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Batman # 02

Por Eduardo 'Mordred' Viveiros

Bifurcações

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Fim de tarde. O clima na sala de projeção da delegacia central de Gotham está péssimo. E com razão. Sentados estão os detetives Harvey Bullock e Renée Montoya, incomodados pelas imagens projetadas pelo seu superior, o comissário James Gordon.

— Ao que parece, temos um novo maluco na cidade, senhores. Duas vítimas foram encontradas nas últimas noites, ambos garotos de programa com cerca de 16 ou 17 anos, torturados e mortos da mesma forma. Pelo que a perícia pôde deduzir, o assassino leva os garotos desacordados para um quarto e, enquanto ainda estão vivos, corta o escroto deles, colhendo o fluido escrotal e retirando seus testículos. Logo depois, ferve tudo junto em um pequeno fogareiro, recolhendo o resultado em uma seringa.

— Eficiente essa perícia, hein? Contratamos videntes agora? — interrompe Bullock.

— Não exatamente. Na noite passada, o assassino abandonou todos os seus objetos no quarto, sabe-se lá por quê. Continuando, como vocês podem ver pelas fotos, ele abandona os garotos na banheira do quarto alugado, juntamente com os testículos, e corta seus pescoços antes de sair.

— Ao menos ele é piedoso. — Bullock murmura novamente, mastigando a ponta do charuto — Eu não conseguiria viver sabendo que tive minhas bolas cozidas.

— Isso é tudo o que temos. — Gordon retoma a palavra — Detalhes adicionais estão nos relatórios que entreguei a vocês. Estou tentando esconder o máximo possível da imprensa, portanto temos que agir rápido. Dêem prioridade total a este caso, quero resolvê-lo antes que os federais se interessem. Se eles se meterem, vamos ter problemas. Podem ir.

A dupla sai da sala conversando, deixando para trás um comissário Gordon pensativo, a parede decorada com um close no corpo rasgado de uma das vítimas. A foto tremida denuncia o nervosismo do fotógrafo policial, que não agüentou o baque da cena e pediu férias logo após a perícia. A imersão mental de Gordon é interrompida bruscamente por uma voz vinda do fundo da sala.

— Horrível, não? — Batman paira ao lado da janela aberta, como um fantasma entre as sombras.

— Ainda descubro como você faz isso.

— A faxineira me deixa entrar. — a piada inesperada faz Gordon improvisar um sorriso enquanto Batman se aproxima.

— Quanto você ouviu?

— O suficiente. Na verdade, vim ver o que você tem sobre o caso.

— Como ficou sabendo?

— Tinha uma ligação com a última vítima.

— Ah... — Gordon desvia o olhar e arruma os óculos com a mão. De repente arregala os olhos, como que saindo de um transe — Robin?

— Não. O que sabe sobre o assassino?

— Praticamente nada. Sem digitais no quarto ou no fogareiro. O atendimento dos motéis que ele utilizou é completamente automático. Ele pagou com dinheiro, pegou as chaves, fez o serviço e foi embora sem que ninguém visse seu rosto.

— Muito bem. Imagino que a cena do crime esteja liberada para mim.

— Como sempre.

— Ótimo. Vou pegar esse maníaco antes da terceira vítima. Avise a Bullock e Montoya que estou no caso.

Jardim de entrada da mansão Wayne. Alfred observa o pôr-do-sol ao longe enquanto coloca comida para Ás. Ou tenta colocar, já que o animal só dificulta o trabalho do mordomo.

— Ás, eu já disse que não posso encher seu prato se você não tirar a cabeça da frente! — Alfred ralha com o animal, empurrando-o para o lado. Depois murmura — Cão teimoso, parece o patrão Bruce.

— Pelo menos eu não solto pêlos no seu paletó.

— Boa tarde, patrão Bruce. Não o vi chegando.

— Sei ser furtivo quando quero. — ironiza Bruce, agachando-se para afagar Ás — Como está Tim?

— Patrão Timothy ainda não veio à mansão hoje. Segundo o que conseguiu contar ao telefone sem chorar, ele recebeu a notícia do assassinato do colega na escola. Se me permite dizer, patrão, ele está realmente abalado e logo vai querer que Robin cace o assassino. E imagino que suas proibições não irão surtir o efeito desejado.

