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Questão # 09

Por Fernando Lopes

Sonhos Desfeitos

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Quando tinha cinco anos, durante o jantar, Martin Jones perguntou a seu pai por que lhe dera esse nome.

— É uma homenagem. — respondeu o motorista Norman Jones, feliz com a curiosidade do filho — Um tributo a um grande homem.

— Quem, papai?

— Um pastor chamado Martin Luther King Jr.

— E ele era muito grande?

— Era, mas não do jeito que você está pensando. — a ingenuidade da pergunta trouxe um sorriso ao rosto de Norman — Ele era grande porque era um sonhador.

— Um sonhador? E ele sonhava com o quê?

— Com igualdade, filho. Sonhava com um mundo melhor. Um mundo onde as pessoas fossem julgadas pelo que fazem e não pela cor de sua pele. Ele sonhava com a paz.

— E onde ele está agora?

— Ele... ele morreu, filho. — uma expressão melancólica substituiu o sorriso na face de Norman Jones — Foi assassinado no dia em que você nasceu.

— E quem o matou?

— A intolerância, meu querido... a intolerância.

Uma profunda tristeza se abateu sobre Norman ao lembrar daquele 4 de abril. Toda a felicidade pelo nascimento de seu terceiro filho — o primeiro varão, para enfim dar continuidade à linhagem dos Jones — foi maculada pela notícia do assassinato de seu ídolo. Um homem que ousou lutar contra o preconceito e a injustiça tendo como arma a razão e a não-violência. Anos antes, em agosto de 1963, Norman assistira ao discurso de Martin Luther King em Washington. Ficou maravilhado com a força das palavras daquele homem que ousava desafiar séculos de preconceito e segregação.

— Ô, pai! — o chamado impaciente do pequeno Martin trouxe-o de volta à realidade — Tô falando com você!

— Desculpe, filho, papai estava distraído. O que você perguntou?

— Do sonho, pai. Ele se realizou?

Norman olhou para o apartamento pequeno e espartanamente mobiliado onde vivia com a esposa e os filhos, no bairro do Bronx, em Nova Iorque, antes de responder. Pensou nos sete anos de trabalho sem uma única promoção e no olhar desdenhoso dos brancos quando ele passava com a família pela porta dos locais freqüentados pelos ricos. Por fim, procurou palavras que não trouxessem amargura ao garoto de cinco anos.

— O sonho vive para sempre, Martin, enquanto alguém acreditar nele.

Aos 12 anos, Martin Jones descobriu o lado sombrio do sonho americano. Voltava da escola com alguns amigos quando o grupo foi parado por um carro policial. Os guardas desceram da viatura com as armas em punho, gritando:

— No chão, moleques!

— Desculpe, eu não...

— No chão! Tá surdo?

Constrangidos, os garotos foram submetidos a uma rigorosa revista. Os policiais abriram suas mochilas e jogaram os materiais no chão. Deixaram-nos naquela posição humilhante, sobre a calçada imunda, por 10 minutos. Por fim, mandaram-nos juntar as coisas e sumir. Martin estava indignado.

— Isso não está certo... — disse, em voz baixa.

— O que você falou, moleque? — um dos policiais voltou-se em sua direção, o rosto crispado de ódio — Tá achando ruim, é?

— Eu só disse...

A frase foi interrompida por uma bofetada.

— E quem mandou você dizer alguma coisa, negro? — o policial estava com o rosto vermelho — Quem disse que você tem o direito de dizer alguma coisa?

— Vamos embora, Ed. Deixa o garoto.

— Não, ele precisa aprender desde cedo. — o homem estava transtornado — Escuta aqui, pirralho, e escuta com atenção: quando um branco lhe disser "pule", a única coisa que você pode responder é "a que altura, senhor?" Tá me entendendo?

Martin permaneceu em silêncio. Sim, a mensagem tinha sido bem clara. Naquele dia, Martin Jones percebeu que o sonho de igualdade em que seu pai acreditava estava muito longe da realidade. Chegou em casa chorando, mais de ódio que de dor. Seu rosto estava inchado. O pai o viu entrar transtornado e procurou saber o que tinha acontecido. O relato deixou Norman furioso.

