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Capitão América - Origens # 04

Por Octavio Aragão

Tropa de Um Homem Só

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O corpo de Erskine desabou sobre Rogers, que o amparou como se o cientista fosse uma escultura de papel machê. Balas atingiram o rapaz, ombros, pernas e braços, mas Rogers parecia anestesiado. Avistou o agressor por entre os cabos dos eletrodos que pendiam do teto e partiu em seu encalço depois de deitar o corpo de Erskine sobre os lençóis caídos.

Do outro lado do vidro, Harry e Monk, armas em punho, esperavam ordens que nunca vieram. Cranston e Savage, imóveis, observavam a cena no laboratório.

— Chefia, — gritou Harry — o garoto lá embaixo vai morrer se não tomarmos uma atitude.

Cranston levantou uma sobrancelha, mas manteve a expressão congelada.

— Se for o que deve acontecer, — respondeu — que aconteça.

Harry ignorou a resposta enigmática e disparou contra o vidro. As balas ricochetearam, aumentando o pânico na sala. Monk deu-lhe um tapa nas costas que quase o desancou.

— Pare, ignorante! Isso é um novo tipo de vidro à prova de balas, dizem que é folheado a vibrânium. Se você continuar atirando vai acabar matando um de nós. Vamos fazer melhor: para onde foram aqueles dois palhaços que estavam aqui agora há pouco?

— Saíram por uma porta lateral. — disse Savage, braços cruzados.

— Vou pegar esses pilantras! — falou Harry, mas foi interrompido por Cranston, num sussurro:

— Cale-se e observe.

Rogers segurava o sabotador pelo pescoço com a mão esquerda. A direita estava ocupada esmagando os dedos do oponente contra o metal da pistola que matou Erskine. O que deveria ser um grito de louvor ao Terceiro Reich soou como um engasgo enquanto o espião nazista definhava ao sabor de uma cápsula de cianureto. Rogers largou o corpo e partiu na direção do outro nazista, que disparava sem pensar. Um tapa quebrou o braço armado. Um murro afundou o nariz do espião e silenciou-o para sempre, com um pedaço de cartilagem inserido no cérebro. A intenção de Rogers não era matar, mas não tinha controle sobre sua recém-adquirida força de dez homens.

— Isso não é bom. — disse Savage — Precisávamos de um vivo.

— Para quê? — perguntou Cranston — Já sabemos que são alemães e jamais nos contariam qualquer coisa em interrogatório. Melhor assim, menos dois monstros no mundo.

Savage calou-se, mas discordava. Para ele todos os homens eram intrinsecamente bons, necessitando apenas de um empurrão moral. Se aqueles dois passassem por uma sala de cirurgia, poderia fazê-los ver a luz apertando um ou dois parafusos. Maquiavel, os fins e os meios, aquelas coisas. De qualquer maneira, a Agente 13, seguida de uma tropa, aproximou-se trazendo o fugitivo pelos cabelos.

— A cápsula de cianureto, — gritou Monk lançando perdigotos no vidro — alguém impeça esse animal de se matar.

A Agente 13 mostrou um dente ensanguentado para a assistência do outro lado do vidro. Savage levantou as sobrancelhas.

— Monk, precisamos do contato da senhorita Carter.

— Pegue uma senha e entre na fila. — interrompeu Cranston — E agora o espetáculo prossegue.

Rogers estranhou a própria voz quando ordenou que o prisioneiro falasse. Mais grave, quase gutural, perguntou sobre os mandantes. Diante do silêncio, a Agente 13 separou um dedo do espião e torceu-o até ouvir o estalo seguido do grito.

— Creio que ele vai falar. — disse Rogers.

— Vai sim. — disse Cranston, adentrando o recinto e aproximando-se do homem imobilizado — Olhe para este anel, rapaz, e diga-nos o que precisamos saber. Prometo que a dor vai cessar.

E, numa sala fechada, o nazista falou. Os três homens eram parte de uma equipe comandada pelo Barão Strucker, infiltrados nas forças armadas há três anos e aguardando um momento-chave para agir. Seu grupo vinha seguindo Reinstein e a filha desde que saíram da Alemanha e tinham uma agenda cheia, que incluía eliminar com uma toxina indetectável toda a cúpula do Projeto Renascer nos próximos meses.