— Eu já esperava por isso. Por favor, Alfred, ligue para Tim e peça que se prepare para agir esta noite. Encontro com ele na caverna às nove. Temos que pegar esse lunático ainda hoje.

— Sim, senhor. E para onde vai agora?

— Investigação de campo. Quero saber com quem estamos lidando.

A torre Wayne, sede da Waynetech e da Fundação Wayne, ergue-se imponente no coração de Gotham. Contrastando com as outras construções de concreto e com as gárgulas características da cidade, os vidros que revestem seu topo brilham ao sol, iluminando a vizinhança próxima.

O 35° andar abriga o escritório de Lucius Fox, braço-direto de Bruce Wayne na administração de todo o conglomerado que leva seu nome. Das amplas janelas de seu escritório pode-se ver a cidade, do centro até seus limites, passando pelas grandes estruturas da Estação Robinson. É essa vista que entretém a mente desta mulher, que espera pacientemente sua reunião com Lucius.

E é ele quem entra pelo elevador particular, vindo esbaforido de andares inferiores, discutindo com um interlocutor invisível no celular. Seu semblante se acalma com a visão da bela mulher de cabelos platinados.

— Olá, madame. Perdoe-me pelo atraso, mas tivemos pequenos problemas com um jantar beneficente na última noite. Como foi a viagem de volta da França?

Tres bien, Lucius. A primeira classe da W-Air sempre foi da melhor qualidade. Mas vamos tratar de negócios pois, pelo visto, seu tempo anda escasso. Enviei meu portfolio no começo da semana para sua análise.

— Eu recebi, mas confesso que não li com a devida atenção. De qualquer forma, ele não é necessário. Todos aqui conhecem seu trabalho de longa data e estaríamos muito satisfeitos se você aceitasse nossa proposta.

— Pelo que entendi, vocês estão com problemas na área de relações públicas.

— Precisamente. Sem entrar em detalhes, o escritório que cuidava da Fundação Wayne rompeu o contrato repentinamente e estamos meio perdidos. Em uma reunião recente, seu nome foi citado por um dos diretores e enxergamos em você nossa última esperança.

— Imagino quem foi o diretor. — um sorriso ilumina o rosto da mulher, que parece lembrar de eventos passados — Muito bem, onde eu assino, então?

— Um funcionário levará os contratos pela manhã ao seu quarto de hotel. Portanto, seja bem vinda à família Wayne, senhorita St. Cloud.

— Por favor, Lucius. Se vamos trabalhar juntos, comece a me chamar de Silver. Nada de formalidades. — diz ela, apertando a mão estendida do executivo. Lá fora, o céu é tingido pelo vermelho do fim da tarde.

Steve Hollins está entediado, disso ele tem certeza. Ser escalado para guardar locais de crime é uma das maiores sacanagens que o comissário poderia ter feito com ele mas, com suas duas advertências nas costas, nem ousou reclamar.

O ar quente faz seu bigode coçar, seu quepe o incomoda e os gemidos que chegam a ele, vindos dos quartos ao seu redor, só tornam tudo mais desconfortável. O jogo de futebol já acabou há um bom tempo e ele ainda tem uma longa madrugada pela frente. Sua única salvação para as próximas horas — já que a recepcionista não lhe deu bola — seria o canal de compras, se ele não tivesse ouvido passos na escada que vem do térreo. Um homem vestindo um sobretudo preto e carregando uma maleta vem em sua direção. Seu rosto sério e carrancudo combina com as letras azuis que saltam do crachá preso à lapela: FBI.

Assim que consegue discernir as letras, Steve pula da cadeira, empertigando-se e fazendo o possível para assumir uma posição respeitável. Encolhe a barriga e chuta a TV portátil, que se desliga com um barulho estranho. Tentando fazer cara de mau, sinaliza para que o homem pare assim que este chega perto.

— Por favor, senhor. Apenas agentes autorizados nesta área.

— Este crachá permite minha entrada em qualquer lugar, oficial. — diz o agente, secamente — E, por lei, torna-me seu superior. Portanto, mova essa farda surrada para fora do meu caminho e traga um copo de café, se não quiser ser expulso da corporação.

