hyperfan  
 

Batman # 01

Por Eduardo 'Mordred' Viveiros

Caminhos Distorcidos

:: Sobre o Autor

:: Próxima Edição
:: Voltar a Batman
:: Outros Títulos

Noite passada

Por um momento, ele hesita.

Hesita e observa a pele firme e quente do garoto desacordado. Ele passou meses estudando e se preparando para este momento. O plano era simples, bastava injetar nas veias uma infusão feita com os fluidos escrotais de um dos muitos jovens que vendem seus corpos nas ruas. O mais difícil já tinha sido feito. Por que ele hesita agora?

Mais uma vez, ele cheira o corpo nu à sua frente, perfeito e sem as máculas do tempo. Como que para reforçar suas intenções, acaricia a cicatriz onde deveria estar seu sexo, decepado impiedosamente meses atrás. Lembra-se dos garotos da vizinhança, que começaram a zombar quando sua pele albina sentiu os efeitos dos hormônios descontrolados. Uma zombaria que dói na alma até hoje. Uma zombaria que logo iria acabar.

Sem pensar em mais nada, ele agarra seu estilete e corta de ponta a ponta o escroto do garoto desmaiado, recolhendo seu conteúdo.

Seu plano começou.

Tarde do dia seguinte

Tim Drake está sentado em uma das mesas da biblioteca do colégio e, enquanto espera seu amigo Kurt Ward, tenta se concentrar nos livros de trigonometria. Números e conceitos confundem-se rapidamente em sua cabeça quando escuta trechos da conversa entre dois estudantes na mesa ao lado. A dupla cochicha, como numa conspiração, mas Tim não pode deixar de ouvir.

— Isso é nojento, Rick!

— Relaxa, Josh. Não tem nada demais. São só umas bichas velhas que gostam de levar umas dedadas. E 'cê ainda pode descolar uma boa grana em uma noite.

— Não sei não, cara. E se meus pais descobrirem?

— Bah, eles só vão descobrir se você deixar. Eu falo que vou estudar na casa de um amigo e, em três horas, já ganhei mais do que a minha mesada. Pô, tem até alguns que gostam de chupar a gente.

— Sério?

— Tô falando sério! É só fechar os olhos e pensar naquela gostosa da Courtney, que tu goza rapidinho.

— Porra, parece legal. É só aparecer lá, então?

— Nem... Os caras não te conhecem, e você pode se dar mal. Seguinte: vai nesse endereço e fala com esse cara que tá aí no papel. Já tem um monte de caras aqui da escola que fazem esse esquema. É só dizer que eu te indiquei que não tem galho.

A atenção de Tim é desviada novamente pela chegada de Kurt.

— Oi, Tim. Desculpe a demora. Aquele diabo de professor me segurou até agora. Podemos ir, se quiser.

— Vamos. O carro está lá fora. — Ele recolhe os livros e se dirige para a saída, não sem antes olhar para Rick e Josh, que continuam conversando.

— Algum problema, Tim? Você tá com uma cara estranha.

— Não é nada, só estou... preocupado com a prova. Kurt, posso te perguntar uma coisa?

— Manda.

— Você tá sabendo de alguma coisa sobre a rapaziada da escola fazendo programas à noite?

— Programas?

— É. Prostituição, sexo, essas coisas.

— Credo, cara. Não sei de nada. De onde você tirou isso?

— Ouvi alguma coisa. Esquece, devem ser boatos. — a situação começa a incomodar Tim cada vez mais. Ele pode ver claramente que Kurt está mentindo.

Duas semanas atrás, ele corria. Corria para salvar sua pele. Doze horas antes, ele ignorou o bom senso e foi para a cama com a mulher de Bloody Joe. Todo mundo na vizinhança sabe que aqueles que mexem com a mulher de BJ se arrependem. Ele também sabia, mas os meses sem sexo falaram mais alto quando aquela deusa de cabelos vermelhos lhe deu bola.

Agora, ele pagava o preço. Metade da gangue de BJ corria atrás dele, aos gritos. Como homens desesperados costumam cometer grandes burradas, ele entrou em um beco sem saída. Antes que se desse conta de seu erro, seis homens já seguravam seu corpo, esperando a chegada inevitável de BJ, que entrou no beco em seguida. Seus olhos, vermelhos de raiva.

— Então, você é o puto que gosta de enrabar a mulher dos outros? — Sem esperar resposta, fez sinal para que seus capangas arrancassem sua roupa. — Você vai aprender.

Os capangas seguraram seu corpo nu contra o chão sujo, peito para baixo. A lição foi demorada e humilhante. A dor se tornou ainda mais presente quando BJ passou o 'turno' para sete de seus capangas.

