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Questão # 15

Por Cesar Rocha Leal

Evoluções
Parte III - O Bravo e o Arrojado *

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Finalmente decidido a cumprir a promessa feita a Ben Turner (**), Vic Sage disca o número dado pelo freelancer conhecido como Tigre de Bronze. A ligação é atendida ainda no segundo toque.

— Alô... Eu... hã... Gostaria de falar com Oráculo.

— Pela falta de costume no contato comigo, deve ser o Sr. Sage quem está falando. Ou prefere ser chamado de Questão?

— Bem... Talvez não fosse uma boa idéia usar nomes...

— Não se preocupe. Esta linha é completamente segura. Pensando bem, não acho que você gostaria de ser chamado pelo seu nome de vigilante.

— Realmente. Acho que não... Na verdade, nem é um nome propriamente dito. É mais uma alcunha que ficou por... Falta de opção. Mas se você sabe quem sou, acho que sabe porque estou ligando...

— Sim. Para falar a verdade, já entrei em contato com o Tigre de Bronze e ele me explicou o que aconteceu. Caso esteja interessado, ele está bem e o garoto já teve alta. Você vai ficar no lugar dele na missão, certo?

— Bem. Acho que sim. Se o seu patrão não for contra. Você sabe, o morcego de orelhas pontudas... Acho que ele não vai muito com a minha cara.

— Ha! Levando em conta, seu disfarce presumo que isto tenha sido uma piada. De fato, senhor Sage, meu "patrão" realmente não confia muito em você. Ele o considera "esforçado, mas sem direção". Não estou dizendo que ele seja quem você pensa, mas Turner me explicou os motivos que o levaram a confiar em você. Sabe, eu conheço Richard Dragon também... Quando fiquei em uma situação... vamos dizer, precária, ele me ajudou (***), me ensinando a arte da Lameco Eskrima. Conhece?

— A arte filipina de luta com bastões?

— Exatamente. Creio que teremos de confiar em você e seu alter-ego, pelo menos por enquanto. Deixe-me explicar sua missão e para onde você terá que ir...

— Você vai viajar para onde?

O tom de voz de Tot é característico nesse tipo de conversa. Na verdade, ele nem reprova tanto as decisões de Sage, mas sempre gosta de bancar o "advogado do diabo" para deixar claras as verdadeiras intenções de Sage em fazer determinadas coisas.

— Como você ouviu muito bem, Tot, eu vou para o Brasil. Na verdade, até o Rio de Janeiro.

— Mas como?

— Bem, deixe-me tentar explicar sem que você distorça muito minhas palavras. Ontem eu lutei com o Tigre de Bronze...

— Porque, mais uma vez, se meteu onde não devia.

— E ele acabou ferido para salvar Zack, aquele garoto que tenho vigiado...

— Outro assunto que não lhe diz respeito.

— Eu sei, mas me senti culpado. Acontece que o Tigre tinha uma missão, acho que o empregador dele é o próprio Batman...

— Que, convenhamos, não gosta muito do nosso amigo Questão.

— Talvez ele até tenha seus motivos. Enfim, o caso é que a pista que o Tigre seguia leva a um ídolo que foi roubado de um templo tibetano. Dizem que o objeto tem propriedades místicas...

— Assunto do qual você não tem a mais remota noção, não custa lembrar.

— Realmente. Mas esse ídolo parece estar chamando a atenção de pessoas poderosas...

— E provavelmente perigosas também.

— Acho que sim, mas isso não vem ao caso. O ídolo foi roubado por um conhecido ladrão de túmulos internacional...

— Que não tem nada a ver com templos budistas. Que, por sinal, provavelmente ficam dentro do território da China, povinho nada amigável com "penetras" em seus domínios.

— Acho que o que move este cara é o dinheiro mesmo. Mas o que sei é que ele fugiu para o Rio de Janeiro...

— O que me leva a me questionar por que todo bandido foge para lá...

— Deve ser o clima. Mas ele está hospedado na casa de um amigo americano, o magnata Richard Holsfield...

— Que também não deve ser flor que se cheire. (****)

— Acredito que não. De qualquer forma, eu só vou dar uma chegada até lá...

— Em outro país, embora você fale como se fosse a padaria da esquina...

