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Demonomania - O Nono Círculo

Por Carlos Orsi Martinho

Três Vezes Três, Mais Um

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Primeiro: O Fim

Do alto de sua montanha, Crom, o último deus do mundo, assiste ao crepúsculo de uma era. Como as cicatrizes de um guerreiro antigo, como a pele que, exausta, gasta, destruída, se recusa a fechar mais uma ferida aberta no mesmo lugar de mil outras, a terra da Ciméria se parte.

Lava jorra como sangue, flui de encontro ao gelo e ao mar. Nuvens de vapor ardente, saturado de enxofre, cobrem as terras dos pictos, e por isso Crom ri: o inimigo do povo cimério sofre. Mesmo na morte, Crom exulta, e sua gargalhada se soma aos trovões que vêm do céu negro ou se elevam da terra rubra.

Estendendo a visão para além de seus domínios, o deus impiedoso dos cimérios vê os sertões de Shem engolidos pelo maremoto; um novo mar separa a Stygia do continente hiboriano.

Hiboriano? E onde estão os hiborianos? E seus deuses?

Exaustos, gastos, destruídos.

Crom é o último deus. O único que ainda não fugiu, não se dissipou.

Na Hirkânia, vagas assassinas percorrem o Vilayet. O piso do grande mar interno se eleva, derramando as águas sobre as areias do deserto. Tarim, deus de piedade, não é mais. Ao contrário do que fez no cataclismo anterior, no fim da Atlântida, desta vez o Misericordioso não oferece nem ajuda, nem orientação.

Os turanianos, inimigos do império forjado pelo maior herói da raça ciméria, são engolidos pelas areias, esmagados pelas paredes de seus templos, pisoteados por mulheres e camelos em fuga.

O que só aumenta o gozo insano de Crom.

O deus da montanha restringe sua visão para os domínios de seu povo, e vê que os cimérios lutam, os cimérios sofrem, os cimérios matam, os cimérios morrem.

Os cimérios não rezam. Os cimérios não fogem.

Crom orgulha-se deles por isso.

O deus restringe a visão ainda mais — concentra-se em sua montanha. Nas rochas que rolam, nas fissuras que são como golpes de aço em seu próprio corpo, nos lagartos, águias e leões que vivem entre as pedras. Crom bebe da própria dor. Como seu povo, o deus não foge, o deus não reza.

Mas o deus se surpreende, pois há duas centelhas humanas no monte sagrado. Dois homens escalam a montanha de Crom em meio ao grande cataclismo.

Serão heróis, em busca de um último feito, um último desafio, uma ação de renome? Ou covardes que pretendem implorar ao deus por suas vidas?

Com seu olho invisível, Crom decide acompanhá-los.

Merrigan é um rapaz de dezesseis anos que não entende por que o mundo tem de acabar exatamente agora, quando os dons de Crom para os homens cimérios — um coração firme e um braço forte — parecem estar a seu alcance. Mas não é para confrontar o deus com perguntas impertinentes que Merrigan desafia a montanha: ele apenas espera ser pago pelo estranho que o contratou como guia. Se o mundo não acabar, o ouro poderá ser útil.

A montanha de Crom se eleva, a princípio, num gradiente sutil, fácil de vencer a pé. Uma vez acima do nível da floresta que a cerca, porém, a escarpa é quase perpendicular; ainda assim, há um bom trecho que pode ser percorrido a pé, por meio de uma série de trilhas e protuberâncias que envolve o monte como o abraço de uma serpente.

Ou melhor, envolvia.

Partes do caminho desmoronaram, e Merrigan se vê obrigado a usar braços, pés, dedos e unhas para vencer a parede de pedra lisa onde, até dois dias atrás, havia uma rampa, esculpida pelo vento. O jovem cimério traz consigo uma corda, que vai atada à cintura, e da qual pende o estranho que o contratou como guia. Um estranho bastante leve: Merrigan imagina que seria capaz de escalar com o peso extra de um homem adulto nas costas, se fosse necessário, e estava pronto para isso, mas o esforço não é nem de longe o que esperava: o estranho não pesa mais que um saco de ossos.

