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Questão # 18

Por Cesar Rocha Leal

Evoluções
Parte VI — Final

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Sage anda a esmo na noite das ruas de Bombaim, levando em suas mãos um misterioso ídolo tibetano, que antes brilhava de poder enquanto estava em posse de Ra's Al Ghul, mas que desde que foi tomado pelo Questão ficou inerte. A perna dói intensamente, uma luxação já se faz sentir, mas o jornalista sabe que não deve parar, sob pena de ser alcançado.

Sua mente começa a funcionar de forma satisfatória. Após ter conseguido resistir às pressões hipnóticas e às drogas de Ra's, Sage mal conseguiu escapar das garras do inimigo. A cabeça ainda vibra a cada passo. Sage deu várias voltas nos becos apertados em torno do hotel, com medo de que houvesse uma emboscada o esperando em seu quarto, imaginando o que deveria fazer em seguida.

— Ali! O americano!

O grito desperta Sage: dois asseclas de Ra's o encontraram. A perseguição recomeça, mas nas ruas apinhadas de gente e com a perna sem forças, os homens ganham terreno facilmente.

— Infiel! — grita o estranho indiano, ao tentar acertar Sage com um sabre.

Movendo-se instintivamente, Vic defende o golpe com a perna ferida na lateral sem fio da lâmina. A dor parece correr por todo o corpo, mas teria sido pior se tivesse usado sua perna sã para atingir o adversário e colocado seu equilíbrio na outra. Sem perder tempo, ele atinge com força a garganta do homem; em condições normais não usaria um golpe tão perigoso, mas não havia alternativa.

Com o primeiro inimigo caído no chão, Sage procura o outro adversário e nota pela primeira vez as pessoas ao seu redor. Mesmo antes da luta ter começado, muita gente já apontava para seu rosto, ou para a falta deste, achando que o Questão seria mais um dos muitos indianos que usam truques para ganhar dinheiro nas quentes noites de Bombaim, como faquires e encantadores de serpentes.

Sem conseguir definir onde está o outro homem, Questão tenta se distanciar de qualquer ataque. Saltando sobre uma cama de pregos e seu assustado ocupante, se joga entre as pessoas, mas antes derruba um cesto de onde sai uma serpente. A confusão é geral. Com a correria dos transeuntes, ele consegue subir em um toldo que o leva para o telhado da casa adjacente. No final de suas forças, percebe que existe alguém esperando por ele.

— Me entregue o ídolo.

Mesmo antes de reconhecer seu interlocutor, Vic sabe que não tem condições para outro combate, mas ainda assim diz para si mesmo que nunca devolverá para um assecla de Ghul o que tem em suas mãos...

— Batman?

— Sim, você sabia que estava trabalhando para mim. Agora acabou, me entregue o ídolo. — O tom de voz do homem-morcego deixa claro que ele não está acostumado a repetir um pedido. Nesse momento, o outro homem que perseguia o Questão alcança o telhado por trás do herói e saca um revólver, mas Batman o desarma com um golpe de cotovelo sem sequer olhar para trás.

— Ou eu ainda estou meio ruim da vista ou você é melhor do que me lembrava. Acho que não preciso contar o que ocorreu, pois dependendo de quanto tempo faz que você chegou em Bombaim, já deve saber até mais do que eu mesmo.

Com essas palavras, Sage se senta nas telhas para recuperar o fôlego.

— Talvez, mas eu acredito que já pedi para você me entregar o que está carregando.

— Não.

— O quê? Olhe, homem, não sei o que está pensando, mas...

— Nada de mais — depois de interromper o cavaleiro das trevas, Sage continua a falar rápido para impedir que ele se recuse a ouví-lo — Desde que toda essa confusão começou, eu me sinto "levado" por circunstâncias além do meu controle. Enfrentei pessoas que deveriam ter sido minhas amigas desde o início, viajei para vários lugares pelo globo, ouvi uma "palestra" sobre os poderes da sincronia e fiz um pouco do trabalho que deveria ser seu. E agora você fica na minha frente e exige que eu lhe entregue a peça. Claro que tive alguma ajuda, mas me sinto ligado a esse ídolo. Você pode não acreditar, mas eu tinha que tirá-lo das garras de Ra's Al Ghul. Não você ou o Tigre de Bronze. EU. E serei eu que irei levá-lo de volta para o Tibet. De uma forma ou de outra, fico neste caso até o fim. Claro que você pode tirar ele de mim, poderia mesmo que eu estivesse em melhores condições de luta. Mas saiba que não vencerá sem me matar.

