hyperfan  
 

Questão # 11

Por Fernando Lopes

Justiça Divina

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
:: Próxima Edição
:: Voltar a Questão
::
Outros Títulos

Trevas. Silêncio. O Questão flutua no negro e plácido oceano da inconsciência. Sua mente retorna ao passado, às montanhas do Sul. As palavras de seu mestre, Richard Dragon, dançam em sua mente como folhas ao vento. "Não há outra forma de resistir à dor senão aceitando-a. Abrace sua dor. Não resista. Sinta-a fluir pelo seu corpo. Metabolize-a. Transforme-a em força. Quem extrai sua força da dor não pode ser derrotado".

Subitamente, um balde de água gelada se encarrega de devolver a consciência a Vic Sage de forma abrupta. Ele instintivamente tenta se levantar da cadeira, mas não consegue. Com suas mãos e pés amarrados, tudo o que pode mexer é a cabeça. Uma dor aguda do lado direito do tronco revela ao menos uma costela quebrada. Talvez duas. À sua frente, Stewart Moore observa-o com mórbida curiosidade. Atrás dele, os outros membros da Supremacia Ariana também permanecem com o olhar fixo em sua direção.

— Um disfarce realmente engenhoso. Ou isso ou você é a aberração mais escrota que já conheci, homem sem rosto.

— É parte do meu charme.

A ironia sai numa voz rouca e abafada através da máscara de pele sintética. Sage se lembra rapidamente do amigo Aristotle Rodor se gabando do quão eficiente é o gás binário que fixa o disfarce em seu rosto, ambos criados pelo próprio cientista. "Não sairá a menos que você queira", costuma destacar enfaticamente o professor. "Ou que arranquem sua cara junto. Uma perspectiva não muito animadora, diga-se de passagem."

— Vejo que nossa pequena... discussão não abalou seu senso de humor. — prossegue Moore com um sorriso cínico — Gosto disso.

— Me desamarre que eu canto e sapateio também. Na sua cara, se possível.

— Acho que não será desta vez... — o líder da Supremacia Ariana se levanta e começa a caminhar ao redor da cadeira — Você sabe que vai morrer, não?

— Todo mundo morre. Uns mais cedo, outros mais tarde, mas ninguém escapa.

— É um fato. No seu caso, a ser brevemente consumado.

— Talvez.

— Certamente. Por isso, permita-me matar minha curiosidade. Quem é você?

— Questão interessante.

O soco atinge violentamente o queixo de Sage, que absorve o golpe.

— Para um homem morto, você é realmente muito engraçadinho... Como nos encontrou?

— Páginas amarelas?

Um novo golpe, desta vez um chute no estômago, faz o vigilante sem rosto pensar que suas ironias talvez fossem melhor apreciadas por outra platéia, em outra ocasião.

— O que quer conosco?

— No momento, a única coisa que gostaria de fazer era limpar o chão com sua cara.

O Questão espera pelo novo golpe, que não vem. Em vez disso, Moore dá um sorriso e começa a falar.

— Conheço o seu tipo. Você se acha um herói. Pelo seu arroubo intempestivo — e pouco inteligente, se me permite dizer — você está a par de nossa... cruzada moral. E aparentemente não a aprova.

— Se você chama massacrar famílias inteiras de cruzada moral, não quero nem saber o que você chama de um barbárie...

— Pois eu vou lhe dizer o que considero barbárie. — Moore pára bem diante de seu prisioneiro, olhando fixamente para o lugar onde deveriam estar os olhos do Questão — Barbárie é entregar nosso país à escória que hoje infesta nossas ruas. Negros. Latinos. Mutantes. Escória! Um bando de chacais sem pátria, que invadem nossa sociedade buscando usufruir da prosperidade que nós, legítimos americanos, construímos. — o líder racista parece ser aos poucos possuído por um demônio. Sua voz se eleva e seus olhos parecem faiscar — Eles vêm com suas doenças, sua pobreza, sua lascívia, suas drogas, seu idioma e cultura abjetos, tentando se infiltrar em nossas famílias, nossas igrejas, na escola de nossos filhos. Trazem o crime e a miséria para dentro de nossas casas. Tomam bairros inteiros e exigem do governo mais e mais benefícios, sobrecarregando quem verdadeiramente trabalha com impostos abusivos. E fazem isso — esbraveja Moore, apontando o dedo acusatoriamente na direção de Sage — com a conivência de liberais de merda como você!

O ódio nas palavras do fanático não deixam dúvidas: o homem é louco. E perigoso. Do tipo capaz provocar um holocausto apenas para provar suas teorias doentias.

— E você acha que vai purificar o mundo com sua cruzada sangrenta?

— Sou um precursor da revolução que está por vir. A cada dia, mais pessoas se unem à nossa causa. Em breve, os verdadeiros americanos vão se levantar para devolver este país aos seus legítimos donos.

— Você não passa de um louco. — a voz do Questão soou ainda mais rouca do que o habitual.

— É o que dizem de todos os visionários. O tempo provará que tenho razão. Infelizmente, você não estará vivo para assistir.

Um golpe na cabeça deixa o vigilante sem rosto novamente desacordado. George Bannon, um dos membros do grupo racista, aproxima-se de Moore.

— O que faremos com ele?

