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Flash # 17

Por Igor Appolinário, sobre um plot de Délio Freire

Um Epílogo...

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Seus olhos se encontram e rapidamente se afastam, cada um olhando para uma parede diferente do pequeno quarto de hospital. Ela belisca uma bolacha água-e-sal sem graça, ele bate o pé em ritmo ultrassônico, nervoso.

— Eu... na verdade... — balbucia ele, tendo encontrar palavras — Me desculpe. Tudo isso é minha culpa...

— Wally... — diz Linda Park, olhando Wally West, o homem mais rápido do mundo, o Flash, sentado na cadeira ao lado de sua cama de hospital — Eu sei os riscos que você corre na sua vida. E, sendo repórter, eu corro meus riscos também.

— Mas você não está aqui se recuperando de um sequestro por conta de uma reportagem, Linda. É minha culpa Grood ter te sequestrado pra te usar contra mim, pra me chantagear. (*)

— Namorar um Flash tem esses riscos...

— Namorar...!?

Os dois se olham, ainda encabulados. Os olhos de Linda brilham, um mar castanho, revolvendo as entranhas de Wally que parece queimar por dentro, as orelhas vermelhas. Ele pega a mão suave da jovem a sua frente e a encara novamente.

— Você está falando sério...?

— Sim, Wally. Eu... eu tentei me afastar de você... dessa vida maluca que você leva... mas eu não consigo parar de pensar em você... nem Simpson, nem ninguém, consegue me fazer esquecer você.

— Eu também, Linda. Eu sei que às vezes sou muito infantil, ou preciso de um tapa ou dois na cara pra acordar pra realidade... sem contar o fato de a cada cinco minutos ter um supervilão na minha porta... mas você, Linda, sempre foi tudo na minha vida... sempre foi uma constante em uma vida irregular...

— Bem, Wally West, acho que ter me afastado de você teve pelo menos uma coisa boa. Eu vi você crescer, amadurecer, recusar poderes divinos e continuar sendo o melhor super-herói do mundo. Eu... quero fazer parte da sua vida... um dia, quem sabe, "até que a morte nos separe"...

Ela termina a frase com um sorriso largo, apertando a mão de Wally. Ele retribui o afago e o sorriso, respirando aliviado e feliz.

— OK, vamos nessa então. Vou te provar que um dia serei um ótimo marido. E, só uma coisa... nunca diga que eu sou "o melhor" na frente do Batman, OK?

Um iPhone em seu estiloso dock branco começa a tocar. O homem sentado na cadeira de couro logo ao lado, apenas se vira, jogando seu longo cabelo rastafari para o lado, e olha para a pequena foto que aparece no visor, avisando que está ligando, logo abaixo da foto o nome "LINDA PARK". O homem retorna a sua posição original, ignorando a ligação, que persiste em chamar por mais alguns segundos.

Simpson Smith sabe o que a repórter quer, não precisa de uma ligação emotiva e cheia de drama para dizer. Está terminado, eles não são mais um casal. Talvez, ele imagina, já esperasse isso desde o princípio, quem ele queria enganar. Ela nunca esqueceria um Flash... um Flash! Ele também não pode esquecer... tem um trabalho a fazer, toda uma vida profissional bem arquitetada, desde quando se alistou na academia. Ele é o chefe da UCE, um relacionamento agora seria apenas uma distração... uma jovem distração de belos olhos castanhos...

— Chefe! O Mago do Tempo acaba de aparecer no centro de Central City. Ele está atacando os carros-fortes saindo do Banco Central.

Perfeito! É isso que precisa agora, mergulhar no trabalho. Caçar aqueles malucos, resolver mistérios. Smith se levanta de um pulo, colocando a pistola que estava sobre a mesa em seu coldre, ajusta o blazer, pega o rifle paralisante, especialmente desenvolvido pela Stark Industries para o controle de super-humanos. Por fim, ajusta os plugues do fone aos ouvidos, liga a música em alto e bom som e parte, pronto para a ação.

Dois corpos molhados se envolvem em meio à fumaça e à água de uma poderosa ducha. Mãos acariciam músculos e curvas. Dois corações batem acelerados, fortes e vigorosos. O sol atravessa a janela do banheiro e cria o contorno de dois corpos, que parecem se fundir em um, contra o box de vidro fosco. Jay Garrick fecha o registro de água e observa a água que resta percorrer o corpo curvilíneo de Jacqueline Falsworth. A jovem tem uma pele firme, mas marcada por pequenas cicatrizes, resultados de anos de batalha contra supervilões. Ela faz essa mesma observação sobre o corpo do homem à sua frente. Viril, forte e magicamente rejuvenescido, apenas duas faixas descoloridas de cabelo nas têmporas demonstrando a idade daquele guerreiro.