Batman fica sem ação. Poucas vezes alguém discordou dele com tanta veemência e paixão. Mas algo parece estar ocorrendo, um fato com o qual o homem-morcego já se deparou várias vezes... Determinação. Por um momento, uma certa promessa de um jovem órfão volta à sua lembrança.

— Certo. Imagino que terá que ser como você quer... Desta vez. Vamos para o hotel então, o local está seguro por enquanto. Veremos como iremos fazer para manda-lo para o Tibet. Nesse meio tempo eu sei de alguém que também acredita estar cumprindo parte de seu destino, e que, com certeza, vai querer falar com você.

Tibet

Foi muito difícil passar pelas fronteiras da China, mesmo com todo o aparato colocado à disposição de Sage pelo homem-morcego, mas depois de três dias o Questão se encontra montado em um lhama, seguindo dois guias em direção ao templo de Lukhang. Uma das maiores dificuldades foi determinar a localização do lendário lar do espírito feminino das águas. Mas, Sage acredita, o Batman deve ter usado contatos místicos na própria Liga da Justiça, além de seus próprios meios, para desencorajar uma perseguição por parte de Ra's Al Ghul.

A seu lado o jovem Zack também enfrenta o frio e o desconforto da viagem. O garoto acredita ser o culpado pelo que aconteceu ao herói, que nunca teria se envolvido nisso tudo se não estivesse disposto a salvar a sua vida, o que o levou a exigir que pudesse acompanhar Sage na fase final de sua jornada. Ao encarar a forma com que enfrentou seu vício e se sentiu responsável por outra pessoa, pode-se notar o grande amadurecimento pelo qual o rapaz passou.

A perna de Vic ainda dói intensamente, mas se tornou apenas um dos problemas que pairam na cabeça do jornalista. A decisão de expor sua identidade secreta para o garoto, o compromisso de cumprir a missão de devolver o estranho ídolo, a preocupação com uma boa desculpa para dar a seus chefes pela sua ausência no emprego e até mesmo a penosa situação do povo tibetano são prioridades em seus pensamentos no presente momento.

O ídolo não mais apresentou qualquer alteração como o brilho que o circundava enquanto estava nas mãos de Ra's. O mais estranho é que, apesar de Vic ter visto que o objeto é indestrutível quando este deixou uma mesa em pedaços, o ídolo não parece nada mais do que madeira ao toque. Esses fatos, aliados à descrença de Sage na origem dos fantásticos poderes do ídolo, o deixaram muito mais curioso e decidido a encerrar sua missão.

Um dos guias desce de sua montaria e começa a falar de forma rápida; tentar definir o que ele diz em uma língua que pouco domina faz com que Sage perca o outro homem de vista. Apenas nota o que está ocorrendo quando se vê desviando de um golpe de uma espada a apenas centímetros de seu pescoço. A lâmina corta fundo sua face e o sangue quente começa a escorrer, afastando o frio. Preparado para enfrentar os guias, Vic desce do lhama, mas acaba pisando em falso com a perna machucada e escorrega por um barranco de neve.

O medo de morrer "afogado" em água sólida faz com que a adrenalina jorre por suas veias. Mas sem sequer ter consciência de que lado seria "em cima", pouco Sage pode fazer para impedir sua queda, que termina com uma pancada na cabeça e a subseqüente inconsciência.

Sage abre os olhos. Ele se encontra deitado em uma cama de madeira. Sua mente começa a despertar quando nota um homem oriental e velho sentado a seu lado.

— Você já está melhor, viajante?

— Eu... Acho que sim... — ao tocar no ferimento em seu rosto, ele vê que o mesmo está quase sarado. Um pedaço de sua própria máscara encobre um emplastro de alguma coisa malcheirosa.

— Não se assuste ao ver que usamos sua pele falsa para curá-lo, afinal o projeto inicial se destinava a isso, não?

— Sim, mas Tot descobriu que era perigoso para pessoas que tivessem reações adversas... Mas como você sabe?

O velho apenas sorri.

— Aqui se sabe pouco, ou até nada, eu diria, mas se pondera muito sobre várias coisas.

A memória retorna a Sage e ele lembra dos fatos que o fizeram ficar desacordado.

— Onde estou? Eu estava viajando com um garoto... Ele...