Sem esperar resposta, o agente arranca a faixa de isolamento da polícia e entra no quarto, o solado do sapato fazendo ranger os tacos cobertos pelo carpete fino. Steve, parcialmente sem saber o que fazer, vai até a máquina de café no fim do corredor e volta com um copo fumegante, encontrando o agente do FBI que, ajoelhado no chão, recolhe algum material de perto da cama. Chega perto e, após colocar o copo sobre o criado-mudo, ajoelha-se no mesmo local onde está o outro homem.

— Algum problema, oficial? — grunhe o agente — Pode se retirar agora.

— Perdão, senhor, mas é meu dever acompanhar tudo o que acontece no local do crime. — Steve tenta parecer sério, mas sabe que seu tom de voz não convenceria ninguém; nem a ele mesmo.

— O seu dever é guardar a porta de entrada, oficial. Servir de cãozinho e latir se alguém quiser chegar aqui perto. Eu não preciso da sua ajuda e sua presença me incomoda. Portanto, faça um favor a nós dois e retire-se. O comissário Gordon odiaria saber que um de seus oficiais atrapalhou o FBI, não acha?

Sem dizer mais nada, Steve sai do quarto rapidamente. De repente, o canal de compras lhe pareceu imensamente mais interessante.

Observando o quarto, Batman faz uma nota mental de avisar Gordon para que treine melhor sua equipe pericial. As investigações da equipe parecem ter feito um estrago substancial no lugar, principalmente naquelas provas que olhos mal-treinados não enxergam.

Resignado, após expulsar o policial do quarto, ele vai atrás dos sinais deixados para trás. Segundo o relatório da delegacia, lido eletronicamente pelo computador dentro do Batmóvel, o garoto estava desacordado antes de entrar no quarto. Porém, uma briga parece claramente ter ocorrido ali. As depressões sutis na madeira vagabunda do armário denotam que este foi atingido por algo, talvez um corpo.

Seria inútil procurar por digitais agora, por vários motivos. Um quarto de motel tem uma rotatividade alta demais para que ele possa identificar impressões distintas, principalmente num motel daquele tipo, que não deve receber uma limpeza decente há semanas. E o tempo é curto demais para que se faça uma busca por digitais. Ele não pode permitir um novo assassinato esta noite.

De repente, o chão lhe traz uma luz. Quase no canto do quarto, do lado oposto à cama e onde foram encontrados os objetos utilizados pelo assassino, alguns fios de cabelo se confundem com o carpete. Provavelmente arrancados durante a briga entre vítima e maníaco. Ele pega os fios de tonalidade clara, um pouco mais grossos que o normal. Muito grandes para serem pêlos púbicos. Talvez alguém com alguma disfunção hormonal que tornasse os cabelos mais densos. E são claros demais para uma pessoa loira. Provavelmente um albino.

"Isso é informação mais que suficiente." — pensa ele.

— FBI, é? E daí? — a recepcionista do motel não parece dar muita importância ao crachá do agente. Enquanto fala, continua lixando as unhas, sem olhar para cima.

— Madame, um pouco mais de atenção de sua parte seria muito apreciada, OK? O assassinato de um menor de idade foi cometido em um dos seus quartos e eu preciso de todas as informações possíveis.

— Eu já disse tudo à polícia.

— Eu não sou a polícia. E posso arranjar mais problemas para a senhora do que pode imaginar, se resolver não colaborar.

— É mesmo? E que tipo de problemas?

— O tipo de problemas que o nosso departamento de proteção ao menor de idade pode causar se ficar sabendo que qualquer um pode entrar no seu estabelecimento sem identificação. Isso pode ser encarado como conivência a estupros, sabia?

— E o que o senhor quer saber, então? — diz a mulher, apoiando-se no balcão. Mesmo a contragosto, ela parece convencida a ajudar.

— Como alguém pode entrar aqui e utilizar um quarto sem ser identificado?

— Nós respeitamos a privacidade de nossos clientes. Não queremos saber quem entra e o que fazem nos nossos quartos. O atendimento é feito através de um microfone na entrada, na mesma organização de um drive-thru qualquer. O pagamento é adiantado e o cliente recebe as chaves sem o contato com outra pessoa.

— Sem câmeras?

— Nada de câmeras. Nós respeita...

— Quer dizer que ninguém viu o rosto do assassino?

— Na verdade, eu vi alguém.