Um pouco do calor escaldante do magma redivivo emana da rocha, ao mesmo tempo em que o vento gelado da Ciméria parece açoitar o jovem por todos os lados; ao mesmo tempo, uma fina cascata de neve pulverizada se derrama pela borda da saliência, três metros acima, que é o objetivo desta parte da escalada. Por um instante, Merrigan se sente como o nexo das atenções de um ambiente hostil, e isso é verdade: o olhar de Crom acaba de recair sobre ele.

A atenção de um deus como Crom não é algo que se receba impunemente. Um aumento súbito no fluxo de neve que cai da saliência acima faz Merrigan primeiro baixar a cabeça, para proteger os olhos, e em seguida erguê-la, em busca da causa do fenômeno. O que vê, então, é a boca escancarada de um leão da montanha.

A fera ruge e salta. As garras de suas patas dianteiras rasgam fundo os ombros no alto das costas de Merrigan, que tem as mãos arrancadas da parede de pedra pelo impacto do animal. Instintivamente, o cimério abraça o leão, agarrando-o, e os dois caem juntos. O leão ruge de novo, um som hediondo, ensurdecedor, e suas mandíbulas se fecham poucos milímetros à esquerda da cabeça de Merrigan. A mordida poderia ter arrancado o rosto e toda a parte dianteira do crânio do cimério, que tenta não pensar no assunto ao mesmo tempo em que sente as patas traseiras do animal rasgando os músculos de suas coxas.

Ignorando a dor, Merrigan gira no ar, e faz o leão girar consigo. Jogando a cabeça para o lado, atinge o focinho do grande felino com a têmpora, com força. Por um segundo, a fera está aturdida demais para completar o que seria seu próximo passo, decapitar o rapaz com um movimento simples da mandíbula, e então...

Então, Merrigan abre os braços e solta o leão, que se choca, de costas, com a protuberância de rocha abaixo. No instante seguinte, ele cai sobre o ventre do animal, e ouve um estalo seco, nítido, que é música para seus ouvidos: a coluna do felino, rompida.

E então o estranho cai sobre Merrigan, que perde o fôlego, respira fundo e começa a rir.

O estranho traz consigo pós e ervas, e conhece palavras de poder. Merrigan partilha da desconfiança ancestral dos cimérios contra a magia, mas não está exatamente em condições de recusar o tratamento, que é breve e o restabelece por completo.

A escalada recomeça, mas nem novos leões, nem águias, nem mesmo os fabulosos lagartos carnívoros da montanha de Crom se interessam pelos invasores. O caminho é difícil, mas sendo um cimério, Merrigan se recusa a classificá-lo de "árduo".

Finalmente, depois de horas, o estranho e seu guia chegam à rocha esculpida pelo vento e pelas nevascas na forma aproximada de uma grande cadeira rústica — o Trono de Crom.

— É aqui, forasteiro. — diz Merrigan, apontando o trono rochoso ao estranho — Este é o Trono. E é o fim do caminho.

Merrigan olha para cima, para o paredão que se ergue por trás e acima do Trono, até desaparecer nas nuvens. Não só a pedra é excepcionalmente lisa, como está coberta por uma camada perene de gelo, transparente a ponto de ser quase invisível.

— Nem mesmo um cimério é capaz de escalar isso com as mãos nuas. — continua o jovem — E o gelo, fino, é traiçoeiro com ganchos e cordas: o atrito pode causar derretimento, e...

— Sim, eu sei. Era aqui que eu queria chegar. — responde o estranho, removendo, pela primeira vez desde o início do caminho, o capuz com que cobre a cabeça.

A princípio, Merrigan vê exatamente a mesma face que tinha contemplado quando da chegada do estranho à aldeia: um rosto envelhecido, de barbas longas mas ralas, olhos fundos, azuis, cansados.

