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Batman # 03

Por Rafael Borges

Humanos
Parte I

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A cidade é formada por lanças de concreto iluminadas pelo luar. As ruas são varridas pelos ventos insondáveis de outono. Suas formas se perdem em meio a nuvens de luzes urbanas e úmidas brumas alvas. Em algum lugar deste labirinto de pedra, ouve-se uma vidraça se partir. O som é quase belo e se torna rapidamente um único sino. Um alarme. Uma metralhadora alveja o sino e gritos ecoam.

Essa é Gotham City.

Esse é mais um assalto na calada da noite em uma cidade onde o crime nunca dorme.

Os assaltantes são apenas três. Eles correm para o carro, carregando em sacolas o fruto de sua incursão criminosa a uma joalheria refinada. A liberdade e a riqueza estão a apenas alguns segundos de distância. Basta virar a chave. Ninguém seria estúpido o bastante para desafiá-los. Ninguém arriscaria a vida nesse lugar.

Errado.

Para eles, a punição vem na forma de uma sombra que cai quase silenciosa sobre o pára-brisa. Estabanadamente, os assaltantes saem do veículo prontos para o abate. A figura negra se ergue sobre o capô. O luar banha suas costas aumentando ainda mais sua imponência.

Desesperado, um dos assaltantes aciona o gatilho de sua pistola, mas não consegue alvejar o oponente. Mais rápido do que seus olhos podem captar, a criatura de formas demoníacas o coloca fora de combate. Suas sombras se estendem gigantescas rua abaixo.

O segundo porta a metralhadora. Infelizmente, ele não é capaz de fazê-la funcionar rápido o bastante para escapar. Com uma ferocidade animal, ele vai ao chão sob os golpes do misterioso algoz noturno.

Percebendo que não tem chance alguma contra o inimigo, o último dos criminosos solta cuidadosamente a faca que tem em punho. Ele recua devagar, ergue as mãos vagarosamente e começa a falar enquanto observa os olhos brilhantes da figura negra à sua frente:

— E-eu já saquei tudo, ca-cara! — ele gagueja de tanto medo — Tu é o Batman! Eu num vou resistir. Pode me prendê. Eu se rendo!

Não há resposta. Apenas o sibilar discreto da respiração da criatura contra os dentes quando ela avança sobre o assaltante. O grito de pavor é o último som que o homem vai emitir naquela semana. Sete dias irão se passar até que ele deixe o estado de coma.

As luzes da mansão iluminam os subúrbios de Gotham e o volume alto da música se faz notar até os arredores da ponte Robert Kane. Mas nenhum dos abastados moradores das redondezas ousaria reclamar do incômodo de um baile de gala tão barulhento a altas horas da noite. Afinal de contas, trata-se de uma festa beneficente.

Melanie Kane, desliza cheia de charme pelo salão e se esforça para não demonstrar o desconforto que está sentindo com os sapatos de salto-alto. Ela não perde o equilíbrio nem quando esbarra propositalmente em Brad Pitt, causando olhares atravessados de Jenifer Aniston. A atriz já sabe do passado que a estrela do pop britânico compartilha com seu marido e não descuida até que a menina já esteja distante.

— Lila Cheney, querida, que bom que você veio! — Melanie bate de leve com os dedos sobre o ombro da colega de profissão que estava em pé mais adiante — Eu não agüentava mais todo esse pessoal esnobe de Hollywood. Nada como uma artista de verdade como você pra bater um papinho.

— É só show business, querida — Cheney responde com certa impaciência. Ela está fazendo de tudo para evitar a popstar ascendente desde que chegou à festa — Você devia saber disso depois daquele golpe no Sonic TV Music Awards. Ainda não acredito que conseguiu me convencer a fazer aquilo...

— Aquele beijo foi há três meses! É passado, Lila! Até a Sarah Michelle Gellar já tinha usado esse truque antes. Meus assessores não conseguem nem arrancar mais uma notinha de internet com aquilo.

O diálogo é rapidamente interrompido pelo mordomo, que oferece a Cheney um coquetel de frutas adornado com um característico guarda-chuva em miniatura. A cantora não consegue resistir ao pitoresco da cena e aceita a bebida antes de continuar a falar.

— Obrigada, Alfred. — ela continua — Agora a sua ceninha é esse casa-não-casa. Até quando vai ficar nessa, menina?

— Passado de novo! Eu já superei essa fase há duas semanas. Parece que você continua, tipo assim, nos anos 80. — responde Melanie Kane — Meu negócio agora é outro! Tá vendo o solteirão mais cobiçado de Manhattan ali no canto? Meu acompanhante: Tony Stark em pessoa. Se isso não vai gerar manchetes, eu não sei o que mais poderia.

Lila deixa escapar um discreto sorriso com o lado esquerdo de seus lábios bem delineados. Ela solta um olhar fulminante e acena para o moreno de terno impecável que troca amenidades com o pretendente da amiga. Ele retorna o gesto e dispensa Stark educadamente, caminhando para a direção da cantora.

— Pois bem, minha querida Melanie, parece que você ainda tem muito a aprender com a anciã dos anos 80 aqui. — diz Cheney, dirigindo um risinho irônico à amiga — Agora, com licença que eu preciso falar com o meu acompanhante. Ninguém menos do que o solteiro mais cobiçado de toda a costa leste: Bruce Wayne, o anfitrião da noite.

Enquanto Lila parte em passos suaves ao encontro de Wayne, Melanie fica para trás e solta um suspiro de insatisfação. Por um segundo, ela permanece irritada com o ocorrido, mas logo sua atenção é desviada para outra colega de profissão que avista ao longe.

