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Questão # 17

Por Cesar Rocha Leal

Evoluções
Parte V — Divagando Com o Inimigo

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A mente começa a clarear. É estranho quando você sai da inconsciência profunda em um local desconhecido. A primeira coisa que volta a funcionar em Sage é o olfato. Um cheiro forte de alecrim impregna suas narinas e também outro mais doce, sutil e sensual... como canela.

Depois é a audição que retorna, com um som suave de flautas e cristais tilintando.

Posteriormente, o tato volta também, e Sage se descobre em grandes almofadas, macias, sedosas e que emanam o cheiro de alecrim que havia sentido.

É a vez da visão, e quando seus olhos focam a sua frente, o repórter de Hub City é abençoado com uma das mais belas visões que alguém pode ter ao acordar. Uma belíssima mulher em trajes lilás, cabelos castanhos longos e olhos profundos. Tudo nela emana a lembrança de sexo e faz com que Vic se pergunte quanto tempo faz que ele não desfruta de companhia feminina. Parte da perna da moça aparece no diáfano vestido, pele suave, lisa...

Por último, o que retorna é a memória. Sage lembra que foi abordado nas ruas de Bombaim pelo homem que havia roubado o ídolo tibetano no Rio de Janeiro (*). Houve uma luta... Apesar de ter vencido, ele foi drogado e trazido até este lugar, mas não estava sequer usando seu traje de Questão, o que significava que estas pessoas sabiam sua identidade, ou estavam somente atrás de Vic Sage.

Há alguns anos atrás, Sage levantaria de um salto e procuraria fugir às cegas, mas ele se considera mais esperto nos dias de hoje. Conhecimento... Esta é a melhor arma contra um adversário desconhecido.

— Você está melhor, senhor Sage?

A voz da mulher parece vibrar em uma seqüência estranha. Seu corpo reage à tensão sexual que parece emanar de todos os seus poros. Poucas vezes Sage se sentiu assim e no fundo de sua mente um pensamento parece repetir... Você precisa saber o que usaram para te drogar...

— Acredito que tudo estará bem assim que souber onde estou. E quem é você.

A mulher sorri. Um sorriso perfeito e sincero. Por um momento, o sorriso dela parece ser tudo o que importa na mente do herói.

— Eu sou Tália, mas isso não é importante agora. O que realmente deve saber é que você é hóspede de meu pai. E ele já virá conversar contigo.

— Seu pai é aquele grandão que enfrentei?

Mais uma vez o sorriso nasce na boca de lábios vermelhos e dentes alvos.

— Não, aquele era Ubu, servo de meu pai... Ra's Al Ghul.

O mundo parece desaparecer debaixo dos pés de Sage. Poucas pessoas, fora dos ramos de trabalho de Sage — jornalismo e vigilantismo —, sabem quem é Ra's. O Cabeça do Demônio, como diz a tradução de seu nome, é um dos homens mais perigosos do mundo. Ficou clara a razão pela qual o Batman estava usando agentes para vigiar este caso; o objetivo era não chamar a atenção de Ghul. Até mesmo o monarca da Latvéria ou o famigerado Lex Luthor não se comparam ao perigo que este homem representa. De repente até mesmo a presença de Tália perdeu muito de seu encanto.

Batman chega em Bombaim. Seu companheiro de viagem, o garoto conhecido apenas como Zack, pareceu por várias vezes fraquejar em sua decisão de largar seu vício no tóxico, mas atravessou os períodos de abstinência bravamente. O que apenas fez o homem-morcego redobrar sua vontade em localizar a pessoa que inspirou o rapaz a mudar de vida.

Descobrindo o hotel em que Sage estava hospedado, o homem-morcego utiliza seu disfarce de Fósforos Malone para alugar um quarto em que o garoto possa descansar, enquanto o cavaleiro das trevas inicia a busca pelo Questão nas ruas da cidade.

O homem entra no quarto de Sage. Seu tamanho e presença intimidam e deixam o Questão alerta. Juntamente com ele entram alguns servos que colocam uma lauta refeição à disposição dos dois. Comida libanesa em sua maioria. Com um gesto, ele dispensa os empregados e até Tália sai do quarto, deixando a impressão de perigo ainda mais forte na espinha do aventureiro.

