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Batman # 04

Por Rafael Borges

Humanos
Parte II

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Todas as definições usadas para qualificar a arquitetura peculiar da cidade não bastam para expressar o impacto visual ao se contemplar a catedral de Gotham. Seus ângulos iludem o olho. À distância, parecem planos, mas, com aproximação, ganham volume. Sua tirania de linhas passa um credo de terror e magnificência. Com uma aparência solene e aterradora, a torre se avulta de forma que, até nos dias mais claros, as ruas ao seu redor são imersas e se perdem em suas sombras.

Por entre as pedras lapidadas e as sombras que projetam, uma das gárgulas que guardam os vitrais parece se mover. E realmente se move quando as primeiras balas de uma intensa saraivada começam a ricochetar na construção de superfície rochosa da catedral.

A criatura de aparência demoníaca surge das trevas e lança seu olhar para baixo. Sua visão aguçada encontra seis soldados altamente equipados com armas de alta precisão e articulados em uma missão de captura. Eles não pretendem deixar sua preza escapar. Ao menos não com vida.

Mais por instinto do que por raciocínio, a criatura salta do alto da igreja em ataque a seus perseguidores. Com a hábil precisão de um acrobata, ele aterrissa sobre a cabeça de dois dos soldados. Ambos estão inconscientes antes que seu atacante chegue ao chão com total equilíbrio.

Os demais militares ficam sem ação perante a imagem da criatura curvada e ofegante perante de si. Um deles chega a praguejar em uma língua estrangeira. Por fones de ouvidos colocados sob o capuz negro que cada um deles usa para ocultar a face, uma voz de comando ecoa. Não há mais hesitação e as balas começam a voar mais uma vez.

Antes que os projéteis possam chegar a seu alvo, a preza desaparece, deixando para trás apenas um rastro de fumaça negra.

— Ele fez de novo. Sumiu na nossa frente. — o líder de campo dentre os soldados usa um diminuto microfone de lapela para falar com a figura de comando que se fez ouvir alguns segundos atrás. Sua voz denuncia um sotaque pouco característico — Para onde ele foi?

A resposta vem de dois quarteirões de distância. De dentro de uma nada suspeita van, um enorme aparato de tecnologia de ponta está sintonizado de forma a rastrear a criatura em qualquer parte da cidade. Três outros milicianos, estes trajados como civis, são os responsáveis pela operação dos sofisticados aparelhos.

— As leituras indicam que ele foi para o parque Robinson, mais adiante. — diz um dos técnicos.

Ao som de suas palavras, as portas do veículo cedem à pressão irrefreável de três lâminas forjadas com o mais resistente metal conhecido pelo homem: adamantium.

— Isso era tudo o que eu queria ouvir, xará! — Wolverine força sua entrada na van e se prepara para atacar seus três ocupantes — Agora não tenho mais de procurar!

— Quer dizer que ele está perseguindo um "demônio" agora?

Andando calmamente pela linha tênue entre a segurança de um parapeito esculpido com motivos góticos e uma queda de mais de vinte andares, Dick Grayson está distraído em uma conversa via comunicador com uma das muitas mulheres em sua vida. Do outro lado da linha criptografada está Bárbara Gordon, a Oráculo.

— Pelo que os três assaltantes declaram ao GCPD, é isso mesmo. Mas eu não te liguei pra falar dos casos em que Bruce se envolveu recentemente. — ela altera o tom de voz quando muda de assunto — Só queria te dizer que andei tendo algumas conversas reveladoras a seu respeito com a Jesse Quick... (*)

— Espera um pouco, Babs! — o vigilante de Blüdhaven interrompe a amiga no meio da frase e começa a correr em direção à borda do edifício em que se encontra — Eu estou ouvindo sons estranhos vindo do parque Robinson. Não sei dizer se são tiros, mas vale a pena averiguar. Nos falamos depois.

Enquanto Dick Grayson sê lança rumo ao vácuo pronto para enfrentar o inesperado, Oráculo solta um suspiro de consternação em sua central de informática, do outro lado da cidade.

— Típico! — ela diz — Sempre fugindo do assunto...

A criatura se mostra uma presa muito mais difícil de se apanhar do que eles haviam antecipado. Os quatro soldados que ainda estão na captura do monstro caminham em formação por entre os precários postes de iluminação do parque Robinson, mas ainda não há sinal de seu alvo. O alarme falso foi um esquilo que cujos movimentos chamaram sua atenção e acabou alvejado.

Pra piorar, por algum motivo eles perderam o contato com o comando remoto. Justamente quando eles pensavam que a situação não poderia se agravar ainda mais é que o líder de campo, que encabeçava a formação, avista a figura vestida em couro preto apoiada em uma árvore.

— Eu vou pegar leve com vocês. — diz Asa Noturna. Ele saltou de prédio em prédio por mais de oito quarteirões e não está nem mesmo ofegante — É que existe uma mínima chance de vocês terem uma autorização pra este exercício de caça bem no meio da cidade. Mas é bom se explicarem direitinho antes que eu me enfeze...

