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Questão # 08

Por Fernando Lopes

Escolhas

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— Hmm... Isso parece doloroso.

— De onde você tirou essa idéia?

Rodor torceu a boca num arremedo de sorriso. Os anos de convivência fizeram com que ele se acostumasse ao humor cínico do homem que, sentado no chão, colocava os pés na parte de trás do pescoço. De toda a extenuante rotina de exercícios de seu amigo Vic Sage, os de flexibilidade eram os mais difíceis de observar. Sempre lhe davam a impressão de que algum osso ou tendão se partiria irremediavelmente. Tentou atenuar o mal-estar puxando assunto.

— Vi que andou "se exercitando" ontem à noite também. Quer falar sobre isso?

— Não há o que dizer... Um pobre diabo desesperado e bêbado estrangulou a mulher. Eu o prendi. Eu o espanquei, também. Não necessariamente nessa ordem.

— Sentiu-se melhor?

— Sim. Não. Talvez. Quem se importa? Os mortos permanecem mortos, não importa o que se faça.

— E você acha que poderia ter evitado isso.

— Eu não "acho". Eu poderia. Os sinais eram evidentes. Acontece todos os dias. Eu sabia como ia acabar e, mesmo assim, deixei acontecer. Estava ocupado demais na minha guerrinha pessoal com Sam Johnson

— Sage deitou-se de bruços e torceu o corpo até que seus pés tocassem o chão ao lado de sua cabeça. Rodor desviou os olhos e passou a olhar uma revista ao acaso.

— Não acha que ela mesma poderia ter chegado a essa conclusão? Até que ponto não foi vítima de si mesma? Pelo que você me contou, ela apanhava do marido há um bom tempo. Você a avisou.

— Não foi o bastante. Provavelmente ela acreditava que as coisas iriam melhorar.

— E não é o que fazemos sempre?

— Algumas pessoas -Sage levantou-se, amargo — precisam ser salvas da própria fé.

— Você não pode salvar a todos, Vic. Ninguém pode. Além do mais, como salvar quem não quer ser salvo?

— Eis uma boa questão, Tot.

Duas horas mais tarde, nos estúdios da KBEL, Sage trabalhava numa das matérias da edição da noite. Seu amigo e gerente da emissora, Richard Cameron, entrou na sala de edição.

— Olá, Vic. Soube do que aconteceu com Consuela?

— Sim, eu soube — Sage sentia a cabeça doer — Triste, não?

— Se é. Coitada... Bom, é a vida. Ocupado?

— Não muito. Já estou no fim. Precisa de alguma coisa?

— A prefeita vai dar uma coletiva. Está a fim de cobrir?

— Tudo bem. — Vic pensou em Myra Connely, sua ex-amante e atual chefe do Executivo de Hub City — O que você não me pede rindo que eu não faço chorando?

— ... e isso é tudo, senhores. Obrigado pela presença.

Vic esperou o burburinho tradicional que marca o fim de toda entrevista coletiva terminar para entrevistar Myra em particular. Cortesia entre jornalistas e ex-amantes. Fez as perguntas no tom incisivo de sempre, recebeu as respostas mais honestas que a situação permitia. Tudo muito profissional. Terminada a gravação, despachou o cameraman de volta para a emissora e disse que iria em seguida.

— Toma um café? — perguntou Sage.

— Vamos ao meu gabinete. Sei quanto ganha um repórter. Às vezes, não dá nem para o café... — Myra sorriu. Estava linda como sempre.

Esperaram a copeira deixar a sala depois de servir o café. Vic afastou a lembrança de Consuela Rodriguez estirada no chão de seu apartamento.

— Aconteceu alguma coisa? — Myra percebeu a inquietação no rosto de Sage.

— Nada importante... Como vão as coisas?

— Tão bem quanto poderiam estar... Você é que não me parece muito bem.

— Tão visível assim?

— Eu te conheço... E não é de hoje.

Myra parou de falar, subitamente constrangida. Sage olhou para a mulher à sua frente. Um dia eles dividiram a mesma cama, até que a "morte" os separou. Viram o melhor e o pior um do outro. Hoje, estavam sentados frente à frente. Uma muralha intransponível chamada vida os separara.

— É, não é de hoje.

— Não quero falar sobre isso. Não devia ter tocado nesse assunto.

— Algum dia teremos de encarar isso. Não se pode fugir da vida.

— Quem disse? — ela o encarou com olhos tristes.

— Questão interessante... Tenho pensado nisso ultimamente. Resolvi rever minhas prioridades, repensar as coisas. Andei fazendo... escolhas das quais me arrependi. Fico pensando se não seria a hora de mudar de rumo.

— De escolhas erradas eu entendo. Às vezes não dá para voltar atrás...

Embora ela não soubesse, Vic entendia o subtexto da frase. Anos atrás, Myra Connely matara um homem. Talvez um dos mais sujos e sórdidos lunáticos a passarem pela Terra mas, ainda assim, outro ser humano. Sob a máscara do Questão, Sage assistiu quando ela traspassou o corpo do reverendo Hatch com uma faca, em um momento de fúria contra o canalha que ameaçou sacrificar sua filha num ataque de loucura. Ela fez o que ele mesmo se recusou a fazer. Escolhas. Fáceis ou difíceis, temos de conviver com elas.

— Certas decisões não têm retorno. Outras, podem ser revistas.

— Talvez. Mas não hoje. Não aqui. Não agora.

— Entendo. É hora de ir.