— Vocês não conseguirão nos deter. — disse o prisioneiro — Somos muitos, treinados e prontos para qualquer eventualidade. Seus homens já estão mortos e vocês vão chorar sobre suas caveiras ressequidas e insubstituíveis.

Cranston olhou para Savage. Ambos reconheciam mensagens cifradas quando ouviam uma.

— Diga-nos o que significa essa conversa sobre caveiras.

O nazista sorriu, olhos arregalados fitando o teto.

— Significa que, mesmo que cortem uma de nossas cabeças, duas outras surgirão.

Cranston afastou-se. Virou-se para Savage e Stark, com o semblante preocupado.

— Sabem o que eu acho? Que se não tomarmos uma atitude agora, nem o soldado Rogers poderá nos salvar da derrota na guerra que se aproxima.

— Sim, — disse Savage — fomos infiltrados antes da primeira batalha. Precisamos contra-atacar, dar um jeito de invadir a Alemanha. Rogers poderia ser o comandante de uma tropa de elite, que me dizem?

— Discordo. — disse Stark — Precisamos defender. Criar uma barreira, um escudo que nos resguarde dos ataques internos. A arma do futuro é o terrorismo e estamos indefesos contra isso. O soldado Rogers poderia ser o representante da nação para os americanos. Um ponto focal que sirva de inspiração para cada cidadão dos Estados Unidos, a encarnação da América em um homem.

Cranston assentiu.

— Faz sentido. Mas ainda assim, ele é um só e concordo com Savage no que diz respeito a darmos o troco. Creio que cabe a nós três traçarmos o rumo dessa batalha em duas frentes. Posso me encarregar da criação de um novo esquema de contra-informação em uma semana e garanto que apresentarei os melhores agentes de campo. Savage poderia ser o responsável por nossos possíveis aliados e recrutamentos internacionais para a tal tropa de elite, e Howard, você se encarregaria dos contatos com Washington? Precisaremos de liberdade de ação e o mínimo de burocracia possível para estruturarmos um projeto desses.

— De acordo. — disse Stark — E sei quem poderia nos ajudar.

Quando o Dr. Phineas Horton entrou, puxando com certa dificuldade uma carga de dois metros de altura coberta por uma lona, o auditório pareceu esquentar. Stark, com uma pasta vermelha debaixo do braço, tomou a frente das apresentações.

— Boa noite, senhora e senhores. Agora que o dr. Horton chegou, podemos dar início à primeira reunião do Projeto SHIELD.

Na platéia, além do recém-chegado, doze pessoas ouviam com atenção, folheando os memorandos distribuídos na entrada. Savage e seus cinco companheiros, especialistas em diversas áreas do conhecimento humano, Lamont Cranston, o recém-promovido capitão Steven Grant Rogers, acompanhado por Gail Carter, a Agente 13, e por um general de cinco estrelas. Também estava um homem de compleição larga, envolto numa gabardine caríssima e um sujeito esguio de ares britânicos, com um fino bigode e cabelos penteados para trás.

— Cada um de vocês está aqui representando uma das facetas que desejamos para esta organização, que longe de se ater apenas à segurança dos Estados Unidos, visa oferecer ao mundo livre proteção contra qualquer tipo de ataque terrorista. Alguns de vocês já se conhecem de projetos anteriores, tais como o Renascimento e Grande Muralha, mas creio ser esta a primeira vez que são recrutados oficialmente para trabalhar em conjunto, usando suas habilidades em prol da segurança mundial. Para aqueles que ainda não se conhecem, apresento-lhes doutor Clarke Savage Wildman Junior, cirurgião, filósofo e pesquisador, e seus associados, veteranos da Grande Guerra: general Theodore Marley Brooks, tenete-coronel Andrew Blodgett Mayfair, químico industrial responsável pelos laboratórios da SHIELD, coronel John Renwick, engenheiro civil, major Thomas Roberts, reconhecido como a segunda maior autoridade mundial em eletricidade, perdendo apenas para Thomas Alva Edison, e o doutor William Harper Littlejohn, arqueólogo de renome, responsável por nossos primeiros contatos com nações dadas como lendárias ou perdidas tais como Wakanda e Atlântida, de onde vem nosso contato e consultor, o príncipe Namor I.

