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Batman # 26

Por Leonardo Araújo

A Casa
Parte II

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Sem poder ver nada ao seu redor, Batman ajusta as lentes de sua máscara para visão noturna: a imagem, em verde, o permite ver novamente o ambiente. O vigilante desce as escadas e olha, atentamente, todo o ambiente: não há movimentos, sons ou nada diferente. Súbito, a porta abre.

Já na sala, Jean pergunta:

— Viu alguma coisa?

— Nada de anormal. Vou olhar ao redor da casa.

— Mamãe, minha cabeça...

— Calma, filhinha: já, já isso passa.

Batman investiga, atentamente, o ambiente externo da casa. Aquela sensação de estar sendo observado não o abandona. Olhar as janelas por fora era como se vultos se formassem nos vidros e, em seguida, sumissem.

Ao retornar à porta da frente, observa os pais tentando reanimar Samanta:

— Sam, Sam, minha filha, acorde! — diz o pai. Batman observa um filete de sangue começar a se formar no nariz da criança.

— Vamos levá-la ao hospital. Ninguém fica na casa. — o homem-morcego toma Samanta nos braços e se dirige para fora da casa.

Momentos depois, no hospital, Jean chama Batman. Ela diz:

— Preciso lhe contar uma coisa. Hoje pela manhã, fui com Sam visitar a sra. Fernandez, uma vizinha e avó de Rose. Ela estava arrumando algumas coisas e tinha umas caixas velhas na varanda, onde estávamos. A sra. Fernandez lembrou de antigas fotos da região e resolveu nos mostrar. Foi quando, no meio das fotos, Sam apontou e disse: "o sr. Bennett!"

Batman passa a ouvir a história com mais atenção. Ela prossegue.

— "Isso mesmo", disse a sra. Fernandez, e mostrou outra foto do homem à Sam. Aí eu perguntei quem era o sr. Bennett. Minha vizinha disse que era um antigo morador, que já havia morrido há mais de trinta anos. Era uma pessoa muito boa e querida pela vizinhança. Estranhou por Sam conhecê-lo, mas continuou a mostrar outras fotos.

— Quando foi a última vez que Samanta disse tê-lo visto? — pergunta Batman.

— Na tarde de ontem, enquanto ela brincava no balanço do jardim, disse que o sr. Bennett a empurrava no balanço.

Nisto, o médico chega com notícias de Samanta.

— Sentem-se. — os pais se sentam — As notícias, infelizmente, não são boas.

— Como assim, doutor? — pergunta Perry.

— Sua filha tem um problema sério, muito sério: um aneurisma cerebral.

— O que é isso? Como se trata?

— É uma dilatação anormal de uma artéria dentro do cérebro.

— Pode ser operado? — pergunta o vigilante.

— É uma cirurgia de altíssimo risco. Ela corre sério risco de morte.

A mãe começa a chorar, enquanto o pai tem os olhos cheios de lágrimas. Dennis havia sido levado para um quarto, a fim de descansar do seu tratamento, não compartilhando desse triste momento da família.

Batman se dirige ao quarto onde Samanta, com apenas dez anos, já trava uma gigantesca batalha por sua vida. Ele a observa. A imagem clássica dos anjos da idade média se parecem com ela: loirinha, rechonchuda, do tipo que cativa qualquer um. Batman está imóvel. Após alguns segundos, ela abre os pequenos olhos, já com um brilho bastante diminuto.

— Você pode fazer a minha cabeça parar de doer? — pergunta ela, inocentemente.

— Não, não posso. — diz Batman, acariciando os cabelos da menina.

— E meu irmão, você pode ajudar ele?

— Farei tudo o que for possível. — ele a vê fechar os olhos. Uma sensação de completa impotência lhe invade a alma. Batman já enfrentou diversos perigos, lutou por vidas, pela cidade, pelo planeta, até por povos alienígenas. Mesmo assim, ele não pode fazer nada para ajudar esta menina. Ela entreabre os lábios e fala:

— Tira o homem barbudo da minha casa. Ele quer mal ao Dennis, minha mãe e meu pai.