No momento seguinte, não há mais rosto a contemplar: Merrigan tem diante de si um crânio descarnado, em cujas órbitas vazias brilha uma luz demoníaca.

O cimério reage por instinto, buscando a espada e lançando-se contra a aparição. A investida, no entanto, é bloqueada por uma parede invisível. Pior: a parede avança sobre Merrigan, forçando-o a recuar mais, e mais, até que seus calcanhares batem de encontro à base do Trono de Crom. Um último empurrão da barreira, e Merrigan comete o único sacrilégio da religião ciméria: senta-se no lugar reservado ao deus.

A barreira continua a se fechar. Mais. E mais.

— Maldito seja, forasteiro! Mil vezes mald...!

Merrigan tenta continuar a gritar, mas a muralha invisível não lhe deixa mais nenhum oxigênio. Nariz, ossos e dentes se quebram. Olhos implodem, caindo para dentro das órbitas. Pulmões se fecham. O coração é esmagado.

Quando a barreira é removida, de súbito, uma mancha de sangue se expande a partir do ponto que havia sido Merrigan e tinge de vermelho o Trono de Crom.

— Crom! — grita o estranho — Crom, o sacrifício foi feito! Thulsa Doom, mestre do livro de Skelos, exige uma audiência!

E então, o deus está em seu trono. E diz:

— Faz muito tempo que ninguém invoca o privilégio. Cimérios abominam sacrifícios humanos.

— Saudações, Crom. — diz Doom.

— O que você quer?

— Mas não é óbvio? Quero escapar!

— Escapar?

— Deste mundo!

— E por quê?

— Não brinque, Crom! Este mundo está perto do fim. E este é um colapso maior... os deuses não estão se transformando, como Valka de Valúsia se tornou Mitra de Aquilônia, ou Set, que se tornou Set. Os deuses estão morrendo. Você está morrendo. Não quero testar minha sorte desse jeito.

— Então você quer que eu o leve para outro lugar? Por que eu?

— Você é o último deus! Até mesmo Set...

— Ah, sim. Você sacrificava para Set.

— Isso foi antes...

— Pois bem, Doom. Vou levá-lo para "outro lugar".

— Não me ameace, Crom. Você não me assusta. Até mesmo os sete infernos seriam um refúgio aceitável... e estão fechados. Eu sei. Eu tentei.

— Sete infernos? Fechados? Mesmo? Que curioso...

Thulsa Doom é envolvido pela escuridão antes que possa responder ou reagir. Sua sabedoria milenar lhe diz que só tolos fecham acordos de cláusula aberta com os deuses, o que Crom poderia fazer?

Quando a luz volta, ele se vê no que parece ser o centro de uma caverna — o piso é de uma espécie de obsidiana ou quartzo, uma pedra ao mesmo tempo afiada e áspera, que corta através das sandálias a cada passo.

O lugar é frio. Muito frio.

— Bem-vindo. — diz uma voz às suas costas.

Doom se volta bruscamente. A dor da carne arrancada dos pés pelo atrito com a rocha faz com que dobre as pernas e caia, e o choque dos joelhos com o piso de pedra envia labaredas de agonia por seu corpo.

O vácuo negro que é sangue para Doom verte em profusão.

— Eu sou Chthon. Bem-vindo ao nono inferno.

Segundo: O Meio

Siegfried Danton Lendu começa a tossir enquanto corre, mas persiste. De repente, uma convulsão mais forte faz com que perca o senso de direção e equilíbrio. Ele tropeça nos próprios pés, rola, cai, desliza, sempre tossindo. Quando finalmente pára, dobrado em posição fetal sobre a rocha fria, lágrimas escorrendo pelo rosto, braços cruzados com força sobre o ventre, Danton tosse.

Filho do único professor de inglês e alemão de sua aldeia no norte do Zaire (o país de sua infância tinha sido o Zaire; esta "República Democrática do Congo" de que falam não significa nada para ele), Danton estudou medicina em Paris, Hamburgo e Genebra, e em seguida ingressou na Cruz Vermelha.

