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Questão # 13

Por Cesar Rocha Leal

Evoluções
Parte I

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Hub City — 4h22

Nas ruas escuras, próximas ao centro da cidade, uma figura solitária está à espreita. Um homem sem rosto e de sobretudo azul vigia um jovem parado numa esquina próxima. Ele já teve vários nomes em sua vida, mas nos últimos anos tem atendido por Vic Sage e se encontra imerso em pensamentos.

No mundo do crime ele é conhecido como Questão. Nos últimos dias, ele tem acompanhado com interesse a vida do jovem a quem vigia. Seu nome é Zack, um adolescente de 14 anos que anda em companhias erradas desde pequeno e acabou por se meter com drogas. Sage tomou conhecimento do rapaz há algumas noites, assim que ele chegou à cidade. A curiosidade o impele cada vez mais a acompanhá-lo para ver se há esperanças de recuperação, mesmo que para isso sua intervenção seja necessária.

A vigília não tem ajudado a aumentar sua fé na recuperação do garoto, que agora além de usuário de drogas passou a agir como traficante, provavelmente vendendo seus serviços para as pessoas a quem deve dinheiro pela manutenção do vício.

De repente, algo chama a atenção do vigilante. Uma jovem bem vestida levada a um beco, visivelmente contra sua vontade, por três rapazes com bandanas, indicando fazerem parte de uma gangue local. Por maior que seja o interesse de Sage no garoto, ele sabe reconhecer uma prioridade quando a vê e se dirige em direção ao beco.

— O que... vocês vão fazer... por fa... favor, me deixem ir — exclama a jovem para o rapaz negro e forte que lhe segura os braços, impedindo-a de fugir.

— Olha, Patricinha, fica quietinha e nóis vâmo nos diverti... Caso contrário... — o rapaz sorri, mostrando a arcada dentária falha enquanto desembainha a faca.

O beco não tem saída, é escuro e sujo, com um cheiro de urina que faz as narinas arderem. A garota é jogada no chão no meio do caminho e começa a chorar ao ver os três se aproximarem.

O Questão analisa a situação, com a experiência de quem já enfrentou desafios semelhantes. Quem tem voz de comando é o garoto negro, provavelmente o mais perigoso deles, que está armado com uma lâmina. É ele quem Sage deve atacar primeiro. Com sorte, talvez sua derrota faça os demais desistirem da brincadeira. Os outros dois são brancos. Um tem o nariz quebrado e parece ser mentalmente desequilibrado; o outro aparenta estar meio deslocado, talvez um filhinho de papai fora de seu ambiente natural, mas cuja excitação não deixa dúvidas de seu interesse na curra.

— Acho que vocês não deviam tentar isso... — A voz de Sage é alterada pela máscara, que imita perfeitamente a textura e cor da pele, encobrindo totalmente os traços faciais do vigilante. Mas esse é o menor dos efeitos que ela propicia. A presença de um estranho sem rosto, sem nenhuma evidência de estar usando qualquer tipo de disfarce, é capaz de desconcertar até mesmo o mais frio dos homens, o que certamente não é o caso dos jovens estupradores.

— Olha, mano, o maluco não tem cara! — diz Nariz Quebrado, com uma voz estridente.

— Acho que tomei muito sol... — responde Sage, com um tom cínico, calmo e compenetrado.

O terceiro marginal permanece paralisado, mas, como Sage previu, o líder não fica muito tempo sob efeito da surpresa.

— Cê acha que me mete medo, figura? Vô rasgá você e fazer uma boca na sua cara.

Com o desafio lançado, o líder se atira sobre Sage com a lâmina brilhando na efêmera luz do beco. Tranqüilo, Sage assume uma posição de luta com seu braço esquerdo recuado, enquanto o direito fica estirado para frente, tornando-se um alvo fácil para a arma branca do adversário. O criminoso previsivelmente ataca o braço estirado, mas Sage tira-o com habilidade do caminho. Com a mão esquerda ele espalma o atacante no queixo, fazendo-o cair inconsciente com um barulho seco. Após uma rápida verificada visual, Sage nota que seu adversário não é mais um perigo imediato e volta a atenção para os outros dois. Nariz Quebrado está paralisado e em choque.

"Perfeito", pensa Sage, "se este pateta está com medo não preciso me preocupar com o riquinho..."

Mas a surpresa estaria estampada no rosto de Sage, se a máscara não cobrisse suas feições, ao notar que o filhinho de papai não só não desiste de lutar como aponta uma .38 para seu peito.

— Você pode não ter cara, amigo. Mas aposto que tem coração...

Sage começa a pensar freneticamente em suas possibilidades, pois o jovem está muito longe para permitir ser desarmado com um golpe. Súbito, o garoto desaba e uma figura aparece das sombras por detrás do corpo.

— Às vezes, não sei por que me dou ao trabalho. Você já deveria estar morto, há alguns anos... — fala uma voz feminina. A mulher deixa as sombras e se aproxima de Sage, fazendo-o reconhecê-la.

— Olá, Shiva. Mais uma vez nossos caminhos se cruzam...

