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Batman # 05

Por Rafael Borges

Humanos
Parte III

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— Eu não quero te machucar, xará! — diz o mutante.

Com suas afiadas garras de adamantium à mostra, Wolverine contém seu ímpeto violento e usa seu treinamento ninja para se esquivar do golpe de Batman. Que chance poderia ter um humano normal contra uma máquina de combate mutante com os ossos revestidos pelo mais resistente metal do mundo?

Muitas, se esse humano for o Batman.

O homem-morcego não perde o equilíbrio após o primeiro golpe e investe novamente, dessa vez com um cruzado de direita que atinge seu oponente bem no meio do rosto. O fator de cura do x-man canadense rapidamente recupera a cartilagem partida no nariz, mas isso não impede que seu sangue corra pela cavidade nasal.

— Olha, eu não estou gostando disso... — Wolverine limpa a face e segue apenas evitando os golpes.

Batman, por outro lado, percebe a imprudência de socar um oponente com esqueleto inquebrável e passa a desferir chutes. O solado especial de suas botas foi desenvolvido pelas indústrias Wayne para absorver o impacto dos saltos do detetive encapuzado. O resultado se mostra mais eficiente quando o pulmão de Logan é atingido e todo o ar que neles havia é expelido.

— Agora chega! — ainda ofegante, o mutante perde a paciência.

Partindo para o ataque, Wolverine deixa totalmente de lado a finesse de seus movimentos ninjas e adota o estilo mais característico de um animal acuado. O golpe é veloz, mas Batman é ainda mais. As garras apenas resvalam, deixando três cortes superficiais sobre o símbolo que ele ostenta no peito.

O homem-morcego saca de seu cinto três batarangues. Segurando-os entre os dedos da mão direita, eles rivalizam com as garras do mutante e servem para igualar a envergadura do adversário. Se há uma forma de derrotar Wolverine, será rápida e impiedosamente.

Quando ambos se preparam para um novo ataque, a paisagem noturna do parque Robinson se ilumina e as folhas nos galhos das árvores se agitam. A repentina ventania poderia ser causada pela aproximação do Asa-X. Por outro lado, talvez a alteração climática tenha alguma coisa a ver com o humor da mulher que pilota a aeronave.

Deixando o avião em piloto automático, Tempestade desce planando suavemente ao lado de dois de seus companheiros X-Men: Kitty Pryde e Colossus. O controle que a bruxa do tempo tem de seus poderes é realmente admirável. De baixo, Batman e Logan assistem à cena. Seu confronto foi interrompido pela súbita chegada dos outros mutantes.

— Não há necessidades para esse combate! — diz Ororo. Com o passar dos anos, seu sotaque africano se diluiu consideravelmente — Há uma missão maior aqui, Wolverine. E você deveria manter o foco nela.

Logan olha para baixo resignado.

— Batman, apesar dos métodos questionáveis de Logan, você deveria saber que, ao lado dos X-Men, ele é um herói. — continua a rainha dos ventos — Se realmente as "aberrações mutantes" lhe importam, deveria procurar interrogar esses soldados para saber melhor sobre o que acontece nos arredores de Gotham.

A mera menção de que há algo em sua cidade sobre o que o homem-morcego não tenha conhecimento o enerva. Entretanto, ele sabe que não há motivo para duvidar da líder dos X-Men.

Seus olhos observam o soldado morto pelo mutante. Quais teriam sido as conseqüências de seus atos se ele não tivesse sido detido por Wolverine? Na verdade, mais uma vez o homem-morcego escapou da morte. Mas a que custo?

Batman fita rapidamente o ofegante mutante canadense. Ele está lutando para conter a fera em seu interior e o detetive encapuzado deve fazer o mesmo.

— Pode ir. — ele diz, apontando para a aeronave — Nunca mais volte à minha cidade.

A despeito das várias respostas que lhe vêm à mente, Wolverine nada responde.

Ele parte com os demais companheiros, levando o desacordado Noturno para o adequado tratamento de seus ferimentos físicos e psíquicos. Em apenas alguns instantes, o Asa-X desaparece no céu sob o olhar atento do cavaleiro das trevas.

