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Questão # 06

Por Fernando Lopes

O Preço da Resposta

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Carl Morton entrou pensativo no banheiro do hotel. A noite com Sophia tinha sido péssima, mas a satisfação sexual da amante estava longe de ser sua maior preocupação. Entrou no banho pensando nos eventos das últimas semanas. Desde que se tornara o braço direito do chefão Sam Johnson, há 17 anos, nunca tinha visto a situação tão fora de controle. O velho sempre soubera jogar suas cartas, tirar proveito de situações adversas. Não era chamado de Negociador à toa. Os anos de atuação no submundo lhe renderam o controle sobre a maioria das autoridades de Hub City. Um forte esquema de corrupção, sustentado principalmente por suborno e chantagem de membros das mais variadas esferas de poder, haviam transformado Johnson em um intocável. Até hoje. Até uma ameaça sem rosto ameaçar o império do velho chefe.

Morton jamais tinha ouvido falar no tal Questão, mas Johnson atribuía ao vigilante a responsabilidade pela seqüência de perdas sofridas por sua organização nos dias anteriores. O enfraquecimento na estrutura de poder levou as máfias chinesa e italiana a ganhar terreno. Fornecedores suspenderam a remessa de drogas e armas e focos internos de insurreição começam a ganhar corpo. Mas afinal, quem é o tal Questão? Onde ele consegue informações? Como um único homem conseguiu fazer tanto estrago? E a pergunta principal: seria a hora de saltar do navio e salvar a própria pele?

Tais pensamentos ocupavam a cabeça de Morton quando a porta acrílica do box abriu-se violentamente. Uma mão enluvada agarrou seu pescoço, lançando-o com força contra a parede fria. Sua cabeça girou com a dor provocada pelo impacto. Seus pés escorregavam no chão molhado. Manteve a consciência por tempo suficiente para ver a mão do sujeito de sobretudo azul vindo em direção ao seu nariz. E para perceber que seu agressor era um homem sem rosto.

Acordou sentindo um frio intenso. Tentou inutilmente levantar-se. Estava amarrado com as mãos e pés para trás, ainda nu, na varanda do quarto. Pelas grades, viu a cidade 18 andares abaixo. Sentiu medo. Olhou para dentro e viu o Questão sentado em uma cadeira, aparentemente olhando em sua direção. O nariz, inchado, doía terrivelmente. Tentou entender o que acontecia:

— Quem é você? O que quer?

— Quem eu sou não importa. Quanto ao que quero... bem, digamos que quero propor um negócio.

— Você é louco, seu filho da puta? Você invade meu quarto, me agride e diz que quer propor um negócio? Quando eu sair daqui eu vou arrancar sua língua pelo rabo!

— E de onde você tirou a idéia de que vai sair daqui?

Morton sentiu-se subitamente mais gelado do que já estava.

— Deixa de palhaçada, cara, e me tira daqui. Você não sabe com quem tá se metendo!

— Sim, eu sei — respondeu o estranho — Com o capacho de Sam Johnson. Aliás, é por isso que estou aqui.

Um súbito lampejo de inspiração lhe forneceu a resposta.

— Você é o sujeito que anda bagunçando as nossas operações! O tal Questão!

— Como eu disse, isso não importa. A pergunta é: está disposto a negociar?

— Negociar o quê, seu escroto? Quando eu te pegar, não vai sobrar nada para negociar!

— Resposta errada.

O Questão levantou-se da cadeira e caminhou na direção de Morton, que se debatia como um porco. Agarrou-o pelos pés e caminhou para a borda da varanda.

— Peraí, cara, o que você vai fazer? O que você vai fazer? Pára com isso, pelamordedeus!

Como se não ouvisse, o vigilante ergueu os 83 quilos do corpo de Morton acima da cabeça. O criminoso sentiu como se o vento fosse o próprio sopro gelado da morte.

— Pára, pára, eu faço o que você quiser! — gritou Morton, apavorado.

Por baixo da máscara, Vic Sage sorriu. Virou-se na direção do quarto e arremessou seu refém no chão.

— Agora você está agindo como um homem sensato. Eis o que você vai fazer...