Dick Grayson tem seu discurso brutalmente interrompido quando seu pescoço é envolto por uma calda com um peculiar triângulo pontiagudo na extremidade. Qual é a sua surpresa quando ele volta o olhar para cima e vê o mutante Noturno sobre um dos galhos da árvore. Nada em sua face é remotamente humano, principalmente sua expressão animalesca.

— A criatura! — um dos soldados solta em voz alta o pensamento que passa pela cabeça de seus companheiros.

— Deixe! — ordena o líder, acenando para que os outros contenham o fogo — Vamos deixar o monstro cuidar do mascarado. Depois nós recolhemos o que sobrar.

Além de ter sido treinado em artes marciais por um dos maiores combatentes urbanos que já existiram, Asa Noturna acumula suas próprias habilidades acrobáticas. Enquanto tenta livrar seu pescoço da cauda de seu oponente, ele arrisca um movimento de 180 graus, acertando um chute no mutante.

O golpe derruba Noturno da árvore, mas serve apenas para irritá-lo ainda mais. Da mesma forma que Grayson, Kurt Wagner foi criado em um circo. Aliando suas características físicas únicas com todo o treinamento no trapézio, ele é um acrobata ainda mais sensacional do que Asa Noturna. Isso fica claro quando o mutante redireciona o seu impulso e parte para um ataque frontal.

— Espera um pouco... — diz Dick, esquivando-se parcialmente do ataque. O golpe era para seu rosto e acabou atingindo o abdômen — Eu já te vi lutar ao lado dos X-Men. Por que você está agindo desse jeito?

A única resposta que ele obtém é um som gutural. Não resta nada do homem dócil e bem-humorado que um dia já foi Kurt Wagner.

— É assim que vai ser? — Grayson prossegue, gesticulando enquanto fala — Então pode vir! Eu estou pronto pra qualquer coisa!

Ao som dessas palavras, Noturno salta em um ataque feroz, usando como garras as mãos que, em outros tempos, esgrimiram elegantemente.

Asa Noturna já prepara o contragolpe quando o mutante desaparece subitamente em uma nuvem de enxofre. Com o impulso que colocou no golpe, Dick Grayson acerta o ar e vai ao chão enquanto seu oponente se materializa sobre ele e o ataca pelas costas.

Mesmo percebendo que o mascarado perdeu a consciência, Nortuno continua a golpear, em um acesso de fúria. Ao mesmo tempo, os soldados que circundavam o combate se preparam. Esta é a oportunidade que eles esperavam. Não há mais ninguém entre os caçadores e sua presa.

— Não!

Não fosse o bumerangue em forma de morcego que atinge o mutante na cabeça, a voz pareceria vir de lugar algum. Demoram alguns segundos para que Batman conclua a trajetória de seu salto e sua capa toque o chão de forma aterradora. Sem dizer mais nenhuma uma palavra, ele observa que Noturno foi colocado fora de combate e volta a atenção para os soldados.

A primeira reação dos milicianos é a fuga. Dois deles chegam a esboçar passos atrás quando o líder de campo solta uma palavra de comando. A língua é desconhecida do homem-morcego, mas o significado fica claro quando todos partem para cima dele.

Em meio ao caótico combate, abafado pelos farfalhar das folhas ao vento, um som pode ser ouvido. É o frio sibilar de metal contra metal. As lâminas de adamantium rasgam carne antes de se projetarem para fora do antebraço do x-man canadense.

Enquanto Batman se digladia contra os soldados, Wolverine deixa as sombras do parque e atravessa o tórax do líder de campo com um só golpe. Não há tempo nem para que o infeliz sinta o ataque e seu sangue já está escorrendo em litros sobre o gramado castigado pelo outono.

— Parece que eu vou ter de salvar a sua pele, morcegão! — trajado em seu uniforme, Logan é uma estranha visão quando deixa cair o corpo do soldado e joga o longe o cigarro que pitava — E você encontrou o amigo que vim procurar. O elfo é gente boa. Ele não só está se comportando dessa maneira por causa de algum tipo de manipulação.

Quando, por um momento, consegue se livrar do ataque conjunto dos três milicianos restantes, Batman se enoja ao contemplar as ações de Wolverine. Ele não admite, mas se surpreendeu ao ver o mutante na cidade. Cinco minutos em Gotham e já fez sua primeira vítima.

— Estaremos do mesmo lado apenas enquanto a durar esta luta. — diz o homem-morcego, enquanto tira de combate um de seus oponentes — Não tolero assassinos em minha cidade.

Rapidamente, Logan derrota o outro soldado, deixando-o apenas com ferimentos superficiais. O último dos milicianos, desarmado e sem alternativas, corre para longe.

— Então pode cair dentro, xará! Esse canadense aqui não arrega dum quebra!


Continua!


:: Notas do Autor

(*) Para saber mais, leia as aventuras dos Titãs! voltar ao texto



 
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