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Super-Homem # 01

Por Josa Jr.

"Clark... de todas as coisas que pode fazer... todos os seus poderes... o maior sempre foi o seu conhecimento institivo do certo... e do errado."
(Pastor Norman McCay, em O Reino Do Amanhã 4 - por Mark Waid)

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Prólogo

Apartamento de Lois e Clark. Um mês atrás.

— ...e então, o Perry me ofereceu um mês como correspondente internacional em Wakanda. O McGee desistiu e Perry precisa urgentemente de um substituto. Eu ganharia uma bela comissão. E partiria amanhã, no máximo.

— Lois... Você não está pensando em ir, está?

— Não sei. Nunca estive em Wakanda. É uma boa oportunidade.

— Isso me lembra de quando eu era o novato do Planeta e você a melhor repórter de lá. Odiava quando você pegava um desses trabalhos. Você fazia falta... Mas pelo menos era mais produtivo para mim. Não dividia a atenção entre você e o resto do mundo. Não havia ninguém na redação para eu não tirar os olhos.

— Que lindo, Clarkie. E isso me lembra uma curiosidade que sempre tive.

— E o que seria?

— Já que não tirava os olhos de mim... antes de nos casarmos, você já usou visão de raios-X em mim?

— Lois!

Sinceramente, às vezes não entendo essa mulher. Nunca irei entender. Era uma noite tranqüila de quinta, não acontecia nada de importante na cidade. Não havia nenhum crime para o Super-Homem enfrentar. Mas, no momento, nenhum desafio parecia ser pior que este.

— E então?

— Eu sempre respeitei sua a privacidade, Lois. Mas teve uma vez...

O quê? O maior herói da Terra fez isso? Eu não acredito!

— Na igreja... quando você entrou com aquele vestido branco, quando eu soube que você seria minha esposa para sempre, eu... bom, acho que isso diz tudo não?

— Mas aí tudo bem. Não precisa ficar vermelho, senhor Homem de Aço.

— Porém, atualmente eu me utilizo de meios mais manuais para conseguir algo tão promíscuo.

— E porque não me mostra estes meios?

— Já que insiste...

No meio das palavras de carinho de Lois, escuto tiros. Mas podem ser apenas policiais. Um choro de criança. Possivelmente um vizinho com o seu recém-nascido. Não, estou tentando me enganar para não perder este momento com Lois. Os tiros e o choro tem uma relação. Preciso fazer alguma coisa. Isto é um trabalho para o Super-Homem.

— Preciso ir.

— Clark... agora?

— Sinto muito.

— Quantas vezes vamos ter que passar por algo assim? Anteontem, foi o jantar!

— Achei que já tínhamos resolvido isso.

— Eu também. Vai lá...

Parto em direção ao Beco do Suicídio. Uma voz captada com superaudição me entristece.

"Não me procure em Wakanda", ela diz.

Deve Haver um Super-Homem?
(para Elliot S. Maggin, por perguntar pela primeira vez)

Eu sou conhecido por muitos nomes. Homem de Aço. Azulão. Último Filho de Krypton. Homem do Amanhã. Escoteiro. Kal-El... Super-Homem. Mas hoje eu desejaria ser conhecido por apenas um nome.

Clark Kent.

Você já pensou que provavelmente trabalhará até o fim de sua vida? Dia após dia. Sem parar. Alguns descansos, é verdade. Mas no final, quase tudo foi apenas uma irrefreável rotina. Uma batalha sem fim.

Todo mundo conhece a minha "profissão". Ela é, digamos... salvador. Todos esperam sempre que o Super esteja lá para salvá-los. Eu também espero estar lá para salvá-los. Mas eu temo o que essa esperança pode trazer ao mundo. E a mim.

Já foram 10 anos desde que o Super-Homem desfilou com seu uniforme colorido e sua capa vermelha pelos céus de Metrópolis. Dez anos que eu não tenho feriados. Já acordei ao som de uma criança padecendo numa lixeira. Já saí do banho às pressas por causa de um ataque terrorista.

E então, Lois...

Já faz quase três semanas desde a viagem para Wakanda... apenas uns e-mails e um telefonema. Devo admitir: ela sabe se esconder bem. Até de mim. Será que o Batman? Não... melhor não incomodar Bruce com isso.

Provavelmente estou passando por essas dúvidas por causa dela... já que o Homem de Aço atrapalhou várias noites românticas. Me pergunto se realmente deve existir um Super-Homem.

