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Wolverine # 13

Por Rafael Borges

Banho de Sangue no Paraíso

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Vancouver, Canadá. Dias atrás:

Desde o início do século XX, a economia da Columbia Britânica se baseia no turismo. O grande número de parques, reservas naturais, montanhas e praias banhadas pelo Oceano Pacífico atraem, aos milhares, turistas de todo o mundo.

O GasBar, em uma região pouco próspera na periferia de Vancouver, também atrai os motociclistas que passam pela província. Mas a fama do boteco não foi construída por um ambiente sofisticado ou pelas iguarias servidas no balcão. Esse ponto de encontro de motos ficou conhecido pelas brigas causadas pelos freqüentadores constantemente embriagados que do local.

A responsável por contornar esse problema é a Bambi Bolisnky. Ela mesma adotou o apelido de "Leoa-de-Chácara". A mulher caminha por entre as mesas do recinto e observa o forasteiro que acaba de entrar.

Trata-se de uma figura estranha, com a pele tão clara que mais parece um albino. Os óculos escuros e a roupa em tons negros não destoam do ambiente repleto de motociclistas, mas o fato do homem ter chegado a pé neste bar de beira de estrada chama a sua atenção.

Aparentando cansaço, o forasteiro senta-se a uma mesa e Bulisnky volta sua atenção para outros clientes.

— Bem no meio! Parabéns, Bob! Você está ficando cada vez melhor nisso! — comenta para um dos mais assíduos praticantes do passatempo local, o "corta-mosca". O jogo consiste em derrubar uma pitada de açúcar sobre a mesa, esperar uma mosca pousar sobre ele e usar uma faca para acertar o inseto.

— Valeu, Bambi! — responde o motociclista. Uma caveira com caninos salientes estampa a bandana enrolada em sua cabeça — Logo, logo, eu vou ganhar de você nesse jogo!

— Ah! Eu estou pagando pra ver! — retruca a Leoa-de-Chácara.

Devido à conversa descontraída, nenhum dos dois percebe a aproximação sorrateira do forasteiro de pele alva. Ele se abaixa sem fazer som algum e lambe da mesa de madeira o açúcar machado com o sangue da mosca cortada ao meio.

— Nenhuma gota pode ser desperdiçada! — comenta o forasteiro.

— Deus! — exclama Bulisnky, enojada pela atitude do desconhecido.

— Ah, desculpem minha falta de educação. — prossegue o estranho, abaixando os óculos escuros e expondo seus olhos de coloração branca como a de sua pele — Meu nome é Sanguinário e posso lhes garantir que suas mortes não serão em vão!

Ao término desta sentença, sua boca começa a se abrir de forma inumana, expondo seus dentes pontiagudos. Com um golpe, ele derruba Bob de sua cadeira, partindo duas costelas e volta seu ataque em direção a Bambi.

Diferente de outras criaturas mitológicas que se alimentam de sangue humano, o Sanguinário não precisa cravar suas presas para sugar a energia de suas vítimas. Com um gesto suave de suas mãos, ele é capaz de fazer o fluido rubro saltar das próprias veias em direção à sua bocarra, resultando na morte quase instantânea de sua vítima — mas não antes de causar uma dor incomensurável.

Durante o processo macabro, Bulisnky entra em estado de transe, incapaz de reagir. Então, seus colegas de bar partem em sua defesa. Um deles acerta o vampiro com uma das cadeiras de madeira do local.

— Morra, monstro maldito! — esbraveja.

Não há resultado nenhum.

Com as energias renovadas devido à ingestão do sangue, o Sanguinário mal sente o impacto. A única conseqüência é chamar a sua atenção para seu atacante, que será sua próxima vítima.

— Como eu dizia, suas mortes não serão em vão! — prossegue o vilão — As energias que retiro de seu sangue servirão para o confronto com meu mais odiado inimigo.

Enquanto o vampiro se alimenta de um motociclista ao fundo do bar, um dos clientes que estava mais próximo à saída tenta correr para fora, buscando salvação do massacre que se prenuncia. Ele é atingido por um corpo sem vida arremessado com precisão pelo Sanguinário, que recuperou sua força sobre-humana.