Quando ele achou que tudo estava terminado, veio a verdadeira tragédia. Os capangas viraram-no de frente para BJ, que sorria e segurava uma grande faca de caçador. Ele ouviu o criminoso fazer alguma piada, mas não conseguiu prestar atenção. Tudo o que ele se lembra era da dor lancinante, misturada com as risadas dos capangas ao redor do beco, enquanto BJ arrancava lentamente seus genitais.

Alfred desce a escada que liga a Mansão Wayne à Batcaverna. O velho mordomo já perdeu a conta de quantas vezes fez aquele trajeto, carregando sua indefectível bandeja de prata. Ele poderia confortavelmente usar o elevador secreto instalado por seu patrão, mas não confia naquelas máquinas. Odiaria ficar preso em um elevador no meio de uma caverna. Além disso, exercício faz muito bem para as pernas na idade dele.

Bruce Wayne acaba de acordar e, antes de almoçar, está praticando ginástica. O corpo forte de seu patrão faz Alfred ressentir-se do peso dos anos em seu próprio corpo. "Inevitável", pensa ele, afastando os devaneios de sua mente enquanto deposita a bandeja com café e a correspondência do dia em uma mesa próxima. No outro braço, uma toalha de algodão, que estende para Bruce.

— Bom dia, Alfred. Alguma correspondência importante?

— Um memorando da Waynetech, dois pedidos de caridade e uma carta daquele seu amigo canadense de nome estranho. E este curioso convite para a inauguração de uma nova casa noturna na cidade.

— Deixe-me ver. — Bruce pega o chamativo convite negro em letras vermelhas. — Sodomme?

— Pelo visto, o senhor conseguiu um novo lugar para usar suas roupas de couro.

— Muito engraçado... "Venha satisfazer todas as suas fantasias de forma privativa e segura, em um ambiente perfeito. Pré-inauguração nesta quarta-feira, apenas para convidados. Leather obrigatório." De onde eles tiraram a idéia de que eu poderia me interessar por algo assim?

— Talvez a Mulher-Gato o tenha indicado, patrão.

O diálogo é interrompido por uma chamada no computador central da caverna.

— Batman, você está aí?

— Na escuta, Oráculo. Pode falar.

— Descobri uma entrega em Gotham que aposto ser do seu interesse.

— Entrega?

— Um carregamento clandestino, na verdade. Um grupo de garotas sul-americanas foi contrabandeada para Gotham há duas noites. Todas com idade entre 16 e 21 anos. Chegaram nas docas e foram levadas acorrentadas dentro de um furgão. Alguns boatos dizem que é para uma nova casa noturna na cidade. Quando conseguir mais informações, volto a ligar. Oráculo desligando.

A tela do computador apaga e passa a refletir o rosto de Bruce Wayne, que deixa transparecer seu asco por tráfico humano.

— Pelo visto, devo preparar seus trajes mais cedo hoje, patrão Bruce.

— Sim, mas não os de Batman. Hoje, Bruce Wayne estará na ativa. Venha comigo, Alfred. Vamos descobrir o que tenho de couro guardado no armário.

Várias estradas ligam o Aeroporto Internacional de Gotham ao centro da cidade. Esta, em especial, percorre as colinas ao sul, onde a mata original ainda é preservada. Ponto turístico, o lugar também é popular entre os românticos e os nostálgicos. E é nostalgia o que toma conta da ocupante do coupé alugado que passa por ali naquele fim de tarde.

Ela encosta o veículo no acostamento, desce e apoia-se no guard rail para admirar a vista. Longe, a cidade se resume a grandes construções de concreto que parecem amalgamar-se. A mulher respira fundo e abre um largo sorriso.

— Ah, Gotham, mon amour. Sua filha pródiga está de volta. E, desta vez, é pra valer.

Após cumprimentar Alfred, Tim Drake sobe as escadas da majestosa mansão em direção à suíte de Bruce Wayne. Encontra o parceiro saindo do banho, o quarto tomado pelos vapores aromados vindos do banheiro.

— Vai sair hoje, Bruce?

— Sim, uma festa que merece ser investigada. — diz Bruce, apontando o convite sobre a cama.

Sodomme? — Tim olha o convite com um sorriso irônico — Não sabia que você curtia um bondage...

— Uma só piadinha sobre acessórios de couro e eu arrumo um novo parceiro... Oráculo encontrou indícios de tráficos de garotas para serem leiloadas nesse clube.

— Parece que perversão sexual é a bola da vez. O que vim comentar com você está nessa roda também.

— O que é?

— Uma coisa que ouvi na escola. Ao que parece, tem alguém assediando garotos da minha idade para prostituição.

— Então a situação é mais grave do que parecia...