Nariz Quebrado aproveita a oportunidade para escapar do beco sem que Sage ou Shiva se preocupem com sua fuga. A mulher sempre foi um enigma para Sage. Ela fazia parte do grupo que quase o matou, anos atrás. Mesmo assim, salvou-o da morte e o levou até o sensei que o ajudou a tornar-se aquilo que é hoje. Depois disso, seus caminhos se cruzaram algumas vezes sem que ele pudesse determinar com exatidão os motivos daquela que é considerada a mulher mais mortal do mundo. Apenas uma coisa é certa: em todas as vezes que eles lutaram a sério, Sage perdeu... E perdeu feio.

— O garoto, ele está...

— Morto?... Não, apenas desacordado. Continuar vivendo sua vida miserável é uma punição pior do que simplesmente matá-lo e poupá-lo dos desgostos que virão. — responde Shiva. A delicadeza de seus traços orientais não esconde a firmeza suave de seus movimentos, deixando claro que ela é tão bela quanto perigosa.

Shiva observa a vítima dos criminosos, até então praticamente esquecida, e oferece o braço para ajudá-la a se levantar.

— Espero que se lembre deste dia, menina. — diz a oriental, pausadamente — Você não terá a sorte de ter cavaleiros andantes, como o sujeito sem cara ali, toda vez que entrar em encrencas. Portanto, seria sábio dedicar um pouco mais de sua vida fútil, que acaba de ser salva, para se tornar menos vítima e mais auto-suficiente.

A garota foge, quase tão assustada com seus salvadores quanto estava com seus perseguidores...

— Eu nunca entendo seus motivos, Shiva. Como você mesma disse, eu já estaria morto há muito tempo se não fosse por sua causa. Isso me faz pensar se você não estaria "engordando o gado para o abate..."

— Acha que gostaria de lutar contra você? Acredita que está preparado, sem-cara?

— Não... Você provavelmente limparia o chão com meu rosto, não importa o quanto eu tenha melhorado desde a última vez em que nos vimos.

— E quem disse que você melhorou? Mas em uma coisa você tem razão: suas habilidades limitadas não o tornam um desafio digno.

Com essas palavras, Shiva dá as costas e parte, deixando um aroma de jasmim e canela no ar, outrora fétido. Antes de ir, porém, ela avisa:

— Por sinal... Não tente desvendar meus motivos, pois eles dizem respeito só a mim. E compreendê-los pode não ser muito saudável para você.

Casa de Aristotle Rodor — 14h40

— Quer dizer que a maluca te salvou o traseiro... De novo?

— Tot, acho que eu daria um jeito de me salvar... de alguma forma. Mas ela me poupou tempo.

— Sei... Está com mania de grandeza, agora.

Tot pode ser um velho amigo e o inventor da máscara do Questão, mas Sage se pergunta se é uma boa idéia morar em sua casa desde que voltou a Hub City. Sempre que tenta entrar em um transe meditativo, Aristotle começa com discussões paralelas...

— E como faria para desarmar o bandido? Usaria um bumerangue como seu colega de Gotham?

— Não acho que ele gostaria que você insinuasse que somos colegas... Mesmo porque não somos tão parecidos. Ele aparenta estar nessa em tempo integral e enfrenta coisas que eu nem gostaria de saber que existem. A única vantagem é que na Gótica cidade o mal parece ser mais facilmente reconhecido. O morcego luta principalmente contra pessoas vestidas de palhaços, ou pingüins, ou gatas... Se bem que gostaria de trocar uns golpes com essa.

— Enquanto que você cuida de coisas mais... normais?

— Prefiro pensar que uma sociedade onde um adolescente vicia outros para sustentar seu próprio consumo não seja normal...

— Ainda perseguindo aquele garoto, hein?

— Sinto que há algo nele... Que posso ajudá-lo... Não consigo explicar o que me faz sentir "responsável" por um moleque desconhecido. Eu teria até me intrometido nos negócios dele hoje se não fosse o episódio do beco. E Shiva... Às vezes acho que ela quer algo de mim e está me conduzindo para algum caminho...

— "O peão é a principal peça de um jogo de xadrez. Do ponto de vista do peão, é claro".

— Me parece que suas observações filosóficas sofreram uma drástica modificação, meu amigo...

— É, acho que estou numa fase de ficção científica. É bom ver alguns desses textos mais antigos.

— Pois é... Mas voltando ao assunto, acho que este episódio com Shiva ainda vai me dar dor de cabeça. E logo...

Seattle — 20h47

— Chamei você aqui porque preciso que me pague aquela dívida.

A voz de Shiva é incisiva. Apesar de conhecer seu interlocutor há vários anos, ambos mudaram muito desde épocas mais simples. O homem é um negro de cabelo baixo e roupas em tons amarelos escondidas por listas negras que se misturam com as sombras do bar.

— Nunca achei que você fosse cobrar isso. Já faz tantos anos... Eu, você e Richard...

— Não vim até Seattle para lembrar do passado, mas para lhe pedir que execute esta tarefa... Ou você hoje só faz coisas mediante pagamento?

— Posso ser um agente freelancer desde que deixei o grupo que me livrou da Sociedade dos Assassinos, mas ainda tenho tempo de pagar um favor a uma velha... amiga. Se você quer que eu enfrente este cara, tudo bem. Tenho tempo até meu próximo serviço. Espero que esse sem-rosto seja páreo para o Tigre de Bronze.

Continua

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