— Eu também me pergunto.

De tão entretido em meus pensamentos, não devo ter notado o vulto verde se materializando no quarto.

— Espectro? O que o traz aqui?

— Algo especial, Clark... Uma exortação. Você é considerado por muitos a pessoa mais importante da Terra. Mesmo não sendo daqui. É um novo salvador. Também me questiono se deve existir alguém como você. Às vezes me pergunto se você não estaria atrapalhando o caminhar do homem. Talvez até obscurecendo a glória de Deus. Ou alterando os caminhos tortuosos do Criador.

— O que quer dizer...? Caminhos tortuosos?

— É decepcionante ver um ex-freqüentador da escola dominical de Pequenópolis perguntar algo assim.

Ele não fala mais nada, apenas balança seu manto verde e tudo ao meu redor se transforma. De Clark Kent eu passo a Super-Homem. O cenário não é mais meu apartamento. Como fantasmas, nós pairamos sobre os arredores de Metrópolis. Vejo um avião vindo em nossa direção.

— Em alguns minutos, este avião cairá. Você vai salvá-lo?

— Meu Deus! Claro! Eu preciso. Torne-me sólido, por favor.

— Calma! Aqui estamos além do tempo. Não há necessidade de se desesperar, Clark. O avião pode ser salvo, se você quiser.

— Que pergunta é essa? Claro que...

— Contenha-se! Vê aquele casal? — Somos transportados para entre os passageiros. Observo as duas pessoas que Espectro aponta. Parecem recém-casados, tamanha a afinidade. — Estes dois se encontraram hoje. Ao chegarem em Metrópolis, ele a conhecerá. Uma criança será gerada, um garoto cego.

Então, mais uma vez, ele altera o cenário. Um mundo de horrores. Poucas vezes vi um lugar tão medonho. Me lembra a Terra do Universo Compacto, destruída por criminosos kryptonianos. Me lembra Apokolips, o mundo de Darkseid, onde ninguém tem vontade própria. Mas parece pior.

— Que lugar horrível é este...?

— Este é o mundo que você pode gerar.

O Anjo da Vingança me explica tudo. Eu fico atemorizado com o que descubro. Aquele lugar terrível das minhas visões é a própria Terra. O Espectro diz que a criança sofrerá discriminação e preconceito por ser cega, ao ponto que não suportará carregar tanta dor. Mais tarde, ele se tornará um líder mundial, popular como nenhum outro, porém cheio de ódio. Ele é como um Victor von Doom, mas tem uma arma quase impossível de ser vencida. Graças ao poder mutante que também nasceu com ele — controlar mentes. Todas as mentes. É um ser humano como nenhum outro. Todos cairão perante ele, inclusive telepatas poderosos, como Xavier e J'onn. Em seguida, os heróis restantes. E então o mundo.

Tempos depois, seu principal colaborador surgirá das trevas: Darkseid.

Aqui nascerá a Nova Apokolips.

— Como pode? Eu nunca deixaria isso acontecer.

— O que não permitirá, Clark? Que o menino nasça? Ou que o avião caia?

Será que realmente eu deveria saber que estou apertando o botão do fim da Terra? Aonde Espectro quer chegar? Eu não posso me negar o privilégio de ajudar as pessoas. Porque o Espectro, alguém que já foi considerado um super-herói, está fazendo algo assim? É verdade que ele é um anjo, ou algo parecido, mas suas atitudes... não batem com o que conheci dele.

Por alguns segundos fico pensando que decisão tomar, baseada no que o Espectro diz. Como se surgido do nada, uma idéia toma conta de minha mente... ele diz ser um anjo. E citou a velha escola dominical de Pequenópolis. Talvez algo que ouvi, há muito tempo por lá, possa funcionar. É arriscado, mas não custa tentar...

— Ah, claro, eu também deveria dizer que o pai da criança foi salvo de uma enchente há quatro anos atrás. Por você.

— Eu não acredito no que você diz.

— Loucura! Porque desdenha, depois de tudo que te mostrei?

— Acabei de me lembrar de algo, "Espectro".

— Homem insensato! Do que está falando?

— Certa vez, eu aprendi que até um demônio se faz anjo de luz. — Espectro se assusta com tais palavras, mas tenta manter a seriedade. — Muito bem, demônio. Qual deles é você?