— Finalmente encontro o homem que me causou problemas nos últimos dias. Você é alguém muito tenaz, senhor Victor Sage, ou prefere ser chamado de... Questão?

Percebendo que seria inútil desmentir o fato, Sage responde:

— Não faz diferença como você venha a me chamar. Eu já tive muitos nomes nesta vida.

— Sim. Que seja Sage, então. Sem pais, criado no orfanato de Hub City e que venceu na vida pelos próprios méritos. Muito educativa sua história. Eu procuro me manter informado sobre os componentes da chamada "comunidade super-heroística", mas nunca esperei que logo você viesse a me causar problemas.

— Não sei se devo ficar lisonjeado ou ofendido.

— De modo algum minha intenção foi ofendê-lo. Ocorre que você tem um dos disfarces mais eficientes que já vi. Sua máscara que o faz aparentar não ter qualquer rosto causa mais medo à ralé que normalmente enfrenta do que uniformes grotescos ou mesmo superpoderes. A engenhosidade de seu traje é admirável, simples e direto, mas que compensa largamente sua falta de "apetrechos" e aparatos, bem como a sua carência de poder. É perfeitamente louvável sua iniciativa, Sage. Eu pessoalmente sempre acreditei que os melhores dentre nós, seres humanos, devem ser os responsáveis naturais pela garantia das condições de vida do resto... E você sempre se pautou por esta regra: um órfão, condenado ao ostracismo e indiferença das freiras que o criaram, do mundo que o rejeitou e da sociedade que nunca o aceitou. Mas mesmo assim se tornou o arauto das notícias de corrupção que a infestam. E o defensor das noções morais através dos próprios punhos. Muito inspirador... E, por que não dizer, há muito de Mussolini em seus atos.

— Se foi apenas isso que pôde constatar de minhas ações, eu só posso lamentar.

— Não seja modesto, Sage. Isso pouco faz bem à sua imagem. Você anda pelas ruas como o defensor sem rosto e aparece nas TVs dos lares dos hubianos não porque sente que deve algo ao mundo, mas apenas por saber que PODE. E que, se não o fizer, provavelmente ninguém o fará, nem o governo, nem a polícia, nem a sociedade e nem os chamados "super-heróis".

Sage não responde, sua mente apenas imagina o que fazer para fugir dali. A porta está vigiada com certeza, a janela é alta, mas possivelmente o levaria apenas a se deparar com muros ou grades. Além disso, o que Ra's parece querer dizer não encontra muita resistência na mente do Questão.

— Pense, Sage. Como o mundo seria melhor, se houvesse uma sociedade mais justa e igualitária. Onde os recursos naturais não fossem mais desperdiçados entre as turbas ignóbeis que clamam por comida a um governo surdo e inepto. Onde cada um soubesse sua responsabilidade e contribuísse para o funcionamento do todo. Onde a fome, a guerra, a dor, seriam para sempre abolidas dos dicionários.

— Junto com o livre arbítrio, certo?

— Não me decepcione, Sage. Você, como alguns homens que conheço, fala em livre arbítrio como se fosse o maior tesouro da humanidade. Mas acredito que as massas famintas que moram embaixo das pontes das grandes metrópoles, sem dinheiro, sem emprego ou perspectiva, trocariam alegremente seu arbítrio por um prato de feijão e um objetivo na vida.

Mais uma vez o Questão se encontra analisando o que Ra's lhe diz, e se descobre incapaz de discordar totalmente das palavras e visões do enigmático homem. Novamente seus lábios se encontram mudos.

— Seu silêncio me diz muito mais do que sua eloqüência demonstraria. Você sabe que tenho razão. Pessoas como aquele que o mandou aqui, o detetive de Gotham, fazem o que podem, mas são incapazes de dar alento aos milhões de miseráveis do mundo. Ainda assim, acreditam que podem remediar o planeta. Esse tipo de pensamento mesquinho é que o moveu até a mim, pensando em recuperar isto...

