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Questão # 14

Por Cesar Rocha Leal

Evoluções
Parte II - Um Tigre no Quintal

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Casa de Aristotle Rodor — 18h47

— E então, qual o itinerário de hoje? Becos sujos, assassinas orientais e perseguição a jovens drogados ou alguma coisa nova?

O tom cínico de Aristotle Rodor deixa claro que a pergunta retórica não requer nenhuma resposta; mas Sage sabe, há muitos anos, que deixar Rodor sem resposta não é a melhor forma de encerrar uma conversa indesejada.

— Acredito que, para hoje, só a última opção.

— Vai seguir o garoto novamente. Eu não consigo entendê-lo, sabe? Existem milhares de garotos nas mesmas condições... Porque seu interesse nesse tal de Zack?

— Tot, você sabe que existem duas coisas que me impulsionam. Curiosidade e raiva. Como tenho andado bem calmo ultimamente, acredito que é somente a curiosidade que anda me levando a perseguir o garoto. Mas não me peça para explicá-la. Você sabe que minha curiosidade fica mórbida por vezes e sem qualquer lógica.

Com essas palavras, Sage coloca a máscara em seu rosto e libera o composto químico que a faz se fixar do compartimento na fivela de seu cinto. Neste momento, o tom de seus cabelos e roupas fica mais escuro e sua voz muda de tonalidade, fazendo Rodor se perguntar, mais uma vez, se o ato de mudança de personalidade não tem uma catarse maior na psique de Sage.

— Às vezes, acho que foi um erro deixá-lo usar minhas experiências desta forma...

— Não esqueça de quem se meteu em encrencas inicialmente e veio pedir a ajuda do novato repórter Victor Sage.

— Como se eu pudesse esquecer.

O Questão sai pela janela e o ar frio da noite entra na casa de Rodor.

O jovem Zackary faz sua ronda, acompanhado por outro traficante mais velho, que se considera seu tutor. O rapaz aprende as manhas da cobrança dos devedores. A droga que se encontra há algumas horas em seu corpo está se dissipando totalmente e ele se encontra no estado, tão característico de sua vida, de depressão. Porque tudo está acontecendo desta forma? Se seu pai não tivesse...

De repente, algo parece chamar sua atenção, interrompendo seus devaneios. No alto de um dos edifícios próximos, ele pensa ter visto alguém, um vulto o seguindo, como tem acontecido algumas vezes nos últimos dias... "Não deve ser nada.", reflete, "Só mais uma visão."

No alto do prédio, a "visão" de Zack continua à espreita, sem se dar conta que ele também é objeto de vigilância. Seguindo de perto os passos de Sage está uma figura de laranja, cujas vestes lembram a um tigre(*).

Ben Turner ainda não entende porque Shiva pediu a ele para enfrentar o tal Questão. Ela é misteriosa, mas nunca faz nada sem que haja um real motivo. O Tigre de Bronze imagina se o homem sem rosto não é uma espécie de criminoso. Mas nada em seus atos parece sugerir isso. Pelo menos, por enquanto.

O Questão observa o garoto que está sendo usado para cobrar outros usuários em dívida com o traficante principal. Uma sensação de tristeza se apossa dele. Em seu íntimo, ele acredita que pode haver uma opção de vida para este garoto. Mesmo não sabendo por que crê nisso, Sage sente-se decepcionado por não poder fazer com que Zack escolha um caminho melhor para sua vida; e a idéia do garoto ser levado a uma instituição correcional é ainda pior, pelo que vivenciaria lá dentro.

— Você é esperto, Zack, mas sacumé? A gente precisa dar umas prensa de vez em quando.

O homem mais velho parece uma montanha de músculos e vai ensinando o ofício a Zack enquanto se aproximam da entrada lateral de um edifício em ruínas. Entrando no prédio, a dupla encontra uma moça. Ela aparenta ter apenas uns 16 anos e tem o aspecto abatido de quem passa por uma síndrome de abstinência.

— Vamos lá, Silvia. Tá na hora de pagar...

— Robert... Eu não tô legal. Preciso de uma dose...

— Ora, Silvia, você conhece as regras. Sem dinheiro, sem viagem. Cadê a grana?

O homem se aproxima da moça, deixando de lado qualquer tentativa de ser amistoso. Zack fica em um canto da sala, apenas observando.

— Vamos lá, galinha. Vai dizer que tu não tem grana?

— Eu não pude sair ontem, Robert. Eu tava naqueles dias, sabe?