— Avril, amiga, você não vai acreditar com quem a Lila está saindo! — ela diz — Ela é tão vadia que nem dá pra acreditar.

Não tarda muito até que as celebridades se entediem com a festa e deixem a mansão. Os repórteres de TV ficam até mais tarde, mas logo toda casa está de volta ao silêncio habitual. O anfitrião, entretanto, não está presente para se despedir da maioria deles. Wayne se recolhe à sua suíte bem mais cedo, tendo Lila Cheney como acompanhante.

Já passam das três da manhã quando Alfred caminha pelos corredores intermináveis carregando em suas mãos um outro traje negro que substituirá o terno que seu patrão usou durante a noite. Ele bate levemente na porta do quarto antes de entrar, em respeito à visitante. Não que haja necessidade, já que ela dorme profundamente estirada na cama.

— Aqui está o uniforme, como solicitou. — ele diz ao entregar as vestes negras — Não teme que a jovem acorde e o surpreenda enquanto o senhor se apronta para as próximas atividades da noite?

Bruce Wayne apenas olha de canto de olho para o mordomo. Suas feições já se alteram consideravelmente. Nada resta do riso despreocupado que ele ostentara durante a festa. Sobra apenas a face de um homem marcado pela vida.

— Você sabe muito bem que aquele sonífero de efeito retardado que serviu mais cedo a ela ainda deve durar até de manhã, Alfred. — ele retruca, enquanto se veste — No mais, quando ela acordar, use as desculpas de sempre.

Quando já está totalmente trajado em suas vestes de morcego, Batman caminha imponente para a entrada que dá acesso às catacumbas abaixo da mansão, atrás do incessante relógio de pêndulo.

— O chofer da senhorita Cheney ainda está esperando na porta. — diz Alfred, acompanhando os passos do homem-morcego — Devo alertar o volumosos sr. Guido Carrosela de que sua patroa vai sofrer um triste caso de coração partido ao amanhecer?

— Não seja bobo, Alfred! Ela não é nenhuma menina e estava mais interessada na publicidade. Nós dois tivemos o que queríamos. — depois de responder ao mordomo, Batman aciona os monitores do terminal central da batcaverna — Relatório?

A imagem que surge no monitor de tela plana é a de Bárbara Gordon. Ela se aventurou pelas noites como a vigilante Batgirl. Atualmente, devido à sua condição física, ela é conhecida como Oráculo e opera como um call center de uma só pessoa para os super-heróis que precisam de informações.

— Boa noite pra você também, Bruce. — ela ironiza — É duro de acreditar, mas Alfred me disse que você estava ocupado com Lila Cheney quando liguei mais cedo? Nunca pensei que ela fizesse o seu tipo.

— Por favor... — Batman a interrompe — Não me confunda com Clark.

Antes de prosseguir, Oráculo solta um misto de sorriso e suspiro de repreensão. Mas ela já aprendeu há muito que não adianta tentar passar um sermão no homem-morcego. Então, ela prossegue informando sobre os acontecimentos da noite. Em determinado ponto do relatório, ela fala sobre os fatos que se passaram mais cedo na cidade:

— Três assaltantes foram encontrados perto de uma joalheria arrombada em Tricorner. Um deles deu entrada na UTI do Memorial Hospital em estado de coma. Eles foram surrados por alguma coisa que descreveram como um "demônio das trevas". — Bárbara se detém por um instante. Ela hesita em levantar a hipótese que descreve a seguir — Acha que pode ter alguma coisa a ver com a Caçadora? Acha que Helena pode ter passado dos limites outra vez?

— Provavelmente não. Mas pretendo descobrir. Vou cuidar do assunto pessoalmente. — Batman não altera seu tom de voz, mas Oráculo percebe seu interesse redobrado sobre o assunto.

— Qual é o problema? — ela pergunta — A idéia de haver outra criatura noturna em Gotham é motivo pra tanto ciúme?

— Ciúme? Por favor... — o detetive encapuzado volta seu olhar fixo para a tela — Não me confunda com Dick.

Mais uma noite quente no Beco do Crime. Este bairro não é conhecido por este nome sem um motivo. Trata-se da parte mais baixa na cadeia alimentar de Gotham City. É este o lugar que resta para aqueles que não tem mais nenhuma esperança. É o melhor lugar para se encontrar os arruinados pelo caos urbano ou os desesperados na corrida pela sobrevivência.

Mas também é um bom lugar para se passar despercebido.

Ninguém repara no homem quase despido que sai pela janela de um hotel de quinta categoria e acende um charuto barato nas escadas enferrujadas que um dia já serviram como alternativa no caso de um incêndio. Ninguém a não ser a mulher que ele deixou deitada na cama do quarto.

Ela acorda de repente e sente a falta do acompanhante ao seu lado. Percebendo a janela aberta, se enrola precariamente nos lençóis malcheirosos que cobrem o colchão de molas e se aproxima vacilante antes de começar a falar.

— Deus, o que você está fazendo aí fora?

— Eu só queria tomar um ar, gata. Tava me sentindo feito um animal enjaulado nesse quarto apertado. — ele responde, soltando uma baforada — Além disso, a fumaça do charuto podia te incomodar.

— Não tem problema! Volta aqui pra ficar comigo mais um pouco... — do lado de dentro da janela, a garota observa os primeiros raios de sol que invadem a cidade por entre a poluição industrial que permeia Gotham — Tudo aconteceu tão rápido ontem à noite. Você nem me disse o seu nome.

O homem sorve pela última vez o hálito quente do charuto, antes de jogá-lo à rua e responder à pergunta.

— Meu nome é Logan, gata. — ele diz — Eu estou na cidade pra caçar um demônio.




 
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