— Isso não vai ficar assim. Venha comigo.

Pai e filho foram ao distrito policial, prestar queixa da agressão. Esperaram cinco horas para serem atendidos. Foram dispensados em dois minutos e meio, com a promessa de serem chamados para prestar novo depoimento. Nunca foram. Martin jamais esqueceu aquele dia.

Diferente de muitos de seus amigos, que optaram pela saída fácil do crime, Martin Jones decidiu lutar pelo sonho de seu pai na arena dos brancos. Com o apoio de uma fundação privada, obteve uma bolsa de estudos para estudar em Harvard. Formou-se em Direito, com distinção. Começou a atuar na Defensoria Pública, auxiliando pessoas carentes, principalmente negros, em ações de violação de direitos civis. Ganhou prestígio junto à comunidade afro-americana de Nova Iorque, e passou a escrever uma coluna semanal para o Clarim Diário, denunciando abusos e pregando a igualdade. Norman Jones tinha orgulho de seu filho.

Por uma ironia do destino, Martin foi chamado a defender um homem numa ação de racismo e agressão contra um policial. Preso a uma cadeira de rodas, ele alegava ter sido violentamente espancado pelo oficial, a ponto de perder o movimento das pernas. Para surpresa do advogado, o acusado era ninguém menos do que Edward Morris, o mesmo policial que, anos antes, o esbofeteara. Com satisfação, Martin viu seu agressor ser condenado à prisão. A justiça tinha sido feita, afinal.

Três meses depois, Morris escapou da cadeia. Norman Jones foi atropelado e morto na semana seguinte, perto de sua casa. Segundo testemunhas, um homem branco dirigindo um automóvel sem placas acelerou no momento em que o velho Norman atravessava a rua. O assassino nunca foi pego.

Após a morte de seu pai, Martin Jones decidiu recomeçar a vida em Hub City, Illinois. Casou-se e passou a morar com a esposa e o filho em um bairro de classe média. Sua carreira progrediu e ele novamente ganhou destaque na comunidade. Pretendia se candidatar a um cargo público. Com o tempo, talvez chegasse ao Governo do Estado, ou mesmo ao Senado, ou até... Bem, quem poderia saber?

Norman Martin Jones nunca teve oportunidade de perguntar a seu pai o porque dele ter aquele nome. Nunca pôde soube nada sobre Martin Luther King ou sobre a admiração que seu avô tinha por ele. O garoto pouco viu do mundo. Aos dois anos, foi assassinado com um tiro de espingarda calibre 12. Sua mãe, Irene, foi violentada por 15 homens antes de ser espancada até a morte. Martin Jones assistiu a tudo isso antes de ser enforcado no grande carvalho diante de sua própria casa. Vic Sage observava o corpo pendurado pelo pescoço, o horror estampado no rosto enrijecido. O brilho da enorme cruz de madeira em chamas conferia ao cadáver aparência ainda mais dantesca. A polícia tentava afastar os curiosos, ao mesmo tempo fascinados e nauseados com o terrível espetáculo.

— Esta é a terceira chacina, comissário. — Vic quase enfiou o microfone no nariz de Izzy O'Toole — O que a polícia está fazendo para deter esses maníacos?

— Tudo ao nosso alcance, senhor Sage. Agora, tire esta merda da minha frente antes que eu enfie ele no seu...

— É verdade que vocês ainda não têm nenhuma pista de quem são os integrantes da Supremacia Ariana?

— Será que dá para alguém tirar esse puto daqui? — O'Toole estava a ponto de explodir — Quero todo mundo atrás da linha, porra!

Dois policiais levaram Sage e o cameraman para trás do cordão de isolamento. O repórter não conseguia tirar o olho do cadáver que balançava ao vento. As perguntas martelavam em sua cabeça. "Quem são eles? Como podem fazer isso?" Sentia um nó formar-se em seu estômago. "Quem quer que seja o responsável, já foi longe demais. E não vai sair impune."

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