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Batman # 25

Por Leonardo Araújo

A Casa
Parte I

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É uma noite chuvosa em Gotham, uma das muitas que costumam acorrer no ano. Já passam das quatro horas da madrugada. O farol do batmóvel brilha na escuridão e nos pingos da chuva. O veículo faz uma curva ao deixar a ponte Mooney, dirigindo-se a área de antigas casas, não distante da mansão Wayne.

Um relâmpago faz a noite se aclarar e o estrondo do trovão é ensurdecedor. Súbito, Batman percebe uma menina, de não mais de 10 anos, a beira da pista, sinalizando e chorando. Ele pisa no freio imediatamente, fazendo o dispositivo ABS do carro trabalhar intensamente por quase 15 metros. Ele salta do veículo.

— O que aconteceu? Por que está fora de casa esta hora da noite na chuva? — pergunta Batman se abaixando junto à menina. A chuva é torrencial e não dá tréguas.

— É a Rose: ela está precisando de você! — responde com uma voz doce e inocente, como só as crianças têm. Os filetes de água percorrem o delicado rosto e forma gotas na ponta do delicado nariz.

— Quem é Rose? — o vigilante acompanha o braço da menina que aponta para trás e para cima. A chuva e a escuridão impedem a visão do Homem-Morcego além de pouco mais de 20 metros. Mas, um repentino relâmpago deixa a cena clara: há uma mulher na beira do terceiro andar de uma das casas.

Batman acolhe a criança nos braços e corre até a casa. Após deixar a menina na varanda, grita para a mulher no telhado:

— Não se mexa, vou tirá-la daí. Segure-se e fique imóvel. — orienta Batman em tom de ordens. A mulher permanece de pé, imóvel.

Procurando não perder mais tempo, o Cavaleiro das Trevas lança uma corda por sobre o telhado em direção a uma chaminé. O gancho na extremidade da corda a prende firmemente. Ele começa a escalar a parede lateral do imóvel. Rapidamente, chega até o telhado.

— Srta Rose, estou aqui. Fique calma. — diz observando a mulher que não alterou sequer um dedo da posição inicial. Quando ele já está preste a agarrá-la, subitamente, ela se vira na direção do vigilante. Seus olhos estão vermelhos, pele pálida e olheiras profundas. Ela grita com uma voz gutural:

— Você quer esta meretriz? — sua boca se retesa — Pois, tome-a de mim se puder!

A jovem corre em direção a Batman que surpreso, detém seu movimento. Porém, a corrida acaba no terceiro passo, quando ela escorrega e rola pelo telhado.

Agilmente, ele permanece com a corda que o auxiliou na subida na mão e, antes que a jovem chega-se ao fim do telhado, Batman já havia interceptado-a. Com a mão direita ele segura a mulher, usa a outra mão e as pernas para terem uma descida suave utilizando a corda. Ela está desfalecida nos braço do vigilante. Quando ele toca o solo, ela levanta a cabeça e grita;

— Não!!! — tenta morder Batman, mas ele evita a agressão, imobiliza-a e injeta-lhe um poderoso sonífero. Nos segundo que o agente químico demora a surtir efeito, a jovem vocifera palavrões e gritos animalescos. Por fim, adormece.

Agora, Batman pode observa que a menina que o alertou para a necessidade do resgate, ainda permanece na varanda.

— Ela é Rose Goldwyn, minha babá. — explica a garotinha com um urso de pelúcia encharcado na mão.

Os faróis de um carro se aproximando chamam a atenção do Homem-Morcego. O sedan para junto à casa. Do veículo sai um casal e um garoto de cerca de 15 anos. Olhando a cena. A mãe corre para criança, o rapaz vai para a área e o pai, com uma barra de ferro na mão, se aproxima do detetive. Batman olha para o homem e para a barra de ferro. Ele a solta.

— Sou Perry, Perry Barrow. Essa é minha esposa Jean e meu filho Dennis. Acho que a pequena Samanta você já conhece. Chamamos de Sam. O que houve na minha casa?

Batman esclarece os acontecimentos recentes ao casal.

— Perry, conta pra ele. — pede Jean.

— Deixe disso, Jean. Obrigado Batman. Vou levar a garota a um hospital.

— Já chamei uma ambulância. Eles estarão aqui em mais alguns minutos. — diz o vigilante tomando os sinais vitais de Rose.