— ... deixou surpresa a opinião pública. Carl Morton era secretário do chefe do Conselho Municipal, Sam Johnson, há 17 anos. Suas denúncias ao promotor Robert Gallagher podem não só acabar com a carreira política de Johnson, mas mandá-lo para a cadeia pelo resto da vida. Morton, que entrou para o Programa de Proteção para Testemunhas, afirma ter provas ligando o chefe do Conselho ao tráfico de armas e de drogas, contrabando, extorsão e homicídios. Entre os acusados estão também...

Sage lia o texto com sóbria satisfação. Era chegada a hora de conversar com o senhor Johnson pessoalmente.

Naquela noite, Sam Johnson analisava alguns documentos em seu escritório. Parou quando o homem alto, usando sobretudo azul e chapéu, entrou no aposento.

— Ah, então é você... — Sam não parecia surpreso ao ver o Questão surgir das sombras — Imaginei que viria.

— Chegou a hora de encarar a Justiça, Johnson.

— Ouvi dizer que ela era cega, não sem rosto.

— A Justiça tem muitas faces...

— Se você me disser que ela pode enxergar no escuro, vou vomitar...

Havia alguma coisa muito errada. O velho estava calmo demais para alguém encurralado. Por baixo da máscara, Sage tentava entender que espécie de jogo ele estaria fazendo, que carta escondia na manga.

— Numa coisa você está certo: chegou a hora de encararmos nossos destinos, senhor... Questão, não é? Ou posso chamá-lo de... Vic?

Um calafrio percorreu a espinha do vigilante. Talvez a partida não estivesse ganha, afinal. Permaneceu em silêncio, esperando o próximo movimento do adversário.

— Deve estar se perguntando como descobri seu pequeno segredinho. Não foi tão difícil. Vocês, mascarados, têm a tola pretensão de manter suas vidinhas medíocres fora do alcance das conseqüências de suas escapulidas noturnas. Como se isso fosse possível... Fiquei sabendo de sua existência há alguns anos, por intermédio de um... "amigo" comum. Lembra-se do reverendo Hatch?

"O filho da puta deve estar rindo no inferno, a essa altura", pensa Sage.

— Ele me disse que tinha se livrado de um certo "empecilho sem rosto" anos atrás. Na mesma época, Vic Sage sumiu sem deixar rastro por um ano. Quando voltou, o Questão reapareceu, apenas para desaparecer novamente pouco tempo depois, quando o mesmo senhor Sage deixou a cidade. Nos dois anos seguintes, alguns amigos ouviram rumores de aparições esporádicas de um vigilante sem rosto em várias cidades do país, por onde o senhor, coincidentemente, passou. Então o Questão ressurge em Hub City na mesma época que você. Não é preciso ser um grande gênio para fazer a conexão.

Sage permaneceu em silêncio.

— Nem um elogio? Ou uma piadinha? Um comentário espirituoso, talvez? Pensei que todos vocês, heróis, fizessem dessas coisas...

— Está acabado, Johnson. Nada do que faça ou diga vai livrá-lo da cadeia. Onde espera chegar com esta palhaçada?

— Sim, senhor Sage, está acabado. Mas não da maneira que imagina.

— O que quer dizer?

— Antes de lhe explicar, uma dúvida: por que eu? O que o levou a se voltar contra mim?

Vic pensou em seu amigo Jerry Wilson, mas conteve-se.

— Você é um câncer para esta cidade, Johnson. Corrompe tudo o que toca. Já era hora de alguém enfrentá-lo.

— Curiosa escolha de palavras... Sabe, senhor Sage, há algum tempo descobri que tenho um tumor no cérebro. Inoperável. Deve me mandar para o inferno em menos de um mês, se os médicos estiverem certos. E não há nada que eu possa fazer. Não posso subornar, chantagear ou matar ninguém. O mal que me consome vem de dentro de meu próprio corpo. Há dois anos meu filho e a esposa morreram em um acidente de automóvel. Pista escorregadia. Mais uma vez, ninguém para culpar, para espancar, para ferir. O único a sobreviver foi o pequeno Timothy, meu neto.

O Questão acompanhava com curiosidade a narrativa, procurando entender onde Johnson queria chegar.

— Quando eu morrer, este garoto estará só no mundo. Ele está começando, enquanto eu estou no fim. Decidi então que ele deveria ter um começo melhor do que o meu. Transferi todos os meus imóveis e negócios legais para ele quando seus pais morreram, e empenhei-me para aumentar meu patrimônio.

