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Questão # 04

Por Fernando Lopes

De Sonhos e Planos

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Prólogo 1

— ... 282... 283... 284... 285... 286...

— Vai mesmo atrás de Johnson?

— ... 287... 288... 289... Vou... 291... 292...

— Vic, não é uma boa idéia... Johnson pode estar velho, mas ainda é perigoso.

— ... 293... 294... 295... É algo... que tenho... de fazer... 302... 303... 304...

— Isso não vai trazer Wilson de volta. Nada vai.

— ... 305... 306... 307... Questão... de justiça... 310... 311... 312...

— Questão de teimosia, isso sim! — reagiu o professor Aristotle Rodor, irritado. — Além do mais... Saco, dá pra parar de fazer abdominais enquanto fala comigo?

— ... 313... 314... 315... Não... 317... 318...

— Ouça, Vic — prosseguiu Rodor, armando-se de toda a paciência que conseguiu reunir. — Sei como se sente. Jerry Wilson era um bom homem. Johnson arruinou a vida dele e ele acabou morto.

— ... 319... 320... 321... 322... 323...

— Johnson não se tornou dono de boa parte de Hub City jogando limpo. Todos os que cruzaram seu caminho se deram muito mal...

— ... 324... 324... 326... 327... 328...

— Ele é ainda pior do que Hatch. Esse era maluco, embora não menos perigoso... Quer morrer de novo?

— ... 329... 330... A morte... pode ser... libertadora... 338... 339... 340...

— Libertadora o cacete! Não fosse por aquela dona maluca, seus ossos estariam no fundo do rio até hoje! Sem mencionar...

A ladainha de Rodor levou a mente de Vic Sage de volta há alguns anos no passado. Sim, ele se lembrava. A humilhante derrota pelas mãos de Lady Shiva, a surra aplicada pelos capangas do reverendo Hatch, a bala na cabeça, os longos minutos nas águas frias do Rio Hub, o milagre que salvou sua vida, o sermão do Cavaleiro das Trevas, os dias nas montanhas com Richard Dragon... É, a visão da morte deve mesmo ser libertadora. Sem isso, talvez ele continuasse sendo apenas um iludido com mania de grandeza e propensão à violência.

— ... Além do mais...

— ... 499... 500. Tá legal, Tot, eu sei que você me ama. Prometo tomar cuidado. Agora, quer me dar um tempo? — brincou Vic.

— Nos conhecemos há mais de 15 anos, Charli — respondeu Rodor sério, chamando Sage por seu nome de batismo. — Detestaria enterrá-lo.

— Não se preocupe. Não pretendo fazê-lo passar por isso... Você está ficando sentimental, Tot. Onde está a sua "fascinação ao observar um homem moldando seu próprio destino"?

Rodor deu um sorriso amarelo ao ser lembrado das próprias palavras.

— Alguns destinos podem ser bem sombrios, rapaz...

Prólogo 2

— E o que aconteceu, vovô?

— O lobo soprou e soprou, mas não conseguiu derrubar a casa dos porquinhos...

Sam Johnson observou o homem que entrava na sala e dirigiu-se novamente ao neto:

— Por que você não pede um lanche para a Rita, hein, Timmy? Aposto que tem um monte de coisas gostosas esperando você na cozinha...

— Venha, Timothy — emendou a tutora — vamos ver o que podemos encontrar...

— Tá bom. Tchau, vô!

— Eu já vou lá, garoto!

Sam acompanhou o neto com o olhar terno, um mal disfarçado sorriso no rosto. Tinha a expressão serena quando dirigiu-se ao auxiliar.

— E então, Morton, como estamos?

— Tudo conforme o planejado, senhor. O técnico encarregado do parecer sobre o novo projeto de zoneamento já foi... persuadido sobre as vantagens da proposta.

— Bom, muito bom. — sorriu Sam, satisfeito. — Se tudo continuar seguindo nesse ritmo, em pouco tempo terei alcançado meu objetivo.