— Fala pra ele das "coisas" — insiste a mulher, agora com uma cara de assustada.

— O que são estas coisas, Sra Barrow? — Batman o intimida com o tom da pergunta.

— Nos mudamos a pouco mais de um mês. Desde então...

— Batman, ela está nervosa.

— Deixe-a continuar, Sr Barrow.

— A mamãe está com medo deles. — diz Samanta.

— O que a Sra teme, Sra Barrow? — pergunta Batman.

— Começou com pequenas batidas de portas e objetos que apareciam fora do lugar. Na semana passada, Deus, tudo ficou pior. — ela começa a chorar — Eu estava escovando os dentes quando sentir um fedor de podre, como carne em decomposição. Aí eu senti tocarem meu ombro, algo frio. Quando virei, não tinha ninguém. Quando eu olhei pra pia... sangue: a água da torneira tinha virado sangue.

— Foi uma crise nervosa querida. — analisa Perry — Depois sumiu.

— E o cobertor? — pergunta Jean.

— Deixe o Batman ir, querida. — Perry esboça um sorriso.

— O que houve com o cobertor? — pergunta o vigilante.

— O Sr Bennett avisou. — diz Samanta.

— Sr Bennett? — questiona Batman.

— Não foi nada. — comenta como quem pede silêncio.

— Foi sim, Perry. Conte pra ele. — diz ela visivelmente angustiada.

— Esta bem, está bem. — ele se apóia na parede — Estávamos dormindo e eu fui acordado com o que parecia ser uma criança correndo, passando pela porta do meu quarto. Procurei ouvir mais, mas não tinha ninguém. — ele interrompe e sua face mostra um certo medo.

— Continue, Sr Barrow. — insiste Batman.

— Voltei pra cama. Quando eu voltava a dormir, o cobertor começou a ser puxado. Ele ia para os pés da cama.

— Foi quando eu acordei. — diz Jean.

— Eu me assustei, encolhi as pernas. Bom, parece loucura, mas...

— Não foi loucura: vimos um menino, ou algo parecido, correr, saindo do quarto. Perry foi atrás deles, mas ele simplesmente sumiu no corredor.

— E o Sr Bennett? — lembra o morcego.

— Minha filha diz conversar com este Sr Bennett. Nunca o vimos. — a Srs Barrow esclarece.

— Um amiguinho invisível. Você sabe como as crianças são.

— Não é não papai. Ele existe. Ele só quer nos ajudar. O Sr Bennett é meu amigo.

Batman olha para o jovem Barrow: ele está quieto, abatido e acompanha as explicações na porta da casa.

— É melhor você entrar jovem. Você não parece bem e a noite está fria e muito úmida.

— Não senhor, prefiro esperar pelos meus pais. — responde Dennis. Havia medo em sua voz.

Uma ambulância chega ao local. Enquanto os para-médicos descem do veículo e se dirigem a jovem desmaiada, Samanta pega na mão do Batman. Quando ele lhe dirige o olhar, ela diz:

— Sr Batman, o Sr Bennett disse que eles querem minha família. Disse que é pro meu irmão ter muito cuidado. Sabe, Dennis tem câncer e está fazendo quim.. quimo... um tratamento com remédios. O Sr pode nos proteger?

Batman abaixa-se e olha no fundo daqueles doces olhos negros. A criança tem um leve sorriso. Enquanto ele pensa numa resposta, Jean se aproxima e pega a filha nos braços:

— Mamãe, minha cabeça está doendo. — choraminga a pequena.

— É porque você está na chuva, minha filha. Vamos. — elas se dirigem a casa.

— Dennis está fazendo quimioterapia? — pergunta Batman a Perry.

— Sim, está na terceira seção. É por isso que viemos pra cá, em busca de paz e ar puro pra ele. Vai ajudar. Dennis tem respondido bem o tratamento. — há uma expressão de esperança no olhar daquele homem.

No momento não há mais nada que o Cavaleiro das Trevas possa fazer para ajudar aquela família sofrida. Mas, como que atendendo ao pedido da criança, ele se propõe a acompanhar o desenrolar dos fatos. O batmóvel sai, ainda debaixo de chuva, seguido pela ambulância. Na primeira bifurcação da pista, os veículos tomam direções diferentes.