Ele segura a mão de Samanta. Ela volta a dormir.

Novamente na caverna, o vigilante dispara e-mails para alguns conhecidos, para que possam localizar um amigo do "outro mundo".

Em seguida, passa a se concentrar em outro problema: o resgate do Exterminador. O homem-morcego abre uma das quinze plantas que o Sr. Milagre o forneceu: são sobre Apokolips. Além disso, Scott entregou uma série de rotinas militares usadas por Darkseid. Batman estuda tudo minuciosamente. Após algumas horas, vai até uma porta de ferro, quase um cofre, e entra no recinto. Quando sai, veste um traje mais escuro que o de costume, com a máscara recobrindo todo o rosto e um tubo na altura do queixo, um condutor de ar.

Batman pega uma pequena e brilhante caixa sobre a mesa, junto aos documentos que Scott lhe forneceu: é uma caixa-materna. Há outra ao lado, são as caixas de Scott e Barda. Ele a manipula e, por fim, um tubo de explosão aparece; na outra extremidade do tubo está Apokolips. Ele adentra o tubo com uma mochila bastante carregada.

Já é quase manhã quando Batman, imundo, retorna. Alfred desce com uma bandeja repleta de sucos e sanduíches.

O mordomo fala.

— Finalmente. Pensei que não voltaria mais.

— Boston Brand, o Desafiador. (*)

— Em espírito! — responde, enquanto o mordomo esboça um sorriso.

— Preciso que dê uma olhada num local para mim. — ele mostra o mapa de Gotham na tela principal da caverna e amplia a área da residência dos Barrows — Muito cuidado.

Alfred lança um olhar questionador a Batman; ao menos o corpo de Alfred o faz.

— Não gosto de magia, misticismo e atividades coligadas. Mas não posso me dar ao luxo de ignorar essas forças. — o detetive senta-se — Embora meu conhecimento seja limitado neste aspecto, sei que há uma força poderosa naquele ambiente. Não se aproxime além do necessário.

— Que você tem sobre a casa?

— Foi construída em 1891, como residência e funerária. Ganhou um crematório quinze anos depois. Durante a década de 20 até 40, recebeu os presos mortos em Gotham. Em 1941, foi leiloada pela prefeitura. Petrus Ribbermann arrematou o imóvel. As notícias da época — Batman entrega a "Alfred" uma cópia de um velho jornal com um homem magro e barbudo na página — indicam que ele suicidou-se no sótão em 1947.

— Gente "boa". Aqui diz que encontraram vários indícios de satanismo.

— Por conta disso, a casa só foi novamente habitada em 1960. Um casal e três filhas. O pai, num ataque de loucura, ainda em 1960, matou a esposa e duas das filhas. A que sobreviveu ficou perturbada mentalmente e morreu há cinco anos.

— Isso tá ficando mais difícil. — reclama o Desafiador.

— Em 1983, novos inquilinos, novas mortes: um entregador de pizza teve um rompante de loucura, matou todos na casa e suicidou-se, também no porão. De lá para cá, acharam oito corpos na casa, mesmo sem moradores.

— OK, vou verificar. Faz um favor ao Alfred: joga essa sua roupa no lixo. Está fedendo mais que um cadáver se decompondo.

Bruce levanta-se e vai ao encontro do seu mordomo, segura a bandeja e, a seguir, ampara o corpo do amigo, que desfalece.

Meio tonto, apoiando-se no seu amigo e numa mesa, Alfred questiona:

— O que aconteceu aqui?

WayneCorp, meio-dia.

— Senhorita Vera, por favor, traga-me os relatórios do setor de desenvolvimento de patentes.

Sim, Sr Wayne. — responde a secretária, pelo comunicador interno.

Uma senhora, de quase cinqüenta anos, entra com uma pasta na mão.

— Aqui estão, sr. Wayne: são dez relatórios.