O "objetivo" de Sam Johnson era seu mais ambicioso projeto, algo com que jamais sonhara desde que começara sua carreira criminosa, incontáveis anos atrás: deixar para trás seu sórdido passado e tornar-se um cidadão respeitável. A simples idéia lhe soava estranha. Nunca se importara com esse tipo de coisa antes. Em sua velhice, porém, isso se tornara uma necessidade urgente. E o motivo entrava pela sala novamente, com seus passos curtos e um enorme sanduíche.

— Quer um pedaço, vô?

— Hmm, isso parece bom...

Subitamente, as lágrimas encheram os olhos de Sam Johnson ao lembrar de seu filho Sammy com a idade de Timothy. Na época, Johnson estava ocupado demais com prostitutas e drogas e contrabando para prestar atenção ao garoto. Também estava muito ocupado para ver o filho formar-se na universidade, a fim de fugir da herança criminosa do pai. Mas teve de deixar de lado seus afazeres para reconhecer o corpo de Sammy e da esposa no necrotério municipal, após o acidente automobilístico que lhes tirou a vida, milagrosamente poupando o pequeno Timmy. Pista escorregadia. Ninguém para espancar, ou para subornar, ou para matar. Nada a fazer a não ser arrepender-se e chorar pelo tempo perdido, pelas palavras não ditas.

— Você está chorando, vô?

— Não, meu lindo, é só um cisco. Venha cá dar um abraço no vovô.

Ao sentir os pequenos braços ao redor de seu pescoço, Sam Johnson teve certeza do acerto de sua decisão. E nada no mundo iria impedi-lo de concretizar seu plano. A valorização de seus imóveis garantiria a Timmy um futuro seguro e tranqüilo, mesmo após sua morte.

"Conhece ao teu inimigo e a ti mesmo", já ensinava Sun Tzu há mais de dois mil anos, em seu tratado A Arte da Guerra. Vic Sage tinha aprendido, da pior forma possível, o quanto o velho estrategista estava correto. Por isso, dedicou as duas semanas seguintes a reunir todo o material possível sobre as operações legais e ilegais de Johnson. Quando o material de pesquisa acabou, decidiu ir a campo, embora isso trouxesse alguns inconvenientes que vinha tentando evitar. Se estava disposto, porém, a entrar numa guerra, devia submeter-se às regras do jogo.

Naquela noite, o comissário Izzy O'Toole voltou mais tarde para seu apartamento. Estava cansado, irritado e com fome. Nada como a boa e velha rotina. Mas havia algo estranho, um tipo de sensação... Ele não sabia bem o que era mas, fosse o que fosse, O'Toole não gostava. Abriu a porta da geladeira e tentou achar algo que não estivesse duro o suficiente para ser cortado com uma talhadeira. Encontrou um pedaço de pizza relativamente intacto e pensou, apenas por um instante, que talvez devesse se casar.

— Nah, sempre se pode pedir mais pizza... — disse para si mesmo, em voz alta.

Fechou a geladeira e só então percebeu o vulto ao seu lado. O susto o fez arremessar a pizza para cima e saltar para trás com um grito. À sua frente, o homem sem rosto aparou seu jantar no ar.

— Putaquepariu! — esbravejou o policial, parcialmente refeito. — Quer me matar do coração, seu idiota?

— Você anda muito estressado, O'Toole. O que seu cardiologista vai dizer? — provocou o Questão.
Izzy tomou a pizza da mão do vigilante.

— O que diabos você está fazendo aqui? Andou sumido... Tava procurando onde esqueceu a cara?

— Preciso de informações.

— E por que eu daria?

— Cortesia profissional. Gratidão, talvez. Acho que você ainda me deve uma ou duas...

— O que você quer?

— Sam Johnson.

— Johnson? Perdeu os miolos junto com a cara?

— Eu o quero. O que pode fazer por mim?

— Nada. Ninguém tem absolutamente nada contra ele. Ninguém vivo, pelo menos.

— Vou começar a apertá-lo. Pode me dar algum apoio?

— Aqui não é Gotham, meu chapa. Sem um mandado, nada feito. Você espanca um dos homens de Johnson e eu vou ser obrigado a cair em cima de você como uma marreta.

— Está na folha dele?

— Escutaqui, seu filho da puta! Vê lá como fala comigo! — enfureceu-se O'Toole, enfiando o dedo na cara do Questão.