O dia amanhecerá em menos de uma hora, embora seja improvável que haja sol durante o mesmo. Agora, Batman se livra das roupas molhadas e revisa as ocorrências nas delegacias de Gotham e demais comunicados relacionados a segurança de sua cidade. De imediato, algo lhe chama a atenção: resgate na prisão de Gotham.

"Slade Wilson foi resgatado. Ele aguardava transferência para Washington." — pensa. O detetive pode ver as imagens feitas pelas câmeras de segurança. São cerca de dez pessoas, homens, muito altos e fortes, armamento pesado. Uma ampliação da imagem mostra que, embora as armas tenham desenhos similares às utilizadas pelas forças especiais do exército de Israel, eles não são de fato. Junto à constatação da inspeção visual, a extraordinária capacidade destrutiva do armamento e a descomunal força dos homens, evidentes na filmagem, denuncia se tratar de um resgate de um grupo que queria ocultar sua verdadeira natureza.

Os homens conversam entre si, mas não é compreensível. Talvez usem um código especial. Eles arrebentam muros, paredes e portas de aço como se tivessem entrando em isopor e papelão fino. Devido a reação da segurança da prisão, dois tem os trajes levemente comprometidos. Nada de sangue, mas a pele é exposta: algo entre o cinza e um tom de roxo. A imagem não ajuda muito e a exposição é diminuta.

A perseguição da policia os leva até uma área comercial da cidade. O veículo dos homens que levaram o Exterminador tem um desempenho impressionante nas ruas da cidade. A polícia não tem qualquer chance.

"Os pneus não deformam com o peso." — o vídeo feito saída do presídio e de dentro do carro dos policiais, durante os minutos que foi possível perseguir o bando, permitem Batman fazer tal constatação — "Certamente cada um tem mais de 100 kg. Alguém está tendo muito trabalho para fazer este resgate aparentar ser feito de forma convencional."

Rapidamente, ele nota mais fatos discrepantes: calcula a velocidade que um dos carros entra numa curva e simula o fato num sofisticado programa. Sem surpresa alguma, o vigilante constata que o carro não poderia ter feito a curva naquela velocidade sem derrapar ou sair pela tangente da curva.

"Um dispositivo antigravidade ou algo análogo. Isso é só uma carcaça de carro, ou uma ilusão." — conclui, por fim, Batman. — "Quem e por que?"

A tecnologia para tal teatro, a eficiência, os armamentos, a pele do invasores indicam uma probabilidade grande de não serem oriundos da Terra. A imagem do helicóptero mostra os veículos de fuga entrando num pequeno túnel e não saindo do outro lado.

"Teleporte, provavelmente." — Batman resolve analisar melhor os minutos que antecederam a invasão do presídio pelo grupo. Ele passa e repassa as imagens e sons em busca de algo imperceptível, algo que faça a diferença nas investigações. A insistência e o apurado ouvido percebe uma explosão abafada junto ao muro do presídio, mas sem danos ao mesmo.

"Conheço este som." — Batman grava em DVD o som da explosão abafada, a imagem da pele que foi exposta dos invasores, o som dos disparos dos armamentos bem como imagens das armas, o padrão tático do desdobramento das ações e a conversa captada pelo áudio entre os homens. Em breve, ele consultará aqueles que confirmarão suas suspeitas.

Durante todo o dia, e boa parte da noite, enquanto tratava dos afazeres da Fundação Wayne, Bruce pesquisa o caso do jovem Barrow. Os dados que constam nos prontuários, no setor de oncologia do Hospital Thomas Wayne, onde Dennis é tratado, é acessado e analisado por Bruce, de forma segura. O caso é grave, mas o tratamento quimioterápico tem se mostrado eficiente: o câncer regride. Em breve, uma cirurgia poderá ser feita. Tudo indica que Dennis estava a caminho da cura.

O prontuário revela também que Dennis vem sendo assistido por uma junta de psicólogos, bem como a família. A princípio, visava ajustar todos a essa difícil realidade que o câncer impõe. Porém, atualmente, os psicólogos tentam reverter algo que consideram como um estresse, quase uma alucinação coletiva da família. Constava às mesmas histórias relatas pelo casal a Batman. Samanta estava sendo convencida que não existia nenhum Sr Bennett. Dennis estava sob os efeitos de calmantes e sedativos, pois ouvia constantemente vozes, gritos e ordens para matar, além de visões de cadáveres e pessoas deformadas pela casa.