— Você não imagina como isso é maluco! — diz Jacqueline, abraçando Jay.

— O que? O fato de sermos veteranos da Segunda Guerra Mundial e mesmo assim aparentarmos e nos sentirmos como jovens? Aliás, eu um quarentão, como me lembro, e você uma adolescente.

— Sim... — diz ela com um risinho, apertando mais o homem junto a si.

— Hermes me deu essa dádiva. (**) Eu sou o avatar da velocidade no século XXI, o deus grego colocou uma grande responsabilidade nos meus ombros. Mesmo tempo aliviado meu coração dos meus problemas de saúde, ele o encheu de dúvida e necessidade de me provar digno.

— O que você quer dizer, querido? — diz a jovem, se afastando e já se arrumando para sair do box.

— Quero dizer que é minha obrigação viver à luz dos deuses, e honrar minha dádiva, ajudado o máximo de pessoas que eu puder. Eu sou agora um semideus, um ícone da velocidade neste novo milênio, e mais do que tudo, tenho que ser um guia, um tutor para as novas gerações, como Impulso.

— Então é isso!? Você está terminando comigo? Pra ter tempo de ser o herói que todos esperam que você seja? — diz a garota, furiosa, lágrimas escorrendo dos seus olhos.

Jay olha perplexo para ela e em um movimento rápido, puxa seu corpo para junto do dele, colados, os rostos o mais próximos possível sem estar se beijando:

— O que você não entendeu é que eu não estou querendo me separar de você. Quero me casar com você. Seremos uma família sob o mesmo teto: eu, você e Impulso. — Jacqueline olha para os olhos cinzentos de Jay e o beija ternamente.

Um carro corre desabalado em meio a uma rua deserta. O homem em seu interior parece preocupado, perdido em seus pensamentos enquanto dirige. Em seu braço direito, descoberto, vemos uma mancha azulada, uma velha marca, um número, um estigma de prisioneiro de campo de concentração.

"Não posso deixar... isso vai acontecer novamente... ele voltará... não posso ser cúmplice... meu Deus... uma nova tragédia... será que o que passamos não foi suficiente... quem irá morrer agora... quantos mais irão pagar pelos crimes desse tirano... ele não pode voltar... nem ele, nem seu filho, ou o que quer que seja esse novo demônio... o Holocausto não voltará... eu tenho que falar com Jacqueline Falsworth... ela irá..."

Seu carro desce uma ladeira e, de repente, no meio da descida, surge uma senhora empurrando um carrinho de bebê. O homem joga o carro para o lado, evitando o pior, mas seu veículo se desequilibra, joga-se para os lados e capota, batendo várias vezes contra o chão áspero.

Na rua deserta surge um homem. Todo vestido de preto, em trajes sadomasoquistas, ele caminha até o carro acidentado. Ele vê o braço do motorista jogado para fora de uma janela e se abaixa para checar sua pulsação. Nada. O homem corre para longe do acidente e sob a proteção de uma árvore, liga seu telefone celular:

— Ele está morto. Foi um acidente.

Tem certeza disso? — pergunta a voz do outro lado da linha.

— Eu comprovei pessoalmente. Ele está morto.

Excelente. Retorne imediatamente à base.

— Perfeitamente, Herr Führer.

Em poucos segundos, um vórtice surge em frente ao punk sadomasoquista. Ele salta para dentro do vórtice e retorna ao seu mundo.

— Então isso é um "adeus"? — diz Wally, correndo a ultravelocidade ao lado de Hermes, o deus grego da velocidade.

— Talvez sim, talvez não... você sabe como somos nós, deuses, mesmo não tendo querido participar de nosso panteão. Jay Garrick será um ótimo avatar da velocidade. Confio em seu julgamento e em sua experiência. Mas você, Wallace, teria sido o melhor... um candidato a deus, quem sabe um dia.

— Eu... fico lisonjeado, Hermes. Mas eu sou uma criatura extremamente terrena. Eu tenho uma forte ligação com as pessoas da minha vida, com o legado de Barry Allen ao qual eu ainda estou tentando me fazer digno a carregar. Eu seria um semideus por demais humano...

— Ora, Wally, o que mais os deuses são? Nós vivemos porque vocês acreditam. Mas eu o compreendo e abençôo. Sempre estarei olhando por você, por Jay e pelos seus. Vocês são uma família linda, Wally. Uma linhagem pura e digna, minha família de desafiadores da velocidade.

Ao dizer isso, Hermes ascende aos céus e desaparece em um clarão, deixando para trás Wally, com um largo sorriso no rosto.


:: Notas do Autor

(*) Na edição anterior. voltar ao texto

(**) Também na edição anterior. voltar ao texto




 
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