando a minha depois de um tempo longe. Gostaríamos muito que nos ajudasse. Nós...

— Senhor, — interrompeu o ancião, falando pela primeira vez, mostrando na voz todo o peso do tempo que seu carcomido corpo demonstrava — infelizmente não há saída natural de Agartha. Aqueles que aqui aportam, nunca mais voltam. Essa é a benção e a maldição da Terra dentro da Terra. Como podeis ver, o tempo não flui neste lugar como na vossa. Não existe outro tempo aqui do que o presente. O sol está sempre a pino, não há o que vós chamais de "noite", o que é um conceito deveras estranho para mim que cá nasci. Mestre Innes é a prova disso, o conhecimento dele do mundo de onde veio nos ajudaram em diversas ocasiões. Espero que o mesmo ocorra convosco.

O ancião parecia fazer um esforço hercúleo para dizer cada palavra e o sorriso no final não ajudava a tirar a sensação de que ele poderia se desmantelar a qualquer momento. As palavras de Nark atingiam os dois heróis como adagas de fogo, derretendo qualquer esperança de poderem sair daquele mundo o qual não pediram para estar, nem compraram passagens. Mas, a frase seguinte do ancião iria mudar os sentimentos:

— Porém, como eu disse, não há saídas naturais de Pelucidar, nada impede que haja saídas sobrenaturais.

Stein empertigou-se todo e perguntou:

— Sobre... natural? Foi dito que aqui é uma terra mágica, é disso que fala? Magia?

— Sim, caro senhor Stein. Magia. A única pessoa que possui o conhecimento de viajar no espaço entre as dimensões, está num castelo a uma certa distância daqui.

— E quem seria essa pessoa, Innes?

— Um mago que controla essa terra até onde os olhos podem enxergar e além. Não é má pessoa, mas sempre quer algo em troca. Acho meio difícil ele querer ajudá-los.

— Vamos tentar. Se essa é única chance que temos de voltarmos para casa. Innes, poderia nos mostrar onde fica o castelo desse mago? Aliás, qual o nome dele?

Um silêncio de mausoléu recaiu sobre o recinto. Innes olhou para o ancião, que meneou de cabeça em sinal de autorização. Então, o inglês de cabelos longos respirou fundo e disse:

— Salgooth... seu nome é Salgooth. Vou levá-los até ele, mas não tenham esperanças, pois não acredito que vá ajudá-los. Descansem por enquanto. Vou levá-los até a cabana das visitas e prepararei tudo para a jornada. Venham.

Algumas horas depois, a comitiva composta por Ronald, Stein, Innes, Lork e a tigre dentes-de-sabre Nivaa partiu em direção ao castelo de Saalgoth, preparados para uma longa caminhada no meio da mata fechada. Innes deu roupas novas para os dois americanos mas, bem, de roupa não é exatamente o que se pode nominar as peles de urso malhado que agora cobriam os corpos deles.

— Professor, essas coisas pinicam — reclamou Ronald, ao pé do ouvido — e coçam aqui atrás.

— Ronald, as nossas roupas estavam que eram uns trapos só, e você usava apenas uma ceroula de florzinhas...

— Era uma bermuda de Bali, professor!! Quando o senhor me convocou estava me preparando para jantar! (**)

— Está bem, Ronald, se você diz... mas agora deve estar no varal de alguém. Pare de reclamar. Você percebeu que não conseguimos nos unir aqui nesse mundo? Estive tentando desde que acordei naquele rio, e nada. Nadica de nada.

— Zipardônio.

— Hein? Zipa o quê?

— Esquece, professor, acho que andei conversando muito com um certo cachorro falante que vestia verde e preto. Mas é verdade, também tenho tentado e o máximo que consegui foi uma tremenda dor de cabeça. Deve ser essa terra estranha. Somos estranhos numa terra estranha... — e começou a cantarolar.

Martin suspirou e voltou-se para Innes:

— David, há quanto tempo está aqui? Você disse que era súdito da rainha Vitória... não tem vontade de voltar?

O inglês tirou os cabelos de frente do rosto, os prendeu num rabo-de-cavalo e disse:

— Aqui o tempo não passa. Não tenho a menor idéia. Como você pode ver, o sol não se põe em Agartha. Não há aqui a noção de "tempo decorrido". Então não posso lhe responder tal pergunta. Mas uma coisa respondo-lhe, já perdi a vontade de voltar para a Inglaterra há muito tempo. Aqui eu tenho o que preciso para viver, tenho uma família. Vê Lork? É meu filho mais velho. A minha vida está em Agartha, em Pelucidar. Para que voltarei a um mundo onde não mais pertenço? Para sofrer das mazelas de uma terra onde não há paz, só guerras? Não digo que aqui não tenha desafios, que seja uma morosidade só, temos desavenças sim, principalmente com o reino do outro lado do oceano, Skartaris, de Morgan Travis.

— Morgan... o Guerreiro? Já nos... me encontrei com ele. Mas na minha terra, numa crise...

— Mesmo? Bem, não morro de amores por ele e a filha bruxa dele. Mas hoje estamos em paz e isso que importa. Espere um pouco, Stein. Que sombra é essa?

Stein não entendeu a preocupação de Innes com o acontecido:

— Que foi? Acabamos de sair da mata, estamos num descampado, deve ser uma nuvem passag... — mas não completou a frase, pois uma terrível tempestade se abateu sobre eles, não uma tempestade de água, mas de ...

— Neve?! Neve caindo em Agartha?? É impossível! Mal cai chuva, quanto mais neve.

— É a Nevasca!

— Ainda não chega a tanto, Ronald, está meio fraquinha...

— Não, Innes. Ronald quer dizer que é a Nevasca, uma inimiga nossa. Havíamos nos esquecido dela completamente. Se nós caímos aqui e sobrevivemos, era de se esperar que o mesmo acontecesse com ela. Mas que estúpido eu fui. Ronald, temos que achá-la e detê-la.

— A tempestade parece ter vindo dos lados do castelo de Salgooth, pai. Será que essa tal de Nesvaca está lá?

— É Nevasca, Lork, — corrigiu Raymond — uma das piores inimigas que já enfrentamos. Não vai ser fácil, mas talvez com a ajuda desse mago...

— Temos de chegar logo no castelo, então. Vamos enfrentar essa "nevasca"! — bradou Lork, com seus quatro braços levantados em tom desafiador — O que esperamos? Corramos até lá!

E eles passaram pelo descampado, dirigindo-se ao castelo do mago supremo de Agartha.


A seguir: Em terra de sol eterno, quem sabe fazer chover é rainha.


:: Notas do Autor

(*) Na edição anterior. voltar ao texto

(**) Também na edição anterior. voltar ao texto




 
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