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Wolverine # 12

Por Rafael Borges

Sobre Lobos e Homens

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Seis meses atrás. Esgotos da cidade de Nova York:

— Ele não é um de nós! — esbraveja o mutante desfigurado. — Matem-no!

Sob o capuz envelhecido, Masque oculta seu rosto deformado. Ele não passava de um mero lacaio com a capacidade de alterar as feições de qualquer ser vivo menos a sua própria. Mas, desde que os Morlocks foram massacrados e quase levados a total extinção, tornou-se o líder da maior facção dos mutantes renegados que sobrevivem no subterrâneo.

— Isso não é certo! — Argumenta o dócil Caliban. Sua voz mansa contrasta com o corpanzil que Apocalipse lhe concedeu, quando ainda era um de seus cavaleiros — Morlocks não poder rejeitar os seus! Caliban achar que isso ser errado!

— Cale-se, ignorante! — retruca Masque, cada vez mais alterado — Ele atacou seus irmãos! Não é digno de viver entre nós.

No centro da discussão, o jovem Wolfgang se contorce no chão. Ele foi cercado pelos capangas de Masque e sabe que não há sentido em lutar contra eles. Os longos pêlos que percorrem todo o seu corpo se arrepiam a cada golpe que ele recebe no chão, mesmo já tendo sido subjugado.

— Masque já tomou sua decisão e ela é incontestável! — prossegue o líder dos mutantes, em tom solene — A partir desse dia, Wolfgang será expulso dos túneis dos Morlocks!

O jovem mutante com características lupinas não solta nenhuma palavra. No fundo de sua mente quase infantil, está aliviado de não ter de conviver com seus antigos colegas. Ele sabe que não conseguiria se conter.

Três meses atrás. Central Park:

— Eu não acredito que perdemos mais uma zebra do zoológico! — resmunga o velho zelador, James Burton.

Ele caminha com sua lanterna pelo parque tarde da noite, acostumado com o ambiente. Nas últimas semanas, isso tem se tornado um hábito. O desaparecimento das zebras faz com que ele tenha de vasculhar todo o parque em busca do animal desaparecido.

Pior do que perder uma zebra no meio de Nova York é a possibilidade de o animal atacar um visitante do parque. A prefeitura seria processada e a corda sempre estoura para o lado mais fraco. Seria necessário encontrar um bode expiatório e o velho James é o candidato perfeito, por ser o mais velho dos zeladores ainda na ativa.

Então, ele precisa se certificar de que a zebra não está desgarrada em algum lugar desse parque. Uma missão nada fácil, dado o tamanho do lugar e aos perigos que se escondem nessas noites de lua cheia.

O zelador Burton detém seu avanço quando escuta um suspeito farfalhar por entre os arbustos. Todo o cuidado é necessário. Pode ser a zebra desaparecida, mas a maior possibilidade é que seja um dos viciados que freqüentam o parque de madrugada ou mesmo amantes que resolveram experimentar uma opção mais selvagem.

— Parado aí! — ordena James, com a lanterna em punho. Sua esperança é que o invasor acredite que ele está armado, embora não esteja.

O ruído cessa ao som da ordem do velho zelador. Só agora James percebe o cheiro ruim que vem de trás da folhagem. O fedor de um animal morto?

— Saia para onde eu possa ver! — comanda o zelador.

Todos os sons do parque parecem silenciar por um instante. O incômodo silêncio prenuncia o ataque, que parte de surpresa.

A criatura peluda salta sem hesitação sobre o zelador. Enquanto suas garras afiadas rasgam seu uniforme e começam a dilacerar sua carne, o único som que emite é um animalesco rugido.

James Burton, por outro lado, grita em plenos pulmões enquanto ainda tem forças para tal. O clamor por socorro é inútil. Não há viva alma capaz de acudi-lo.

Quando finalmente cessa o combate, o zelador jaz silencioso, com o sangue escorrendo pelos paralelepípedos que calçam o parque. Seu atacante perde alguns minutos para comemorar a vitória, soltando uivos nada tímidos para a lua.

Depois de passar tanto tempo alimentando-se de animais, Wolfgang finalmente provará a carne humana novamente e não consegue conter sua alegria.