— Obrigado!

A mulher se apóia na mesa e se senta. Bruce a observa, desconfiando sobre o que pode ter ocorrido.

— Visitei o seu "parque de diversões".

— Brand? O que viu?

— Só tem trem fantasma nesse parque. Batman, aquilo é um portal. Milhares de almas, todas deformadas, passam por ali. Encontrei algumas e por isso demorei pra chegar aqui. Na verdade, se não fosse o sr. Bennett, sei não. O cara me deu uma senhora mão. Gente boa!

— Bennett?

— É, ele quem tá segurando as coisas, senão os Barrows já eram.

— Então precisaremos de ajuda. — diz Bruce ao se levantar.

— Foi o Dr. Estranho quem me alertou que você me procurava, acho que recebeu um comunicado seu.

— Ele poderá vir?

— Não, está ocupado. Por isso tomei a liberdade de chamar o Senhor Destino.

— Quando ele virá? — Bruce volta a se sentar.

— Calma. Se você fez a lição de casa, sabe que não é assim. Isso é um portal, e acho que é pro inferno. Ele virá em um horário propício pra fechar o portal.

— OK, aguardarei. — assim que Bruce termina a frase, a cabeça da srta. Vera desaba e, em seguida, volta a se erguer. Ela fala confusa:

— Fiquei tonta. Como vim parar sentada aqui?

— Você ficou tonta e se sentou.

— Desculpe, sr. Wayne. — ela se levanta — Não acontecerá mais.

— Deve ser o estresse. Faça um passeio no almoço, Vera. — ele sorri com o canto da boca — Caminhe e se distraia. Tire a tarde de folga. Você se sentirá melhor depois.

São 20:00. Batman está na janela do quarto de Samanta. Ele pode ouvir a preocupada conversa dos pais.

— Dennis dormiu. — diz a mãe.

— O doutor disse que terminaram os testes na Sam. — Perry, nervosamente, esfrega as mãos — A cirurgia está marcada para amanhã.

Jean se ajoelha e pede em voz alta:

— Meu Deus, por favor, não tire minha pequena Samanta! Leve-me, mas a poupe.

Perry se junta à esposa e fazem uma das poucas coisas que ajudam a aliviar o sentimento que lhes invade: choram quase que silenciosamente.

Batman olha o rosto plácido da criança antes de partir.

As três da madrugada, Batman captura uma gangue de arruaceiros que roubavam comerciantes num bairro de classe média. Quando vai desferir um golpe no ultimo dos cinco marginais que está consciente, ele é surpreendido com uma defesa do homem:

— Está na hora.

— OK, Brand. Vou seguir para a residência dos Barrows. Agora, sai deste corpo. Preciso acabar logo com isto.

O vigilante derruba o último delinqüente e os amarra. Retira do cinto um comunicador e, com a pressão num botão, sinaliza para a polícia onde apanhar a carga.

Quando Batman chega à casa do casal Barrows, pode ver, descendo dos céus, o Senhor Destino e Donna Troy, a Mulher-Maravilha. (**)

— Obrigado por vir, Destino. Presumo que chamou Donna.

— Sim, preciso dela.

— Minha presença te incomoda?

— Donna, os motivos que nos reúnem aqui superam qualquer reserva que eu tenha de lhe chamar.

Donna intrigada, escuta o relato dos fatos, resumidamente. Por fim, Destino explica seu plano.

— Vou entrar no portal, na casa. Estarei preso pelo laço da Mulher-Maravilha: ele é inquebrável, extensível e místico. Donna será minha ancora neste mundo, impedindo que eu seja tragado pelo portal. — ele se vira para Donna — A pressão será muito forte, você não pode soltar a corda.

— Lhe asseguro que a Mulher-Maravilha cumprirá seu papel. Já a vi em ação muitas vezes. Ela é digna de herdar o título de Diana.

— Obrigada. — diz Donna, surpresa — É isso, então.

— O que devo fazer? — pergunta Batman.