— Já que ele se mostra tão solidário com as "minorias", receberá o mesmo tratamento que elas. Afinal, se você não faz parte da solução...

Os solavancos do veículo lentamente trazem o Questão de volta ao mundo dos vivos. A escuridão, porém, permanece. Com as mãos amarradas para trás, ele é levado no porta-malas de um carro para um destino desconhecido, mas certamente nada agradável. O impacto de seu corpo contra o fundo do carro a cada tranco o faz lembrar da costela quebrada. "Essa história de abraçar a dor é bem mais fácil quando não é com a gente", pensa, irritado. Seus pés agora estão desamarrados. Sinal de que pretendem fazê-lo andar. Valendo-se de sua elasticidade, ele passa as mãos por baixo do corpo, trazendo-as para frente. Minutos depois, o carro pára. Sage ouve o som de outros dois veículos estacionando. "Parece que vieram todos", deduz. "Vai ser mais complicado do que pensei."

O porta-malas é aberto por Bannon e Billy Ransom, que não têm tempo de se defender do chutes do Questão. O vigilante se aproveita do momento de confusão para tentar escapar, as mãos ainda atadas. Os carros estão numa clareira fora da cidade, às margens do Rio Hub. Sage corre para a mata, sendo perseguido pelos membros da Supremacia Ariana. O longo tempo amarrado e a dor nas costelas retardam seus movimentos até que ele é finalmente alcançado. Quatro homens se encarregam de prendê-lo até que Moore chegue. Seus pés são novamente amarrados

— Este foi um gesto desesperado, meu amigo sem rosto. Medo repentino da morte?

— Súbita vontade de ir ao banheiro.

Moore dá uma gargalhada.

— Espirituoso até o fim! Gosto disso! Vamos ver se consegue fazer piadas com isso aqui ao redor do pescoço.

O fanático balança a corda com o nó de forca diante do rosto do vigilante. Os demais membros riem e se preparam para o enforcamento. Um deles traz uma cadeira, enquanto outro se encarrega de prender a corda no galho de uma árvore, passando o laço ao redor do pescoço de Sage. Stewart Moore aproxima-se de sua vítima com um sorriso jocoso.

— Mais alguma frase de efeito? Um último pedido, talvez?

— Sim. — a voz do Questão soou grave e feroz — Queime!

— Você primeiro. — Moore abre um novo sorriso e chuta a cadeira.

O corpo de Sage precipita-se no vazio, parando abruptamente na ponta da corda. Ele sente o impacto, seguido da pressão em seu pescoço, impedindo-o de respirar. "Então, é assim que tudo termina", pensa o justiceiro, sentindo sua consciência se esvair.

A partir desse momento, as coisas passam a acontecer como um filme em câmera lenta para o Questão. No limiar da morte mais uma vez, como já estivera anteriormente, ele ouve uma voz poderosa e gutural, vinda de todos os lugares e de lugar nenhum. Os membros da Supremacia Ariana entreolham-se, surpresos.

— Monstros! Assassinos! Teus atos envergonham o Criador!

Incapaz de distinguir delírio de realidade, Vic Sage vê uma enorme figura pálida envolta num manto verde escuro materializar-se na clareira. Os fanáticos, atônitos, assistem à chegada do Espectro sem esboçar reação. A apavorante visão estende sua mão acusadora contra eles e prossegue sua sentença.

— Teu ódio queima com intensidade capaz de ofuscar o próprio inferno, afrontando toda a Criação. Teus atos estão além de qualquer redenção. Tuas infâmias despertaram a ira do Todo-Poderoso. Que a chama de teu ódio seja o símbolo de tua danação eterna!

Stewart Moore sente como se o próprio sol ardesse dentro de si. O calor aumenta rapidamente até que seu corpo e os dos demais membros da Supremacia Ariana explodem em chamas, transformando-os em piras incandescentes iluminando a noite. Sage ouve os gritos e sente o cheiro da carne queimada segundos antes de perder a consciência.

Horas mais tarde, o Questão emerge uma vez mais das trevas da inconsciência, mas não abre os olhos imediatamente. Ele ouve os ruídos da noite e sente o orvalho na grama sem abrir os olhos. Quando finalmente se levanta, vê o galho onde estava pendurado no chão, provavelmente partido por seu peso. Em sua mente confusa, atribui suas visões à proximidade da morte, que obviamente não veio. Provavelmente seus captores não ficaram esperando para vê-lo morrer e o acaso, uma vez mais, interveio em seu favor.

Só então Vic Sage olha para o lado e vê, estupefato, 20 corpos carbonizados espalhados pela clareira. Sua mente recusa-se a entender. "Então... foi real! Mas como? Quem?" As perguntas soam mais e mais absurdas à medida que ele pensa no assunto. Só então ele sente o peso dos ferimentos por todo o corpo. O cansaço e as dores suplantam a curiosidade, tornando as dúvidas irrelevantes. A justiça foi feita, aparentemente por um poder maior que o de qualquer tribunal mortal. Às vezes, nenhuma explicação é boa o suficiente para esclarecer os fatos. Talvez porque certos fatos só sejam compreensíveis para uma lógica superior.

Em sua cama de casal, Liz Bannon espera pacientemente pela volta de seu marido George. "Curioso", pensa, intrigada, "ele não costuma demorar tanto. Será que aconteceu alguma coisa?"

:: Notas do Autor



 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.