— Vou até o endereço de Holsfield que a Oráculo me fornecerá...

— Que, por sinal, é alguém que conhece sua identidade, mas que você sequer sabe o nome ou filiação. Apenas "acha" que trabalha para o Batman.

— Devo entrar em contato com o cara que tem o ídolo...

— Provavelmente, invadindo domicílio de um magnata americano e quebrando as cabeças de seus seguranças no caminho.

— Pego o ídolo que está nas mãos dele...

— O que configura roubo, mesmo que o objeto já tenha sido roubado antes.

— Entro em contato com Oráculo e trago o objeto para que ela cuide de entregar aos verdadeiros donos.

— Arriscando sua vida no processo e se intrometendo em assuntos de outros países, podendo causar um incidente internacional e mofar o resto da vida na cadeia.

— Como pode ver, nada de complicado ou preocupante...

— Você não ouviu nada do que eu disse, certo?

— Eu só preciso que você mantenha a história de que estou muito doente e que não posso trabalhar, entende?

— E se eles quiserem falar contigo? E por quanto tempo devo dizer que você está de cama? E quanto tempo você pretende se ausentar do trabalho?

— Eu não tenho a mínima idéia, Tot. Mas confio em sua capacidade de improvisação.

— De ser um mentiroso, você quer dizer. Acho que inclusive já está na hora de você achar um lugar para morar em vez de ficar aqui em casa e me envolver nesses seus devaneios.

— Deixe de ser negativo, Tot.

As passagens estavam em um armário no aeroporto de Hub City, junto com algum dinheiro, um telefone celular e documentos necessários para a viagem. Com um passaporte falso, o Questão começa sua missão.

Depois de horas de viagem, Vic Sage se encontra em terras brasileiras. Pedindo ao motorista para levá-lo até o bairro de São Conrado passando pela orla marítima, ele aproveita para observar atentamente a paisagem proporcionada pelas banhistas da Cidade Maravilhosa, enquanto usa o celular para fazer uma ligação para Oráculo.

— Nem quero ver a conta deste aparelho.

— Não se preocupe, despesas em recuperar objetos místicos roubados devem ser dedutíveis do Imposto de Renda.

— Certo... Olha, eu já estou no bairro que você indicou, e agora?

— Agora você vai passar o tempo até que escureça. Assim que anoitecer, você entra em contato comigo e eu passo maiores informações.

— Passar uma tarde na praia do Rio de Janeiro... Eu conheço formas piores de ajudar um amigo...

— Só não vá "tomar um chopinho" enquanto espera. O "patrão'' não aprova beber em serviço.

— Por falar nisso... Ele já sabe que sou eu quem veio nesta missão?

— Ainda não. Mas não se preocupe, é só uma questão de tempo.

— Mas é exatamente isso que me preocupa.

Anoitece em Gotham City. Um ônibus pára na estação rodoviária. Dele salta um garoto, Zack. Viciado em drogas, treinado para ser traficante, ele teve a vida salva por Ben Turner, mas algo ainda mais forte o impeliu a vir para esta cidade. Enquanto o Tigre salvou sua vida, o homem sem rosto estava pretendendo salvar sua alma. Um apoio e confiança que o garoto nunca teve, sequer de seu pai, e que acabou por colocar três decisões em sua cabeça. Uma é a de largar as drogas, o que ele teme não conseguir. A segunda é fazer algo de útil em sua vida. E a terceira é encontrar o homem que o fez acreditar que isso fosse possível.

Por isso que Zack veio a Gotham. Ele ouviu parte da conversa entre o Questão e o Tigre de Bronze e pôde perceber que o homem sem rosto partiu em uma missão no lugar do Tigre. Arriscando a própria vida pelo sacrifício do outro em salvar a sua. Ele também pôde ouvir o nome Batman. Por isso acredita que deverá encontrar o vigilante e tentar achar o Questão. Mesmo que tal decisão não faça muito sentido, ele sabe que estaria disposto a morrer tentando.

É noite no Rio de Janeiro. O Questão entra em contato com Oráculo e ela indica para que ele suba uma determinada rua que leva para a Floresta da Tijuca. Ao chegar no endereço de Holsfield, deve esperar até que Oráculo confirme a presença do homem que está com o ídolo e então entrar em ação.