Já eram quase dez horas da noite quando Scott Free, o Sr Milagre, e Grande Barda assistem televisão numa noite tranqüila para o casal. A campainha toca:

— Vou atender. — diz Scott.

Ele se dirige até a porta e ao abrir se surpreende:

— Você? O que houve? — pergunta Scott.

— Quem é? — inquire Barda ainda na sala.

— Preciso que vocês olhem uma coisa para mim.

— Batman? — espanta-se Barda ao ver o Homem-Morcego entrar em sua casa. Ela dá um nó no roupão que veste e se aproxima deles.

Batman entrega um DVD para ela e pede:

— Gostaria que vocês olhassem isto.

— Do que se trata? — pergunta Scott já com a imagem na tela.

— Observem a ação. — a cena segue — O poder de destruição das armas.

— Estes homens foram treinados como tropa de elite de Apokolips. — conclui Barda.

— Vêem aquele tecido rasgado? O tom de pele? — indica Batman.

Eles voltam a imagem alguns segundos, por duas vezes.

— Parademônios de Apokolips. O tom de pele é idêntico. — diz Scott

— Assim como a forma de operar e potência dos armamentos. — completa Barda.

— Escutem esta explosão. — Batman a repete algumas vezes — O que lhes parece?

— Um tubo de explosão sendo acionado. — respondem o casal em conjunto.

— Vocês confirmaram minhas suspeitas. Vou precisar de outro favor. — Batman recolhe o DVD.

De volta a Gotham, na noite seguinte, quando o Homem-Morcego sai para patrulhar as ruas de Gotham, como quem atende ao pedido da menina, ele resolve passar em frente a casa dos Barrow. Ao aproximar-se pode ver um carro tipo sedan, branco, retirar-se da área da residência em considerável velocidade.

"Padre Javier." — Batman reconhece como o motorista do veículo. Ele pôde reconhecer a face do velho sacerdote e viu pavor nela. O vigilante resolve entrar. Logo vê o Perry na varanda, assustado.

— Sr Barrow, o que houve aqui?

— Ele tentou nos ajudar... ele... tentou... — o homem segura suas emoções por alguns segundos. Batman olha pela porta e vê vários colchões na sala, onde a família passou a dormir junta. O detetive pergunta:

— O que aconteceu?

— O Padre Javier tentou benzer a casa, com água benta, essas coisas. Ele passou pela sala fazendo alguns gestos e espalhando gotículas da água pelo ambiente. Por vezes, onde a gota caia, sai fumaça. — o homem faz uma breve pausa — Depois, ele foi pelo corredor. Foi fazendo a mesma coisa pelo corredor em direção a cozinha. — o Sr Barrow esfrega as mãos nervosamente — Quando ele passou... estava quase no meio, perto da porta do sótão, algo lhe puxou a batina. Ele caminhava e a coisa segurava a batina.

— Tem certeza que não há ninguém lá?

— Tenho. — o tom é de desespero — A coisa o segurou e o arrastou para baixo da saída de ar do corredor. O padre rezava em latim, acho. — o homem olha assustado para dentro de casa — De repente, uma nuvem de mosquitos saiu pela e grade do sistema de circulação de ar e atacou o padre.

Batman entra na casa e vai até o corredor. Observa que a saída de ar possui alguns poucos mosquitos em volta, nada de anormal. Um vento gélido sopra por debaixo da porta do sótão. Ele a abre.

— O Sr Bennett falou pra eu não entrar ai. — diz Samanta com uma das mãozinhas na cabeça.

— Não se preocupe. — falando isso, Batman começa a descer as escadas. No fim desta, o que vê o faz parar alguns segundos: uma câmara de cremação e duas mesas para transporte de corpos. O ambiente parecia pertencer a um antigo crematório. Ele teria de verificar nos arquivos. Durante os 2 minutos que ele observou o ambiente sentiu, com extremo incômodo, que também era observado. Por fim, sem achar algo ou alguém que representasse uma real ameaça, decide subir as escadas. No meio do corredor ele escuta uma voz fria e melancólica:

— Saia!

A porta da escada que acessa o corredor bate com violência e a lâmpada estoura. O ambiente está totalmente envolto em trevas.


Continua.




 
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