Cinco dias atrás, sua equipe chegou a Razgny.

Chechênia era sua primeira guerra, mas depois de três meses em campo ele acreditava já ter visto de tudo: guerrilheiros usando soldados russos capturados como "tochas humanas" para espalhar incêndios — embebe-se o prisioneiro em gasolina, ateia-se fogo, deixa-se o pobre diabo correr pelas ruas; e a artilharia russa, em resposta, abrindo fogo contra tudo e contra todos, escolas, hospitais e prédios de apartamento. Havia também as atrocidades menores, que se seguem aos grandes atos da guerra — os saques, a prostituição forçada, os bêbados de metralhadora.

Mas nada o havia preparado para Razgny.

Porque, em Razgny, não havia nenhum sinal de guerra.

A cidade era um verdadeiro oásis, tão improvável quanto um canteiro de rosas numa cratera lunar. Diante dos olhos incrédulos da missão da Cruz Vermelha, descortinavam-se prédios intactos, as pessoas nas ruas vestidas com a sóbria elegância do leste europeu, táxis, semáforos, crianças.

Caído, Danton tosse e chora. Ele ouve os passos que se aproximam.

Mãos firmes o agarram pelos ombros e tornozelos, e ele é arrastado dali.

A Cruz Vermelha havia entrado em Ragzny e, sem nada de urgente para resolver, funcionários e voluntários aturdidos, havia se dirigido ao maior hospital da cidade. O diretor, Dako Famaev, os havia recebido num escritório com paredes revestidas de mármore imaculado, atrás de uma escrivaninha de mogno perfeitamente polida, e demonstrado extrema cortesia — além de surpreendê-los com a afirmação de que os serviços da Cruz Vermelha eram extremamente necessários.

— Sua cidade parece muito bem, doutor. — disse Silveira, o chefe da equipe — Provavelmente seremos mais úteis mais perto de Grozny.

— Mas nós precisamos de ajuda. — protestou o médico — A situação aqui não é tão boa quanto parece. Tivemos problemas com incursões russas. Há feridos...

— A cidade está intacta! — protestou Marie. Pensar em Marie fazia aumentar a dor no peito de Lendu.

— Temos feridos, em recuperação numa ala especial, e muito pouca experiência em ferimentos causados pelo tipo de arma que... então, se puderem... mas, claro, vocês devem estar cansados. Temos um ótimo hotel na cidade, e estou certo de que o gerente terá o máximo prazer em recebê-los. Talvez até lhes preparar um almoço. Que tal?

O hotel era realmente fantástico, e a refeição, apesar de drogada, tinha sido ótima.

Eles haviam acordado, amarrados, numa caverna. Danton acordou tossindo, tinha sido acordado pelo som da própria tosse.

— Foi tudo coisa de Lomas. Oudht Lomas. — disse uma voz. O lugar era escuro, úmido. Frio. Havia pequenas fogueiras, aqui e ali, que proviam pouca luz e, aparentemente, nenhum calor. A voz era a de um velho, que conversava com Marie — Um vendedor de livros. Ele chegou à cidade há alguns anos... e, quando a guerra começou, nos falou de seus "planos". E nós concordamos com ele. Todos nós. Sujos, covardes. Concordamos com tudo. Quando os soldados se aproximaram da cidade, enviamos um emissário até eles. — disse o velho, explicando que as famílias russas da cidade, homens, mulheres e crianças que tinham sido nossos colegas, amigos e vizinhos por gerações, eram escudos. Reféns — Isso funcionou um pouco: eles continuaram vindo, mas não usaram artilharia pesada para derrubar os prédios. Quando os russos entraram em Ragzny, aquelas famílias tinham sido crucificadas. Pregadas, pelas mãos e pés, a batentes de portas, às esquadrias das janelas. Para que os russos não tivessem coragem de entrar. Para, segundo Lomas, evitar que os franco-atiradores atingissem os chechenos "puros" dentro dos prédios. E, usando civis russos como escudo, que Deus nos perdoe... — continuou o velho — nós lutamos. Rua a rua. Casa a casa. Atrás de trincheiras de corpos, resistimos. Os civis que libertamos tinham bombas amarradas, às vezes, costuradas na pele. Quando não havia mais russos para nos dar blindagem, passamos a usar os meio-russos. Os netos de russos. Os amigos de russos. Os comerciantes que vendiam para os russos, as namoradas e namorados de russos, seus pais e avós. E os prisioneiros: os soldados que capturávamos.

