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Questão # 16

Por Cesar Rocha Leal

Evoluções
Parte IV - Encontro Com Um Demônio

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Estando há seis horas na Índia, Vic Sage conseguiu chegar a algumas conclusões. A primeira é que, por mais quente que sejam Hub City ou o Rio de Janeiro, Bombaim ganha de longe. O problema é o ar seco que dificulta a respiração e as ruas estreitas que aumentam a sensação claustrofóbica. A outra é que mesmo sendo difundida a idéia do inglês ser uma língua universal, isso é balela. A população em geral mal tem condições para se sustentar, não havendo possibilidade de arcar com despesas de aprendizado de qualquer língua estrangeira. As únicas pessoas que puderam compreender algo foram aproveitadores de turistas, que não ajudaram em nada a busca do Questão.

Começando a ficar preocupado, Sage espera, sem alternativas, pela ligação de Oráculo. E se pergunta se o "patrão" dela já descobriu que é ele o encarregado da missão de recuperar o ídolo místico, e que já falhou no Rio de Janeiro.

Com o suor escorrendo pelo corpo e sem nenhuma pista do paradeiro do ladrão do ídolo, Sage resolve voltar ao hotel. "Melhor recarregar o celular do que ficar sem bateria no meio de um contato da Oráculo."

As ruas de Bombaim chamam muito sua atenção. A pobreza e a fome do povo são quase palpáveis. No Rio havia muita miséria também, mas a situação era mais mascarada, talvez porque ele tenha ficado dentro de uma área turística ou porque as pessoas com dinheiro que circulavam pela cidade maravilhosa amenizavam o quadro total. Na Índia é mais difícil ver membros da elite andando pelas ruas. Isso e a falta de uma praia para amenizar os ânimos tornaram o humor de Sage cada vez mais soturno, como acontece sempre que descobre uma situação penosa e se questiona o quanto não se fez para melhorá-la.

Gotham City

Para o Batman o garoto era somente um estranho nas ruas de sua cidade. Um menino que se somava às várias vítimas dos becos e ruas de Gotham. Ou talvez um possível predador em potencial.

Enquanto estava em um dos esconderijos do Homem-Morcego, Zack foi analisado por um atento Batman. A dívida que ele parecia nutrir pelo Questão fazia com que tivesse forças para enfrentar o vício. Batman sabia muito bem o que era essa situação. Já vira muitos jovens com mais saúde e resistência desistirem de enfrentar a abstinência e voltarem às drogas. Mas a influência do homem sem rosto neste garoto parecia ser muito forte. Apesar das várias obrigações que prendem tanto Batman quanto Bruce Wayne em sua terra, ele decide providenciar um encontro de Zack com seu salvador.

Ao entrar no quarto Sage fica de prontidão. Alguém estava em seus aposentos. Um chute direto no rosto do intruso é interceptado por uma mão de pedra.

Jogado de volta na direção da porta, Sage analisa seu adversário. A grande figura vestindo um sobretudo impressionava, nem tanto pelo seu tamanho ou por possuir uma mão de granito, mas por outras características. O ser tinha um tom de pele vermelho escuro, dois cotos em sua testa, e, para completar o bizarro conjunto, uma cauda.

— Ora, ora, se não é Hellboy... Como foi mesmo que a revista Time o chamou? "O maior Detetive do Paranormal de todos os tempos".(*)

— Algo assim. Mas acredite, tive alguns tutores que deixariam muito de meus feitos na obscuridão. Se você já desistiu de brigar comigo, posso começar a me desculpar por ter entrado no seu quarto. Lamento, mas precisava falar contigo. Você é Vic Sage, certo?

A estranha situação tinha um quê de irreal, mas Sage já estava se acostumando com as surpresas e encontros fortuitos neste caso.

— Você diz que precisava falar comigo, mas não sabia quem eu era? Isso é, no mínimo, esquisito, se posso dizer.