— Quem diria... — zombou o vigilante — o ex-policial mais corrupto de Hub City mudou tanto que não admite mais nem insinuações. Gostei de ver... Como é, vai me ajudar ou não?

— Preciso de respaldo. — acalmou-se O'Toole — Algo para apresentar a um juiz.

— Você terá. Aguarde notícias. — disse o Questão, seguindo para a janela. — Ah, uma última coisa...

— Quequié?

— Você devia se casar. Ainda vai acabar se matando comendo essas coisas... — e saltou noite adentro, deixando Izzy com um impropério entalado na garganta.

— A prefeita irá recebê-lo em dois minutos.

— Obrigado. — disse Sage, ligeiramente desconfortável. Tinha conseguido livrar-se do reencontro com Myra durante todo o mês. Repassou todas as pautas ligadas à Prefeitura para outros repórteres. E agora, por livre e espontânea vontade, vinha procurá-la. Sabia, em seu íntimo, que isso teria de acontecer, mais cedo ou mais tarde. Que fosse agora, então. Precisava entender melhor o interesse de Johnson no novo projeto de zoneamento e quais as implicações disso para a cidade. Tentou tornar as coisas as mais impessoais possíveis. Não conseguiu. Pensou que ela talvez estivesse gorda e feia, e que tudo o que viveram juntos nada mais significava. Se existia algum momento digno para voltar a fumar, era aquele. Pensava nessas e em outras bobagens quando a secretária o chamou.

— O senhor pode entrar.

Sage sentia-se idiota. Era capaz de derrotar vários oponentes em combate facilmente e agora tremia como um adolescente. Fez o possível para disfarçar o constrangimento. Myra o aguardava em sua mesa. Usava os cabelos curtos e um tailleur clássico. Não estava gorda, e muito menos feia.

— Como vai, Vic? — disse ela, estendendo-lhe a mão.

— Bem, e você? — retribuiu. O aperto de mão não foi nem mais longo, nem mais forte do que o habitual. — Levando.

— Parece que tem feito um bom trabalho. Uma vitória, considerando-se Hub City...

— Já foi mais difícil. No começo, demiti tanta gente que quase tive de servir o café eu mesma. Recebo denúncias de corrupção pelo menos duas vezes por mês. Mas a coisa vai caminhando.

Um silêncio incômodo instalou-se entre os dois. Sage decidiu ir direto ao assunto.

— Estou trabalhando numa matéria sobre Sam Johnson.

— Hmm, você continua bom em escolher alvos... Algum dia vai abocanhar mais do que pode engolir.
Sage pensou uma obscenidade e prosseguiu.

— Desde quando ele se interessa por política? Qual o interesse nesse projeto de zoneamento?

— É estranho... — respondeu Myra, por um instante reassumindo a postura da repórter que fora antes de se tornar prefeita. — Foi logo depois da morte do filho dele num acidente de carro. A partir daí, ele passou a empenhar-se mais em seus negócios lícitos... O grosso do dinheiro ainda vem das atividades ilegais, mas...

Myra sentiu o olhar de Sage cravado nela. Desconversou.

— É claro que tudo isso não passa de especulação... — prosseguiu, reassumindo o ar cuidadosamente estudado — e eu jamais diria isso em público.

— Evidente que não... Mas você me ajudou bastante. — disse Sage, levantando-se.

— Espero que sim. — Ela também se levantou.

— Como está sua filha?

— Progredindo — respondeu Myra, subitamente mais viva. — Está sob os cuidados de uma excelente tutora.

— Isso é ótimo. E seu... marido?

— Wes está numa clínica para alcóolatras... a oitava.

— Sinto muito.

— Não, não sente. Sempre foi um péssimo mentiroso.

Vic sentiu-se incomodado.

— Bem... É melhor eu ir.

Deram-se novamente as mãos. Desta vez, o aperto durou mais tempo.

— Vic, tenha cuidado. Johnson não é dado a brincadeiras.

— Você me conhece.

Myra observou da janela o homem que um dia amou partir no dia chuvoso.

— Eu o conheço, Vic Sage. É por isso que tenho medo.

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