Zack sente uma terrível dor. Ele enfrenta a abstinência da droga em seu organismo com uma força que sequer tinha consciência que possuía, mas que acredita não ser suficiente. Ao mesmo tempo em que procura o Batman sente que sua busca pode ser em vão.

— O que você quer no nosso território, mauricinho?

— Aqui você tem que pagar pedágio aos mano, tá ligado?

Zack se vê cercado por quatro homens, quatro predadores. Ele mesmo já foi um em Hub City. Desta vez, entretanto, não passa de uma presa, e a dor e agonia da abstinência são maiores do que ele pode agüentar. Ao desmaiar, ele pensa ouvir sons de briga. Quando acorda, vê-se diante da mais aterradora figura que já vislumbrou.

— O que você quer em minha cidade, garoto?

O Batman é impressionante, mas antes que possa responder, Zack cai de novo na inconsciência.

Está quase amanhecendo. Em sua vigília, o Questão veste seu casaco e boné, colocando a máscara em seu rosto e liberando o gás que a torna uma segunda pele. Ele se prepara para entrar em ação. Oráculo ligou há alguns minutos confirmando a presença de sua presa na casa de Holsfield.

— Meio longe de casa, não?

Sage se assusta com o recém-chegado, até reconhecer Oliver Queen, o Arqueiro Verde, antigo parceiro em algumas missões e uma das poucas pessoas sorrateiras o suficiente para se aproximar sem o alertar.

— Arqueiro? O que está fazendo aqui?

— O mesmo que você, acredito: caçando. Richard Holsfield mora nesta casa. O sacana faz turismo sexual e tráfico de garotas entre Seattle e o Rio de Janeiro. E você?

— Estou atrás de um amigo dele, que está hospedado na casa. Ele roubou... algo. E vim pegar de volta. Na verdade, estou fazendo um favor a um amigo.

— Certo. Já que vamos para o mesmo lugar, podemos comparar anotações. O que você viu?

— Nenhum alarme silencioso. A casa tem três vigias na parte de baixo, sendo um deles o caseiro, que além de armado está acompanhado por dois pit bulls. Tem um cara no teto com uma arma pesada e mais três dentro da casa, dentre os quais minha presa, Holsfield e seu guarda-costas.

— Horace Starker. — Pelo tom de voz do Arqueiro, o Questão percebe que os dois já se conhecem e que não será nada agradável estar no caminho de Oliver quando este enfrentar seu inimigo.

O Arqueiro decide que antes de entrar eles devem cortar o telefone. Isso acaba por surpreender o Questão. Ele já está no jogo de vigilantismo há algum tempo mas, mesmo assim, deixa escapar alguns macetes. Oliver é mais precavido que ele, até mais eficiente. Ainda existe muito o que aprender. A primeira flecha acerta o alvo, mas não corta o fio do telefone. Sage graceja com o amigo:

— Ei! O Arqueiro está "perdendo o toque"?

— Nah! O problema é que usei uma flecha "profissional". Não gosto destas coisas industrializadas. Esperava poupar as flechas que eu mesmo fiz para situações mais perigosas, já que são únicas em que posso confiar.

Na segunda vez o disparo é perfeito e os heróis se preparam para invadir a casa de Holsfield.

— Bem melhor. — diz o Questão — E agora? Você cuida do cara no teto? Deixe os cachorros comigo. Não quero matar animais se não houver necessidade.

— Entendo.

Ao pular o muro, Sage se prepara. Cães treinados seguem o mesmo padrão de ataque. Ao se aproximarem, Sage se ajoelha. Os animais saltam em sua direção, mas ele se levanta e os agarra pela garganta, um em cada mão. Depois, pressiona um nervo perto da boca dos animais, fazendo-os desmaiar.
Sage não tem tempo de se sentir aliviado. O caseiro está armado e ele deve agir com rapidez. Aproximando-se do homem, Vic pisa em seus pés, tirando-lhe a mobilidade, devido ao pouco espaço entre os dois, e impedindo golpes com os punhos. Sage acerta o rosto do caseiro com o cotovelo, ganhando a disputa. Verificando o Arqueiro ele percebe que seu amigo dominou os dois vigias.