Enquanto Tempestade e Colossus cuidam dos controles, Kitty Pryde percebe o angustiado Wolverine sentado em uma das poltronas da nave.

— Você está bem, Logan? — ela pergunta.

— Não. — responde o baixinho sem voltar seus olhos para a amiga — Eu poderia ter vencido. Agora, nunca vamos saber...

Com passos decididos, Batman caminha até a sala de interrogatório. Não é de seu costume adentrar até as partes mais iluminadas da central de polícia, mas Gordon providenciou para que não houvesse ninguém nos corredores que não fosse estritamente necessário. Bullock o recepciona na porta da sala de interrogatórios.

O suspeito esconde seu porte físico de militar olhando seu próprio reflexo no espelho falso com uma postura curvada. Ele foi detido na noite passada no incidente no parque Robinson e, desde então, não houve meio de fazê-lo cooperar.

É para isso que Batman entra na sala.

O soldado vai ter de falar.

— Cacete! Eu não acredito que ele veio, Montoya! — comenta o sargento Bullock, na sala adjacente. Do outro lado do espelho, ele admira a cena inusitada com a colega — A gente já deixou o morcegão cuidar de uns casos pra gente, mas nunca aqui dentro da delegacia.

— O suspeito não é cidadão americano. Gordon fez o morcego prometer que não iria encostar um dedo nele. — responde a detetive — Agora fique quieto, Bullock, e vamos assistir ao show.

Suas vestes negras habituais contrastam altamente com o ambiente iluminado. O homem-morcego circunda vagarosamente a cadeira em que o interrogado se encontra antes de dizer qualquer palavra. O pavor do soldado é quase palpável.

— Só quero saber uma coisa. — diz Batman — Quem dá as ordens?

Não há resposta. O suspeito continua fitando o próprio reflexo, tentando passar indiferença. Ele até conseguiria não fosse o som que as algemas fazem quando ele começa a tremer.

Quem dá as ordens? — quando repete a pergunta, o cavaleiro das trevas golpeia a mesa de maneira ruidosa e o homem à sua frente começa a ofegar.

— E-eu quero o meu telefonema... — ele gagueja, mas mantém o sotaque característico — Apenas um telefonema para a embaixada de meu país. A embaixada da Latvéria.

Dois dias depois, o sol se põe delicadamente sobre a paisagem medieval do leste europeu. O imponente castelo que serve de sede para o governo é adornado de cima abaixo com as flâmulas e o brasão real com a letra D.

Essa é a Latvéria.

Este é o castelo do Doutor Destino.

Apesar de todo o visual espelhar uma estética barroca, os sistemas de segurança empregam a mais avançada tecnologia desenvolvida especialmente pelo monarca da nação. Batman, entretanto, vê o castelo como um edifício com algumas trancas mais complexas do que o normal. O fato de ele conseguir se esgueirar pelas sombras da construção evitando cada um dos guardas-robôs e das câmeras automatizadas não é surpresa.

A surpresa fica para a parte em que todas as luzes do salão presidencial se acendem quando o homem-morcego adentra a sala.

— Destino já o aguardava.

Batman se volta para o ditador. O trono em que ele se senta é o complemento perfeito para a capa cerimonial e a armadura que esconde seu rosto. Victor Von Doom é uma figura ainda mais estranha que o próprio cavaleiro das trevas.

— Pouquíssimas coisas passam despercebidas por Destino. Mas um intruso em seu castelo jamais será uma delas. — o monarca prossegue usando a terceira pessoa para referir-se a si — Suponho que saiba que Destino já está ciente do motivo que o trouxe para tão longe. Mas se mantiver o silêncio, este encontro vai se mostrar deveras frustrante.

— Há um campo de concentração mutante montado nos arredores de Gotham. — o homem-morcego, como de costume, vai direto ao assunto — Os soldados de lá fazem todo o tipo de experiências ilegais com as verbas do seu governo. Mas você sabe disso, não é?