"Mais uma falha da equipe de Gordon." — pensa Batman — "Isto também não estava no relatório."

— E a senhora pode descrevê-lo?

— Eu não vi por inteiro. Fui até o quarto depois que alguns dos hóspedes reclamaram de uma briga. Achei que estava lidando com um desses malditos sadomasôs estúpidos. Bati na porta, para pedir que eles se acalmassem e parassem de se jogar nas paredes. Um homem gordo e nu atendeu a porta, todo suado. Ele era grande, parecia até mesmo que tinha seios. Disse a ele: "Dá pro senhor parar de fazer barulho nessa merda? Algumas pessoas querem trepar em paz". Ele me respondeu algo do tipo: "Tudo bem." Aí eu agradeci e fui embora.

— E como ele era?

— Era grande, gordo. Não vi muita coisa. Mas ele tinha seios, isso eu tenho certeza.

— E o rosto?

— Bochechas gordas, olhos caídos, e um cabelo estranho, amarelado. Ah, e ele tinha uma cicatriz.

— Cicatriz?

— Sim, atravessando a sobrancelha direita.

— Muito obrigado, madame. Isso vai ajudar muito. E aguarde a visita do juizado de menores em breve.

— Mas o senhor prometeu que eu não teria problemas se colaborasse!

— Não, eu não disse isso. — responde o agente, saindo pela porta.

O visual andrógino de Tim é perfeito para o papel. O corpo pequeno, porém forte, de quem ainda não saiu da adolescência, é a isca ideal para alimentar a fantasia dos clientes. A camiseta ligeiramente menor que o habitual e o short de couro agarrado às nádegas realçam o conjunto, dando destaque ao peito firme e às pernas compridas e impúberes, cobertas por uma pelagem rala. O gel no cabelo e a tatuagem falsa no braço completam a obra, dando um toque de rebeldia ao personagem. Nos óculos escuros, inúteis àquela hora da noite, estão embutidos os aparelhos de comunicação com seu mentor, que espreita nos telhados acima.

— Você me ouve, Robin?

— Alto e claro, Batman. Pronto para servir de isca.

— Tem certeza que quer continuar se arriscando desse jeito? Podemos pegar esse assassino de outra maneira.

— Ei, a idéia foi minha, lembra? Não quero perder mais nenhum amigo nas mãos de lunáticos.

— OK, você é quem sabe. Estou aqui em cima, caso precise.

— Só espero que não passe nenhum conhecido...

A amargura na voz de Tim é evidente, mesmo que disfarçada pela ironia. É doloroso para Bruce ver o parceiro assim. No fundo, mesmo sem saber, ele sabe que odiaria ver Tim transformar-se no que ele próprio se tornou nos últimos anos.

As horas passam na noite fria. Vários carros abordam Tim, num curto espaço de tempo. Alguns deles, figurões de Gotham que apertaram a mão de Bruce dias atrás. Após serem dispensados, eles passam rapidamente para outro garoto, que geralmente entra no carro. A situação enoja Batman cada vez mais, mas ele sabe que não pode agir contra isso. Não neste momento.

"Um albino. Só preciso de um maldito albino!" — pensa ele, enquanto o tempo se arrasta.

Como se alguém atendesse suas preces, um carro branco vira a esquina a três quarteirões dali e desce a rua lentamente, examinando rapaz por rapaz. Um modelo velho, com algumas manchas verdes no capô. Talvez por instinto, Batman sabe que ele é o alvo.

— Robin, atenção. O carro branco descendo a rua, duzentos metros do seu ponto. Deve ser o nosso homem.

— OK, Batman. Entendido.

Mesmo incomodado com a situação, Robin prepara-se para interpretar seu papel. Estufa o peito e empina ligeiramente as nádegas, passando a olhar diretamente para o motorista do carro, invisível a ele graças ao vidro enegrecido. A encenação parece dar certo, já que o dono do carro pára e abaixa o vidro, olhando diretamente para Tim.

— Olá, guri. Meio tarde para estar sozinho por essa bandas, não?

Mesmo com a definição precária da câmera portátil, Batman pode visualizar o homem. O cabelo amarelado emoldurando as bochechas deformadas torna-o o principal suspeito. A cicatriz na sobrancelha direita completa a ficha.

— É ele, Robin. Entre no jogo.

