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Questão # 12

Por Fernando Lopes

New York, New York

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— É sempre assim?

— O trânsito? — responde o taxista, com forte sotaque brasileiro — Todo dia, mas hoje tá pior. Deve ter alguma encrenca lá pros lados da 5ª Avenida.

— Como você sabe?

— Sempre tem. — o taxista dá um sorriso — Afinal, isto é Nova Iorque.

Vic Sage recosta-se, contrariado, no banco traseiro do táxi. Nos últimos 25 minutos, o carro não andou mais do que duas quadras. O motorista — um tal de Délio, segundo a ficha de identificação no interior do táxi — tenta puxar assunto.

— Primeira vez na cidade?

— Não. Mas bem que podia ser a última.

— Hehe... Veio a trabalho?

— E existe algum outro motivo para se vir aqui?

— Ah, deixa disso. Não é tão mal assim... Com o tempo a gente se acostuma. Vindo de onde?

— Hub City.

— Hub? E ainda tá reclamando? — sorri o taxista, ironicamente.

— Touché. — responde Vic, também sorrindo.

— Quer ouvir um pouco de música?

O motorista liga o rádio, mas não é música que os dois homens ouvem.

"... devem evitar a região da 5ª Avenida, onde o Quarteto Fantástico enfrenta..."

— Não falei? — pergunta o taxista, com ar de quem conhece a fundo a cidade — Sabia que tinha alguma encrenca pr'aqueles lados.

— É... — Sage pensa por alguns instantes. — Vou ficar por aqui mesmo. Faço o resto do caminho a pé.

— Você é quem manda. São US$ 18,95.

"Nova Iorque...", pensa Vic, enquanto caminha pela rua. "Capital mundial do spandex. Há mais meta-humanos por metro quadrado nesse lugar do que em qualquer lugar do mundo. Boa parte dos chamados 'super-heróis' têm sua base de operações aqui. Mesmo assim — ou talvez por isso mesmo — tem sempre algum idiota fantasiado tentando arranjar confusão. Típica idiotice que eu nunca vou entender."

O repórter atravessa a rua com calma, contrastando com os apressados nova-iorquinos, eternamente atrasados.

"Nesse ponto, sou mais Hub City. Pelo menos não temos malucos com a cueca por fora da calças se estapeando em pleno centro. Acho que o tipo de lixo que temos por lá não tem glamour o suficiente para atrair esses caras."

Sage pára diante de uma banca de jornais e vê na primeira do Clarim Diário a notícia sobre a batalha entre o Homem-Aranha e o Abutre, ao lado de um editorial furioso pedindo a prisão do herói aracnídeo.*

"Homem-Aranha. Onde mais se poderia ver um sujeito de pijama azul e vermelho quebrando o pau com um velho decrépito num uniforme verde? Só mesmo em Nova Iorque. Há fantasiados para todos os gostos. Desde os oficiais, como o Quarteto Fantástico, aos renegados, como os X-Men, passando por moleques superpoderosos como os Titãs e os Novos Guerreiros, vigilantes solitários como o Demolidor e malucos homicidas, como Frank Castle, o tal Justiceiro. Sem falar nos menos cotados".

Caminhando distraidamente, Sage vê um vagabundo roubar a bolsa de uma mulher uns 35 metros à sua frente. Enquanto a vítima começa a gritar, o marginal corre na direção do repórter, que continua andando calmamente. As pessoas se afastam para dar passagem ao bandido, alheias aos apelos da desesperados. A corrida, porém, é subitamente interrompida por Sage, que desfere um golpe circular com a lateral interna da mão no nariz do bandido. O impacto tira o homem do chão por um momento, fazendo-o desabar pesadamente em seguida, desacordado. O repórter então se abaixa sem pressa, pega a bolsa e entrega à mulher, que se desmancha em agradecimentos. Sem prestar muita atenção, Vic se despede e continua seu caminho.