— Por isso a insistência na nova lei de zoneamento?

— Isso mesmo. Quando for aprovado, ele vai triplicar o valor dos imóveis de meu neto. E ainda vai ajudar a cidade, acredite ou não. É um bom projeto.

— Por que está me contando tudo isso?

— Ora, pensei que fosse óbvio, senhor Sage — Johnson levantou a pistola que mantinha apontada para o Questão desde o início da conversa — Não é isso o que todo vilão faz ante de matar o herói?

Sage calculou a distância e o que teria de fazer para desarmar Johnson sem ganhar um buraco em sua máscara. Tinha neutralizado os guarda-costas e achou que o velho estaria desarmado. Errou. Se cometesse um novo erro, seria o último. Nesse momento, o acaso interveio em seu favor, trazendo o pequeno Timmy até o escritório.

— Vovô, o que você está fazendo?

— Timmy, saia já daqui! — gritou Johnson, esquecendo o Questão momentaneamente.

Aproveitando a distração, Sage saltou na direção do oponente, desarmando-o com um chute. A pistola descreveu uma curva no ar e bateu no solo, disparando acidentalmente. Tanto Sage quanto Johnson ficaram estáticos ao ver o sangue brotar do peito do garoto.

— Não!

— Timmy!

Os dois homens correram na direção do menino, que respirava com dificuldade.

— Seu maldito! Você matou meu neto!

— Não me culpe por seus erros, Johnson. Chame uma ambulância, agora!

— Eu vou matar você, vou matar você!

Johnson correu para a pistola e apontou-a para o Questão, que carregava o garoto em seus braços.

— Vamos, termine o serviço! O que é a vida de seu neto além de mais uma entre as incontáveis que você arruinou?

A pistola tremia nas mãos de Johnson. Lentamente, ele abaixou a arma. Os anos e a culpa pareciam pesar toneladas sobre seus ombros.

— Por favor, salve meu neto.

Sage saiu correndo com a criança nos braços, em busca de um carro na garagem. Sozinho, Johnson sentiu uma crescente angústia corroer suas entranhas. A imagem da criança ensangüentada não saía de sua mente. A arma pesava em suas mãos. Ajoelhou-se junto à poça de sangue, com ar distante. Molhou o dedo no líquido viscoso e escreveu algo no assoalho. Em seguida, colocou a pistola na boca e puxou o gatilho.

Quando os policiais chegaram na casa, encontraram o corpo de Johnson estirado no chão. Ao seu lado, no piso, as palavras "perdoe-me".

— O corpo do chefe do Conselho Municipal, Samuel Johnson, foi encontrado na noite de ontem no escritório de sua casa. Aparentemente, Johnson suicidou-se com um tiro na boca. Cerca de meia hora antes da chegada da polícia, o neto do empresário, Timothy Johnson, deu entrada no Hospital Geral de Hub City com um ferimento a bala no peito. O menino foi levado ao hospital por um desconhecido, que sumiu em seguida. Após uma operação de emergência que durou seis horas, os médicos conseguiram salvar a vida do menino, que passa bem. Sam Johnson vinha sendo investigado por...

Sage lia as palavras mecanicamente, como se estivesse fora do próprio corpo. Deixou a emissora após o jornal e foi ao cemitério. A lápide de Jerry Wilson permanecia exatamente no mesmo lugar, sob a chuva, tão abandonada quanto em sua visita anterior. Se Vic esperava algum contentamento ao vingar a morte do amigo, não conseguiu. Em vez disso, tinha um pedra de gelo no peito.

— Encontrou o que procurava? — perguntou o estranho de preto, que mais uma vez pareceu surgir do nada ao seu lado.

— Sim.

— E valeu a pena?

— Não.

— Você é um homem valoroso, Vic Sage, mas luta pelos motivos errados.

— E existem motivos certos?

— Essa, meu caro, é uma questão que só você pode responder.

Sage olhou novamente para a lápide. Quando se voltou, o estranho tinha desaparecido. Desta vez, porém, o repórter não deu importância ao desaparecimento do Vingador Fantasma. Apenas ergueu a gola do sobretudo e partiu, ciente de que sua busca por respostas está longe de acabar.

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