O Demônio relaxa. Esticando seus músculos, ele senta na beirada da cama do quarto, a cauda automaticamente indo para o lado, permitindo que seu dono se ajeitasse. Tudo de uma forma tão natural que o ato só seria notado por quem estivesse na presença de Hellboy pela primeira vez.

— É... Bem, é tudo meio complicado e provavelmente não vai fazer muito sentido para você, mas deixe-me explicar. Existe uma força no universo, a maioria das coisas que consideramos coincidência não passam de eventos ligados por uma sincronicidade. Muitas vezes percebemos essas situações que estavam "preparadas" para acontecer, mas nossa mente não consegue conceber o ato, deixando uma sensação que chamamos de déjà-vu.

— E você vai me dizer que isso já aconteceu antes ou algo assim? — Por mais mal educado que pudesse parecer, os olhos de Sage não deixavam de imaginar o que seriam aqueles tocos na fronte do investigador.

— Não exatamente que já tivesse acontecido antes, mas que estava sincronizado para ocorrer e nossas mentes reconhecem a situação. E quanto ao que você está se questionando a resposta é sim, esses tocos são dois chifres característicos de minha... raça. Mas, como pode ver, prefiro os meus aparados.

Sage fica extremamente desconfortável de ter sido tão perceptível e procura olhar para outro lado enquanto ouve o resto da explicação.

— Nós podemos treinar nossas mentes para perceber mais claramente essas sincronicidades e quando alguém lida com artes místicas acaba tendo uma maior compreensão disso tudo. — Hellboy fala lentamente escolhendo as palavras e tentando ser o mais claro possível. O tom de voz é o mesmo de um pai narrando um conto de fadas para filho antes de dormir.

— Entendo, e isso quer dizer que você sabe de coisas que eu não sei.

— Algumas. Como, por exemplo, que você é o aventureiro conhecido como Questão.

— Putz. Você descobriu isso por ser iniciado em artes místicas?

— Hehe. Não exatamente. Quando histórias de um homem sem rosto foram investigadas pelo Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal, descobrimos que se tratava apenas de um vigilante fantasiado. Analisando o tempo de atuação do Questão e dos desaparecimentos do repórter Sage, não fica difícil imaginar seu segredo. Mas não se preocupe, a área de interesse do Bureau é menos... mundana. Apenas alguns doidos ficam fuçando velhos arquivos. Duvido que mais de uma ou duas pessoas lembrem que já investigamos você. Eu mesmo só sabia disso porque preferia ler arquivos antigos escondidos do que dar andamento em algumas aulas de Línguas Swahilis.

— Isso não me deixa muito calmo...

— De qualquer forma, é como eu dizia. A sincronicidade liga muitos eventos e eu sei que você está em uma cadeia desses acontecimentos agora mesmo. Estranhas decisões, compulsões e teimosias, certo?

— Talvez você esteja certo. Isso explicaria algumas coisas...

Sage reflete sobre algumas dessas "coisas": a estranha compulsão em ajudar Zack, o encontro com Shiva, a luta com o Tigre de Bronze, a confiança de Oráculo ao lhe dar a missão...

— Tenho certeza que sim. — continua Hellboy — Mas sei que no momento você está atrás de um ídolo tibetano. E acredite, sei disso porque as notícias voam em cidades como Bombaim. Suas tentativas de comunicação não encontraram apenas ouvidos "positivos". Existem outras pessoas interessadas neste ídolo, pessoas perigosas. Eu acabei vindo a Índia devido a um ... assunto, particular. (**) Infelizmente não poderei lhe ajudar em sua busca, mas acho que auxilio um pouco informando que tipo de objeto é aquele que você procura.

Sage permanece em silêncio enquanto Hellboy prossegue.