Ao ouvir seu nome citado, o homem da gabardine levantou-se e fez uma mesura em direção à Gail Carter, que sorriu em resposta. Stark esperou que o outro se sentasse e continuou as apresentações.

— Temos ainda o senhor Lamont Cranston, filantropo e industrial do jornalismo. Capitão Steven Rogers, nosso exército de um homem só; senhorita Gail Carter, melhor agente de campo com quem já tive a honra de trabalhar; general William Curtis, representante das forças armadas; dr. Phineas Horton, especialista em robótica; e, finalmente, nosso representante na Inglaterra e contato no MI-5, especialista em terrorismo internacional e em cultura oriental, responsável pelo famoso projeto Grande Muralha, sir Denis Nayland Smith.

O britânico fez um aceno com a mão direita e parecia querer falar alguma coisa, mas foi interrompido pelo dr. Horton.

— Stark, você me chamou aqui para isso? Estou tentando mostrar a chave para a vitória na Alemanha desde aquele infeliz acidente que vitimou o Reinstein. Posso ir direto ao assunto?

Stark suspirou e assentiu.

— Senhores, com a palavra o dr. Horton.

O velho cientista aprumou-se e, com voz clara, falou:

— Creio que todos aqui concordam que temos de invadir a Alemanha imediatamente, com o melhor que tivermos, rápido e de surpresa. Levar o terror a eles. Mas como vencer a máquina de guerra da Wermacht com nossos soldados inexperientes? Sem ofensas, general Curtis, mas por mais que respeite e admire o trabalho de Reinstein, o capitão Rogers é apenas um homem fortíssimo, mas não invulnerável.

Rogers sorriu, mas o general, não. Norton continuou, puxando a cobertura de sua carga e deixando à mostra uma cúpula de vidro fechada a vácuo onde se podia ver uma figura humanóide, parecida com um manequim de vitrine, com tom de pele avermelhado. Os risos na platéia só desapareceram quando, ao girar uma válvula, Horton deixou o oxigênio entrar na cúpula. O manequim abriu os olhos, encarou a platéia e, de repente, entrou em combustão.

— Apresento-lhes... o Tocha Humana! — gritou Horton — Imaginem uma tropa de homens flamejantes despejando bombas sobre Berlim. Eis o que lhes ofereço, senhores!

Stark manteve a calma e perguntou:

— Quantos robôs o senhor tem, dr. Horton?

— Apenas esse protótipo.

— Então como pode nos oferecer um exército se não tem nada além de um soldadinho de chumbo derretido?

Norton enfureceu-se.

— Pois saiba que posso fazer mais um em pouco tempo, só preciso de dinheiro para...

— Dinheiro não é o problema, doutor. Tempo, sim. Seu robô estaria pronto para uma ação imediata, digamos, amanhã?

— Claro, só me digam o que ele deve fazer e...

— Pois é exatamente por isso que todos vocês estão aqui. Recebemos uma missão emergencial que só pode ser cumprida por um grupo pequeno de soldados. Para isso, solicitei a presença do príncipe Namor e do capitão Rogers. Se o robô do dr. Horton estiver capacitado, deverá acompanhar os dois agentes de campo.

Os detalhes da missão estão no memorando que vou distribuir agora. Alguma dúvida? Não? Então ao trabalho, membros da Iniciativa Invasores.

Namor virou-se para Rogers e disse:

— Rapaz, espero que você viva o suficiente para me dar tempo de matar Hitler e acabar logo com isso.

Rogers sorriu em resposta e, pela primeira vez em sua vida, o príncipe desviou os olhos. Até o fim da guerra, Namor se acostumaria com esse novo hábito.


A seguir: a primeira missão dos Invasores, o Agente Selvagem e um jovem chamado Barnes, James Barnes. Tudo isso e muito mais em "O Resgate do Soldado Ross".




 
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