— É evidente que sim.

Doom faz uma pausa antes de continuar.

— Entenda: a questão mutante é uma das mais crescentes tensões raciais em ebulição nos Estados Unidos. Qualquer ação que agrave ainda mais essa situação é do interesse de Destino. — ele prossegue — Na Latvéria, ao contrário, os mutantes são incentivados a se unir ao exército de Destino e tem seu valor muito reconhecido.

— Contanto que sejam fiéis ao sistema ditatorial vigente no país, eu suponho. — contesta Batman.

— Destino não faz amigos. Apenas aliados. — a face do monarca se contrai sob a máscara. À sua própria maneira, Destino sorri.

Batman acena levemente com a cabeça. Apesar de tudo, ele se identifica com a determinação de seu adversário.

— Pois saiba que eu também descobri sobre os outros cinco campos de concentração semelhantes espalhados pelos Estados Unidos e pela Europa. Enquanto conversamos, cada um deles está sendo desativado.

Desta vez é o cavaleiro das trevas que faz uma pausa. Ele se detém para saborear a irritação que Destino denuncia levemente ao se ajeitar em seu trono.

— Eu também não faço amigos. — prossegue Batman — Mas tenho alguns aliados dotados de visão de calor e outros que podem correr mais rápido que a luz.

Antes mesmo de checar pelos sensores embutidos em sua armadura, Destino sabe que o americano diz a verdade. Trata-se de uma situação embaraçosa, mas esse era um desenlace esperado. Não há motivo para protelar as amenidades entre eles.

— Parta agora, homem-morcego. Nenhum mal lhe será feito. — ordena o ditador — Continue na sua rotina de combate às pequenezas do crime em sua cidadezinha. Porém a hora de Destino chegará. — ele adverte — Nos encontraremos novamente quando a América ruir em chamas.

Antes de deixar a sala, Batman se volta para seu inimigo em tom igualmente ameaçador:

— A América ou a Latvéria. O que vier primeiro.

Desta vez, a recepção acontece na sede das empresas Wayne. A torre, que leva o nome do proprietário do conglomerado, possui um luxuoso salão em sua cobertura. Como de costume, a festa está repleta de convidados ilustres ansiosos por associar seu nome às notórias ações de caridade de Bruce Wayne.

O anfitrião, entretanto, parece distraído discutindo amenidades com um dos convidados. Pelo menos até a conversa ser interrompida pela chegada nada discreta de Lila Cheney, trajando um de seus extravagantes modelitos habituais.

— Bruce, querido, finalmente eu te encontrei! A festa estava um porre sem a sua companhia. — ela diz, arrastando o milionário pelo salão como quem exibe sua mais nova conquista — Só entre nós dois... o que você vai fazer quando sair daqui?

Wayne solta um sorriso maroto em resposta.

— Aparentemente, te acompanhar até o seu hotel, Lila... — ele se volta para o púlpito improvisado no canto do salão antes de continuar — Mas antes eu tenho de resolver algumas coisas.

Deixando de lado toda a pinta de playboy, Bruce sobe os degraus até o palanque e pede a atenção. Alguns dos convidados não se comovem e continuam a degustar os canapés refinados. As câmeras de tevê, por outro lado, se voltam para o milionário rapidamente.

— Eu gostaria de agradecer a presença de todos que vieram aqui esta noite. — diz Wayne em tom solene — Como vocês já sabem, estamos aqui para recolher donativos que serão destinados ao recém inaugurado centro de educação e lazer para jovens fator-x positivos em Gotham City. Gostaria de lembrar que cabe a cada um de nós mudar a situação atual de descaso para com os mutantes em nossa sociedade. A partir de hoje, as empresas Wayne estão fazendo a sua parte. Contamos com a sua ajuda. Obrigado.

A salva de palmas que se segue encobre a indiferença por parte da maioria dos presentes. Não há como mudar, de um dia para outro, toda uma cultura de preconceito. Mas não era essa a intenção. Esse é apenas um primeiro passo.




 
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