— Não pode ser! — disse Danton, interrompendo a narrativa — Não há nenhum sinal de combates na cidade. Não é só que os prédios não foram bombardeados: não há buracos de bala. Não há nada! Como você explica isso?

— O velho Dusaev não tem como explicar isso. — disse uma nova voz, vinda de algum ponto mais elevado, mas ainda dentro da caverna — Ele é um dos traidores que não quiseram pagar o preço.

— Esse preço é uma blasfêmia... — protestou Dusaev.

— Blasfêmia? Se o sangue de nossos inimigos pode manter a cidade pura e intocada, por que...

— Sangue derramado em nome de um demônio!

— Preocupado com sua alma, velho? Os comunistas não lhe ensinaram que essas coisas não existem?

— Lomas, o que quer que você tenha lido naqueles seus livros, isto já...

— Lomas? — era, agora, a voz de Silveira, o líder da expedição — O senhor é o prefeito? O que está acontecendo aqui?

— O que acontece, doutor, é que algo que li "naqueles meus livros" vem mantendo a cidade intacta. E o senhor e sua equipe desfrutam do privilégio de fazer parte deste esforço.

— Você não pode continuar com isso! — protestou o velho — Eles não vieram como inimigos... eles...

Danton teve outro acesso de tosse, e perdeu o restante da conversa. O frio, ali, parecia penetrar até os ossos; exausto, e a despeito de si mesmo, voltou a desfalecer.

O que o acordou pela segunda vez foi um grito. Um grito de mulher.

Marie!

Uma grande fogueira, que não havia estado acesa antes, iluminava o fundo da caverna e gerava uma imagem de nitidez quase sobrenatural.

Marie estava nua, deitada sobre uma moldura retangular de madeira negra. O grito que acordou Danton foi produzido pela dor de um prego sendo cravado no tornozelo esquerdo da mulher, prendendo-a a um dos cantos do retângulo.

Com um grito, Danton saltou na escuridão. Ele era grande e forte, e durante a história de Dusaev havia trabalhado com afinco nas amarras; talvez tivesse se debatido durante o desmaio, porque as cordas estavam realmente frouxas.

Um segundo grito de Marie encobriu o dele.

Danton correu. Por túneis desconhecidos, por passagens misteriosas.

Correu.

Outro grito de Marie o alcançou. E mais um.

Siegfried Danton Lendu começa a tossir enquanto corre, mas persiste. De repente, uma convulsão mais forte faz com que perca o senso de direção e equilíbrio. Ele tropeça nos próprios pés, rola, cai, desliza, sempre tossindo. Quando finalmente pára, dobrado em posição fetal sobre a rocha fria, lágrimas escorrendo pelo rosto, braços cruzados com força sobre o ventre, Danton tosse.

Caído, Danton tosse e chora. Ele ouve os passos que se aproximam.

Mãos firmes o agarram pelos ombros e tornozelos, e ele é arrastado dali.

As mesmas mãos o empurram para a luz no fundo da caverna, erguem-no e o colocam sobre a moldura de ébano.

A madeira está escorregadia, lavada em sangue quente. Danton tenta se debater, sem sucesso. O movimento frenético apenas faz com que vire à direita e à esquerda. Ele vê os colegas da Cruz Vermelha. Mortos. Todos.