— Droga, queria ter visto o que você fez com os cães. Poderia ter sido útil.

— Segredo profissional, meu caro.

Um som de tiro, que passa próximo de sua cabeça, alerta o Questão. O homem no teto o tem em sua mira. Certo de que irá morrer, Sage encara seu executor. Mas uma flecha acerta o rosto do capanga, fazendo-o cair. Ao se aproximar, o Questão verifica as condições do atirador.

— Não que faça diferença, mas está vivo. Belo disparo.

— Que nada. Acabei usando uma flecha "profissional". Nem vou dizer onde estava mirando... Malditas coisas mal feitas. — resmunga o Arqueiro Verde.

Com cautela os dois entram na casa.

No escritório de Holsfield, a tensão é quase palpável. Eles ouvem o barulho do jardim e descobriram que os telefones estão mudos. O empresário liga para a polícia pelo celular, com a certeza de que o maldito Arqueiro Verde está em seu encalço, enquanto que seu hóspede e amigo, Jonas, somente fala em perseguidores chineses e asseclas de alguém que chama de "Cabeça do Demônio".

De repente a janela é quebrada e um homem muito grande entra por ela. Holsfield fica paralisado; afinal, eles estão no segundo andar. O recém-chegado ignora o empresário e se atraca com Jonas, tomando-lhe uma estranha figura das mãos.

— Não. Devolva-me o ídolo. Arghhh...

O estranho mata Jonas com um simples golpe no pescoço e sai do escritório antes que Holsfield possa sacar sua arma. Descendo as escadas, passa pelo Arqueiro e o Questão e corre para a saída.

— Droga, o cara roubou o ídolo! — Sage fala com rapidez enquanto parte em perseguição ao ladrão.

Do lado de fora da casa, o homem pula o muro, com o Questão em seu encalço. Ao se virar para enfrentar seu perseguidor, o ladrão pode ser analisado. Um homem muito forte, sem cabelos e de rosto impassível, que não se assusta com a aparente falta de feições de seu adversário. Sage, porém, sente-se seguro; ele já derrubara homens grandes antes.

O Questão ataca, mas em uma velocidade inimaginável para alguém tão grande o homem se desvencilha do golpe, acertando a têmpora do herói e fugindo enquanto este fica desorientado.

Ao se recuperar, Sage procura seu adversário e não o encontra. O dia amanhece e ele vê o Arqueiro indo embora em seu carro alugado. Massageando o rosto, ele começa a descer a rua. Mais tarde, entra em contato com Oráculo.

— Alô. Olha, eu perdi o ídolo.

— Já sei. Meus contatos dizem que alguém fugiu com a estátua. Pelo que descobri acho que sei para onde ele foi. Ainda está disposto a continuar?

— Sim, acho que irei até o fim.

— Ótimo, vá até o aeroporto e procure um homem chamado Sid, na Cafeteria. Ele lhe dará as passagens para a Índia. Depois entro em contato.

Ao desligar, Sage pensa nas dimensões que este caso tomou e se pergunta por que continua. Mas resolve, antes de qualquer coisa, ligar para Hub City.

— Tot. Sou eu Sage.

— Você está bem?

— Mais ou menos. Estou com o rosto inchado e o ego em baixa. Olha, enrole um pouco mais se estiverem me procurando. Eu vou para a Índia.

— Você vai viajar para onde?

Continua.

Veja em Arqueiro Verde # 03 esta história pelos olhos de Oliver Queen.

:: Notas do Autor

(*) O Bravo e o Arrojado é uma tradução de The Brave and the Bold, uma revista tradicional nos EUA, que originalmente trazia histórias do Batman, sempre em dupla com outro herói. Em 1986, ela teve uma segunda edição trazendo uma saga estrelada pelo Arqueiro Verde e pelo Questão. Na década de 90, uma terceira versão trouxe o Flash (Barry Allen) e o Lanterna Verde (Hal Jordan).

(**) Na edição anterior.

(***) Conforme visto na história Chama de Esperança, publicada pela Editora Abril na revista Batman: Vigilantes de Gotham 16, em 1998.

(****) Como pôde ser constatado na série do Arqueiro Verde, também aqui no Hyperfan.



 
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