— Você já sabia?

— Estive de olho nisso nas últimas semanas. O número de garotos de programa na cidade aumentou, e a idade é cada vez menor. Só não sabia que estavam recrutando na classe alta também.

— É o que parece. Enfim, como você já está ocupado, vou investigar essa sozinho.

— Nem pensar. — diz Bruce, saindo do banheiro.

— Como assim?

— Essa gente é perigosa, Robin. Não quero você correndo riscos desnecessariamente.

— Mas que diabos, Bruce! Eu sei me cuidar. Os garotos...

— Os garotos não estão sendo forçados a nada. — interrompe Bruce, adotando um tom ríspido. — Todos entraram nessa situação por vontade própria. As garotas no Sodomme precisam de ajuda mais imediata. Mantenha-se longe disso, Robin. É uma ordem.

Bruce deixa o quarto, enquanto Alfred entra.

— O que aconteceu agora? — pergunta o mordomo.

— Esse comportamento superprotetor de Bruce extrapola o bom senso, às vezes. Ele precisa enfiar na cabeça que não sou Jason Todd!

— Ah, sim. Infelizmente, patrão Bruce não é do tipo que supera seus traumas facilmente. Já que Robin vai ficar de molho esta noite, não poderia ajudar-me a arrumar a coleção de CDs, patrão Timothy?

Alguns dias atrás, quando Pacheck, o médico, deu a ele esperanças de recuperar sua identidade perdida. Ele se lembrava nitidamente da conversa.

— ... implante é inviável, infelizmente. Uma prótese pelo plano de saúde da prefeitura pode demorar meses para ser aprovada. Acho que o senhor vai ter que se acostumar com sua... situação por enquanto.

— Tudo bem, doutor, já estou conformado. O senhor tinha falado algo sobre hormônios...

— Sim, hormônios. Como o senhor bem sabe, com essa... hã... intervenção nos seus genitais, seu sistema hormonal vai ficar completamente desequilibrado. Portanto, será necessária a complementação de testosterona, com estes comprimidos. Tome um comprimido por dia, e pode ficar sossegado. Mas não se assuste com algumas... alterações físicas no seu corpo. Infelizmente, elas são inevitáveis, mesmo com os hormônios.

— Certo, doutor. Preciso ir agora. Nos vemos semana que vem.

Ele já sabia o que fazer desde então. Não precisava daquele vidro estúpido de comprimidos brancos. Ele ia direto à fonte.

O nome Sodomme, escrito em neon vermelho na fachada, é refletido nos vidros escuros da limusine. Dentro do veículo, Bruce Wayne prepara-se para adotar um papel que não incorpora há tempos: o dele mesmo, o playboy despreocupado com a vida. No banco da frente, Alfred, com seu uniforme de chofer, fala:

— ... às duas em ponto, senhor. Divirta-se.

— É pouco provável, Alfred. Até mais tarde.

Bruce sai do carro, chamando a atenção dos poucos presentes na calçada. O collant inteiriço de couro ressalta seu corpo forte, cobiçado por boa parte da sociedade gothamita. Sem dar atenção a ninguém, dirige-se naturalmente à porta, onde é barrado por um segurança mal-encarado, de terno preto.

— Calma aí, bacana. A festa é restrita hoje.

— Sei bem, amigo. Você deveria ter me reconhecido, se estivesse inteirado com o trabalho para o qual foi contratado. Eu fui convidado. Meu nome é Wayne. Bruce Wayne. — a frase faz o segurança arregalar os olhos.

— Perdão, senhor Wayne, não o reconheci. O senhor é um dos convidados de honra. Por favor, entre e aproveite a noite.

O ambiente que Bruce encontra não é muito diferente do que esperava. A decoração é inspirada em objetos de tortura da época da Santa Inquisição. Donzelas de ferro, máscaras de tortura e outros apetrechos estão espalhados pelo salão, à disposição de quem quiser utilizá-los. Garçonetes e barmen estão vestidos com explícitos trajes de couro e coleiras. Em pequenos palcos suspensos, homens e mulheres assumem o papel de torturadores, com chicotes e outros objetos, disponíveis para quem quiser passar por uma pequena humilhação prazerosa.

A observação de Bruce é interrompida quando uma das atendentes leva um homem de terno e gravata para uma sala, fechada por uma cortina púrpura. Quando tenta entrar, sua passagem é interrompida por um dos guardas, seu corpo grande e peludo coberto por pequenas tiras de couro.

— Por favor, senhor. Este ambiente é de acesso restrito.