— Não se preocupe, o rapaz está bem. Os guias quiseram roubá-los ao descobrir exatamente onde pretendiam ir, mas o rapaz se livrou. No final, seus guias levaram apenas os lhamas que haviam vendido a vocês.

— Quer dizer que este é o Templo de...

— Só o que posso afirmar é que este é o fim de sua jornada.

Sem mais palavras, o homem sai do quarto. Sage investiga o ferimento e nota que mesmo com a pele sintética deveria haver uma cicatriz em seu rosto, mas não encontra sequer uma laceração na pele por baixo do emplastro.

Vic se levanta, decidido a procurar Zack, e encontra suas roupas e o ídolo em cima de uma cadeira, mas quando tenta sair do aposento o velho retorna.

— Percebo que já se sente melhor. Se você não se importa, o levarei até a presença do Lama.

Sage segue o velho por suntuosos corredores, mas nota que a riqueza está muito mais nos detalhes e na beleza das gravuras das paredes do que propriamente no material em que foram entalhadas. Alguns monges passam por ele sem sequer perderem tempo observando o recém-chegado; é como se estivessem tão concentrados em uma tarefa que não faria sentido que se desviassem da mesma.

Entrando em outro aposento, ele se vê diante de outro monge, mais novo do que aquele que o havia guiado até o primeiro quarto. No centro, almofadas estão à disposição do jornalista, e ao fundo colunas de pedra parecem encobrir alguma passagem.

— Então finalmente chegou até nós, senhor Sage.

— Vocês sabiam que eu viria?

— Oh, nós sabemos muito pouco...

— Sei, mas ponderam bastante, já ouvi isso.

— A impaciência ainda o domina. Sua estrada ainda é longa. Não espere chegar ao final sem ter desfrutado todo o percurso. Mas nós tínhamos consciência de que viria, fazia parte de seu carma nos fazer duas tarefas. Tudo dentro da "sincronia", se preferir.

— Eu ouvi algo sobre isso também, da fonte mais inesperada possível...

— O Garoto Demônio? Ele também tem uma estrada longa, muito o que descobrir ainda, mas está melhor hoje do que na época em que esteve conosco.

— Vocês hospedaram Hellboy? Que mundo pequeno.

— Não, o mundo é grande. O carma que une algumas pessoas é o que faz ficar pequeno. Veja o caso do garoto que você trouxe para cá.

— Zack?

— Sim, você tinha uma dívida com o espírito dele, um débito de outras vidas. Mas acredito que tenha pago essa dívida ao se preocupar com o futuro do menino e acabar fazendo com que ele se reunisse de novo conosco.

— Reunir? Eu não entendo?

— Bom. Aceitar que não entende é o primeiro passo na busca da compreensão. Na verdade Zack é a reencarnação de um dos mestres do próprio Dalai Lama. Há algum tempo, o destino o levou para longe em busca de iluminação, em outras vidas, outras terras. Mas você o trouxe de volta até nós. Ele é demasiado velho para se iniciar nos mistérios da ordem, mas terá um treinamento adequado, lembrando-se de muitas coisas "esquecidas", e poderá retornar para nós mais facilmente em sua próxima encarnação. Essa foi a primeira das tarefas que você acabou executando para nós.

— Isso é muito estranho, mas acho que Zack sempre esteve perdido em sua vida, talvez isso tenha feito com que eu ficasse tão interessado em poder proporcionar uma chance dele se reabilitar...

— Evoluir.

— Talvez, nunca pude determinar o que fazia com que eu fosse impelido a ajudá-lo, mas se for da vontade dele permanecer com vocês...

— Acredito que será, por algum tempo pelo menos. Mas como eu disse, essa foi uma das missões que você cumpriu para a ordem. Zack acabaria achando seu caminho até nós, ainda nesta encarnação, mais cedo ou mais tarde. Mas, ao trazê-lo, você adiantou a vinda dele, além de ter saldado uma dívida antiga.

A mente de Sage não consegue processar tudo que o velho mestre diz. Parece fazer sentido, porém de uma forma estranhamente ilógica. Mas ao contrário de quando conversou com Ra's, não pode detectar nenhum tipo de manipulação.

— Se eram duas missões que eu teria que cumprir, e encaminhar Zack foi uma delas, acredito que esta seja a outra.

