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Questão # 05

Por Fernando Lopes

Fechando o Cerco

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— A polícia apreendeu hoje um carregamento de armas e drogas avaliado em US$ 1,5 milhão, numa casa abandonada em Parson Acres, no subúrbio. O bairro, fechado há cerca de dois anos por causa da contaminação do solo por lixo tóxico, vinha servindo de esconderijo para a quadrilha de traficantes. Esta é a terceira grande apreensão de drogas e armas só esta semana. Como das outras vezes, um telefonema anônimo informou o esconderijo dos bandidos à polícia.

Vic Sage sorriu interiormente ao ler as palavras que corriam no teleprompter. Afinal, o "anônimo" informante não era ninguém menos do que ele próprio.

Por enquanto, a estratégia de Sage para derrubar Sam Johnson, o principal chefão de Hub City, corria conforme o planejado. A idéia era simples: causar o maior prejuízo possível a Johnson, de modo a deixá-lo frágil, para só então atacar diretamente. As três apreensões já tinham custado ao criminoso mais ou menos uns US$ 2,8 milhões. "O suficiente para deixá-lo irritado", pensou Vic, satisfeito. "Só queria ver a cara do velho agora."

Perdido em seus planos, Sage não percebeu que outra moça viera trazer o café. Estava ocupado demais para perceber que Consuela Rodriguez não viera trabalhar. Só mais tarde ele se daria conta disso...

— Alguém quer me derrubar, Morton. E eu preciso descobrir quem.

Sam Johnson observava o neto brincar no jardim enquanto falava. O cenho franzido acentuava o efeito do tom soturno em sua voz.

— O que temos?

— Pouco, senhor. — retrucou Morton, disfarçando o nervosismo — Os bolivianos estão desconfiados e querem receber antes de voltar a negociar. Perdemos muito poder de fogo, já que a polícia apreendeu nossas armas antes que pudéssemos repassá-las aos homens. Há rumores de que a Máfia estaria recrutando gente nossa, mas nada concreto.

— Alguma idéia de como as informações estão chegando à polícia?

— Só... boatos, senhor.

— Que tipo de boatos?

— Nada que faça muito sentido... Parece que um sujeito tem feito perguntas... Três dos nossos foram parar no hospital com várias fraturas, dois outros saíram da cidade...

— Um sujeito? Que sujeito? Tira? Federal? Que porra de sujeito? — Johnson socou a mesa, visivelmente furioso.

— É aí que está o problema, senhor... — Morton tentava escolher as palavras da melhor forma possível — Ninguém sabe. Só se sabe que parece ser um sujeito sem... rosto.

— Como? — Johnson estranhou a definição — Como assim, sem rosto? Quer dizer que não é gente daqui?

— Não, senhor. — Morton esperava o próximo rompante — Quero dizer sem rosto, mesmo. Literalmente.
Johnson voltou-se para a janela. Aquela era uma informação importante, embora a imbecilidade de Morton não o deixasse ver. Um homem sem rosto? Alguém já tinha lhe falado sobre um homem assim há algum tempo, mas não conseguia lembrar quem. Subitamente, um nome lhe veio à cabeça: reverendo Hatch, o louco que praticamente comandou Hub City há alguns anos. Tiveram negócios juntos. Fora ele quem mencionara ter removido um certo "empecilho sem rosto" do caminho. Hatch estava morto e, ao que tudo indicava, seu "empecilho" não havia sido removido direito. Ele até mencionara o nome...

— Questão...

— Pois não, senhor?

— Cale a boca, Morton. Seja útil e me diga como andam as coisas com o projeto de zoneamento.

— Tudo certo, senhor. — O empregado sentiu-se feliz em finalmente poder dar uma boa notícia — O parecer técnico já foi emitido e o projeto vai agora para o Conselho, onde nossa maioria é garantida. Depois, bastará a sanção da prefeita.

— Ótimo. Isso...

— Vovô!

Johnson foi interrompido pelos gritos do pequeno Timmy, que invadia seu escritório com um sorriso.

— Olá, meu príncipe. Vovô já fala com você. — disse Johnson, voltando-se para Morton em seguida — Quero resultados. Logo.

— Sim, senhor.

Johnson começou a brincar com o neto, mas não conseguiu focar sua atenção. O nome martelava em sua mente. "Questão... Mas quem diabos é você"?

No cemitério, Sage olhava para a sepultura praticamente abandonada. O nome de Jerry Wilson parecia encará-lo de volta.

— Johnson tirou tudo de você, amigo velho. Emprego, casamento, dignidade... vida. Eu vou dar o troco.

— E vai valer a pena?

— Quem é você? — perguntou Sage, assustado com a chegada silenciosa do estranho — Quer me matar do coração?

— Ninguém importante. — respondeu o forasteiro de terno preto, camisa branca de gola alta, chapéu, sobretudo e um grande medalhão pendurado no peito — Não pude deixar de ouvir o que dizia.

— Pois você é um bocado intrometido, se quer saber minha opinião...

— Talvez. Mas tenho uma questão para você: é mais importante vingar os mortos ou cuidar dos vivos?

— Não sei do que você está falando, esquisito. Eu vim aqui visitar o túmulo de um amigo... — Sage virou-se para a lápide por um segundo — ... e você aparece e...

Não havia mais ninguém com ele. Vic estava sozinho. "Estou pirando", pensou. "Definitivamente, estou precisando de férias..." Saiu do cemitério com a nítida sensação de que era observado e apressou o passo. À distância, o Vingador Fantasma acompanhava o repórter com os olhos, rezando para que seu aviso tivesse surtido efeito.

O promotor Robert Gallagher saiu do fórum absorto em suas próprias idéias. Pensava numa forma de ligar os nomes dos traficantes presos ao crime organizado, mesmo sabendo que isso poderia lhe custar o cargo ou algo pior. Se, porém, não fizesse nada, perderia a melhor chance de sua carreira de concorrer ao governo do Estado nas próximas eleições. Dirigia há uns cinco minutos quando, pelo retrovisor, viu o homem sem rosto que o observava no banco de trás. Soltou um grito de puro pavor.

— Olá, senhor Gallagher. Precisamos conversar.

— Q-quem é você? O que quer? E-eu não tenho dinheiro!

— Não seja ridículo. — disparou o Questão, chegando para frente — Continue dirigindo. Vim lhe propor um negócio.

— Q-que tipo de negócio?

— Do tipo que pode alavancar sua carreira política.

— Como assim? — a conversa subitamente tornara-se interessante.

— Vou lhe entregar provas definitivas ligando Samuel Johnson ao tráfico de drogas, armas e outras sujeiras. Material irrefutável. Interessado?

— Talvez. Precisa ser coisa muito boa para colocar o Negociador na cadeia. Ele tem quase todo mundo no bolso...

— Inclusive você?

— É evidente que não! — Gallagher fez ares de ofendido — Que espécie de homem...

— Do tipo que venderia a própria mãe para se eleger.

— Isso é um absur...

— Cale a boca, Gallagher. Diga apenas sim ou não. Temos um acordo?

O promotor pensou por alguns instantes.

— Se a coisa for quente como você diz, sim.

— Não se preocupe.

— Mas como eu vou... — disse Gallagher, parando no semáforo. A porta traseira estava aberta e o banco de trás, vazio.

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