Quando se prepara para responder, Bruce é interrompido por uma mão firme que toca seu ombro, dizendo:

— Bruce Wayne? — ele se vira e dá de cara com um homem alto e magro, de roupa cinza, gel e óculos escuros. O sotaque e o sorriso italianos são inegáveis — Meu nome é Pablo Dominiguetti, responsável pela casa. Muito prazer.

— Então você é o proprietário? — os dois homens dão-se as mãos e sorriem. O cinismo é palpável.

— Dono, não. Apenas responsável interino. Neste ramo, a diferença é considerável. E então, gostando do nosso serviço?

— É... interessante. Na verdade, nem deveria estar aqui, pois viajo para Aspen em uma hora. Mas a curiosidade foi mais forte.

— Entendo. — o sorriso de Pablo começa a incomodar Bruce. — E curiosidade, pelo visto, o senhor tem muita. Gostaria de conhecer os ambientes privativos que oferecemos?

— Claro, por que não?

— Para o senhor, tudo é possível, senhor Wayne, como membro honorário da nossa Sodoma particular. Por favor, acompanhe-me.

Os dois homens ultrapassam a cortina púrpura e passam para outro corredor, de formato arredondado. Ao longo das paredes, pequenas aberturas cobertas por outras cortinas deixam transparecer os gemidos molhados de seus ocupantes, interrompidos ocasionalmente pelo som do couro de um chicote arrebentando a carne.

— Estas são nossas dark rooms privativas. Todos os funcionários da casa, desde as garçonetes até os seguranças, estão disponíveis para realizar as fantasias de nossos sócios. Todos fazem testes regulares contra HIV e doenças venéreas, e sofrem cirurgias para deixar de serem férteis. Ou seja, filhos e vírus indesejáveis são coisas que o senhor não vai encontrar aqui.

Caminham mais um pouco, até o fim do corredor escuro. Param em frente a um portão enferrujado, fechado por um grande cadeado, que é rapidamente aberto por Pablo, com um sorriso malicioso no rosto.

— E aqui, a prata da casa. Acompanhe-me.

A visão é terrível. O portão bloqueava a entrada de uma pequena caverna circular, esculpida na pedra, com infiltrações de água por toda parte. O chão é coberto por palha e serragem. Encolhidas pelos cantos, doze adolescentes olham assustadas para os dois homens.

— Elas são nosso espólio, e serão leiloadas daqui a duas noites para nosso sócios. Todas virgens com, no máximo, 18 anos. O melhor que a humanidade selvagem pode oferecer. Se o senhor quiser experimentar alguma, podemos abrir uma exceção. É só escolher.

Antes que Wayne possa responder, uma das garotas joga-se a seus pés, choramingando em espanhol:

— Por favor, señor, não me machuque. Queremos apenas ir para casa, ajude-nos...

— Cala-te, Maria! E faça o que foi treinada a fazer.
— Pablo gritou, também em espanhol, no mesmo tom usado para cachorrinhos que fizeram suas sujeiras no lugar errado.

Ainda choramingando, mas resignada, María levanta-se e abraça as coxas de Bruce, apertando suas nádegas e lambendo seus genitais proeminentes sob a roupa de couro. Abalado, Bruce afasta a garota gentilmente, e fala para Pablo:

— Eu.. adoraria experimentar o que me oferece, mas tenho aquela viagem que lhe falei. Realmente preciso ir.

— Uma pena, senhor Wayne. — Pablo pega um cartão do bolso de sua roupa e entrega a Bruce — Aqui está o convite para a festa a fantasia de sexta, que será acompanhada pelo leilão das garotas. Esperamos sua presença.

— Eu estarei aqui, com certeza. Até logo.

Deixando Pablo para trás, Bruce sobe o corredor disposto a deixar a casa o quanto antes. Um ódio selvagem queima sua alma.

O nome do garoto é Kurt. Ao menos, é o que diz a identidade achada no bolso de trás do jeans. Kurt Ward. Enquanto carrega o corpo inerte para a banheira do motel, ele pensa em papai e mamãe Ward, e na reação dos dois quando souberem da notícia. Sem se surpreender, ele não se importa. No quarto, o fogareiro arde.

Seu plano está indo perfeitamente bem.


:: Notas do Autor

Olá. Bem vindo ao sombrio mundo de Batman. :)
Este é apenas o primeiro número de uma jornada audaciosa, que pretende se estender por um bom tempo. Talvez nem sempre agradando, mas sempre encarando temas estranhos, bizarros e nojentos. Temas presentes na vida de qualquer um de nós.
Espero que vocês tenham se divertido lendo tanto quanto eu me diverti escrevendo e imaginando a cara de vocês enquanto liam. Portanto, utilizem o formulariozinho aí abaixo para eu saber suas opiniões. Qualquer grunhido serve, e não dói nada.
Até o próximo número então.

Mordred



 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.