— Se souber rezar, faça. — responde o Sr. Destino, enquanto prende o laço na própria cintura. O laço de Héstia foi forjado do cinturão de Gaia e tem o poder de obrigar a quem estiver envolto nele a falar a verdade. É um legítimo presente dos deuses.

Destino se dirige para o interior da casa. A corda dourada vai ficando tensa nas mãos de Donna. Se eles pudessem ver, veriam o Desafiador na porta, com o laço de Donna passando por dentro dele, na altura do umbigo.

O homem-morcego não está acostumado a ficar parado, mas, no momento, não há nada que ele possa fazer. Um brilho começa a surgir de dentro da mansão, suas estruturas estalam, paredes vibram, vidros estilhaçam. Um vento frio corta a noite e começa a relampejar. O laço começa a se agitar nas mãos de Donna e ela faz força para segurá-lo.

O brilho cresce em intensidade, projetando-se pelas aberturas do imóvel. Donna suporta uma terrível tensão, transpira, a corda quer correr das suas mãos, mas ela resiste. Subitamente, dois raios atingem o imóvel e um incêndio começa. A estrutura antiga da casa não suporta tanta pressão e implode.

Donna cai com o laço nas mãos e vê Batman correr na direção do local onde ficava a porta da residência. Destino cambaleia. Ele está desgastado, mal se agüentando em pé, mas está vivo. O vigilante o ampara. Recuperando-se, Destino diz:

— Obrigado, Mulher-Maravilha. As chamas de Héstia, que ardem no laço, guiaram a mim, Nabu, em meio as trevas daquela caos. — ele fala, olhando para Donna — Acabou: o portal está selado.

Donna se levanta e vai em direção à dupla de heróis. Destino olha por sobre o ombro de Batman e fala:

— Mas há coisas que nem a magia pode interceder.

Batman vira-se e vê a pequena Samanta. Ele caminha até a criança, passando por Donna. Ao chegar na menina, ele põe o joelho esquerdo no solo e ampara a criança.

— Você conseguiu. O homem barbudo não vai mais fazer mal a mamãe, nem ao papai e nem ao Dennis.

— Você não deveria estar aqui, Samanta. Como saiu do hospital?

— Vim me despedir. — ela o beija no rosto.

— Batman, com quem está falando? — pergunta Donna, com uma expressão de certa tensão no rosto. Batman vê que está ajoelhado diante do vento: não há ninguém ali.

— Lembrei de uma prece que minha mãe me ensinou, há muito tempo. — o homem-morcego se levanta. Sua cabeça está baixa e sua face não traz a costumeira sisudez. Ele caminha até o carro.

— Batman, você está bem? — insiste Donna, acompanhando-o. Destino se aproxima e fala à Mulher-Maravilha.

— Nem sempre ganhamos todas as batalhas. — dito isso, o mago parte. Donna escuta Batman pronunciar um "obrigado" em meio a algo que ela não sabe o que é.

Meia hora mais tarde, discretamente, Batman entra no quarto onde deveria estar Samanta Barrow. Deveria, mas não está. Ele escuta o médico falar com alguém no corredor:

— O aneurisma estourou há pouco mais de uma hora. Fizemos o que foi possível, mas ela não resistiu. Sinto muito. — os soluços, em meio ao choro dos pais desesperados, podem ser ouvidos pelo detetive. Sua boca fica amarga. Samanta perdeu a luta contra o aneurisma. Ela não está mais conosco.


Na próxima edição: Batman x Darkseid!


:: Notas do Autor

(*) O Desafiador (Deadman, em inglês) é um personagem místico. Boston Brand era um trapezista quando vivo. Foi assassinado e, a mando de uma entidade sobrenatural, Rama Kushna, seu espírito permanece na Terra para corrigir injustiças. Consegue solucionar crimes com base no seu poder de possuir temporariamente o corpo de outras pessoas. voltar ao texto

(**) Veja Mulher-Maravilha 32. voltar ao texto




 
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