"Algumas pessoas me acham um herói", filosofa, tocando involuntariamente na fivela do cinto que esconde a máscara de seu alter-ego, o Questão. "Que bobagem. Sou só um curioso. Como foi que o Batman me definiu daquela vez, mesmo? 'Um idiota dando chutes fingindo combater a corrupção'. Hehehe. Bem, pelo menos eu não me visto como um rato com asas."

Na vitrine de uma grande magazine, os televisores mostram Trish Tilby — "tremenda gata", pensa Vic, "será que vai estar na coletiva?" — falando sobre o recente incidente entre os Vingadores e a IMA.** "A imprensa caiu de pau nos coitados, que marcaram uma coletiva para hoje. Só assim para me forçarem a vir para este antro de malucos. De que adianta salvar o mundo trocentas vezes se ninguém te dá uma folguinha? Só porque morreram 20? E na Rússia, onde o tal Savage explodiu uma cidade inteira? Mais de um milhão de pessoas de uma vez! Mas, como eles são russos, quem liga? Quem liga? Putz, que trocadilho infame!"

Próximo a 5ª Avenida, um cordão de isolamento afasta os curiosos. À distância, os sons da batalha entre o Quarteto e quem quer que seja — e afinal, quem se importa? — mostram que as coisas estão quentes. Os policiais, visivelmente irritados, pedem às pessoas que se afastem.

— Fiquem atrás da linha, porra! — grita o guarda — Tão querendo levar um carro na cabeça?

"Só em Nova Iorque uma frase assim faria sentido...", pensa Sage. Nem bem conclui o pensamento, um cometa alaranjado passa a cinco metros do chão, caindo com estrépito sobre um carro estacionado. A multidão, que até então tentava ver um pouco de ação, começa a gritar e a correr. O repórter sai do caminho, abrindo passagem para o furioso Coisa.

— Tá na hora do pau! — grita Benjamin Grimm, visivelmente furioso.

"Será que alguém já disse a ele que esse grito de guerra, fora do contexto, é extremamente comprometedor?" Sage vê o Coisa levantar um carro acima da cabeça e arremessá-lo a vários metros de distância. "Hmm... Acho que não."

Deixando o local, o repórter segue pelas ruas em direção à Mansão dos Vingadores. Sua mente continua a divagar. "Trânsito insano, aluguéis caros, seguros altíssimos e um bando de marmanjos de colante trocando tabefes e destruindo a cidade", pondera Sage, chegando finalmente ao seu destino. "Por que diabos alguém ia querer morar num lugar assim?"

— Com licença. Você não é Vic Sage?

— Sim. E você é Trish Tilby, certo? Como sabe meu nome?

— Estive em Hub City há alguns meses e vi uma de suas reportagens. Fiquei muito impressionada.

— Obrigado. Também vi algumas de suas matérias. — mente Sage — Grande material.

— Obrigado. Veio para a coletiva?

— Sim. O pessoal da equipe local deve estar chegando logo. Vamos transmitir ao vivo.

— E você volta para Hub City hoje mesmo?

Sage olha para a bela repórter antes de responder.

— Só se eu não conseguir.

— A entrevista?

— Não. Levá-la para jantar.

Surpresa, Trish ruboriza.

Bem, eu... Está bem. Será um prazer.

"Talvez esta cidade não seja tão ruim, afinal", pensa Sage.

:: Notas do Autor

* Conforme visto em Homem-Aranha # 08.

** Como foi mostrado em Vingadores # 01.

Bem, esta história encerra, ao menos temporariamente, minha passagem à frente das aventuras do vingador sem rosto de Hub City. Gostaria de agradecer a todos os que acompanharam e prestigiaram meu trabalho ao longo destas 12 edições. Espero que tenham se divertindo lendo tanto quanto eu me diverti ao escrever. E aproveito para convidá-los a continuarem acompanhando as aventuras do Questão, agora pelas talentosas mãos do César Rocha Leal, que faz sua estréia no Hyperfan. Sei que deixo nosso herói sob a responsabilidade de alguém que curte tanto o personagem quanto eu. Mas isto não é um adeus. É mais um até breve. Afinal, ainda há muitas questões a serem respondidas. Um grande abraço.

Fernando Lopes



 
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