— Poxa, gata, você sabe que não posso abrir exceções.

— Fala com teu patrão. Olha, eu pago em dobro semana que vem...

— Eu não sei se vai rolar. Mas vou fazer um negócio contigo. Você fica boazinha comigo e com meu amigo ali e digo pro chefe que não te encontrei, legal? Se você for realmente boazinha, posso até te arrumar um pouquinho. Que tal?

A mulher olha com nojo para o homem que se aproxima, mas não faz qualquer menção de se defender. Ele tira uma bolsa da cintura, contendo saquinhos de droga. Nesse momento, o Questão sente que viu o suficiente e sai de seu esconderijo atrás de umas latas na entrada do prédio.

— Que porra é essa? — pergunta Zack, assustado pela aparição do Questão.

— Algum engraçadinho querendo acabar com nossa fes... Caraio, mano! O sacana não tem cara!

— Ela sumiu de vergonha. — responde o vigilante.

O homem é forte, mas lento. Antes que esboce qualquer reação, Sage acerta um nervo em seu pescoço, paralisando-o e levando-o ao chão como um saco de batatas. O Questão pega a pochete com as drogas e se volta para Zack. O garoto está paralisado pela figura do homem sem rosto. Sage hesita em falar. Algo em seu íntimo diz que ele é responsável pelo garoto, mas não há qualquer sentido em se sentir assim. O tempo em que Sage fica parado é suficiente para que Zack fuja. Ainda segurando a pochete com as drogas, o Questão parte em seu encalço.

O Tigre de Bronze vigia a saída do prédio. Sem ter visto o que tinha se passado dentro da casa, ele só vê um garoto amedrontado correndo de um cara sem rosto carregando um pacote de drogas. Em sua mente, Ben Turner pensa ter entendido tudo.

Quando passa próximo de Turner, o Questão é atingido por um chute nas costas e cai. O Tigre fica de pé diante dele.

— E então, traficante? Você é muito corajoso com garotinhos. Como você se sai contra alguém que pode reagir?

O vigilante sem rosto levanta-se rapidamente, encarando seu adversário. Pela postura, percebe que se trata de um grande mestre em lutas.

— Olha... Talvez você não acredite, mas houve um engano. Eu...

Tigre de Bronze ataca. Sage se desvia por pouco de um chute no rosto, enquanto ouve seu adversário falar:

— Houve um engano, sim. Mas foi você quem o cometeu.

O Tigre ataca com uma seqüência de golpes com os braços e pernas que deixam o Questão na defensiva. Sage desiste de explicar o mal-entendido, mas se vê intimidado pela superioridade de Turner. Sabendo que seu chefe irá culpá-lo caso as drogas se percam, Zack observa a luta, esperando a melhor oportunidade para reaver a mercadoria.

O Questão continua a apanhar. As palavras de Richard Dragon, seu mestre, brotam em sua memória: "Quando em desvantagem, enfraqueça seu adversário. Aceite a dor que ele lhe inflige, mas não deixe que ela o faça ceder. A cada golpe, ele fica mais cansado. Use isso a seu favor."

Sage passa a absorver os golpes do Tigre, até que em determinado momento ele consegue entrar no estado de espírito denominado O Vazio. Os golpes do Tigre parecem mais lentos, enquanto as palavras do mestre continuam a brotar na mente de Sage: "O tempo, sendo ilusão, é infinitamente maleável." Novos golpes são trocados. Ignorando a dor em seus músculos, Sage passa a defender os golpes do Tigre com eficiência. Em contrapartida, também não consegue acertar Turner.

Zack assiste a tudo fascinado; sua preocupação com a droga se dilui, sumindo diante do espetáculo proporcionado pelos dois guerreiros. Eles parecem equiparados; seus movimentos lembram uma dança, um balé fatal onde qualquer descuido torna a morte vencedora. Sem interromper a troca de golpes, o Tigre exclama:

— O Sistema.

— Você conhece meu estilo?

— Sim... Eu conheci o homem que o desenvolveu. Richard.

Defendendo-se de um golpe, Sage também continua a falar.

— Você conheceu Dragon? Ele foi meu mestre.

— Não posso acreditar. Richard Dragon nunca ensinaria o Sistema (**) para alguém que não estivesse profundamente compromissado com a vida. Você não passa de um traficante.

O Questão pára de lutar, ficando completamente imóvel. O golpe do Tigre é interrompido a centímetros de seu peito.

