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Questão # 02

Por Fernando Lopes

Prenúncio de Tempestade

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Poucas coisas irritavam tanto o professor Aristotle Rodor quanto ser interrompido no meio de algum experimento, por mais banal que fosse. E a fina mistura de chás que ele zelosamente preparava estava longe de ser qualificada como banal, ao menos para ele. Além do mais, quem quer que estivesse do outro lado da porta ou tinha uma urgência vital em ser recebido ou era um profundo apreciador do som da campainha.

— Já vai, já vai! Que saco!

— A idade está te deixando resmungão, Tot — respondeu o estranho, encostado na soleira com uma mochila às costas e ar zombeteiro.

— Charli! — gritou o professor, num misto de surpresa e alegria. — Mas quando foi que você chegou? Por que não me avisou? Eu poderia ter ido buscá-lo no aeroporto...

— Na sua idade, Tot, já devia saber que não se avisa alguém que se quer pegar de surpresa. Vai me convidar para entrar ou está esperando que eu crie raízes aqui na porta?

O velho professor recobrou-se e ajudou Sage a levar a bagagem para dentro. Depois, foram à cozinha.

— Então, Charli, decidiu voltar a Hub City. Vem para ficar, desta vez?

— Acho que sim. Não importa para quão longe eu vou, sempre acabo voltando para esse buraco. A propósito, dá pra parar de me chamar de Charli? Quantas vezes vou ter que dizer que meu nome agora é Vic Sage?

— Seu nome é Charles Victor Szasz, goste você ou não...

— Esse é o nome que as freiras me deram no orfanato. Foi em outra vida. Hoje, só existe Vic Sage.

— E o Questão? — provocou Rodor.

— E o Questão. — respondeu Sage, pensando em sua outra identidade. — Não sei até que ponto um é mais real do que o outro. Aliás, nem sei se algum deles é real.

— Ainda procurando respostas?

— E quem não está?

— Talvez fosse a hora de redefinir as perguntas. O que é "real", afinal?

— Ah, sem essa, Tot. Filosofia, não. Tô cansado, com fome, esse seu chá não sai... Como andam as coisas?

— Depende do que você define como "as coisas"...

— Sei lá... Olhando da janela do táxi, a cidade me pareceu um pouco melhor. Ainda uma merda, mas fedendo menos. Nem está chovendo!

— Ah, ela... Myra está bem, se é o que quer saber. E está fazendo um bom trabalho, considerando-se que é mulher e dirige um antro como Hub City.

Sage sentiu-se ruborizar ligeiramente. Sim, ele queria saber dela, mas não queria admitir. Myra Connely Fermin. Ex-jornalista, ex-amante, atual prefeita de Hub City. Nunca mais a vira desde que saíra da cidade, há dois anos. Ficou constrangido. Tentou desconversar.

— E Izzy?

— Izzy O'Toole? Acredite ou não, é o comissário de polícia há mais ou menos um ano e meio. Este não é mesmo um mundo louco?

Sage não respondeu. Pensou rapidamente em Izzy, o tira mais corrupto de Hub City que um dia, de uma hora para outra, decidiu virar santo. Graças ao Questão. Mas logo Myra voltou a ocupar seus pensamentos. Mudou novamente de assunto.

— Venha ver uma coisa, Tot.

Foi até a sala e apanhou algo na mochila. Rodor espantou-se.

— Um sax? Desde quando?

— New Orleans. Ninguém passa nove meses naquela cidade sem ficar fascinado por jazz. Ainda estou aprendendo, mas já dá para tirar um sonzinho. Sente só...

E Vic Sage passou o resto da tarde tomando chá e tocando sax com seu velho amigo Rodor.

No dia seguinte, foi a KBEL procurar os velhos companheiros. Com sorte, ainda poderia conseguir algum free-lance. Não podia ficar nas costas de Rodor eternamente. Surpreendeu-se ao encontrar Richard Cameron, um dos poucos a quem realmente pudera chamar de amigo, no cargo de gerente da emissora.

— Dick Cameron?

— Sage? Vic Sage! Eu não acredito!

— E aí, Dick? Como estão as coisas? Cadê o puxa-saco do Finch?

— Finch? Deixou a emissora há oito meses. Arrumou uma boquinha na Lexcom e se arrancou para Metrópolis.

— Quase chego a sentir pena do Luthor... Vai ficar com o saco no pé. Mas quem ficou no lugar dele?

— O que você acha que eu estou fazendo na sala, limpando?

— Ora vejam...

— E você, o que está fazendo?

— Por enquanto, nada. Acabei de chegar. Ainda estou tomando pé da situação.

— Procurando alguma coisa?

— Sempre. — respondeu Sage, num duplo sentido que Cameron não captou.

— Bem, você já deu muita audiência para a casa. Acho que dá para apertar o Carlyle e colocar você cobrindo a vaga da Rhona. Ela está entrando em férias em dois dias. Interessado?

— Claro!

— Bem, vamos falar com o Carlyle, então. Ele vai gostar de te ver de volta.

Os dois homens deixaram a sala e seguiram pelo corredor ao escritório do diretor de programação. No caminho, Sage viu uma mulher hispânica abaixar-se com dificuldade para pegar do chão um copinho de café. O rosto marcado deixava claro que havia sido espancada. Cameron dirigiu-se a ela, que aparentemente não ouviu.

— Consuela? Perguntei se o café é fresco!

— Desculpe, señor Cameron. É fresco, si señor.