— Fui informado de que Wolverine está de volta ao Canadá! — explica o vampiro, com grande quantidade de sangue escorrendo por entre seus dentes — Desta vez, ele não sobreviverá ao meu ataque!

Quarenta quilômetros ao norte de Vancouver. Hoje:

É sempre um prazer para Heather Hudson retornar à cabana afastada que mantém com o marido há tantos anos. Seja para afastar-se da correria da cidade grande de vez em quando ou mesmo para entrar em contato com a natureza exuberante do oeste canadense.

Tantas são as memórias que ela mal pode conter a imaginação quando abre a antiga porta de madeira e sente o cheiro de casa fechada. Por pura nostalgia — ou pelo fato de que o passado nos parece mais feliz na mesma proporção em que fica mais distante — ela se recorda com carinho dos invernos que passou aqui nos primeiros anos de seu casamento.

E, devido às circunstancias que a trazem a este lugar novamente, é impossível esquecer que, durante uma caçada pelas redondezas, ela e James Hudson encontraram pela primeira vez o então selvagem mutante que ficaria conhecido como Wolverine.

Naquela oportunidade, correndo nu pela mata, ele foi confundido com um animal e atacou o casal. Nos anos seguintes, eles viriam a se tornar grandes amigos, mas aquela primeira impressão foi tão assustadora que é difícil para Heather esquecer o pavor quando aquela estranha criatura peluda partiu para cima dela anos trás.

— Sabia que podia contar com você, Heather!

As palavras de Wolverine, que esperava dentro da cabana, interrompem os devaneios da amiga. Ela fica chocada com as roupas esfarrapadas que ele usa e o mau cheiro de seu corpo, mas prefere não comentar.

— Vim assim que recebi sua mensagem, Logan. — responde Heather, enquanto pendura as chaves do carro no suporte atrás da porta de entrada — Você parecia chateado com alguma coisa importante...!

O mutante se aproxima lentamente, quase desinteressado.

— "Chateado"...? — repete, com o olhar sempre distante — Boa escolha de palavras, gata!

— Aconteceu alguma coisa? — questiona a mulher, tirando o pesado casaco. Apesar dos óculos de lentes grossas e do penteado rabo-de-cavalo, sua beleza ainda transparece.

Wolverine volta a se sentar no sofá.

— Aconteceu o que sempre acontece. — explica em voz baixa. Ele encara o chão, quase sem palavras para se expressar — Agora, eu preciso me lembrar como aprisionar de novo essa coisa que escapou de dentro de mim.

— Você está me assustando! — Heather se aproxima do antigo amigo e coloca a mão sobre seu ombro direito.

Com um movimento brusco, Wolverine afasta a mão da amiga.

Na atual condição, ele não é muito mais do que o animal arisco que chegou a essa cabana, anos atrás. E seu olhar vazio reflete isso quando eles finalmente se encaram.

— Existe uma razão, Heather...! — sussurra o mutante, aparentemente incapaz de concluir seu raciocínio.

— Uma razão para quê? — questiona a mulher em resposta.

A tensão emocional é bruscamente interrompida quando a vidraça da janela da sala de estar se parte ruidosamente e, pela grande e fresta que se abre, uma figura inumana invade a cabana.

— Eu sabia! — esbraveja o Sanguinário, já com sua bocarra gigantesca aberta, expondo as presas, ainda manchadas pelo sangue dos inocentes que ele chacinou nos últimos dias — Me alimentei tanto que meus sentidos se desenvolveram na mesma proporção de minha força! Não foi difícil seguir o seu odor!

Wolverine não se preocupa em responder. Enquanto Heather Hudson grita, apavorada pela aparência demoníaca do invasor, Logan ejeta suas garras e parte diretamente para o confronto corpo-a-corpo.

— Sai daqui, Heather! — ordena.

— Não sei como sobreviveu a nosso último confronto, maldito! — grita o Sanguinário entre os golpes que cortam sua pele — Mas desta vez estou preparado!