Tentando agir naturalmente, Robin sorri para seu interlocutor.

— É mesmo. Estava aqui, procurando por alguém forte o suficiente para me proteger.

— Então acaba de achar. Entra no carro, vamos conversar melhor.

Robin acena discretamente para Batman no telhado próximo, pedindo orientação. Ao ouvir a aprovação do mentor, ele relutantemente dá a volta no veículo e entra pela porta do carona.

O carro cheira a mofo e desodorante de morango, o estofamento rasgado e manchado denota a falta de cuidados do dono. O motorista tem o corpo deformado, como se sua natureza tentasse se decidir entre os dois gêneros possíveis. Um sorriso está estampado no seu rosto.

— Qual o seu nome, guri?

— Martin. E o seu?

— Ted. Pode me chamar de Ted. Você tem um corpo lindo, sabia?

— O-obrigado, Ted... — as mãos do estranho acariciam seu peito sob a camiseta.

— Que tal você abrir sua calça, para que eu possa ver o que tem a oferecer?

— Mas aqui? — Robin está transpirando nervosamente. Não sabe o que fazer, e não recebe orientação alguma de Batman via fone.

— Ora, por que não?

— Eu... tenho vergonha.

— Deixe de bobagem, garoto. Abra logo essa merda! — Ted parece ficar mais agressivo de um momento para outro. Sem alternativa, Robin decide obedecer a seu pedido.

De repente, enquanto seus dedos estão ocupados com os fechos do cinto e do short, o estranho o ataca, prendendo suas mãos contra suas pernas e pressionando um pano contra seu rosto. Clorofórmio, reconhece Robin de imediato. Ele sabe que não deveria respirar, mas não pode evitar. Tenta alertar Batman, mas sua voz não evolui além de gemidos abafados. Em poucos instantes, a inconsciência toma conta.

— Robin, você pode me ouvir? Responda!

Pela câmera escondida, Batman acompanha o que acontece dentro do carro. Assim que percebe o ataque, prepara-se para abordar o veículo. Os segundos preciosos que gasta buscando um ponto onde fixar o arpéu são suficientes para que o motorista fuja. Assim que suas botas tocam o chão da rua, o motorista acelera, expelindo uma lufada de fumaça negra sobre ele.

— Diabos!

Tudo o que lhe resta agora é correr até o Batmóvel, escondido em um beco próximo, e perseguir o carro, que já some no fim da rua.

Acelerando o carro, ele aperta as coxas do garoto ao seu lado. Esse foi bem mais fácil de capturar, ele sabe disso. Depois da briga para dominar o garoto anterior, ele decidiu apelar para o clorofórmio. Sempre tinha visto isso em filmes, e resolveu ver se dava certo mesmo.

Ele vira a esquina, indo em direção ao motel. Por alguns instantes, pensa que não deveria voltar ao mesmo lugar onde matou os anteriores, mas depois sossega. Não viu nada sobre o caso nos jornais. Além disso, ninguém desconfia dele.

Graças ao rastreador instalado sob a roupa de Robin, o computador do Batmóvel pode traçar a trajetória do outro carro. Dirigindo furiosamente pelas ruas de Gotham, Batman não consegue deixar de condenar sua atitude descuidada, mandando Tim às mãos de um assassino. A imagem de Jason Todd, o segundo Robin, morto pelas mãos do Coringa, invadem sua mente. Ele sabe que não suportaria a morte de outro companheiro por negligência.

É com este pensamento que ele segue o sinal do carro branco, que nem desconfia da caçada. Segundo o computador, o motorista está estacionado a alguns quarteirões, dentro do motel que recebeu a visita do homem-morcego há algumas horas.

Sem se preocupar com discrição, Batman estaciona o carro atravessado na rua em frente ao prédio e sai correndo em direção à porta. Sua entrada brusca assusta por alguns instantes a recepcionista, que depois volta a olhá-lo como a um cliente qualquer.

— Teremos festa hoje, então? O senhor...

— O número do último quarto ocupado. Agora! — a voz de Batman está alterada pelo receio de encontrar Robin desfigurado em poucos instantes.

— Como assim? Aqueles...

Descontrolado, ele pega a mulher pelo colarinho, quase enforcando-a com o colar de pérolas falsas.

— O número do quarto!