No alto da pilha, o corpo de Marie, varado por sete pregos: mãos, pés. Um em cada olho.

E na boca, escancarada.

Enquanto Siegfried Danton Lendu é sacrificado nas cavernas por baixo do hospital, uma névoa branca desce sobre Ragzny. Para quem está na rua é como se a cidade tivesse sido imersa em leite.

Aos poucos, porém, a cor da neblina muda; tinge-se de vermelho, como num crepúsculo. Mas há uma firmeza, uma persistência nessa nova tonalidade; algo que nega o caráter passageiro dos crepúsculos.

E também aos poucos, o povo de Ragzny, os fantasmas nas ruas e os poucos cidadãos que sobreviveram à caça aos amigos dos russos, percebe que a cidade está, finalmente, segura. Que nenhum mal maior poderá atingí-la.

Para Ragzny, este crepúsculo, frio e vermelho, será eterno.

Terceiro: O Começo

Sobre um pedestal de mármore, sentados em tronos de obsidiana, inclinados sobre o tabuleiro escarlate, os senhores do Nono Círculo disputam seu jogo.

Eras atrás, ao expandir o reino até engolir por completo uma cidade da Terra, Thulsa Doom conquistou o direito de desafiar o demônio Chthon pela supremacia neste inferno. Pela duração do jogo, eles são um diunvirato. Depois...

Há eras, Doom espera pelo próximo movimento de seu adversário. Até que, finalmente, a mão de Chthon se ergue — ou será que ela estivera se movendo ao longo dos séculos, lentamente, até a chegada deste momento? — e toca uma peça.

O jogo vai continuar.

Se a data suposta do nascimento do filho de um carpinteiro judeu numa manjedoura ainda significasse alguma coisa para alguém, poderíamos dizer que este é o ano 81279.

Para Tarso, o tempo é importante, ainda que o calendário não seja. Dentro de exatos 243 segundos, as condições no Olho do Dragão atingirão o ponto ótimo e as máquinas ao seu redor, o aparato construído ao longo de trezentos anos a partir do minério de asteróides e planetas estripados, transformarão a supernova nascente numa estrutura inédita na natureza. Uma estrela de elétrons. Um átomo artificial — o maior átomo artificial jamais criado, com orbitais do tamanho de casas e níveis quânticos de energia visíveis a olho nu.

Tarso é um homem excepcional, mesmo para os padrões desta era. E o que há de excepcional nele é, exatamente, sua adesão aos padrões de eras passadas.

Primeiro ponto, Tarso é um homem. Usa um corpo humano biológico de sexo masculino. Sexo masculino definitivo, contrariando a sabedoria corrente de sua sociedade, onde os papéis de macho e fêmea são fluidos e dependem da natureza exata de cada relacionamento.

Segundo ponto, Tarso é único. Embora seu cérebro tenha sido recabeado para permitir ubiqüidade de consciência, ele raramente a utiliza. Tarso gosta de estar todo junto. Concentrado.

Terceiro ponto, Tarso é ciumento. A própria palavra é um arcaísmo, mantida nos bancos de dados apenas para facilitar a compreensão de peças ficcionais de milênios passados. Quando a pequena fração de ubiqüidade que ele se permite o informa de que Dorr e Omm estão juntos na cama (e que Dorr se faz fêmea para Omm), Tarso se sente traído.

E aqui chegamos ao quatro ponto: Tarso pode ser extremamente traiçoeiro.

Estar na esfera de comando e controle é estimulante. Sem ubiqüidade plena, Tarso depende de botões e alavancas para fazer cumprir seus desejos, mas botões e alavancas são servos fiéis. Como este botão, que baixa um dos escudos de radiação da esfera de memória e envia uma sobrecarga em direção ao banco de dados principal, destruindo todos os registros de experiências pessoais e personalidade dos três únicos tripulantes da estação. A partir deste momento, se alguém tiver a infelicidade de precisar de uma reconstrução psíquica, terá de usar os registros deixados no último planeta habitável — a centenas de anos-luz e, portanto, com uma perda de milhares de anos de vida e lembranças.