Além dos dentes pontiagudos, o vilão ataca com garras inumanas que se projetam de suas unhas. Ele crava os dedos entre as costelas de Logan que solta apenas um grunhido.

— O Sangue que ingeri me torna mais poderoso do que nunca! — prossegue o vampiro, elevando o tom de voz, como quem se regozija com o som das próprias palavras — Mais poderoso do que você!

As garras penetram fundo, ameaçando perfurar os pulmões de Wolverine.

— A diferença é que você se preparou para enfrentar um homem! — esbraveja Wolverine, libertando-se de seu oponente — E não há nenhum aqui. Há apenas uma fera!

Acuado pelos golpes selvagens que recebe, Sanguinário recua até um canto da sala. As garras de adamantium cortam seu corpo com a mesma facilidade que destroem os móveis que circundam o combate. Quando começa a ter os membros amputados pela fúria desenfreada do mutante canadense, ele finalmente suplica:

— Misericórdia! Tenha misericórdia de minha alma!

— Misericórdia? — repete Wolverine. Sua voz agora é um urro animalesco e seus olhos arregalados revelam que o ódio permeia todo o seu corpo — Eu me entreguei ao meu lado animal. Perdi minha alma da mesma forma que você!

Os próximos minutos são uma sucessão de cortes violentos. Quando o mutante canadense percebe que esquartejou seu inimigo em mais partes do que seria possível contar, ele finalmente pára e tenta recuperar seu fôlego.

Heather Hudson, que havia deixado a cabana em busca de abrigo, retorna quando o silencio campestre volta a imperar. Ela se assusta com os pedaços do corpo do Sanguinário espalhados pela sala e com o sangue que recobre quase todo o corpo de Wolverine e respingou pelas paredes em quantidade surpreendente.

Ela observa o amigo, agora distante de toda a humanidade que havia recuperado no decorrer dos anos, de joelhos ao lado dos restos do inimigo vencido. Sentindo a aproximação da mulher, Wolverine toma coragem e quebra o silêncio.

— Há uma razão, Heather, para eu esquecer as coisas terríveis que fiz no meu passado! — conclui o raciocínio que desenvolvia antes do combate ter início.

— Oh, Logan...! — exclama, em resposta, a amiga.

— Eu tive de esquecer por que simplesmente não consigo mais viver, sabendo o que me tornei.


Na próxima edição: Tendências suicidas.


:: Notas do Autor

O título dessa edição faz referência à música "Bloodbath in Paradise" lançada pelo papa do metal, Ozzy Osbourne no álbum "No Rest For the Wicked", em 1989. A música fala sobre Charles Manson, mas o título se aplica muito bem à fúria incontida de Wolverine.

O GasBar e sua Leoa-de-Chácara apareceram pela primeira vez em uma edição produzida pela dupla Larry Hama e Marc Silvestri. A história foi publicada no Brasil em agosto de 1994 na edição de número 30 da revista Wolverine da Editora Abril e mostrava Logan se reencontrando com o velho amigo Pigmeu antes de enfrentar Lady Letal em uma viagem no tempo até a guerra civil espanhola.

Na edição é mostrada a forma pouco convencional com que o mutante pratica o tal jogo local, o corta-mosca.

Sanguinário foi criado pela dupla Chris Claremont e John Buscema durante o esforço para criar uma galeria de personagens coadjuvantes para as histórias de Wolverine em Madripoor. Mais tarde, foi revelado que o vilão foi revivido por um bruxo após um naufrágio no século XVI e recebeu a maldição de se alimentar de sangue humano, como um vampiro imortal.

Sua primeira aparição se deu na quarta edição da revista americana de Wolverine, de 1988. Essa história foi publicada no Brasil mais recentemente no encadernado "As Melhores Histórias de Wolverine de Todos os Tempos", de fevereiro de 2001.

Heather Hudson foi criada por John Byrne como parte da galeria de personagens da Tropa Alfa, os super-heróis canadenses. Sua primeira aparição se deu em Uncanny X-Men # 139, de novembro de 1980.




 
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