— Talvez seja necessário que alguém se arrisque para que esta luta idiota tenha fim. Eu não sou traficante. Estava seguindo este garoto, Zack. Acho que ele pode ter um futuro melhor, mas hoje tive que intervir. Acredito que, infelizmente, ele esteja perdido para seu destino agora.

Com estas palavras, o Questão joga a pochete com drogas dentro de um latão de lixo próximo. O fogo que arde dentro dele, ateado por algum sem-teto buscando calor, trata de queimar o tóxico.

— Acho que acredito em você. Meu nome é Ben Turner, mas sou mais conhecido como Tigre de Bronze. Conheci Richard Dragon há alguns anos. Éramos amigos... e parceiros de luta.

Uma risada brota por trás da máscara do Questão. Turner fica desconfiado até que Sage se explica:

— Desculpe. Sei que não é a hora ou lugar... Mas você e Richard lutavam contra o crime? Como vocês eram chamados? O Tigre e o Dragão? (***)

— Na verdade, eu passei a me chamar Tigre um pouco depois... — responde Turner, sorrindo.

Neste instante, uma das paredes do beco começa a ceder, ameaçando esmagar Zack. Como se impulsionado por uma alavanca, o Tigre salta em direção ao garoto, empurrando-o de debaixo da escada e salvando— o. O choque contra a parede deixa Zack inconsciente. Sage respira aliviado ao ver Turner e o rapaz vivos, mas só até ver que parte da parede caiu sobre as pernas do Tigre, fraturando-as.

— Droga, você está legal?

— Arghhh! Não se preocupe. Dói pra diabo, mas já sofri coisa pior quando treinava com Shiva ou tentava cantá-la. Por sinal, foi ela quem me pôs contra você.

— Eu e a garota temos uma longa história de desentendimentos. Nada muito saudável.

Sage continua a falar, mesmo que somente para distrair Turner da dor das fraturas.

— Acho que você vai ficar bem. Depois de uns meses de molho.

— O problema é que deveria partir em missão amanhã. Pelo visto, não será possível.

— Você é um mercenário?

— Arghh... Prefiro o termo "agente freelancer". Mas escolho bem meus empregadores. Esse era um contrato de alguém se passando por Bruce Wayne. Acho que era, na verdade, o próprio Batman disfarçado. Merda, como dói... O milionário deve dever alguns favores ao Batman para deixá-lo usar sua figura como disfarce.

— Se é que Wayne sabe. Mas do que se trata essa missão? Shiva o colocou nessa enrascada por minha causa. Talvez eu possa ajudar.

— Cara, não deveria te passar essa obrigação, mas como parece que a coisa é muito séria, vou confiar em você. Richard deve ter muita fé em você para ter lhe ensinado. Ligue para este número, diga o que aconteceu para a garota que atender. O nome dela é Oráculo. Peça as coordenadas a ela. É algo sobre um ídolo com alguns poderes místicos, contrabandeado para o Brasil. Parece que chamou a atenção de alguns peixes grandes... Mas vá... Agora... Eu e o garoto estaremos bem.

O Questão se levanta e parte quando ouve os sons das sirenes se aproximando. Mas se pergunta como se encontra nessa situação. Como aceitou tão fácil uma missão destas? O Batman não vai com sua cara, o que será que ele dirá quando souber que está envolvido? E o pior de tudo: o que dirá a seu chefe como desculpa para sua viagem ao Brasil?

Em 30 dias: Um encontro no Brasil com um certo Arqueiro.

:: Notas do Autor

(*) Ben Turner é um antigo personagem da DC Comics. Criado como coadjuvante nas histórias de Richard Dragon, ele atuava com o herói e Shiva em aventuras diversas, até ter sido capturado pela Liga dos Assassinos e moldado por eles para se tornar o assassino Tigre de Bronze. Apesar de ser um lutador mortal, a Liga falhou em transformar Turner em seu servo, pois ele se recusava a matar. A Liga foi desmantelada pelo Batman após o assassinato de Kathy Kane (a Batmulher) e Turner passou a fazer parte do grupo governamental Esquadrão Suicida. Atualmente ele age como mercenário freelancer.

(**) Apesar do nome idêntico, não há nenhuma semelhança entre o Sistema desenvolvido por Richard Dragon e aquele usado pela Ordem de São Dumas para doutrinar Azrael.

(***) Menção ao filme homônimo, como até Groo poderia ver facilmente.



 
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