Como esta alavanca, que transfere toda a energia dos escudos do quarto para a barreira de privacidade, circunscrevendo as mentes de Dorr e Omm aos limites do aposento, mas deixando o quarto permeável a todos os outros tipos de energia.

Como este outro botão também reduz alguns dos escudos em torno da esfera de comando e controle. Tarso quer algumas queimaduras. Quer que tudo pareça um acidente.

Mas, talvez por estar desacostumado à ubiqüidade, talvez pela excitação do que está para acontecer, talvez porque um demônio moveu uma peça sobre um tabuleiro escarlate, Tarso comete um erro em seus ajustes — e só se dá conta, como costuma acontecer, tarde demais.

Faltando dezoito segundos para o fim do Olho do Dragão, os alarmes disparam: a redistribuição dos campos de força foi mal calculada; uma fração mínima. Já a liberação de energia pela estrela nos estágios finais de sua vida excede os parâmetros previstos. Uma única casa decimal.

Os resultados, porém, são titânicos.

As esferas que compõem a estação, bombardeadas pela energia solar excedente e com a blindagem reduzida, perdem coesão e flutuam para longe umas das outras. Os poderosos geradores que deveriam cercear o poder da nova, transmutar fótons em elétrons e alterar a própria natureza dos núcleos atômicos da estrela em explosão, saem de seu cuidadoso alinhamento.

Colapso estelar — diz um dos monitores na esfera de controle -Infinidade//Tunelamento//Paradoxo gravitacional iminente

Faltando três segundos, com o corpo destroçado pelas energias da fornalha cósmica, Tarso grita.

Trinta milênios antes que o carpinteiro e sua mulher grávida encontrassem o estábulo onde passariam a noite, Hul contempla o Olho do Dragão. Ele é um acólito no Templo da Serpente, um dos últimos fiéis — um dos poucos seres humanos que preferiram lutar ao lado dos licantropos, terantropos e homens-serpente na grande conflagração.

Tendo expulsado os monstros para as selvas, cavernas e pântanos, a humanidade crê ter conquistado a liberdade; mas Hul, e outros como ele, sabe melhor. A única liberdade verdadeira é a que emana do Poder; e que Poder há nas armas dos homens — paus, pedras e fogo?

Por isso Hul se ajoelha diante do altar de Set, o deus-serpente, e contempla o Olho do Dragão, a grande jóia vermelha que, neste exato momento, parece chamá-lo, parece olhar diretamente dentro dele. A jóia que um segundo depois expande, e se abre, e cospe uma língua de fogo que engole a cabeça de Hul.

As chamas devoram pele e carne, olho e língua, deixando no lugar apenas um crânio nu. O corpo morre, enrijece — não há mais sangue nas veias, apenas um fluido gelado como o vácuo da onde veio a chama.

Mas, ainda assim, Hul vive.

Ou será Hul? Há outra voz em sua mente. Tarso? Hul? Dorr? Omm? Quem são? Quais são?

A batalha pelo controle é breve, e termina sem vencedores. Quem emerge é um compósito — a nova consciência, feita dos fragmentos de outras mentes: uma, imersa em dor e ambição; duas, em luxúria e pânico; a última, em ódio e frustração. Um todo cimentado e abençoado pelo poder do beijo de Set.

Pela primeira vez, Thulsa Doom caminha sobre a Terra.

Epílogo

— Ainda existo. — diz Doom, olhando para a configuração sobre o tabuleiro — Venci.

— Você existe. — responde Chthon — Da mesma maneira que existiu antes. Condenado a repetir os mesmos erros. Condenado a terminar aqui. E isso é uma vitória?

Doom reclina-se em seu trono, pensativo. O brilho nas órbitas vazias que são seus olhos parece voltar-se para dentro.

— Empate, então. — diz o feiticeiro, por fim.

O demônio sorri:

— Outra partida?



 
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