Despediram-se com um aperto de mãos. Seus olhos não se cruzaram. Uma questão para ser resolvida outro dia.

Naquela noite, depois do jornal, Sage decidiu ir mais uma vez ao apartamento do comissário Izzy O'Toole. Num beco escuro, liberou o gás que fixa a máscara de pele sintética em seu rosto e altera a cor de suas roupas e cabelo. Mais uma vez, Vic Sage deu lugar ao Questão.

— Estou começando a achar que você está apaixonado por mim. — O'Toole exibiu seu característico mau humor ao ver o vigilante sem rosto entrar. Não demonstrou surpresa, já que as visitas do Questão vinham se tornando freqüentes. — Ainda vou botar uma grade nessa janela.

— E privar-se do prazer de ver meu rosto? Duvido.

— Soube do seu "presentinho" para o Sorensen. Pensei que você só se preocupasse com peixes grandes como Johnson.

— Pensou errado. — Sage sentiu-se profundamente contrariado com o comentário.

— O que quer agora?

— Não sei bem... Estou pensando em pendurar o casaco...

— Algum motivo em especial?

— Nada específico... Apenas uma sensação de que as coisas não estão funcionando como deviam.

— Se quer saber, pra mim parece viadagem...

— Por quê? Pensei que gostaria da notícia. Vai poupar o dinheiro da grade.

— Você não tem graça nenhuma, se quer saber... O caso é que chega uma hora na vida em que a gente precisa escolher entre o que é e o que pode ser.

Sage entendia perfeitamente do que Isadore O'Toole estava falando. O homem à sua frente já fora o policial mais corrupto do mundo. Um dia, durante o maior tumulto da história da cidade, decidiu mudar de vida depois de ser salvo da morte pelo Questão. Acabou se tornando o policial mais honesto de Hub City e alcançando o cargo de comissário.

— Pensei que morreria antes de ver Izzy O'Toole filosofando.

— Filosofia é coisa de viado. Que nem essa tua súbita vontade de se aposentar. Puro charminho. Se você decidiu sair por aí batendo em bandido é porque achou que devia fazer isso. Mas se pensou que ia acertar sempre, só porque está supostamente do lado dos bonzinhos, tinha mais é que quebrar a cara mesmo. Se bem que, no seu caso...

— Pode ser. — O Questão parou alguns segundos e dirigiu-se novamente para a janela. — Talvez você esteja certo. Ou não. Mas que foi divertido vê-lo filosofando, isso foi.

"Viadagem", pensou O'Toole, enquanto fechava a janela.

O Questão preparava-se para livrar-se da máscara quando viu, à distância, um rosto conhecido. "Ora, vejam só quem está por aqui...", pensou. "Acho que vou ver como ele está passando."

Cinqüenta metros à frente, Ethan Rowlings caminhava distraidamente. Vinha cantarolando enquanto pensava em sua nova vida e em como as coisas tinham melhorado desde que deixara New Orleans, há pouco mais de dois meses.

— Ev'ry breath you take / Ev'ry more you make / Ev'ry bond you break / Ev'ry step you take...

— I'll be watching you.

Ethan virou-se para ver quem era o dono da voz abafada que interrompera a canção. Sentiu o sangue fugir de seu rosto. Seu coração disparou ao rever o homem sem rosto que quase o espancara meses antes, em New Orleans.

— Como vai, Ethan?

— Peraí-cara-pelamordedeus-eu-tô-limpo...

— Se está, então não tem do que ter medo.

— Cara, juro por tudo que é mais sagrado. Como é que você me achou aqui?

— Eu sei de tudo, Ethan. — Sage divertia-se com a situação inusitada que o acaso lhe proporcionara.

— Bom, então deve saber que eu estou do lado certo agora... Na verdade, eu queria mesmo te achar outra vez.

— Sério?

— É... — Rowlings parecia constrangido — Estive pensando no que você me falou naquele dia. Sobre morrer e tal... E cheguei à conclusão de que talvez você estivesse certo.

A resposta surpreendeu o Questão. Não esperava que a prensa surtisse algum efeito em Rowlings. Normalmente não resolvia nada.

— Depois daquele dia, passei a prestar mais atenção nas coisas. Millie, as crianças... Acho que passei a valorizar mais o que tinha conseguido na vida. Peguei o que tinha e me mudei para cá. Ouvi dizer que a cidade estava melhorando e pensei que talvez fosse a oportunidade perfeita para recomeçar. Arranjei uma vaga de corretor de ações num grande escritório e tenho me virado bem. Até voltei a freqüentar a igreja! Bom, resumindo, eu queria te agradecer.

— Fico feliz que tenha feito a escolha certa, Ethan. — Sage sentia-se um pouco confuso com tudo aquilo. — Espero que continue assim.

— Ah, claro, pode deixar. E agradeça ao seu chefe por mim.

— Chefe?

— Claro! Você não é meu anjo da guarda?

Sage controlou uma súbita vontade de gargalhar.

— Adeus, Ethan. Cuide-se. E lembre-se: eu estarei de olho.

Aristotle Rodor percebeu o ar menos preocupado de Vic quando ele chegou em casa.

— E então, Vic? Como foi o dia?

— Interessante, Tot. Um dia muito... interessante.

— O que aconteceu?

— Digamos que eu resolvi uma questão em aberto. — disse Vic, pegando o sax.

Rodor não entendeu nada, mas evitou novas perguntas. Limitou-se a ouvir o amigo tirar Every Breath You Take no saxofone, satisfeito em vê-lo feliz.

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