— Um carro... entrou... no 56-B! — responde a mulher, sufocando, entre tossidas.

Batman corre em direção à escada, largando a recepcionista de repente. Caída sobre a cadeira, ela vai demorar alguns dias antes que possa entender o que aconteceu.

Finalmente. Pelas suas contas, essa deve ser a última dose que ele necessita para sua total recuperação. É só injetar os fluidos do garoto, e essa história está acabada. Com amor, ele afaga sua cicatriz púbica. Pode sentir um novo pênis pronto para sair, rasgando a pele marcada, rijo e forte como o anterior.

E o tal Martin está lá, nu e deitado sobre os lençóis sujos do motel. Dos três, ele é o que tem o corpo mais perfeito, despertando inveja no seu interior. Ele olha pra si mesmo, e tudo o que vê é uma massa disforme de pele flácida.

O fogareiro já está aceso no chão, esperando o líquido retirado do garoto. Com força, ele agarra seu estilete.

De repente, num estrondo, a porta vence a força da tranca e voa, batendo contra a parede oposta.

Após estourar a porta do quarto com um chute, Batman observa a cena. Robin está desacordado, jogado nu sobre a cama, com seus genitais nas mãos de um homem, também nu, que olha em sua direção, assustado. Na sua outra mão, um estilete afiado.

— Largue o rapaz. — Batman ameaça, entre dentes.

Sem dar tempo para a resposta, Batman pula sobre o homem. O primeiro alvo é o estilete, que voa em poucos segundos. O foco muda para o gordo que, pelo seu tamanho, poderia oferecer alguma dificuldade. Felizmente, o corpanzil tornara-o um desengonçado que, após três socos, já está dominado. Enquanto Batman amarra suas mãos e pés, ele murmura, choramingando através de seus olhos inchados:

— Tudo o que eu queria era voltar a ser homem...

Sem dar a menor atenção aos lamentos, Batman pega cuidadosamente o corpo desacordado de seu parceiro, enrolando-o na capa negra para proteger sua nudez e, principalmente, seu rosto.

Há alguns segundos, Steve Hollins estava praticamente dormindo em sua cadeira, na frente da TV quebrada. Seu sono foi embora depois que ouviu um estrondo no andar de baixo. Quando chegou em frente ao 56-B, deu de cara com um gordo amarrado no chão, grunhindo.

Em pé, um homem mascarado sai calmamente, carregando um corpo embrulhado em pano negro. Ele pensa em impedir, mas não sabe o que fazer.

— O que aconteceu aqui?

— Ligue para Gordon e avise-o. — diz o mascarado — Ali está o responsável pelas mortes das últimas duas noites.

— E esse corpo...

— Você não vai precisar dele. Agora, saia da frente. — ordena o morcego, passando entre Steve e a porta, indo em direção à entrada. Por algum motivo, talvez o tom de voz do homem, ele sabe que não devia tentar impedí-lo.

Na recepção, a mulher ainda tosse.

Epílogo

Telhado da delegacia central de Gotham, algumas horas depois. O vento espalha o cabelo do comissário Gordon.

— Earl é o nome dele, com certeza. Nossos psicólogos estão tentando descobrir seu sobrenome, mas já sabemos a motivação.

— E qual é?

— Ele foi castrado em uma vingança de um chefe de gangue, pelo que pudemos entender. Enlouqueceu com a perda dos genitais e teve uma idéia onde poderia recuperá-los...

— Injetando a infusão do conteúdo escrotal de garotos na puberdade na própria circulação sangüínea. — complementa Batman — Pensei nisso. Ele deve ter achado essa teoria em almanaques rurais de décadas atrás. Era uma idéia comum na época.

— Nunca ouvi falar. Estamos perto de conseguir a confissão das duas mortes, mas a promotoria vai arranjar problemas.

— De que tipo?

— Eles querem o terceiro garoto, que você resgatou.

— Robin.

— Foi o que pensei. Vou tentar fazer com que se contentem com os dois corpos. Ele está bem?

— Recuperando-se.

— Pelo menos vocês podem descansar agora.

— Ele, talvez. Eu, nunca. Não em Gotham.

— Eu já imaginava.

Gordon pensa em mudar de assunto, mas Batman já se foi. Como sempre.

No próximo número: Wolverine!



 
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