Brooklyn, hoje:

É só começar a chover que todos os táxis de Nova York desaparecem.

Pelo menos é esse o pensamento que passa pela mente da assistente social Jane Tyler enquanto procura abrigo sob a marquise de um antigo cinema abandonado. Justamente nesta noite, ela tem um compromisso marcado.

Estava tudo certo para arrumar emprego em uma pizzaria local para mais um ex-presidiário. A reunião foi marcada para as nove da noite no estabelecimento e a senhorita Tyler não vai permitir que uma reles chuva fique entra ela e o cumprimento de seu dever.

Enquanto limpa as gotas de seus óculos de armação discreta, a morena de pele alva caminha decidida entre os pedestres cada vez mais raros devido à chuva que aperta. Ela se afasta, protegida pelo sobretudo cinza que começa a ficar encharcado.

A iluminação elétrica das ruas, em contraste com a chuva, forma cones de luz que lembram os holofotes utilizados na Broadway. Infelizmente, a vizinhança não possui nem de longe o glamour dos grandes musicais. E uma lâmpada queimada em um dos postes forma uma área escura de quase meio quarteirão que a assistente social precisa cruzar em sua jornada.

O guarda-chuva resistia firme até a última lufada de vento. Jane Tyler finalmente perde a calma quando as hastes do assessório em sua mão sucumbem à força da natureza e seus longos cabelos negros começam a se molhar.

— Ai, Deus... — exclama aos céus, parando por um momento na área escura da rua.

A mulher tenta ajeitar o sobretudo para proteger a cabeça, mas o esforço é inútil. A chuva fica mais forte a cada minuto e a rua está completamente deserta a essa hora da noite.

A luz de um automóvel apressado ilumina rapidamente o local. Apenas tempo o bastante para que Jane aviste um vulto perto de si.

— Quem está aí? — indaga, assustada. Ela ainda não recuperou totalmente a autoconfiança desde o ataque que sofreu nas mãos de Linus Dorfman há algumas semanas.

Provavelmente é o odor de seu medo que atiça os instintos básicos da mente lupina de do morlock exilado.

Wolfgang salta sobre sua preza sem hesitação. Ele solta um grunhido animalesco quando suas garras afiadas começam a perfurar o sobretudo encharcado e alcançam a pele suave de Jane Tyler.

— Socorro! — a garota não encontra forças nem para gritar. De seus lábios, emana apenas um suave sussurro de pavor pela situação em que se encontra novamente.

O medo petrificante, entretanto, dá lugar à dor quando o mutante resolve partir para um ataque mais direto. Deliciando-se com a adrenalina liberada pelo ataque, ele crava suas prezas lentamente no ombro direito de sua vítima indefesa.

Com feições semelhantes às de um lobo, fica difícil reconhecer o sorriso de satisfação que ele solta com o sangue escorrendo pelos lábios.

— Não! — berra a assistente social.

Mesmo gritando em plenos pulmões, seria impossível escutar sua súplica devido ao som da chuva contra o concreto e as buzinas do trânsito ao longe. Felizmente, a sobrevivência da senhorita Tyler não depende da audição de seres humanos.

— Larga a moça, animal! — ordena Wolverine, saído de um beco ainda mais escuro daquela rua mal-iluminada.

Com o corpo visivelmente coberto de sujeira, fica claro que o x-man estava abrigado em uma caçamba de lixo nas proximidades. Logan pegou o atacante de surpresa pelas costas e encosta ameaçadoramente as lâminas que se projetam de seu antebraço contra a nuca de Wolfgang.

O morlock se detém, ofegante.

Por pura audácia ou por não estar acostumado a enfrentar um oponente à sua altura, ele hesita em libertar sua presa, que o observa aterrorizada. Jane Tyler pode sentir a respiração pesada de seu algoz contra seu rosto ensopado pela chuva.

— Eu mandei soltar a moça! — repete Wolverine.

Visivelmente alterado, Logan usa suas garras para fazer um corte profundo nas costas de seu adversário. Assustado, Wolfgang emana um ardido grito de dor e solta a assistente social.

O x-man recolhe as lâminas de adamantium, agarra seu oponente pelos longos pêlos que recobrem a parte posterior de seu tórax e o arremessa para o outro lado da rua. O morlock aterrissa ruidosamente, colidindo com um latão de lixo.