— Machucado feio — disse Sage.

— Foi um acidente. Caí da escada. — mentiu a mulher, visivelmente constrangida.

Sage olhou-a, o rosto sério.

— Cuidado. Certos acidentes tendem a se repetir. Com freqüência.

Saíram da sala, deixando Consuela a sós com seus problemas. Seguiram para a sala de Carlyle, que estava ocupado com Samuel Johnson, mais conhecido como o Negociador. Cameron explicou a Vic como o distinto exportador de alimentos e contrabandista de armas e drogas tinha entrado para a política e dominado o Conselho Municipal. Sage lembrou-se de Jerry Wilson e de como sua carreira e sua vida tinham sido destruídas por Johnson.

"Essa é uma questão em aberto, senhor Johnson", pensou Sage. "E eu pretendo fechá-la, mais cedo ou mais tarde."

— Vai sair? — perguntou Rodor.

— Vou. Vi uma coisa hoje na emissora que me chamou a atenção. Quero dar uma olhada. — respondeu Sage, vestindo um sobretudo claro.

— Pela roupa, acho que o passeio de Vic Sage vai ser curto. O que espera encontrar?

— Questão interessante...

Se alguém lhe perguntasse, Sage não saberia responder o motivo que o levou a seguir Consuela Rodriguez. Talvez racionalizasse, alegando que tentava protegê-la. Ou reduzisse tudo à pura necessidade de espancar alguém para descontar a frustração de não poder fazer nada, ao menos por enquanto, contra o homem que arruinou seu velho amigo Jerry Wilson. Em seu íntimo, porém, sabia perfeitamente a razão.
Que motivo uma mulher pode ter para manter-se ao lado de um homem que a espanca? O que a faz voltar? A curiosidade o corroía e o fazia sentir-se como um vouyer enquanto observava, do alto do telhado do prédio em frente, Miguel Rodriguez cair chorando aos pés de Consuela, implorando por uma segunda chance. Quando o casal foi para o quarto, Sage decidiu respeitar sua privacidade. Entre envergonhado e curioso, voltou para casa, a questão martelando-lhe a cabeça: "Por quê?"

Oito dias depois, Sage voltou a encontrar Consuela, que faltara no dia anterior. Tinha o braço engessado e mancava. O olho ainda estava inchado e roxo. Uma fúria incontida embrulhou o estômago do repórter.

— Cuidado, — disse ele, soturno — esses "acidentes" vão acabar matando você.

Naquela noite, não foi para casa. Seguiu para o Centro e aguardou num beco próximo ao cortiço vertical onde Consuela morava. Miguel estava na porta, bêbado, uma garrafa de aguardente nas mãos. Começou a berrar tão logo a esposa apontou na esquina.

— Sua puta! Pensa que é grande coisa? Você não é nada!

— Pára com isso, Miguel! — gritou Consuela, desesperada.

Sage sabia o que vinha a seguir. Tirou do compartimento secreto do cinto a máscara de pele sintética e colocou-a no rosto. Um botão na fivela liberou o gás que alterou a cor de suas roupas, dando-lhes um tom azul-marinho, e fixou a máscara. Naquele momento, ele não era mais o repórter Vic Sage. Era a hora do justiceiro sem face chamado Questão.

— 'Cê não manda em mim! Só porque põe dinheiro em casa acha que manda em mim? 'Cê não passa de uma vadia!

— Seu desgraçado! Vou embora, hijo de puta! Vou embora!

— Ah, vai? Vou te mostrar pra onde 'cê vai, vagabunda...

Antes que pudesse reagir, Miguel teve o punho seguro pelo Questão. Voltou-se para seu oponente, disposto a aplicar-lhe o corretivo que tinha preparado para a esposa.

— Quem 'cê pensa que é, sem-cara? Isso é coisa de marido e mulher!

Sage permaneceu calado, menos irritado do que curioso.

— Só porque 'cê num tem boca acha que eu num te quebro os dente? Filho da...

Miguel partiu desajeitadamente para cima do Questão. Horas mais tarde, Vic Sage acharia que exagerou na dose. Naquele momento, porém, a curiosidade deu lugar à fúria. Bloqueou o golpe do oponente e quebrou seu nariz impiedosamente. O ataque seguinte foi rechaçado com ainda mais violência, arrancando dois dentes de Miguel e fraturando uma costela. Só mais tarde se deu conta que iria continuar surrando um inimigo bêbado e vencido, não fossem as súplicas de Consuela.

— Pára, pelo amor de Deus! 'Cê vai matar ele!

O que ela estava fazendo? Defendendo o homem que iria espancá-la? E o que diabos ele estava fazendo? Defendendo uma inocente ou descontando suas próprias frustrações? Confuso, limitou-se a dar um aviso a Consuela. Por trás da máscara, sua voz era como um sussurro abafado.

— Vai piorar.

Sage chegou em casa horas mais tarde. Rodor assustou-se com seu olhar perdido.

— O que houve, Vic? Está ferido?

— Não. Sim. Não sei. Não entendo...

— O quê? O que você não entende?

— Se eu estou protegendo as pessoas, quem vai protegê-las de mim?

De repente o mundo começou a girar para Vic Sage e ele foi ao chão. Rodor esforçou-se para colocá-lo na cama. Alguma coisa muito errada estava acontecendo com seu amigo e ele não sabia o que era. Mas teve, em seu íntimo, um mau pressentimento. Do lado de fora, a chuva voltava a cair.


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