— Tolo, não use a Palavra assim.

— Vejamos... Satannus? Blaze? Eu aposto em Neron.

Ele se cala por alguns instantes, mas logo começa a rir. Ao mesmo tempo em que escuto a gargalhada horrenda do demônio, vejo-o retirar o capuz e revelar sua face branca, que se transforma. Como num bizarro negativo, o manto verde e seu rosto assumem tons rubros. O odor de enxofre me nauseia. Ouvi falar de Mefisto pelo Doutor Estranho. Se a descrição estiver correta, é com ele que estou lidando.

— Vejo que você é mais esperto que eu imaginava.

— Não subestime o antigo "freqüentador da escola dominical"...

— Muito bom, Clark. Conseguiu estragar uma dos meus planos mais elaborados. Há tempos venho tentando frear esta maldita força do bem chamada Super-Homem. E agora eu tenho mais um motivo. Adeus... e prepare-se para mais diversão... em breve.

Fumaça e vapor me atingem. Quando abro os olhos, estou novamente no meu quarto, sem as roupas de Super-Homem. Olho para o relógio. Não se passou um minuto desde que saímos. Então me lembro do avião e, rapidamente, parto para salvá-lo. Em poucos segundos estou no local que Mefisto me levou. Enquanto levo o peso da aeronave nas costas, as dúvidas plantadas pelo demônio voltam a me atormentar e o peso do avião parece até crescer.

Eu jamais conseguiria deixa o avião cair sabendo da quantidade de vidas que se perderão nele. Mas, ao mesmo tempo, as perguntas quanto aos "caminhos tortuosos" permanecem. E se o que Mefisto falou for verdade?

— Tolice, Super-Homem. Deveria saber que ele já foi chamado de príncipe das mentiras.

Desta vez, é o Vingador Fantasma quem surge ao meu lado. Será verdadeiro, ou Mefisto está tentando mais uma vez?

— Você...

— Não se preocupe. Eu sou verdadeiro. Mesmo que não acredite agora, trago uma palavra que você poderá julgar a proveniência mais tarde. Um dos melhores dons que recebeu foi o de discernir bem do mal. Tome cuidado com os próprios demônios, Super-Homem. Mefisto tentou te enlouquecer, com a culpa de não ter salvo centenas de passageiros, mas sua formação o protegeu da terrível armadilha que ele preparou. Mas não acabou hoje. Poderão vir mais desafios.

Tão repentino e misterioso como surgiu, o Vingador Fantasma desaparece. Queria saber por que ele sempre tem que falar em enigmas. O avião se torna mais leve e eu posso finalmente deixá-lo no chão. Os passageiros descem e o piloto me agradece de joelhos e chorando. Digo para ele se levantar, mas ele permanece ajoelhado. Antes que eu possa pedir mais uma vez que se levante, duas pessoas me chamam a atenção por estarem se abraçando.

O casal que Mefisto me mostrou.

— Vocês estão bem?

— Oh, meu Deus... obrigado, Super-Homem. Obrigado, mesmo. Não teríamos ninguém para cuidar de nossos filhos.

— Obrigado a vocês também. Não podem imaginar como foram importantes para mim.

Me preparo para levantar vôo, mas uma voz conhecida grita meu nome e me faz parar. Tenho medo de virar para trás, mas não posso deixar de fazê-lo. Com uma cara meio irritada, Lois Lane se aproxima de mim.

— Não fala mais comigo, não?

Lois! Que saudades... O que está fazendo aqui?

— Hã, Super-Homem... Eu ia salvar o avião, mas você chegou primeiro...

— Quê??

— Eu estava no vôo, voltei mais cedo de Wakanda, super-lento. Ainda bem que me salvou... ou nunca mais veria sua L.L. favorita.

— Lois...

Eu a abraço e beijo seu rosto. Então este era o real plano de Mefisto. Começo a chorar, mas limpo as lágrimas rapidamente para que as pessoas não estranhem. Bem baixinho, Lois fala que, sem querer, eu finalmente admiti que não podia viver sem ela. Ela mal sabe o quanto isso é verdade.

Noto que o piloto ainda está ajoelhado. Eu me ajoelho com ele. Ele faz uma pequena prece e agradece seu Deus por tê-lo salvo. Eu olho para os céus e também agradeço. Por cada vida e pela satisfação de ter feito meu trabalho.

A batalha sem fim.

:: Notas do Autor



 
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