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Questão # 03

Por Fernando Lopes

Aconteceu em Nova Orleans...

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Qual o som de uma manada de elefantes em disparada? Vic Sage não tinha certeza, mas seguramente era muito parecido com o som que preenchia sua cabeça naquele momento. Levantou pálpebras que pesavam toneladas para encarar o rosto enrugado e os cabelos brancos de Aristotle Rodor, que o observava com ar preocupado. A luz o incomodava e ele fechou novamente os olhos.

— Como se sente?

— Uma merda. Parece que usaram minha cabeça para jogar futebol. Que aconteceu?

— Eu é que pergunto. Você apagou logo que chegou aqui. Andou bebendo?

— E desde quando eu tenho vocação pra bebum?

— Bem, na faculdade...

— Não enche o saco, Tot. Eu apaguei?

— Como uma vela. Não se lembra de nada?

— Mais ou menos... Me lembro de ter ido ao Centro, checar uma coisa. Aí o Questão precisou agir...

— Está falando de você mesmo em terceira pessoa de novo...

— Não torra, Tot! Me senti meio esquisito quando liberei o gás que ajuda a prender a máscara. Depois, quase matei um sujeito bêbado de porrada, sem a menor necessidade. A partir daí, não me lembro de mais nada. Nem sei como cheguei aqui...

— Bem, você conseguiu tirar a máscara, pelo menos. Estava no bolso. O que me leva à próxima pergunta: quando o Questão tinha agido pela última vez?

— Faz mais ou menos três semanas, ainda em New Orleans. Um caso de tráfico.

— Hmm... faz sentido. Lembra dos detalhes?

— Claro. Eu estava...

New Orleans, 2h15.

Ethan Rowlings estava satisfeito consigo mesmo. A entrega daquela noite ia lhe render dinheiro suficiente para finalmente comprar o barco. Millie e as crianças iam ficar contentes. E, de quebra, ainda levava pó suficiente para uma festinha particular com Nikki mais tarde. Ia distraído até o carro pensando nas coxas da amante quando uma voz abafada chamou seu nome.

— Como vão os negócios, Rowlings?

Olhou assustado na direção da voz. O homem alto e de sobretudo escuro surgira ao seu lado como que vindo do nada. O chapéu escondia parte do rosto.

— Quem é vo...

Nesse momento, um carro iluminou o estranho. Ethan Rowlings — que nunca foi o mais corajoso dos homens — então descobriu o significado da palavra medo, pois quem o interrogava era um homem sem rosto!

— O que... o que você quer?

— Informação. Quem é o fornecedor?

Apesar do medo e da confusão em sua mente, Rowlings tentou manter o controle.

— Eu não sei do queeeeeeeeeeeeeee...

— Não faça esse jogo comigo, Ethan — ameaçou o Questão, agarrando o traficante pelo colarinho e arremessando-o contra a parede. — Você não tem cacife para bancar a aposta.

— Calma-cara-pelamordedeus-não-me-machuca!

— Depende de você, Ethan. Eu quero nomes. Quero endereços. E quero agora!

Em pânico, Rowlings explicou como recebia as encomendas de droga por telefone. Só atendia pedidos de clientes da corretora de valores onde trabalhava, gente da alta sociedade. O esquema lhe rendia um bom dinheiro extra, além de droga suficiente para suas farras semanais com a amante. Até encontrar o estranho sem rosto, parecia um bom negócio. Naquele exato instante, erguido a 30 centímetros do chão por aquela aberração saída sabe-se lá de qual inferno, começou a achar uma péssima idéia.

— Eu vou checar, Ethan — disse o Questão, baixando Rowlings. — Se você estiver mentindo, eu volto. E não vou ser tão bonzinho. Você tem família. Sugiro que saia dos negócios. Permanentemente.

— Não vai me prender?

— Não, desde que você me responda uma coisa...

— O quê?

— Por quê? Por que arriscar família, carreira, futuro?

Rowlings olhou o Questão com expressão aparvalhada. Não sabia exatamente o que dizer, o que o estranho esperava ouvir.

— Emoção, tédio... sei lá.

— Cuidado, Ethan. Emoção demais mata.

O estranho sem rosto sumiu rapidamente na noite. Rowlings voltou para dentro de casa. Millie lhe perguntou o que tinha acontecido, mas ele não respondeu. Começou a arrumar as malas. Não deu tempo à esposa para formular a pergunta.

— Nos mudamos amanhã. De repente esta cidade não me parece mais um bom lugar para morar...

3h23

O Questão seguiu as informações de Ethan, no caminho inverso da droga. Descobrira o esquema após a morte de uma socialite, afogada na piscina de sua cobertura durante uma festa. A família mexeu os pauzinhos para que não fosse feita a autópsia., mas um dos garçons — devidamente persuadido por uma quantia módica — lhe revelou que a mulher estava completamente chapada, tanto quanto boa parte dos demais convidados.

Os intermediários seguintes esperavam Rowlings em uma rua do Centro. Um estava no local marcado, enquanto outros três estavam a cerca de 10 metros. O traficante dirigiu-se ao vulto que atravessava a rua.

— E aí, Ethan, mermão, cumé que vai essa força?

— Ethan não pôde vir. — disse o Questão — E você também não vai a lugar nenhum.

— Aí, mané, não sei qual é a tua, mas cê tá na mó roubada, tá sabendo? — retrucou o traficante, fazendo menção de puxar a arma. O pé do estranho arrancou três dentes de sua boca e o fez mudar de idéia.