Com a visão turva devido à adrenalina que jorra em seu organismo, Logan observa seu inimigo com olhos fervendo de ódio. Mas tudo o que vê é a semelhança do visual Lupino de Wolfgang com outro inimigo de longa data: Dentes-de-Sabre.

— Já passou da hora de você aprender! — esbraveja, enquanto parte aos socos para cima do morlock.

— N-não! — sussura Wolfgang, entre um soco e outro — Wolfgang... não consegue evitar...!

Os golpes violentos do mutante canadense arrancam sangue de seu oponente, mas a investida não diminui de intensidade. Alucinado, Wolverine desfere um ataque após o outro, incansavelmente.

— Pare! — o grito de Jane Tyler faz com que Logan finalmente interrompa o massacre.

A visão da mulher em pé, sangrando e com as pesadas roupas de frio esfarrapadas ganha um tom ainda mais dramático quando a chuva finalmente começa a diminuir em Nova York.

— Você o ouviu falar! — prossegue a assistente social, eloqüente — Apesar da aparência, ele é um ser humano! Uma pessoa doente e já está indefeso.

Por um instante, Wolverine deixa o ódio de lado e volta seu olhar para o morlock debilitado.

— Wolfgang não consegue evitar! — repete mais uma vez, recuperando-se dos ferimentos — Wolfgang sente a fome... e não consegue...!

Wolverine silencia o inimigo com um direto no queixo. O impacto dos ossos revestidos por metal indestrutível faz voar uma das prezas proeminentes de sua mandíbula canina.

— Eu senti o cheiro nele! Cheiro de carne humana! — explica Logan, reassumindo a postura agressiva — Você não foi a primeira pessoa que ele atacou esta noite!

Jane leva a mão ao rosto, assustada com a reação violenta e a argumentação do x-man.

— Esse maldito se tornou um animal selvagem no dia em que experimentou carne humana pela primeira vez! — prossegue Wolverine, ejetando as garras de sua mão direita com o som característico — E só tem uma coisa que se pode fazer com animais selvagens que saem do controle!

Com um golpe certeiro, Wolverine rompe o tórax de seu inimigo com as lâminas de adamantium, fazendo o sangue jorrar na sarjeta, misturado à água da chuva que cessou há poucos instantes. Antes que o corpo de Wolfgang chegue ao chão, a vida já o deixou.

Não há razão para tentar enxugar as lágrimas que escorrem pelo rosto ainda molhado de Jane Tyler. A mulher observa sem reação enquanto Logan se levanta e começa a caminhar vagarosamente de volta ao beco escuro de onde veio.

Como assistente social, ela está acostumada a crer que até mesmo os piores assassinos têm direito a uma segunda chance. Mas nunca presenciou um ato de tanta violência. Sem saber o que fazer, ela pergunta:

— Pra onde você vai? Não pode me deixar aqui assim...!

Wolverine interrompe a caminhada e responde sem olhar para trás:

— Eu libertei o animal dentro de mim. Não sirvo mais pra ficar na companhia dos outros seres humanos. Tenho que sair dessa cidade antes que alguém precise dar cabo da minha vida como eu fiz com esse infeliz.


Na próxima edição: De volta ao Canadá.


:: Notas do Autor

O título desta edição faz alusão à música "Of Wolf and Man", da banda americana de heavy metal Metallica. Ela faz parte do auto-intitulado disco de 1991, que ficou mais conhecido como "álbum preto". Na letra, o vocalista James Hetfield conclama: "Na selvageria, está a preservação do mundo. Então, busque o lobo em você!"

Os Morlocks, o grupo de mutantes renegados que vivem nos esgotos de Nova York, foram criados em 1983 por Chris Claremont e Paul Smith. Masque se tornou o líder do grupo após a investida violenta que quase os levou à extinção e ficou conhecida como o Massacre de Mutantes.

A assistente Social Jane Tyler já apareceu na sexta edição de Wolverine no Hyperfan, quando foi atacada pelo assassino serial Linus Dorfman. Talvez por ter sido criada como homenagem à filha do vocalista do Aerosmith, Liv Tyler, sua beleza atraia os tipos mais perigosos.




 
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