— O ídolo é muito antigo. Alguns acreditam ser uma antiga relíquia de magos atlantes, pertencente ao lendário Arion. Não se sabe muito sobre como o objeto foi levado para o Tibete, mas acabou sendo protegido por monges no não menos lendário templo de Lukhang. (***) Durante a ocupação do Tibete pelos chineses, os monges, com freqüência cada vez maior, meditavam pela paz. As energias da meditação eram canalizadas para este ídolo. Com o tempo, o objeto se tornou um receptáculo de força. Se empregadas de forma correta, essas energias podem tanto causar uma explosão fracionando um átomo quanto manter funcionando um gerador de eletricidade. Causando cobiça em várias pessoas que conheciam sua existência, o objeto acabou sendo roubado de seu templo por um ladrão de tumba.

— Essa parte da história eu conheço. Ele acabou sendo levado para o Rio de Janeiro, onde foi novamente roubado por alguém desconhecido. Eu estava lá. E essa pessoa veio para Bombaim.

— Sim, mas não se engane. Ele não roubou em proveito próprio. Existem pessoas muito perigosas por trás disso.

— Acredito. Meu próprio empregador não é exatamente flor que se cheire.

— Bem, é só o que posso fazer por você. Como eu disse, tenho responsabilidades. A vida de alguém que gosto muito depende do que vim fazer na Índia. Só vim ter essa conversa com você porque era minha responsabilidade nesta "sincronicidade".

O ocultista se levanta e começa a sair, mas é interrompido por Sage antes de chegar ao corredor.

— Obrigado. Pelo menos tenho uma idéia do que estou enfrentando. Mas eu mesmo sou adepto de técnicas de meditação tibetanas e, pessoalmente, não acredito que isso possa gerar energia de forma a ser captada por um objeto físico.

Um sorriso se forma no rosto de Hellboy.

— Já dizia Shakespeare: "Existem mais coisas entre o Céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia". Eu mesmo já vi muito e só fico triste de não poder te ajudar mais. Mas pense um pouco: você já tinha imaginado em ter uma conversa com um demônio ocultista em uma tarde quente na Índia?

Sage sai novamente. Oráculo ainda não entrou em contato e ele pensa em poder conseguir uma refeição que não cause problemas para seu estômago, acostumado com porcarias exclusivamente ocidentais. Seus sentidos mal tem tempo de avisar que algo está errado quando ele leva um golpe na nuca. Virando-se para encarar seu adversário, Vic reconhece seu atacante. Grande, forte, totalmente careca. O homem que roubara o ídolo no Rio de Janeiro. Parece que ele reconheceu o Questão, mesmo estando sem seu disfarce habitual.

Na luta anterior, Sage levara a pior. Mas agora ele está preparado. O homem é extremamente forte, e da vez anterior, lutando na defensiva, Sage procurara derrubar as defesas para acertar o bandido.

O homem ataca, enquanto Sage permanece calmo e imóvel. Desviando no último momento, as investidas acabam acertando apenas o vazio. Após quatro tentativas, seu oponente começa ficar nervoso e a antecipar os desvios de Sage. Desta vez, porém, ele não sai do caminho. Apenas se abaixa estirando a perna e acertando o joelho do gigante, tirando seu equilíbrio. Aliado ao peso e inércia do golpe, o resultado foi uma estrondosa queda de cabeça, que levou o inimigo à inconsciência.

Antes que Sage possa se sentir aliviado, ele sente uma picada no pescoço.

— Mas o que....

A droga na ponta do pequeno dardo faz o Questão desfalecer. Sage não percebe que é carregado e levado para uma van, deixando para trás as chaves do quarto de hotel e o celular de contato com Oráculo.

Continua...

:: Notas do Autor

(*) Saiba mais sobre Hellboy em suas aventuras aqui no Hyperfan, em breve.

(**) Futuramente essa missão do Hellboy estará no Hyperfan, na mini-série "Conceitos Legais".

(***) Lukhang ou Templo dos Espíritos das Serpentes foi construído no século XVII segundo a visão do 5o Dalai Lama com o espírito feminino das águas guardiã dos tesouros materiais e espirituais. O templo tem as secretas pinturas das práticas do Dzogchen, segredo desconhecido até para os próprios monges, salvo aqueles da mais alta ordem.



 
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