Antes mesmo do corpo do traficante cair no chão seus três companheiros partiram para cima do Questão, dois deles sacando as armas. O vigilante sem rosto saltou na direção dos agressores, rolando no chão numa cambalhota. Aproveitando o impulso, atingiu os homens armados no queixo, de baixo para cima. Um deles caiu desacordado, enquanto o segundo foi jogado para trás. O terceiro traficante investiu com uma faca, apenas para ter o pulso quebrado com uma chave de braço e ser jogado sobre o companheiro, que se preparava para atirar. O choque nocauteou ambos.

O Questão voltou-se para o primeiro traficante que, zonzo, começou a correr. Tudo o que precisava agora era segui-lo.

3h48

A perseguição ao traficante levou o Questão a uma área mais afastada da cidade. No depósito isolado, uma surpresa o aguardava. Os dois sentinelas estavam desacordados. Entrou cautelosamente no prédio as escuras. Protegido pelas sombras dos engradados empilhados, ouviu o intermediário relatar seu ataque ao chefe do bando. Foi silenciado com um tiro à queima-roupa.

— Esse bundão vai trazer os hômi aqui. Pega o bagulho e vamo sair fora.

Encarar oito homens armados não era exatamente o plano de Sage, mas se não agisse naquela hora perderia a quadrilha. Nesse momento, o acaso interveio em seu favor na figura de um homem alto, de cabelos compridos, óculos escuros e sobretudo, com uma escopeta nas mãos.

— Todo mundo parado!

Desnecessário dizer que ninguém obedeceu. Os traficantes espalharam-se e começaram a disparar contra o estranho, que abrigou-se atrás de uma pilastra de concreto. Não conseguiria sustentar aquela posição por muito tempo. Sage decidiu agir. Circundando os engradados, chegou ao ponto onde um dos bandidos se abrigara. Agarrou o criminoso pelas costas e bateu sua cabeça violentamente contra a parede.

Enquanto isso, o estranho decidiu virar o jogo a seu favor. Saltou de sua posição protegida para o chão, disparando em pleno ar. Um dos traficantes viu seu joelho desaparecer e caiu gritando. O estranho continuou se movendo com espantosa agilidade, esquivando-se da saraivada de balas até alcançar três dos atiradores. Seus movimentos eram difíceis de acompanhar. O primeiro agressor nem sequer viu o que o atingiu. O segundo tentou mirar no estranho, mas foi usado como escudo humano para protegê-lo dos disparos do terceiro criminoso. Seu corpo inerte foi jogado sobre o assassino, atingido em seguida por um chute no rosto.

Preocupados em acertar o estranho, dois traficantes remanescentes não perceberam a aproximação do Questão, que saltou sobre eles, desarmando-os. Um dos bandidos agarrou o vigilante sem rosto pelo pescoço, enquanto o segundo veio em sua direção. Uma cotovelada nas costelas afrouxou a pressão sobre o pescoço de Sage, que aproveitou a folga para arremessar seu oponente. O outro traficante pulou sobre ele, derrubando ambos sobre uma mesa ainda cheia de droga. Sage usou o impulso para jogar o adversário de cabeça contra a parede.

O silêncio dominou o galpão. Os dois homens se encararam frente a frente pela primeira vez. Subitamente, o estranho de sobretudo arremessou um objeto em direção do Questão, que esquivou-se instintivamente. O disco metálico passou zunindo a alguns centímetros de sua cabeça, atingindo a arma do último traficante, que mirava em sua direção. Sage saltou e aplicou-lhe um chute nas costelas, seguido por uma joelhada no nariz, que encerraram definitivamente a luta. Apenas o gemido do homem atingido no joelho se fazia ouvir.

— Obrigado. — disse o Questão. — Você é bom.

— Você também. O que aconteceu com a sua cara?

— Exagerei na hora de fazer a barba...

— Isso é que eu chamo de pele sensível... — disse o estranho, sorrindo. — Sou Jack Monroe.

— Ouvi falar de você, Nômade.

— É, minha fama me precede... E você é?

— Questão de ponto de vista... Mas pode me chamar de Questão.

— Tudo bem, senhor Questão de Ponto de Vista. Acho que é hora de chamar a cavalaria para limpar a sujeira. Topa uma cerveja depois?

— Fica para a próxima.

— É, sem boca deve ficar meio mesmo difícil... A gente se cruza.

Sage deixou o galpão e voltou para a cidade, sem imaginar as conseqüências que os eventos daquela noite lhe trariam no futuro.

— E foi isso que aconteceu, Tot.

— E você tirou a máscara logo?

— Pouco depois de sair dali, num beco próximo. Por que a pergunta?

— Encontrei vestígios de droga em sua máscara. Uma quantidade mínima, mas que deve ter reagido com o gás que dá aderência à máscara. Isso deve ter provocado seu comportamento violento e o desmaio posterior. Você sempre foi fraco para drogas.

— Bem isso explica as coisas...

— Esse Nômade que você encontrou... O nome não me é estranho.

— Claro que não. Foi parceiro do Capitão América há alguns anos, roupinha colada e tudo mais. Depois pirou e passou a agir por conta própria. Fazia um tempo que andava sumido.

— É, acho que eu me lembro dele. Sente-se melhor?

— Não, mas não dá mais para ficar na cama. Tenho que ir para a emissora. Estou trabalhando numa matéria sobre Sam Johnson.

— Johnson? Cuidado, Charli. Ele pode estar velho, mas ainda é perigoso.

— Não se preocupe, Tot. Chegou a hora do senhor Johnson colher o que plantou.

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