Sage entrega o ídolo ao homem, este agradece cerimoniosamente. Por um instante, analisa o ídolo e depois o bate contra o chão, quebrando-o em vários pedaços.

— Mas... O que você fez... Ele não era poderoso... Indestrutível?

Um sorriso se forma no rosto do Lama.

— Meu caro Sage. Os objetos têm as funções que os homens os dão. E têm o poder que as pessoas acreditam que tenham. Homens gananciosos como Ra's Al Ghul acreditavam neste poder, e assim era perigosamente real para eles. Outros acreditavam estar em posição de proteger a humanidade deste perigo, para eles a capacidade do ídolo também é real. Mas você nunca acreditou neste poder, por isso ele nunca se manifestou em suas mãos. Dentro destas paredes, nós sabemos que os objetos também têm missões e nunca creditamos a esta figura as propriedades que você presenciou, por isso, nada mais fácil do que quebrar o ídolo, como um pedaço de madeira velha de que é feito.

Mesmo nunca tendo acreditado nas propriedades místicas do ídolo, Sage ainda se encontra abismado. Ele presenciou Ra's usar o poder, mas nas mãos do monge o objeto é completamente inócuo.

— Mas se ele não tem poderes reais para vocês, por que foi criada a lenda de sua existência? Por que se deixou que o roubassem daqui? Ele afetou tantas vidas em sua passagem fora destas paredes, desde o homem que o roubou até Ra's, envolvendo o Tigre de Bronze, além de Hellboy e do Batman...

— Apesar de não ter poderes em nossa concepção, o objeto tinha uma missão. Ele tinha que afetar todas as pessoas que você mencionou, além de várias outras. E tinha que ser o pivô de outro acontecimento.

— A missão do ídolo era trazer Zack de novo até vocês?

— Como eu disse, amigo Sage, o garoto acharia seu caminho cedo ou tarde. Sua missão era nos trazer outra pessoa.

Com essas palavras, o homem se levanta e deixa Sage sozinho na sala. O jornalista se encontra meditando no que lhe foi revelado. Por sua vez, ele é observado por duas outras pessoas que conversam.

— O caminho para a iluminação dele foi reaberto.

— Sim. — responde Shiva — Mas agora cabe a ele seguí-lo. Não haverá novas chances, caso ele se perca novamente...

— Isso não cabe a nós questionar. — a voz de Richard Dragon é calma e compenetrada — O potencial de auto-destruição de Sage é alto, mas fiz o que podia enquanto fui seu mestre e agora sua iluminação foi iniciada novamente; o destino do seu futuro está nas mãos dele mesmo. Como já esteve nas mãos de cada um de nós...

Shiva sorri. Ela sabe que Richard está questionando as motivações dela muito mais do que as de Sage. Mas deixando o parceiro ainda nas sombras ela sai para falar com Vic.

— Shiva? Por que será que me surpreendo em vê-la aqui? Foi sua aparição em Hub City que iniciou toda esta peregrinação, inclusive ao induzir Turner a lutar comigo.

— Talvez. Mas nunca se tem certeza, não é mesmo? Vamos, você precisa conversar com o garoto. Se despedir talvez seja o termo correto, eu acredito que ele ficará. Depois pode me acompanhar de volta aos EUA.

Mais tarde, dois cavalos partem do templo. Vic Sage e Lady Shiva iniciam sua viagem de volta.

— Sabe, ainda me pergunto o quanto disto tudo foi planejado por você.

A mulher não responde, mas um brilho estranho passa por seus olhos orientais.

— Algum tempo atrás, você disse que eu não era merecedor de lutar definitivamente contra você. Tudo isso me fez mais apto agora?

— Você se acha merecedor? — pergunta a mulher.

— Não, você ainda limparia o chão com a minha cara no terceiro ou quarto golpe. Acredito que quando finalmente me achar merecedor terei evoluído ao ponto de não estar mais lutando. Acho que me recusarei a praticar qualquer violência por estar com outro tipo de visão de vida, ou algo assim.

— Sério? E o que fará então com sua visão de não-violência se eu o atacar assim mesmo?

— Shiva, por enquanto esta é uma "questão" sem resposta.

:: Notas do Autor

Assim termina a saga Evoluções. Há muito tempo que queria ter contado esta história com aquele que é um dos meus personagens ficcionais favoritos. Agradeço a todos que me acompanharam, em especial ao nosso ex-editor-chefe Fernando Lopes e ao resto da equipe do Hyperfan.



 
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