Ra's tira de seu cinturão o ídolo tibetano que Sage procurava tão deseperadamente. O objeto com apenas 20 centímetros parecia brilhar nas mãos de Ra's com um poder latente. Como lhe havia sido explicado pelo ocultista Hellboy (**), aquela energia era resultado da mentalização dos monges e poderia ser uma fonte inesgotável de poder.

— Talvez você não tenha idéia do que pode ser seu, Sage. Com esse objeto, eu poderei remodelar o mundo, Sage.

Ra's bate com o ídolo na mesa, destruindo o móvel e demonstrando as propriedades indestrutíveis do amuleto, que sequer ficou arranhado.

— Seja parte de meu sonho, Sage. Venha reinar a meu lado, você seria de valiosa ajuda no processo de purificação pela qual o mundo passará. Mais de oitenta por cento da população virá a perecer, Sage. Mas os sobreviventes viverão em uma utopia, sob minha tutela. E da sua, Sage, ao se tornar meu herdeiro desposando minha filha, Tália.

O Questão sente a garganta secar. No momento, tudo o que rege seus pensamentos são idéias sexuais com a atraente Tália. Sage já se sente parte de uma família, coisa que ele nunca desfrutou. Mas algo parece errado. O cheiro no ar, que parece ser canela, está cada vez mais forte. E sempre que pensa em Tália ele parece aumentar ainda mais, enfatizando o desejo do herói por ela. Além disso, Ra's parece repetir várias vezes o nome de Sage desnecessariamente. Para enfatizar algo... Drogas, hipnotismo e manipulação. Neste momento Vic percebe a intenção de Ghul. Ra's quer manipular seus desejos e sua mente. Afinal, como poderia ele de outra forma concordar com a idéia da morte de bilhões de pessoas em todo o mundo? Seus amigos, Tot, Myra... Focando sua mente por um instante, Sage toma a palavra.

— Sim, eu entendo, mas será que poderia usar o banheiro, por favor... Me refrescar, eu estou sentindo um calor muito forte.

— É claro, Sage, atrás daquela cortina. — Ra's aponta para o aposento com um sorriso de vitória no rosto, ele desfruta da certeza de ter dobrado Vic de acordo com seus desejos.

Vic molha um pouco o rosto e resolve agir de forma instintiva. Mesmo depois de descobrir a intenção do adversário em manipulá-lo, era difícil resistir. A idéia de possuir Tália fazia seu sangue ferver. Somente agindo de impulso ele poderia resistir.

Mecanicamente ele tira sua máscara do compartimento secreto de seu cinto, colocando-a em seu rosto e liberando o composto gasoso que a faz fixar-se, se tornando o Questão.

Os acontecimentos seguintes se desenrolam de forma muito rápida. Ele sai do aposento e se lança sobre Ra's. A surpresa faz com o vilão esteja despreparado. Sage consegue pegar o ídolo e dirige-se para a janela.

Ao pular através do vidro, ele acaba se cortando, mas a adrenalina faz a dor ficar em segundo plano em comparação à urgência de fugir. Questão cai de uma altura de seis metros, mas tenta se manter em movimento. Qualquer vacilo faria com que seus músculos se recusassem a continuar funcionando. Mais uma vez, a sorte acaba ficando a seu favor. A maioria dos vigias da casa de Ghul são treinados para protegê-la contra visitantes indesejados que venham de fora, mas não estão acostumados a impedir pessoas de saírem. Com um giro rápido de pernas, um dos guardas é desarmado e, antes que o outro perceba o que está ocorrendo, acaba sem seu rifle também.

É com um grande alívio que Sage percebe que não há muros ou grades impedindo sua saída. Em uma desabalada corrida, o herói consegue deixar para trás Ghul e seus asseclas, mas a dor em sua perna começa a se tornar muito forte para ser ignorada. A conseqüente perseguição a ele não deve demorar a ser organizada.

CONTINUA

:: Notas do Autor

(*) Última edição.

(**) Também na última edição.



 
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